E agora, Stanley?

30/01/2013 | Economia; Eleições; Política

Ele fez história.

Stanley Fischer anunciou sua saída da posição de ‘Presidente’ (Governor) do Banco de Israel, o banco central israelense, no fim de junho de 2013 (22 meses antes do final do seu contrato). Seu currículo é extenso e glorioso.

Um dos maiores economistas do mundo, Fischer tem invejável carreira dos pontos de vista profissional e acadêmico. Antes de ser Presidente do Banco de Israel, foi Economista Chefe do Banco Mundial, assumindo também outras funções na instituição. Passou em cargos no Fundo Monetário Internacional, além de ter sido vice-presidente do Citigroup, um dos maiores conglomerados bancários do mundo. Como acadêmico, foi professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), sendo autor de publicações importantes em macroeconomia e introdução à economia. Foi também orientador da tese de doutorado de Ben Bernanke, atual presidente da Reserva Federal (FED), o banco central americano.

Fischer era visto como um tesouro em Israel. O site do Yediot Aharonot, maior jornal israelense, deixa clara a admiração e respeito pelo papel de Fischer nos últimos oito anos. “Stanley Fischer – O ‘ole’ (imigrante pela Lei do Retorno) que nos ensinou economia” ou “O Presidente Insubstituível – Ele foi o diagnóstico e a cura, o anestesista e o cirurgião. O homem ao qual não seria exagero atribuir um terço do crescimento da economia. O pedido de demissão de Stanley Fischer é um duro golpe no Estado de Israel, mas para a próxima coalizão de Netanyahu pode ser um golpe letal”. Em oito anos, Fischer passou por duas grandes crises econômicas e foi criticado pela sua incapacidade de combater a bolha imobiliária israelense. Ainda assim, sempre se manteve próximo de seus princípios e nunca teve medo de emitir sua opinião, mesmo que impopular.

“Quando me perguntaram como ‘me viro’ em Israel, respondi que a coisa mais difícil de entender é o contracheque. No entanto, a verdade é que o extrato bancário que recebo do banco é mais difícil de entender”. Seu hebraico era de imigrante, mas seus conhecimentos são dados como essenciais para os relativos bons resultados da economia israelense diante da crise americana e da atual crise européia.

Durante sua cadência, foi reconhecido por seu trabalho de diversas maneiras. Em 2006, se tornou doutor honorário pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Em outubro de 2010, foi declarado o Presidente de Banco Central do ano pela revista Euromoney. Também foi premiado pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional.

Stanley Fischer com ID israelense

 Os principais temas da economia e a sociedade israelenses não eram tabu para Fischer. Foi direto ao declarar, em janeiro de 2010, que seria melhor que o Estado de Israel estivesse desenvolvendo um processo de paz com seus vizinhos. “Há nisso vantagens econômicas enormes. Não por causa do comércio com os vizinhos, que traria relativamente pouca mudança, mas porque a paz trará um grande aumento de israelenses e estrangeiros na economia“. Em 2010, afirmou que Israel poderia crescer até 2% a mais por ano se houvesse paz com seus vizinhos. “Pode-se dizer, conseguimos crescer bem sem um processo de paz, então quem precisa de paz? No entanto, se crescemos 5% sem paz, então com paz poderemos chegar a 7% ou 8%. Temos uma economia muito forte e flexível. A economia israelense passou por coisas que facilmente derrubariam outras economias no mundo, como o controle do Hamas sobre Gaza, a Segunda Guerra do Líbano e a crise econômica global. Então pensem no que pode acontecer aqui e que êxitos alcançaremos em condições de paz“, afirmou na cerimônia de abertura da Conferência Herzlyiah do Centro Interdisciplinar de Herzlyiah (IDC).

Os juros israelenses chegaram ao seu menor nível de todos os tempos com o Banco de Israel sob seu comando. Se, por um lado, os juros baixos dinamizaram a economia e foram importantes durante os tempos de crise, são profundas as críticas sobre seu comportamento em relação ao preço da moradia no país. Com os juros baixos, os preços dos imóveis subiram substancialmente, sendo um dos estopins dos grandes protestos que tomaram as ruas do país no verão de 2011. Ele era contra a mudança brusca nas políticas de juros, pois tinha receio que ela pudesse prejudicar a estabilidade do sistema bancário. Afirmava também que os israelenses não poderiam pagar suas hipotecas se os juros estivessem mais altos.

Fischer era retrato de um banco central independente. Foi inicialmente apontado por Ariel Sharon, em 2005, e reconfirmado por Olmert e Netanyahu. Apesar da indicação política, criticou governos e suas políticas econômicas. Foi contra os cortes de impostos feitos por Netanyahu e, em março de 2012, lembrou o governo de que aumentos no orçamento para defesa devem ser acompanhados de aumentos dos impostos, não de aumento do déficit. Criticou também o aumento das metas de déficit do governo, que foram de 2,5% para 3% e afirmou falta de comprometimento do governo com essas metas, essenciais para o equilíbrio da economia.

Stabley Fischer sai do Banco de Israel

 No fim de 2012, tive a oportunidade de ir a uma palestra de Fischer, pouco depois de Netanyahu anunciar que aumentaria o IVA (Imposto Sobre Valor Agregado) de 16% para 17%. Foi uma palestra superficial, mas foi possível constatar que ele concordava com o passo, citando a importância de controlar o déficit público para manter a segurança da economia em tempos de crise. Fischer é sereno, sério, direto e, mesmo que por pouco tempo, foi uma honra ser seu público.

Stanley Fischer, presidente do banco central israelense até junho próximo, é novo imigrante como eu. Nascido em 1943 na atual Zâmbia, é ex-membro do Movimento Juvenil Sionista Habonim no Zimbábue, onde conheceu sua esposa Rhoda Fischer.

Com sua saída, fica um vácuo difícil de preencher na liderança de um banco central tão ‘pequeno’, dado o simbolismo, a força e o embasamento de suas ações e opiniões. Os principais candidatos a substituí-lo são Karnit Flug e Manuel Trajtenberg, proeminentes economistas israelenses (o segundo nascido na Argentina).

Fontes: Wikipedia, ynet.co.il

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “E agora, Stanley?”

  • Gabriel Guzovsky

    30/01/2013 at 19:48

    Só espero que não nomeiem o Argentino… Você viu como anda a economia por lá? 🙂
    Stam… legal o artigo Jonja, interessante essa perspectiva de que o Stanley é um ole chadash que mal sabe falar hebraico direito e que teve nas suas mãos um dos maiores poderes do país.
    Espero que a sua renuncia não traga desespero para os mercados, achando que há algo mais por trás da decisão do veterano em abandonar o barco justo agora.

    Abraço!

  • Raul Gottlieb

    30/01/2013 at 22:19

    O Trajtenberg é um profissional muito competente – ele liderou a comissão criada após as manifestações de 2011 e conseguiu levar a missão a cabo em meros 3 meses, quando o normal numa comissão de governo é que neste prazo eles resolvam apenas em quais horários vão se reunir e quem servirá o café.

    Algumas das recomendações da comissão já foram implementadas. Vi tudo isto num youtube da palestra que ele deu na conferência do JDC em Quito, no final do ano passado e gostei. Está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Tod4VEI-MSY

    Acho que seria bom se ele fosse o próximo presidente do Banco Central (mesmo com o imenso handicap de ser originalmente argentino, héhéhé). Ele também foi membro de tnuá e, como sabemos, o mundo inclui dois tipos de pessoas: os ex-chaverim de tnuá e os menos favorecidos.

    Penso que seja quem for o novo presidente do BCI não haverá muita comoção, pelo menos no começo. Israel está apoiado em sólidos fundamentos e um novo presidente herda uma situação de calmaria que lhe permitirá “aprender” o trabalho com alguma tranquilidade.

Você é humano? *