E você, militante? Que time é teu?

15/01/2016 | Conflito; Opinião; Política

A alegre e apressada obsessão, tanto da esquerda, quanto da direita, em encontrar a análise perfeita para os conflitos do mundo, me comove. E sem entrar no debate do ovo-e-da-galinha, de quem veio antes—os intelectuais e suas teorias a gerar o movimento, ou o movimento a indoutrinar seus teóricos—fico sempre impressionado ao ver a enorme coleção de mentes brilhantes que formam o panteão da Esquerda e da Direita teóricos. São centenas de filósofos, economistas, sociólogos, antropólogos, sindicalistas, doutores e amadores nesta busca pelo Santo Graal da redenção social: o Modelo para Análise Perfeita de Conflitos.

O problema, ao meu ver, começa com a realidade “inescapável” de que a base teórica para compreender conflitos é apenas isso; uma base teórica. E, assim como um mapa não é o território, mas apenas a sua representação, o modelo para compreensão dos conflitos é só isso; um modelo. Ele não é o conflito em si. Apenas uma série de sugestões que estruturam e qualificam os elementos e os lados do conflito. Por mais que haja respaldo intelectual de uma montanha de QIs e suas bases teóricas.

Zezinho Magrão, por exemplo, é um traficante num morro no Rio. É, e sempre foi, pobre, ignorante, e, além de tudo, feio. Em um dos clássicos modelos da esquerda, Zezinho Magrão é proletariado oprimido pela pequena-burguesia que não dá oportunidades igualitárias e é, portanto, uma vítima da sociedade que jamais o deixou atingir a plenitude de sua capacidade. Já para alguns modelos clássicos da direita, Zezinho Magrão é um fardo para sociedade, uma vítima unicamente das suas próprias pobres escolhas e que não pode nem sequer ser medido pela sua capacidade de produção ou consumo, pois está à margem da sociedade. Zezinho poderia ter estudado, poderia ter saído para trabalhar, vencido suas dificuldades, mas preferiu tomar o caminho do crime.

Eu exagero de forma caricata, usando algumas das colocações mais extremistas de cada lado. É de propósito. Porque na verdade, para o Zezinho, ele não é um proletariado oprimido, nem um fardo social. Para Zezinho, ele é só Zezinho. Pobre, ignorante e, especialmente, feio. Ele não é, em si, parte de um conflito. Não para ele. Talvez nem para seus próximos. Mas Zezinho deixou de ser Zezinho para ser parte de um modelo intelectual de análise de conflitos. Uau! E tudo isso sem sair de casa!

O problema desta redução (inevitável, admito, para um sistema de catalogação de conhecimento) é quando o modelo teórico dá um salto para a prática, quando se mistura com o sistema político. Ou seja: alguém vai tentar resolver o problema do Zezinho. Ou pelo menos, os conflitos que a existência do Zezinho evidenciam. E vai tentar fazê-lo usando a base teórica conhecida. E como o mapa não é o terreno, e como o modelo teórico intelectual de descrição de conflitos não é o conflito em si, Zezinho vira ideologia.

Tentar solucionar um problema tendo como base apenas um modelo teórico que o descreve, é como dirigir sem tirar os olhos do mapa. Você sabe com precisão onde está. Sabe com precisão onde está indo, mas acaba caindo num buraco na estrada – que obviamente não estava no mapa.

E quando o Zezinho não é o Zezinho, mas o Oriente Médio inteiro?

Esquerda e Direita têm uma necessidade quase orgásmica de apresentar suas análises e suas propostas de solução aos conflitos do Oriente Médio. Especialmente o conflito entre israelenses e palestinos.

O conflito entre israelenses e palestinos parece ser o suprassumo, o ápice, o Everest dos grandes conflitos internacionais. Todo intelectual, de direita ou de esquerda, tem sua posição, teoria e conclusão definitiva sobre o conflito. O interessante é que, em sua maioria, teóricos europeus e americanos, ou eurocêntricos e americêntricos, escolhem, afoitos, se posicionar num conflito de origens orientais, usando valores ocidentais e sem levar muito em consideração o histórico e as pessoas da região. Ou, o que é bem pior e mais comum, escolhendo sagazmente os capítulos que os interessa.

O motivo disso é a necessidade de sequestrar a narrativa a fim de usá-la como metáfora para confirmar sua versão local. Assim, a narrativa clássica da esquerda para o Oriente Médio foi sendo aos poucos estruturada – não a fim de entender ou resolver o problema do Oriente Médio, mas sim a fim de usá-lo como paradigma para limpar a barra da esquerda e suas questões com o seu Zezinho! De forma semelhante o faz a direita: sequestra a problemática do Oriente Médio para sua própria narrativa a fim de se afirmar frente seus práticos e seus outros teóricos, e ter uma metáfora para a história do Zezinho.

O sequestro da narrativa feita pela esquerda é a seguinte: homens brancos e ricos, educados nos padrões europeus, resolveram tomar a terra de indefesos aborígenes pacíficos num neo-colonialismo que é a própria expressão da maleficência do imperialismo ocidental insaciável. Tomaram suas terras, mataram a quem puderam matar e mantiveram o resto que se recusou a morrer sob um cruel domínio de trevas, enquanto outros ainda foram expulsos forçosamente de sua pátria. Israel se nega terminantemente a uma ação humana sequer, e exerce seu poder usando terror e violência. Sequestra e mata crianças pelo prazer de fazê-lo. A paz voltará a reinar apenas quando Israel e o mal que este causa forem exterminados.

O sequestro feito pela narrativa da direita é: havia um povo oprimido que, apesar da opressão, decidiu-se por reconstruir sua antiga terra. Nesta terra todos teriam suas oportunidades para realizarem seus sonhos. Os árabes que aqui viviam, e que decidiram participar desta linda aventura, fizeram-se bem sucedidos. Israel seria o lugar onde o iluminismo técnico, científico e cultural finalmente entraria nesta terra, onde todos os países vizinhos vivem em profunda pobreza e ignorância. Israel é a única democracia plena da região e este status é constantemente ameaçado por atos de terror e estupidez baseados numa ideologia religiosa fundamentalista, que tem inveja dos logros trazidos pela luz do ocidente. A paz só virá quando esses povos compreenderem que a Idade Média já passou e que devemos todos trabalhar em prol do futuro conjunto.

Eu de novo exagero nas cores. E de novo, de propósito. Israel e Palestina, assim como Zezinho, não são nem uma nem a outra narrativa. Não são modelos para a redenção marxista nem para a libertação neo-liberal. Israel é um país. Palestinos, um povo em busca de um. Cada qual com a complexidade de 200 anos de conflito e mais de 12 milhões de Zezinhos que são, em si só, seus próprios conflitos pessoais. Bem além da ideologia do partido que você adotou para si.

Desde os tempos de Mercator, a ciência da cartografia avançou muito. Mas para sempre esbarrará numa barreira matemática topológica fundamental: é impossível a representação fiel de uma superfície curva em uma superfície não curva. E mais: é desnecessário. De resto, cada tipo de mapa mostra uma característica completamente diferente do terreno, de acordo com a necessidade. Ninguém precisa de um mapa topológico para dirigir pela cidade. Ninguém precisa saber a formação geológica do subsolo para navegar num barco.


Há uma penca de cartografistas teóricos, alguns associados à esquerda, outros à direita, outros independentes, tentando mapear o(s) conflito(s) no Oriente Médio. Os mais honestos ainda buscam análises inovadoras, mais voltadas à complexidade de uma realidade tão diferente das clássicas bases partidárias. Mas enquanto eles não trazem seus trabalhos para o campo prático de forma honesta, eu sigo cético.

Este é o motivo pelo qual eu não aceito com muita facilidade modelos teóricos. E meu desespero é quase histérico quando me vejo tendo que responder à pergunta se eu sou de esquerda ou de direita. (Me lembra os gaiatos da 5a série perguntando “Que time é teu?”). Deixou de ser uma pergunta para a compreensão do modelo teórico que o interlocutor usa para analisar os conflitos do mundo, para ser uma espécie de carteirinha de clube de futebol: você é do meu time, ou é o adversário? Esquecendo, todo mundo que está fora do campo, que isso daqui não é jogo de futebol.

*A imagem que ilustra este artigo faz parte de uma campanha publicitária da marca de lingerie Hope de 2013, assinados pela Giovanni+Draftfcb

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “E você, militante? Que time é teu?”

  • Alex Strum

    15/01/2016 at 15:24

    Parabéns Gabriel, muito bem escrito o seu artigo.
    De fato este fla x flu ideológico acaba segregando as pessoas em tribos muitas vezes irreconciliáveis dificultando ainda mais o que já é complicado. Aqui no Brasil estamos vivenciando o nós x eles ao vivo e acores.
    Mas por outro lado, já que não dá para resolver o problema de cada um dos 12 milhões de Zézinhos, e se voce quer participar ou pelo menos ter uma opinião sobre como abordar o problema coletivo, é necessário tomar partido de um diagnóstico, o que implica escolher dentre os diversos fatores que afetam o conflito qual, ou quais, são na sua opinião,os drivers mais relevantes e defender as ações de acordo.
    Uma vez feita a escolha às vezes fica difícil escapar de ser carimbado como fla ou flu.
    abs, Alex

  • Raul Gottlieb

    16/01/2016 at 12:47

    Parabéns Gabriel. Um belo texto.

    Eu me solidarizo com as posições que você coloca e com o desespero expresso no último parágrafo.

    Penso também que as posições da esquerda são mais dogmáticas, mais inflexíveis, e em consequência mais sujeitas a dar com os burros na água.

    E penso também que é necessário incluir um fator adicional na tua análise sobre o OM: o antissemitismo. Ele é de direita e de esquerda, ele existe e cria fatos.

    Veja este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=i3KfQoFHEDs&feature=player_embedded.

    O antissemitismo não pode ser deixado de lado.

    Abraço,
    Raul

  • Henrique Samet

    18/01/2016 at 15:36

    Tudo bem.
    Falta se posicinar sobre as soluções factíveis “não teóricas” do conflito.
    Concordo que a “prática” trem que ser termômetro de êxitos e fracassos.
    O pior ‘;e ficar em cima do muro.