Dor e esperança – Um retrato das Paralimpíadas em Israel

Durante o ano de 2013, tive a oportunidade de fazer uma especialização na área de “necessidades especiais”, inserida no currículo dos estudos de Educação Física da faculdade Seminar HaKibutzim, em Tel Aviv. Foi a primeira vez que senti e vivi de perto a realidade de um portador de deficiência.

venezuela
Retrato do pátio da Escola Venezuela Kalisher

Naquela ocasião, o contato maior foi com jovens e adolescentes portadores de paralisia cerebral. Frequentei durante um ano uma das mais impressionantes escolas que tive a oportunidade de conhecer na vida: Venezuela Kalisher está localizada em Tel Aviv e é uma escola voltada à crianças e jovens com paralisia cerebral e outras síndromes neurológicas que tem como consequencia a limitação das atividades motoras e cognitivas. Acompanhei e guiei uma pequena e maravilhosa turma de cinco alunos da quarta-série e um jovem de 20 anos.

Acompanhar e viver o mundo dos esportes sempre foi parte inseparável de minha vida, e a experiência no Venezuela Kalisher e naquele específico ano de cursos na faculdade me despertou o interesse em uma área que até então era totalmente desconhecida; o esporte “adaptado” ou esporte para pessoas portadoras de deficiência. Presenciei um jogo de basquete sobre cadeira de rodas e tive a oportunidade de jogar por alguns minutos. Era o que faltava para passar a admirar esse novo “universo” e em especial a todos os esportistas.

Foram alguns dias de curiosidade e muitas horas buscando por vídeos de competições nas mais diferentes modalidades e categorias de esportes para portadores de deficiência. Precisava ver todos e entender exatamente como funcionavam. Desde o vôlei sentado, praticado por portadores de deficiência física, passando pelo rugby em cadeira de rodas até chegar na bocha, disputada entre outros, por portadores de paralisia cerebral que competem, muitas vezes, utilizando a boca como instrumento para arremessar a bola.

Em todo esporte competitivo, seja ele qual for, a superação é peça chave na performance do atleta, no esporte paralímpico, no entanto, a superação acompanha o atleta mesmo antes da performance. O atleta, por si só, já é um grande herói.

Tinha a convicção de que o esporte paralímpico israelense era insignificante no cenário nacional e que fatalmente nenhum grande tipo de incentivo ou estímulo era dado à essa área. Errei. O esporte paralímpico é inclusive mais “representativo” que o esporte convencional. Israel tem, em jogos Paralímpicos, uma quantidade muito maior de medalhas* do que em jogos Olímpicos.

O Comitê Paralímpico trabalha em paralelo ao Comitê Olímpico Israelense e é responsável pela participação de atletas em torneios locais, campeonatos europeus, mundiais e Jogos Paralímpicos. O Comitê Paralímpico trabalha com 20 diferentes modalidades esportivas, tanto em âmbito nacional, organizando torneios locais, quanto em âmbito internacional, preparando atletas para campeonatos mundiais e os jogos Paralímpicos propriamente ditos.

As 20 modalidades esportivas são:

– Ciclismo
– Badminton
– Bocha
– Judô
– Tiro com arco
– Tênis de cadeira de rodas
– Triathlon
– Rugbi de cadeira de rodas
– Tênis
– Tiro Esportivo
– Natação
– Atletismo
– Tênis de mesa
– Levantamento de peso
– Caiaque
– Esgrima
– Remo
– Basquete em cadeira de rodas
– Goal Ball
– Hipismo

Junto ao Comitê, trabalham 7 grandes e exemplares organizações: “Nechei Tzahal” (Desabilitados do Exército), “Ilan”, “Etgarim” (Desafios), “Centro de Esportes dos desabilitados de Rishon leTzion”, “Promoção do Esporte de Ashdod”, “Centro Educacional dos Cegos” e a “Companhia dos Centros Comunitários”.

Os paratletas israelenses se dividem em cinco diferentes tipos de deficiências: amputados, paralisados, portadores de paralisia cerebral, cegos ou portadores de deficiência visual e portadores de deficiências motoras variadas.

São tantas histórias, tantos exemplos, tantas vidas que receberam um significado diferente e extraordinário através do para-desporto, que fica muito difícil selecionar algumas que sirvam de exemplo. Cada atleta possui uma história e certamente cada uma delas podería ser contada em livro e cada livro poderia ser um best seller. Apesar da imensa dificuldade, selecionei duas histórias que representam, de certa forma, o esporte paralímpico israelense como um todo.

gershoni
Gershoni no lugar mais alto do pódio

Noam Gershoni, de 29 anos, foi piloto de helicóptero de combate e durante a segunda guerra do Líbano, em uma colisão de helicópteros da própria força aérea israelense, acidentou-se gravemente e teve fraturas em grande parte de seu corpo. Depois de um longo período nos hospitais, Noam passou a frequentar um centro de reabilitação para soldados e casualmete deparou-se com uma quadra de tênis. O resultado? Medalha de ouro para Israel no tênis em cadeira de rodas individual e medalha de bronze na categoria de duplas, ao lado de seu companheiro Sharga Wainberg, nos jogos Paralímpicos de 2012.

Após os jogos Paralímpicos, Gershoni decidiu que o tênis seria apenas o seu hobby,e desde então pratica o esporte apenas por lazer.

shaziri
Shaziri ao lado de seu treinador

Doron Shaziri tem 47 anos e chegou ao Tiro esportivo de uma forma nada convencional. Ele servia o exército como atirador de elite em 1987, quando durante uma operação, passou sobre uma mina e acabou tendo uma das pernas amputadas. A partir daquele momento, passou a dedicar sua vida a duas causas: o tiro esportivo e a “comodidade” de outros portadores de deficiência, importando e fabricando novas e diferenciadas cadeiras de roda.

Shaziri tem na carreira uma enorme quantidade de conquistas. Além de ser o atual campeão europeu da categoria, conquistou nada menos que seis medalhas paraolímpicas, sendo três de prata e três de bronze. Ele treina no Beit haLochem (Casa do Combatente), filiada à Nechei Tzahal.

Assim como nos Jogos Olímpicos, a maioria dos países do mundo está também representada nos jogos paralímpicos, então o que há de tão especial? O que nos diferencia de todos os outros? A resposta para estas perguntas é uma mescla inseparável de orgulho, tristeza e esperança. Uma grande parte dos atletas paralímpicos israelenses são oriundos de guerras. São pessoas que dedicaram suas vidas à manutenção do país e sofreram graves ferimentos, mas encontraram no esporte uma excelente razão para seguir lutando.

Israel pode, sem sombra de dúvidas, se orgulhar pelo suporte, pelas condições e pelo investimento que faz com seus paratletas, mas a esperança de medalhas nas Paraolimpíadas do Rio, no ano que vem, certamente se confunde com o sonho de que, daqui a cinco anos, nos jogos do Japão, tenhamos bem menos para-atletas como Noam e Doron.

*Quadro de medalhas de Israel desde as Paralimpíadas de 1992:

tabela

*Este artigo foi publicado originalmente na Revista Devarim, que pode ser assinada gratuitamente em www.devarim.com.br

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Dor e esperança – Um retrato das Paralimpíadas em Israel”

  • Rita Burd

    28/09/2015 at 19:17

    Beg,
    maravilhosa a tua experiencia. Fiquei comovida.
    O nosso Grupo Maguen David, da Wizo/RS fez uma doação para AACD, que inicialmente atendia somente crianças. Ampliou o atendimento em razão dos inúmeros acidentes com adultos, especialmente de motos.
    AACD, é uma instituição criada e mantida pelo Silvio Santos, que é referencia na área.
    Assim, posso imaginar o teu impacto e emoção de não só conhecer mas trabalhar para que estes atletas e portadores de necessidades especiais.
    Beg, Kol haKavod

  • Marcelo Starec

    28/09/2015 at 21:38

    Oi Bernardo,

    Muito interessante conhecer sobre o trabalho de recuperação e superação em Israel !…São pessoas que muitas vezes estão lutando por todos, são jovens e eventualmente em um minuto, uma “simples” pedra, jogada por um garoto, é suficiente para deixá-los com paralisia cerebral para sempre, dentre tantas outras coisas. É muito bom ver essas pessoas novamente vivas, com sonhos e se sentindo capazes de chegar até mesmo a disputar uma paralimpiada – e até mesmo ouvir o Hatikva como consequencia de uma vitória sua, para o país inclusive e apesar de todos os reveses que passou….mas claro, é importante podermos sonhar com um futuro onde haja menos pessoas feridas…

    Abraço,

    Marcelo.

Você é humano? *