E as crianças?

16/07/2014 | Conflito

Texto de Liat Mau

A primeira sirene a gente nunca esquece…
Eu tinha 10 anos na Guerra do Golfo. Lembro da primeira sirene, meu pai era voluntário da polícia e não estava em casa. Minha mãe me deixou dormir com ela na cama e quando tocou a sirene foi correndo em lágrimas trazer minha irmã de 6 anos ao quarto hermeticamente fechado.
Eu não entendia. Hoje eu entendo.
Ficamos as três abraçadas na cama, sem saber como isso ia nos afetar no futuro. Mas afetou, o trauma da Guerra do Golfo demorou pra ir embora, mas foi um mês só numa vida inteira.
Desde o dia 30/12/08, quando tocou a sirene pela primeira vez em Beer Sheva, já criei uma rotina e nem me assustava mais (medo sempre tem).
Mas em agosto de 2011 algo mudou, eu estava grávida e essa “rotina” era mais assustadora e me afetava muito mais. Eu lembro bem a sensação que “agora não sou só eu”. A pressão que sentia no útero toda vez que tocava a sirene, os batimentos apertando no peito, e os pensamentos que passavam pela cabeça. Desde o começo da gravidez até algumas semanas antes da minha filha nascer, a cada 3 meses em média, tinha uma semana ou 10 dias de piora na situação e mísseis ao sul de Israel. Não é legal se esparramar no chão da rua com uma barrigona de 9 meses.

Filhos mudam a nossa vida!

A primeira vez que teve sirene depois do nascimento, tinha a minha filha de 3 meses nos braços, e chorei… Chorei de susto, medo e responsabilidade, e especialmente da realidade para qual a minha filha nasceu.

Trago a vocês uma entrevista com outras mães do sul de Israel, que nos contaram como é ter filhos em casa quando há um conflito armado entre Israel e Gaza.
Dafna Sorkin Cohen tem 33 anos, mora em Ashdod, e tem filhos de 7 e 4 anos. Tatiana Orgil tem 35 anos, mora no kibutz Sde Yoav e tem filhos de 7, 5 e um ano e meio. Sigally Tieffenberg Shamash tem 32 anos, mora no kibutz Hatzerim e tem filhos de 5 e 3 anos.

Você se lembra da primeira sirene que viveu com seus filhos?
Dafna: Na primeira vez que escutei a sirene, minha filha tinha um ano e meio, foi na operação Chumbo Fundido (2008-2009). Era um sábado, tínhamos acabado de almoçar em casa, minha mãe estava aqui visitando. Minha filha estava dormindo, e mesmo se estivesse acordada, não acredito que entenderia alguma coisa. Fomos todos ao quarto dela, que é o lugar seguro do apartamento, e esperamos algo em torno de 5 minutos.

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Tatiana com seus três filhos, durante um ataque de mísseis

Que tipo de conversas você tem com os filhos sobre a situação? Como explicar? Como eles entendem (se entendem) o que está acontecendo?
Dafna: Minha filha maior (7) entende a situação, e desta vez está fazendo muitas perguntas. Ela ainda não entende exatamente o que acontece e porque. Por exemplo, ela não sabe que as forças aéreas estão bombardeando Gaza, tanto é que ela disse que espera que caia um míssil em Gaza (um??). Eu tento explicar sem muitos detalhes. O pequeno (4) não entende e nem se interessa. Ele só sabe que tem que ir pro “miklat” ou “mamad” (abrigo e quarto protegido) quando toca a sirene. Além disso, evito ligar a televisão com notícias sobre o assunto, para não assutá-los com coisas que eles podem escutar e interpretar errado.
Tatiana: Os dois mais velhos sabem que a “raim” (homens maus) estão atacando a gente e para nos defender o tzahal (exército) atira neles de volta, então quando toca a sirene é para nos avisar que estão nos atacando e assim temos tempo de nos proteger. E quando ouvimos “bum”, a Kipat Barzel [Domo de Ferro] (que é uma “máquina” que solta um míssel que ataca o míssel dos homens maus e faz com que não caia na gente) explodiu o míssel dos homens maus. A sirene é uma coisa boa, que faz com que nada aconteça com a gente. (Resposta dada pela Tamar – 7 anos e meio).
Sigally: Geralmente as conversas sobre o conflito são logo após a sirene, a conversa gira em torno das perguntas das crianças, não são perguntas fáceis… São perguntas como: eles querem matar a gente? Quem são eles? Eles já foram embora? Eu respondo que são pessoas que não vivem em paz com Israel, que eles querem assustar a gente, mas que estamos protegidos e enfoco a conversa que estamos protegidos, que está tudo bem, que ontem tocou sirene e não aconteceu nada, e se tocar de novo e tomaremos as precauções e também não vai acontecer nada. Quero a todo custo que eles se sintam seguros, acredito que se a criança não sentir segurança e sentir ameaçada, os danos no desenvolvimento da criança podem ser permanentes.

Em que medida a rotina é mantida? Ainda pode-se fazer coisas normais?
Dafna: Não há uma rotina. As escolas e os jardins de infância estão fechados. Eu vou trabalhar dia sim, dia não. Me revezo com a minha irmã para ficar com meus filhos e os dela. Então não tem como sair de casa sozinha com quatro crianças pequenas, sendo um deles bebê. Se uma sirene nos pega no meio do caminho, seria um pânico total correr com todos para procurar abrigo.
Tatiana: Não dá pra manter a rotina. A escola e o jardim de infância não funcionam e eu tenho medo de sair de casa e me afastar para onde não tem proteção. Ficamos até sexta de tarde em casa e no máximo saímos pra varanda. Não temos mamad (quarto protegido), mas ao ouvir a sirene corremos e nos deitamos ao lado da parede do corredor. As crianças já estavam ficando tensas e impacientes de ficar em casa. De noite tocou várias vezes e tivemos que acordar as crianças e correr pro corredor. O Allon (5 anos) já estava ouvindo “bum” até com portas batendo… Na sexta-feira cansei de ver as crianças sem poder sair de casa e toda hora com medo, abandonei a casa e viajei pra Zichron Yaakov, no norte do país.
Sigally: A rotina da casa é mantida ao máximo na medida do possível para tentar dar segurança para as crianças, assim eu acredito que mostramos que está tudo sob “controle”. Ainda que façamos coisas normais, como por exemplo ir à piscina, você sempre está tenso sabendo que pode tocar a qualquer momento, e medindo os passos para não se distanciar de um abrigo. As crianças também estão sempre perguntando “e se tocar agora, pra onde vamos?”

Foto abaixo de Dafna: “Meu filho saiu do banho todo ensaboado e com shampoo no cabelo, por causa da sirene. A foto foi tirada no quarto dele e da minha filha, há poucos dias.”

ducha

Acha que viver sob a ameaça de foguetes pode alterar as crianças? Como?
Dafna: Alterar não diria. Melhor dizer, “formar a personalidade da criança”, isso sim. Acho que a criança cresce com mais senso de alerta, mais responsabilidade. Vejo muitas crianças que crescem traumatizadas e fazem um escândalo toda vez que toca a sirene. Acho que em parte é culpa dos pais, que transmitem essa histeria aos filhos. Aqui em casa fazemos de tudo para evitar esse tipo de trauma.
Tatiana: Sim, eles ficam apreensivos e qualquer coisa os amedronta. Toda hora eles perguntam se vai ter sirene, não querem nem tomar banho com medo que no meio toque e tenhamos que sair correndo.
Sigally: As crianças estão mais sensíveis, qualquer barulho elas pulam pensando ser a sirene, não querem dormir sozinhas.

Como a situação afeta as criancas a longo prazo? Quanto tempo demora para elas voltarem ao normal?
Dafna: Não sei dizer, meus filhos são pequenos e graças a D’us não foram afetados de forma alguma. A única desvantagem que estou encontrando neles por enquanto é que eles estão ficando entediados em casa. Mas eles entendem que é para a própria segurança.
Tatiana: Da última vez levou bastante tempo. As crianças acordavam de noite e achavam ter ouvido sirene e durante o dia elas não queriam sair de casa achando que ainda podia ter sirene…

O que acontece quando toca a sirene?
Dafna: Quando toca a sirene simplesmente vamos todos para o quarto das crianças, que é o local seguro, e continuamos as brincadeiras lá. Se a sirene toca de noite, na hora que meus filhos vão dormir, é um pouco mais complicado, porque a minha presença no quarto não deixa eles adormecerem.
Tatiana: Imediatamente eles correm pro corredor e se deitam no chão com as mãos na cabeça e eu deito sobre o Oren de um ano e meio. Esperamos uns minutos depois de já ter ouvido o “bum” até levantarmos. Às vezes a Tamar (7) nao quer levantar de lá e fica mais tempo… Eu sempre elogio eles por terem vindo rápido e comento que bom que temos a sirene que nos avisa pra podermos nos proteger.
Sigally: Essa sirene assusta qualquer um, mas quando toca a sirene agimos como robôs, sem pensar muito, sangue frio mesmo, as crianças saem correndo e são as primeiras a chegar. Eu rezo para que dessa vez o bum não caia perto e tento distrair as crianças com livros e jogos. Não quero crianças valentes, quero que meus filhos sejam somente crianças.

Como vc se sente ao tocar a sirene? Como ser mãe mudou a sua reação?
Dafna: Se estou em casa ou no trabalho (sabendo que meus filhos estão em boas mãos, na casa da minha irmã ou da minha sogra), me sinto tranquila e confiante. Se estou na rua, fico com muito medo da sirene tocar e eu não encontrar lugar para me proteger.
Tatiana: Agora eu me sinto responsável por outras vidas. Sinto que eles ainda não viveram o suficiente e eu preciso a todo custo salvá-los. Tento me manter calma e passar calma pra eles o que antes eu não fazia, eu me desesperava e chorava. Agora eu sei que tenho que demonstrar que está tudo bem, mesmo que por dentro eu morra de medo…
Sigally: Quando toca a sirene me sinto muito muito triste dos meus filhos terem que passar por isso, quero protegê-los!

E as nossas crianças? Como será que toda essa experiência os afetará no futuro? Eu, como uma adulta, só de escutar uma moto passando em alta velocidade (que soa igual a sirene) me arrepio inteira e meu batimento acelera. O que será das nossas crianças? O que será da geração de crianças que mora em Sderot, que nasceram para esta rotina? Cujos adolescentes de 15 anos não se lembram de uma vida sem sirenes e ter que correr por sua vida em 15 segundos? Que adultos eles se tornarão? Quando nos tornamos mães, queremos garantir a saúde e felicidade dos nossos filhos, queremos proteger a vida deles a qualquer custo, mas também cuidar que se tornem adultos sem medos e sem traumas. Nossa responsabilidade é grande. Estamos fazendo o melhor póssivel dentro das condições, na esperança que o futuro dos nossos filhos será marcado pela paz e não pela guerra.


Abaixo fotos e videos exclusivos do Conexão Israel, mostrando algumas cenas registradas por pais e mães em Israel durante as sirenes.

Diego Carlotto mostra o que se faz quando toca a sirene alertando a chegada de um míssil de Gaza. Filmado dia 12/07/2014, em Yavne, Israel

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Comentários    ( 9 )

9 Responses to “E as crianças?”

  • Marcelo Starec

    17/07/2014 at 05:19

    Oi Liat,
    Como dói ler o seu texto!…Realmente, quantas crianças, que vivem em Israel, especialmente no Sul do País, precisam viver constantemente sob o risco de ter de correr para se proteger de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada…O mundo não entende isso. Quando Israel decide reagir, aí reclamam! Mas essas pessoas estão vivendo a muito tempo e o tempo todo sob essa pressão…Não são vítimas “fatais”, pois ao contrário do que ocorre “do outro lado”, Israel faz tudo para protegê-los! Ainda assim, são vítimas. Não poder ter uma vida normal é algo muito duro, muito difícil e pouca gente fora de Israel consegue entender.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Doris Barg

    17/07/2014 at 08:07

    Liat muito bom ! Emociona qto é possivel se ver ai..e como fica mto claro o que vivemos aqui……….! Tomara que em breve possamos reler como algo escrito num passado …. Parabens pelo trabalho!

  • Raul Gottlieb

    17/07/2014 at 12:20

    Muito bom, Liat!

    Mostra que os mísseis dos Palestinos, além de serem os deflagadores do assalto, provocam danos mais sérios do que “uma pausa na reunião do clube do livro”, como se disse em comentário aqui no Conexão.

  • Raul Gottlieb

    17/07/2014 at 12:24

    Liat, tenho uma dúvida: a entrevista com as mães foi feita oralmente, certo?

    Se foi assim, como ela pronunciou “D’us”?

    Claro que foi em hebraico, então qual foi o termo exato que ela pronunciou?

    Porque sempre fico embatucado porque é permitido falar Deus, mas se acha proibido escrever Deus. É uma das coisas dos nossos costumes atuais sobre a qual não entendo a racionalidade.

    • Liat

      17/07/2014 at 18:00

      Oi Raul

      Obrigada!

      A entrevista foi feita por escrito (devido a situação) e em português, pois as mães são brasileiras.
      Na edição respeitamos a escrita original das mães.
      Em hebraico tem algumas opções pra pronunciar Deus tanto na escrita como oralmente. Os mais religiosos não pronunciam o nome de deus por completo, somente as outras formas.
      Deus é Elohim אלוהים. Uma forma que se usa é Elokim אלוקים ou ה’ que se fala Adonai ou Hashem השם.

      Eu pessoalmente escrevo e falo אלוהים em hebraico e deus em portugues. Sem mudar a escrita.

    • Raul Gottlieb

      17/07/2014 at 22:37

      Obrigado, Liat e Dafna, pelo esclarecimento.

  • Dafna Cohen

    17/07/2014 at 16:50

    Esqueci de comentar que o meu filho Amit, de 4 anos, em uma das vezes que estávamos no quarto protegido, disse que já quer ir pro exército. Ele obviamente não entende exatamente o que é ser soldado, mas sabe que os soldados estão aí para proteger a população, e é isso que ele quer. Nasceu patriota.

    Raul, a entrevista foi em português e por escrito.

  • Mario S Nusbaum

    18/07/2014 at 16:29

    Triste, muito triste, tudo isso e ainda ter que ouvir/ler críticas absurdas contra Israel.

  • Rebeca Daylac

    22/07/2014 at 22:47

    Liat,

    Foi com muita emoção que terminei de ler seu texto.
    Espero de coração que este pesadelo termine o mais breve possível.
    beijos
    Rebeca