Egito que explode quase ninguém entende e nada faz sentido.

08/07/2015 | Conflito

A quantas anda o Egito neste último atribulado mês? Não é muito simples, e absolutamente todas as fontes são contraditórias, mas eis um resumo da coisa da melhor maneira que se pode entender:

No começo do mês, houve um mega atentado terrorista na península do Sinai. Bobagem. Aquilo não foi um atentado. Foi um ataque militar coordenado a fim de conquistar a cidade de Sheik Zuweid. Dois dias antes, o Procurador-Geral do Egito foi assassinado no Cairo. O procurador foi assassinado, e o presidente do Egito, o General Abdel Fatah el-Sisi anunciou que realizaria uma escalada na luta contra o Estado Islâmico na região. No dia seguinte houve o ataque.

Não foi brinquedo. A batalha durou horas e envolveu helicópteros Apache e caças F-16. Desde a guerra com Israel em 1973, o Egito não esteve em uma batalha de tal escala.

Sheik Zuweid foi escolhida para ser transformada em base para futuros ataques e, eventualmente, para iniciar a conquista de todo o Sinai pelo Estado Islâmico.

Em Israel, algum general sob anonimato resolveu dizer que o ataque teve a ajuda logística do Hamas e seus canais de distribuição de armamentos pela península, além de equipamentos vindo diretamente de Gaza pelos poucos túneis que ainda existem por debaixo da cidade de Rafiah. O Hamas nega.

Grupo salafista em protesto contra o Hamas em Gaza
Grupo salafista em protesto contra o Hamas em Gaza

Ao mesmo tempo, grupos salafistas (ultra-extremistas fundamentalistas sunitas) presentes em Gaza decidiram por conta própria atirar foguetes contra Israel. Não por causa de Israel, mas para provocar o Hamas, numa lógica que faria o Roger Waters corar.Os salafistas afirmam que o Hamas não implementa a lei islâmica de forma estrita o suficiente e querem tomar o poder na Faixa de Gaza. Portanto lançam foguetes contra Israel. Alguns desses salafistas se declaram ligados ao ISIS. O mesmo ISIS que atacou Sheik Zuweid, no Sinai, ali do lado. Entenderam?

Uma semana antes disso, a Arábia Saudita promoveu conversas entre o Egito e o Hamas. O Egito havia fechado hermeticamente a fronteira com a Faixa de Gaza e combatia sem qualquer refreamento os movimentos do outro lado da fronteira, demolindo mais de mil casas, sem que houvesse um Desmond Tutu para dar um pio sobre o assunto (aliás, observação: até aquele momento, víveres, materiais de construção, remédios e até mesmo mercadorias de luxo passavam para Gaza vindos justamente de Israel).

O Egito tem sérios problemas com o Hamas. O primeiro deles é que o Hamas é um desmembramento da Irmandade Muçulmana, a quem o atual governo do Egito declarou guerra assim que o general el-Sisi subiu ao poder (um importante lider da Irmandade Muçulmana no Egito é o ex-presidente Morsi, recentemente  condenado a morte). Pois a Arábia Saudita largou um balde de dinheiro na mão do governo egípcio para promover um diálogo com o Hamas e aliviar o controle das fronteiras com a Faixa de Gaza. Essa paz durou três dias, até que houve o assassinato do procurador geral.

E enquanto isso o ISIS cresce na península e é hoje a célula mais mortífera do grupo em números relativos. E de onde vieram? Oras, sempre estiveram ali. Só que antes eram ligados à Al-Qaeda, que tem suposto financiamento saudita.

Do lado de Israel há apreensão. Ter um grupo como o ISIS tão perto assim da fronteira é inquietante. Embora grupos tão perigosos quanto já estiveram na fronteira norte, na Síria. Israel não se envolveu nas batalhas na fronteira, mas mandou avisar que, se alguém se metesse com os druzos do lado de lá ou do lado de cá, iria levar chumbo. Até que, poucos dias depois desse anúncio, dois soldados feridos vindos do lado de lá da fronteira foram trazidos para o lado de cá para serem tratados em hospitais locais. Israel tem feito isso bastante. Sem alarde, mas sem esconder. Especialmente civis. Ao passar por uma cidade druza perto da fronteira, as ambulâncias foram cercadas, e motoristas, paramédicos e dois feridos foram linchados pela população local.

Eu sei que isso não tem nada que ver com o Egito, e eu estou saindo do escopo do texto. Mas foi para acrescentar confusão ao leitor que, certamente, está até agora achando tudo simples demais.

Há duas semanas, Israel reiniciou conversas de paz. Não com a Autoridade Palestina, mas com a Turquia, com quem já não falava desde 2010, no incidente da Flotilha. Turquia, que é o país onde se instalou o governo exilado do Hamas desde que saíram da Síria por conta da guerra. E com o Hamas? Sabe-se pouco. Mas com bastante frequência entram hoje na faixa de Gaza produtos que eram estritamente proibidos, como cimento. Não deve ser por exclusiva boa vontade.

E eis que, para finalizar, leio algumas colunas de opinião que afirmam que Israel vai ter que se aliar ao Hamas para lutar contra a ameaça do ISIS que se aproxima e toma força no Sinai.

Eu, heim!

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Egito que explode quase ninguém entende e nada faz sentido.”

  • Marcelo Starec

    08/07/2015 at 21:59

    Oi Gabriel,

    Muito interessante!…Realmente, é tudo muito complicado mesmo no Oriente Médio – quem quiser entender precisa estudar a fundo o assunto, senão sai falando besteira….e é o que mais acontece mundo afora!…

    Abraços,
    Marcelo.

  • Fábio

    09/07/2015 at 06:34

    Caro Gabriel, esse seu texto é um bem feito resumo do que tenho lido na imprensa (em verdade, não é “impresso”, mas “digitado”, sites…). O que nos leva a dois comentários:

    1) Oriente Médio não é para iniciantes;

    2) As coisas são bem mais complexas do que parecem.

    Com um abraço, Fábio.

  • Raul Gottlieb

    09/07/2015 at 11:05

    Gabriel, as coisas não chegam a ser complicadas. Para entender o mundo neste momento é necessário saber apenas que:

    a) Os árabes são árabes e vivem numa cultura pré-moderna. Nem boa nem ruim, apenas pré-moderna, tribalista, machista, autoritária, com uma religião que prega a conquista do mundo.

    b) Alguns árabes estão tentando se ocidentalzar, mas não é facil. Temos que torcer por eles, sem intervir.

    Inclui-se na segunda categoria o General Presidente do Egito, Al-Sisi, que me causa uma ótima impressão, apesar da forma um tanto truculenta como tomou o poder (mas será que dá para ser diferente?).

    Pronto, com esta régua dá para entender tudo.

    Abraço,
    Raul

  • Tuaregue Alemão

    22/07/2015 at 04:14

    Gabriel
    Sempre bom ler seus artigos.
    Sobre um coimentário sobre os árabes – sem comentários…
    O OM não é mesmo para qualquer um entender.
    Abraços,
    Tuaregue Alemão

    • Gabriel Paciornik

      22/07/2015 at 09:43

      Muito obrigado, Tuaregue. Sempre digo, OM não é para amadores.