É tudo sobre liberdade

03/06/2016 | Cultura e Esporte

Não foi uma promessa de ano novo, mas desde janeiro que venho lendo bastante. Não é a toa que esse é o segundo artigo que escrevo para o Conexão Israel esse ano sobre um livro. Contudo, essa leitura recente é bem diferente do que me acostumei nos últimos 17 anos da minha vida. Desde que entrei para a faculdade, grande parte da minha carga de leitura era de livros de sociologia, política, filosofia, educação. E romances? Nada. Na verdade, não posso dizer “nada”. Tenho que dizer “pouco”.

Só que esse ano resolvi tentar ver o mundo a partir de livros que não são necessariamente sociológicos, ou não sobre teoria social ou política, mas acabo sempre caindo com algo do gênero. Desenvolvi também uma capacidade de ler dois livros ao mesmo tempo. Tenho me divertido muito com isso. Assim, consigo intercalar livros teóricos com romances.

Uma questão que tem vindo sempre à minha cabeça quando começo um livro novo é o que se refere à liberdade. Todo livro tem algo a ver com liberdade ou é só uma impressão minha? Livros que tentam explicar sociedades e sistemas políticos acabam discutindo o comportamento de seres sociais. Em última instância, boa parte desses comportamentos acabam sendo em busca de uma liberdade.

E os autores de romances? Buscam a liberdade também? Eu, quando escrevo artigos, também almejo me libertar de alguma coisa? Tenho percebido que a escrita liberta. Independente do tema. Quando escrevemos algo é porque queremos libertar pensamentos que andam presos em nossa cabeças. Precisamos tirá-los de lá de dentro. Precisamos compartilhar com alguém.

Hoje quero contar sobre um livro que comprei na última vez que estive no Brasil, em outubro do ano passado. O livro se chama “Hereges”, do autor cubano Leonardo Padura. Comecei a lê-lo assim que voltei para Israel, mas parei. Comecei de novo. Parei de novo. Deixei de lado. Li outros dois livros. Então disse: “chega! Tenho que ler esse livro do Padura. É bom. Deixe a preguiça de lado!” Assim fiz. Comecei novamente a leitura.

O livro conta algumas histórias. Começa contando a história da família judia Kaminsky que emigrou da Europa para Cuba fugindo do nazismo. Na ilha já havia dois membros da família, Pepe e seu sobrinho Daniel que haviam chegado antes. Os Kaminsky no navio, pais de Daniel, traziam consigo um quadro assinado pelo pintor holandês Rembrandt que estava há séculos com a família. O quadro era de uma imagem de Jesus com traços judeus. Não o Jesus loiro de olhos azuis comumente retratado nos dias de hoje.

A família não consegue descer em Cuba, mas o quadro fica na ilha. Anos depois há um assassinato e o quadro é roubado. Daniel foge para os EUA. Décadas mais tarde o quadro é posto à venda e Elias, filho de Daniel, volta a Cuba para tentar desvendar a história.

Em outra parte do livro, o autor conta a história de Elias Ambrosius, que deu o quadro para um ancestral de Daniel muitos anos antes. Elias Ambrosius era judeu e pintor, só que ser judeu e pintor era proibído pela religião. Ele não podia pintar imagens para evitar idolatria. A paixão de Elias pela pintura fez com que se aproximasse de Rembrandt. Vira seu pupilo. Decide enfrentar o conservadorismo da comunidade judaica de Amsterdã e cumprir a sua vontade de ser pintor. É obrigado a fugir. Resolve fugir para a Palestina, onde havia um autoproclamado messias que dizia trazer a redenção para todos. É nessa fuga que Elias conhece um membro da família Kaminsky e o quadro muda de mãos.

Na parte final do livro é contada a história de Judith que estava também ligada ao tal quadro assinado por Rembrandt. Uma jovem cubana, emo. Discute-se um pouco o que é ser emo e mais, o que é ser Emo em Cuba.

O que me chamou a atenção na deliciosa trama é a busca pela liberdade. A família Kaminsky que chega a Cuba busca a liberdade, fugindo da Europa. O assassino busca libertar a sua alma ao matar que roubou o quadro. Daniel Kaminsky, ao voltar a Cuba para desvendar o mistério do assassinato também precisa de respostas para se libertar. Elias Ambrosius que se libertar da opressão da comunidade e busca a liberdade com a pintura e depois quer ir para a Palestina também atrás da liberdade. Judith, a jovem Emo, também que ser livre em uma Cuba que não traz muita esperança para os jovens.

Todos os personagens querem ser livres. Quem sabe aproveitar os pequenos momentos sabe ser livre naquele instante.

Terminei de ler o livro no Tsomet Megido, o mesmo cruzamento em que estava quando contei a história sobre o livro de Amos Oz, Judas. Estava esperando um ônibus para ir para um kibbutz no norte, no mar da Galiléia. Novamente em Megido, novamente em um ponto de ônibus, só que dessa vez no sentido contrário.

Fazia calor e eu lutava para afastar as moscas enquanto lia. Era uma sexta-feira de tarde, véspera de Pessach, que também é conhecido como Chag HaCherut, ou festa da liberdade, quando o povo hebreu se liberta da escravidão do Egito, começando sua longa caminhada pelo deserto. Vira povo, povo escolhido, e suas leis e tradições vão servir para oprimir o jovem Elias Ambrosius, que deu seu quadro assinado por Rembrandt a um membro da família Kaminsky e possibilitou que Leonardo Padura escrevesse seu excelente romance. Vale a leitura.
E não se esqueça. É tudo sobre liberdade.

Foto: https://epl.org.br/files/2016/02/liberdade-de-culto.jpg