A Economia Comportamental e a “Fuga de Cérebros”

10/01/2014 | Economia

O que influencia a sua decisão de ler todo este texto?

(1) Evidentemente, o crédito e o interesse que você tem pelo nosso site estão entre as suas motivações. O fato de já haver lido algum texto meu que tenha causado boa impressão também ajuda. Possivelmente, você acredita que a perda de tempo com a leitura trará benefícios na forma de conhecimento geral. Sem falar na possibilidade de você ser apenas meu amigo, familiar, ou mesmo ter simpatizado comigo quando nos conhecemos. Todos estes são fatores que jogam bastante a favor das probabilidades de você perder seu precioso tempo e dedicá-lo a esta leitura.

(2) Mas existem outros fatores tão (ou mais!) importantes que estes – muito mais sensíveis e indiretos – que atuam sobre a sua decisão de forma imperceptível. Por exemplo, a forma como está exposta a introdução. A imagem que está associada ao meu texto. A hora do dia que você teve acesso ao link. O seu humor neste mesmo momento. O fato de você estar com fome ou não quando olhou a chamada para o texto. E muitos outros fatores. 

Guardando as devidas proporções e fazendo uma generalização, podemos dizer que os economistas dedicaram muito tempo ao estudo dos fatores expostos em (1), conhecidos  como Teoria da Escolha. O que determina nossas preferências? Como tomamos decisões com base na nossa utilidade? Como fazemos julgamentos e ordenamentos de prioridades? Criaram pressupostos gerais e tiraram conclusões importantes que ajudaram no entendimento desta área de estudo.

Dois renomados acadêmicos israelenses, Daniel Kahneman e Amos Tversky (Z”L), fundaram um novo campo de estudo, que mistura psicologia e economia. Eles decidiram pesquisar sobre as questões descritas em (2) com base na seguinte premissa: porque algumas vezes não atuamos de acordo com (1), mesmo quando tudo indicaria que assim o faríamos? Ou seja, por que razão alguns de nossos julgamentos e decisões contrariam tanto a teoria econômica tradicional? Eles pensaram que deveria haver algo a mais que ajudasse a explicar nossos julgamentos e decisões.

Kahneman e Tversky
Kahneman e Tversky

Em uma série de artigos fundamentais para o mundo acadêmico[i], estes autores mostraram falhas na forma como a economia tradicional trabalha com a utilidade e o risco e propuseram uma teoria alternativa (Teoria da Perspectiva), descreveram fenômenos importantes como: a regressão à média, o efeito dotação, o efeito da ancoragem, além de mostrarem a necessidade da nossa mente em sempre buscar causalidade onde possivelmente existe apenas correlação.

A explicação de cada um destes conceitos tomaria o espaço de mais alguns outros posts, assim que recomendo aos interessados a leitura do livro: “Rápido e Devagar: duas formas de pensar”, de Daniel Kahneman, onde eles aparecem descritos de forma impecável.

Infelizmente, Amos Tversky (Z”L) não estava mais vivo para receber o prêmio Nobel  recebido por Daniel Kahneman em 2002. Hoje em dia, este campo de estudo está muito mais desenvolvido e tem como um dos seus principais representantes outro israelense, chamado Dan Ariely.

Dan Ariely e Daniel Kahneman compartilham de algumas semelhanças. São israelenses (para ser mais preciso, Ariely veio viver em Israel com apenas 3 anos), tiveram participações no exército, são graduados em psicologia por universidades israelenses e hoje vivem nos Estados Unidos.

Nesta última semelhança que eu gostaria de me focar. A “fuga de cérebros”  tem sido um fenômeno amplamente discutido aqui em Israel nos últimos anos. Depois do anúncio dos ganhadores do prêmio Nobel de Química deste ano, entre eles dois israelenses-americanos  (Arieh Warshel e Michael Levitt), a discussão voltou novamente às manchetes dos jornais.

O Centro Taub publicou um informe mostrando que para cada 100 membros de faculdades israelenses vivendo em Israel, 29 estavam trabalhando em universidades americanas [ii]; uma das maiores taxas do mundo. “Merecíamos um prêmio Nobel na fuga de cérebros”, apontou o jornal eletrônico ynet[iii].

"A fuga das galinhas"
“A fuga das galinhas” ?

O curioso está em observar que a maioria dos textos e opiniões a respeito deste assunto buscam entender quais são os motivos racionais (representados por mecanismos de incentivos) que levam os acadêmicos israelenses a abandonarem o país. A falta de estrutura para pesquisas, os baixos salários comparados aos salários no exterior, a possibilidade de serem mais influentes no exterior e a escassez de postos para acadêmicos são apontadas como as principais motivações de fuga em direção a outros lugares.

Não existe uma solução unânime para este problema. Alguns propõem uma mudança total na política das universidades que melhore as condições de trabalho e, desta forma, influencie a decisão destes acadêmicos de permanecer em Israel. Outros dizem que apenas uma adequação salarial já seria suficiente para mantê-los aqui.

Seja qual for a proposta, me surpreendo ao ver que todas trabalham com questões relativas à (1). Em geral, analisando as pessoas de forma racional, tentando buscar incentivos que as levem a atuar de uma forma distinta e propondo soluções do tipo melhorar a relação de custo-benefício destes pesquisadores.

De fato, estas podem ser políticas que trarão algum tipo de retorno.

Mas será que a economia comportamental não poderia nos apresentar alguns outros insights? Será que o momento da vida em que a decisão de largar o país é tomada não influencia fortemente nesta decisão? Se tivermos a tendência de observar as coisas de forma relativa e enquadrá-las de acordo com o status quo, como nos mostra a economia comportamental, poderíamos de alguma forma buscar soluções neste campo de estudo, e não apenas apelar ao sistema de incentivos da economia clássica?

Ninguém melhor do que Kahneman e Ariely para me ajudarem a entender esta questão.

Poster "A migração é bela"
Poster “A migração é bela”

[i] Apenas para citar alguns: “Judgment under uncertainty: Heuristics and biases.” , “Evidential impact of base rates.” e The framing of decisions”.

[ii] http://www.haaretz.com/business/.premium-1.551116 . Os interessados no relatorio original, devem buscar “State of the Nation Report 2013”, neste link: http://taubcenter.org.il/index.php/category/publications/lang/en/

[iii] http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4439199,00.html

 [iv] Imagem de Capa: http://www.rgcarter-construction.co.uk/wp-content/gallery/education-universities-cul/cambridge-university-library-2.jpg

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “A Economia Comportamental e a “Fuga de Cérebros””

  • RITA BURD

    10/01/2014 at 14:17

    O que influencia ou Qual é a influência, é preciso definir o título,

  • Marcelo Starec

    10/01/2014 at 20:09

    Caro Amir,

    O artigo realmente é muito bom! E traz à baila uma questão de relevância indiscutível. Como economista, sempre achei que os modelos explicam parte do problema e/ou são úteis em determinadas situações, porém não devem ser generalizados. Em regra, o mundo é normalmente mais complexo do que os modelos conseguem prever.

    Assim, é certo que justificar ou atacar a problemática da fuga de cérebros por razões puramente racionais tenderá no máximo à obtenção de um sucesso restrito, no conceito de custo vs. benefício. Acredito que muitos “cérebros israelenses” permanecem no País por motivos emocionais e do mesmo modo outros saem pelas mesmas razões. Os motivos racionais (salário etc.) são muito importantes quando a situação é muito ruim, o que não é o caso. Portanto, são outros os motivos que levam a essa decisão, na maioria das vezes. Eu não saberia afirmar o que conduz tais pessoas a decidirem de um modo ou de outro, mas tenho plena convicção de que entender, do ponto de vista comportamental, o que poderia ser feito para convencer as pessoas a permanecer e até mesmo atrair outros é o primeiro passo para se obter bons resultados.

    Abraço,

    Marcelo.

  • Gabriel Igor

    11/01/2014 at 03:22

    Muito bom o texto Amir!

    Realmente, apesar dos modelos serem uma simplificação da realidade, e nos ajudarem a compreender o mundo, muitas vezes sinto que falta essa análise pessoal da tomada de decisões. Por mais preciso e detalhado que seja a construção de uma curva de indiferença ou por mais que faça sentido analisar o comportamento pela utilidade, muitas vezes o comportamento humano não faz sentido e são necessárias análises mais profundas para compreender.

    Abraço,
    Shabat Shalom

  • Raul Gottlieb

    11/01/2014 at 11:42

    Caro Amir

    O teu texto aborda, a meu ver, uma questão fundamental que é maciçamente mal entendida em nossas gerações.

    A esmagadora maioria da humanidade acredita que o homem se move conforme os seus interesses financeiros (Marx) e sexuais (Freud).

    Mas esta percepção é completamente equivocada, pois conforme postula Victor Frankl, o homem se move à procura de um sentido para a sua vida.

    A sobrevivência (e a pujança) do judaísmo e o Estado de Israel são dois grandes exemplos de que o homem constrói para satisfazer os seus ideais e não os seus bolsos.

    Claro que, conforme aprendemos na Torá, a perfeição humana não existe e na verdade os seres humanos se movimentam num gradiente entre interesse e ideal, sendo distribuídos neste grande tabuleiro por critérios e quantificação que desconheço.

    Existem pessoas fortemente atraídas pelos interesses financeiros, que sacrificam os ideais e o bem estar por conta de uma grande conta no banco e existem pessoas que agem de forma completamente oposta. Com uma grande massa no meio dos dois extremos.

    Mas de forma alguma o homem se move apenas de olho nos interesses financeiros, conforme muitíssimos acreditam com fé religiosa (o irônico é que estes garantem não ser religiosos, mas o são sem o saberem).

    É muito positivo para a humanidade que se comece a desfazer a crença idiota de que o ideal não tem papel na humanidade que nos leva a conclusões erradas dia sim e dia também.

    Pergunto: a economia comportamental é uma área considerada marginal nas universidades ou ela vem ganhando força?

    Eu tenho testado na minha empresa alguns dos conceitos que aprendi nos livros de Dan Ariely e posso dizer que eles funcionam à perfeição. Muito sábio aquele rapaz.

    Quanto à fuga dos cérebros eu não me preocupo muito. Acredito que seja fruto da grande universalização da comunidade científica e da grande qualidade das universidades israelenses. O conhecimento produzido pelos cientistas israelenses (onde quer que trabalhem) e dos cientistas não israelenses (inclusive os que trabalham em Israel) é universal e Israel se beneficia dele. Isto é o que importa, a meu ver.

    Importante é aprimorar a qualidade do ensino em Israel, desde os níveis primários aos mais elevados e isto não está acontecendo nos últimos anos. É com este particular que os israelenses deveriam se preocupar.

    Ministério da Educação na mão de um ultra ortodoxo é um perigo mil vezes maior que cinco professores do Technion irem trabalhar em Berkeley. Currículo diferenciado para ultra ortodoxos é outro perigo grave, principalmente quando este currículo é fraquíssimo em ciências, história e idiomas para abrir lugar à decoreba acrítica dos pensamentos do passado.

    Muito obrigado pelo texto. Anotei o nome do livro do Kahneman para ler.

    Abraço, Raul

  • Amir Szuster

    12/01/2014 at 21:47

    Rita,
    Obrigado pela correção!

    Marcelo,
    Obrigado pelos comentários. Realmente você captou a essência do texto. Tenho a impressão de que o mundo em geral vê a Economia Comportamental como “algo legal”, “interessante”, mas “para os outros”, com pouca aplicabilidade. A primeira barreira do reconhecimento ja foi ultrapassada com o premio Nobel,mas agora esta mais do que na hora de seguir o próximo passo: transformar a Economia Comportamental em modelos de decisões. Estes também terão suas limitações,mas servirão de contraposição aos modelos tradicionais.

    Gabriel,
    Valeu pelo comentário! Você esta ai para isso! Para transformar a Economia Comportamental em algo mais aplicável. Como economista, temos que pensar mais neste tema.(veja o meu comentário para o Marcelo)

    Raul,
    Obrigado pelo excelente comentário. Eu tenho visto um movimento de crescimento da economia comportamental nos cursos de economia,mas vejo ele ainda como algo marginal. Por exemplo, recém terminei meu mestrado e apenas no ultimo ano, abriram a possibilidade de um curso com este tema (com uma carga horaria bem limitada).

    Como escrevi no comentário para o Marcelo. Hoje em dia, já se reconhece a importância do campo,mas ainda falta deixar de lado a teoria e começar a utiliza-lo na pratica.

    Você vai gostar muito do livro do Kahneman.O próprio trabalho do Dan Ariely tem muitíssima influencia dele. O Bruno me disse que o Kahneman é o acadêmico mais citado interdisciplinarmente atualmente devido ao escopo de seu trabalho.

    E falando em educação, o novo ministro lançou uma reforma. Estou pouco informado sobre os detalhes,mas parece um excelente tema para um texto do Conexão!
    Um abraco!

  • Ronan Negreiros

    13/01/2014 at 19:38

    Vejo que ficou de fora um dado curioso:A formação de Cientistas em Israel é quase uma linha de produção de fabrica,gerando com isso um superavit de conhecimento. Isso é bom pois ponhe Israel na vanguarda cientifica,mas tem o outro lado da moeda que é a debandada de cérebros em busca de reconhecimento e salarios melhores.

Você é humano? *