As Eleições em Israel e o Gato de Schrödinger

05/01/2015 | Opinião, Política.

*Por Gabriel Paciornik

Entramos num momento Física Quântica da política israelense!*

*Os paralelos são dois: Um; que se você sabe para que lado vai um partido, não dá para saber quantos votos ele vai receber. Mas se você sabe quantos votos ele vai receber, não sabe para que lado vai.

O outro é que, como na física quântica, se você acha que está entendendo alguma coisa, é porque não está entendendo nada.

Israel é um país parlamentarista, onde o jogo do poder se resume em montar coalizões. Não adianta ser do partido mais votado se você não consegue montar o governo (como Tzipi Livni, nas eleições retrasadas). Mas também não adianta formar uma coalizão só para montar o governo se as vozes não se entendem (como neste último governo, desfeito pelo próprio primeiro-ministro, que não concordava com a própria bancada governista).

Até uns dez, quinze anos atrás, era jogo de cartas marcadas. Havia dois grandes partidos, um de centro-esquerda, outro de centro direita, e quem ganhasse a maioria dos votos acabava se juntando com outros partidos alinhados e formava o governo. Era fácil assim. Ou Likud, ou os trabalhistas. E então aconteceram duas coisas que mudaram o cenário político profundamente.

O primeira foi a Segunda Intifada. Ela acabou com boa parte da motivação do discurso da esquerda israelense, sempre centrado no diálogo e na criação de um futuro Estado palestino. O povo sentiu-se profundamente traído por Arafat e, de certa forma, pela própria esquerda, que edificou os Acordos de Oslo. A partir daí, de forma firme e consistente, a população, de maneira geral, foi ficando cada vez mais direitista e, recentemente, extremista também.

A segunda coisa foi a mudança econômica pelo mundo e em Israel. Embora não haja uma crise econômica séria ou claramente delineável, e nem sequer tenha havido um episódio traumático ao longo desses últimos anos, é consenso que Israel está muito cara, os salários estagnados há anos e o antigo “Estado de Bem Estar Social” se esfacelando. Isso trouxe para as ruas, em 2011, uma multidão de gente pedindo mudanças. E mudanças vieram, especialmente nos discursos dos partidos de oposição (na prática, muito pouco foi feito). Mas o importante é que, cansados de brincar de pega-pega com os palestinos, e combalidos da situação econômica, os israelenses tem votado cada vez mais com o bolso.

E agora, teremos eleições. Depois de uma briga dentro da coalizão, que parecia mais com a discussão de duas periguetes bêbadas, tentando decidir quem senta no banco da frente do carro. Bibi gritou: “Chega, não quero mais brincar” e, como dono da bola, saiu do campo. Sim, foi feio assim. Deixou a comunidade jornalística de boca aberta e sem explicação convincente nenhuma.

O Likud saiu mal na fita. Já ia mal. Na tentativa de provar quem era mais patriótico, entrou numa paranoica briga com o partido do Lieberman e com o HaBait HaYehudi, do neo-super-amiguinho-da-garotada Naftali Bennett. Yair Lapid decepcionou a todo mundo. Até aqueles que sabiam que iriam se decepcionar com ele.

E agora? Agora Livni se junta a Isaac Herzog. Ela faz que nunca foi de direita. Ele, que o Avodá  (Partido Trabalhista) ainda é um partido de esquerda. Funcionou: juntos, ganham mais votos do que separados.

Bennett tem briga dentro de casa. O seu partido também esteve por se esfacelar. E a genial união entre os Religiosos Ultranacionalistas e os Direitistas Ultranacionalistas pode se desfazer por questões de ego.

Shas, partido ultrarreligioso sefaradi (judeus orientais), sempre uma importante peça para coalizões, está se desfazendo também. Eli Yishay, que foi o líder por tanto tempo, além de número 2, decidiu formar o próprio partido. Pois é… O monolítico Shas.

Moshe Kahlon. Era do Likud, saiu e decidiu agora voltar à política. Ele é popular e, o mais importante, não diz o que pretende com relação à segurança e os palestinos. Fica assim, sem rejeições, amado por todos e coringa forte para qualquer coalizão.

Lapid não se pronunciou ainda. Deve estar armando sua própria liga da justiça para vencer o custo de vida e fazer o que, sejamos justos, nem sequer teve tempo para tentar neste mandato.

Lieberman, o mais ensaboado dos políticos de Israel, sem nem sequer um pingo de vergonha na cara, já anunciou que não teria problema nenhum de sentar-se num governo Avodá-Livni.

Enfim, fica difícil prever que tipo de governo Israel poderia vir a ter, porque nem sequer está claro que tipo de coalizão os partidos viriam a fazer, especialmente porque nem se sabe exatamente quais os partidos disponíveis! Uma coisa é certa: será um governo parecido com o que se rompeu: com vozes díspares na coalizão, com muito pouco raio de ação e que só com a habilidade de um grande líder (que não existe hoje) poderia-se atuar com eficácia no campo de política interna e externa.

Comentários    ( 11 )

11 Responses to “As Eleições em Israel e o Gato de Schrödinger”

  • Mario Silvio

    05/01/2015 at 14:35

    “que se você sabe para que lado vai um partido, não dá para saber quantos votos ele vai receber. Mas se você sabe quantos votos ele vai receber, não sabe para que lado vai.” Desculpe Gabriel, mas isso não tem nada a ver com o Gato de Schrödinger, mas sim com o Princípio da Incerteza de Heisenberg

    • Gabriel Paciornik

      17/01/2015 at 13:45

      Sim. É verdade. Mas esse não é um artigo sobre física, é sobre política. Parte boa de fazer analogias é que elas não precisam ser exatas, só precisam ilustrar um pensamento. Além do que, como título, chama a atenção bem mais do que “princípio de exclusão”, não?

      Abraços!

    • Mario S Nusbaum

      17/01/2015 at 14:28

      Tem razão, o gato vende mais!!!!!!!!! Um abraço e Shabat Shalom (pode-se dizer no sábado ou só na sexta

  • Mario Silvio

    05/01/2015 at 14:39

    “Ela acabou com boa parte da motivação do discurso da esquerda israelense, sempre centrado no diálogo e na criação de um futuro Estado palestino. ” Conhecido como Choque de Realidade

  • Raul Gottlieb

    05/01/2015 at 16:40

    Gabriel,

    Discordo da frase “Ela [a segunda intifada] acabou com boa parte da motivação do discurso da esquerda israelense, sempre centrado no diálogo e na criação de um futuro Estado Palestino”.

    A Golda Meir dizia não saber quem eram os palestinos, lembra?

    E a direita durante muito tempo disse que o Estado Palestino já existe e se chama Jordânia.

    Deixando o passado de lado (o que pode ser feito pela simples extração da palavra “sempre” da tua frase) a minha opinião é que quase todo mundo em Israel sabe que um acordo com os Palestinos é inviável, pois os Palestinos estão muito mais confortáveis como estão hoje.

    Assim que o grande problema do ambiente político atual em Israel é a hipocrisia dos principais partidos políticos que não falam o que realmente pensam.

    Além a constante ameaça do avanço das demandas dos haredim sobre o Estado.

    Abraço,
    Raul

    • Mario Silvio

      06/01/2015 at 16:57

      ” os Palestinos estão muito mais confortáveis como estão hoje.” Eu diria as lideranças palestinas. O que você acha Raul?
      um abraço

    • Raul Gottlieb

      06/01/2015 at 22:05

      Olá Mario,

      As lideranças palestinas estão bilionárias, para elas não poderia estar melhor (se bem que o Sr. Mashal foi convidado a deixar o Catar hoje, quem sabe em qual outro berço de ouro ele vai pousar – talvez a Turquia).

      E o povo, quando vê os palestinos serem massacrados na Síria e como eles são tratados no Líbano, Kuwait, Gaza e outros lugares igualmente encantadores por sua imensa carga de humanidade e compaixão, dedicam no mínimo uma das cinco rezas diárias prescritas por Maomé para pedir força ao Estado de Israel.

      As outras três rezas pedem para eles nunca serem governados por árabes do calibre do que governam os seus vizinhos. E a última dedicam a pedir saúde para os filhos e maridos decentes para as filhas.

      Lembre-se que os palestinos são os únicos árabes que viram uma democracia funcionando. Eles sabem direitinho o que é bom e o que deve ser evitado.

      Tem uma galera que reclama, é claro. Mas também temos judeus insensatos. Isto é normal.

      Abraço,
      Raul

    • Raul Gottlieb

      07/01/2015 at 22:47

      Veja mais isto, Mario (saiu hoje): http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4612524,00.html

      65% dos árabes israelenses têm orgulho da cidadania israelense.

      Orgulho!

      Apesar do suposto “racismo”, do fantasioso “fascismo” que alguns imaginam prevalecer na sociedade israelense, os árabes que moram em Israel tem ORGULHO em ser parte do país.

      Claro que este sentimento se espalha pelos seus vizinhos árabes palestinos.

      Eu não penso que os árabes preferem um governo democrático judaico a um governo democrático islâmico. Mas eles preferem, sem a menor dúvida, um governo democrático judaico a uma ditadura islâmica.

    • Mario S Nusbaum

      11/01/2015 at 14:49

      Muito interessante o artigo Raul. obrigado. Por coincidência um dia desses defendi a tese de que muitos árabes mandariam os terroristas para o inferno se não temessem pela vida das suas famílias.

  • Marcelo Starec

    05/01/2015 at 18:24

    Oi Gabriel,
    Interessante o artigo. Em meu entender, deixando de lado a questão dos haredim, como muito bem colocado pelo Raul, creio que, até onde consigo enxergar, tudo mais depende pouco de quem estiver no Governo e muito de uma série de incertezas que ocorrem hoje no mundo e particularmente no Oriente Médio e como este novo cenário, digamos assim, afetará a cada País, Israel inclusive. Na economia, entendo que como foi bem colocado neste artigo “Embora não haja uma crise econômica séria ou claramente delineável, e nem sequer tenha havido um episódio traumático ao longo desses últimos anos, é consenso que Israel está muito cara, os salários estagnados há anos e o antigo “Estado de Bem Estar Social” se esfacelando.” Esse é um fato que ocorre a nível mundial e Israel passa por isso simplesmente por não ser um País isolado do mundo…Seja lá quem ganhe as eleições, não terá algo muito diferente para propor, muito embora em termos de mero discurso eleitoral, pode-se propor maravilhas…Por fim, entendo que não dá para ter grandes expectativas de mudança, pois a meu ver não há uma possibilidade real, no momento, do outro lado para isso e não posso deixar de concordar com o Raul que esse “sempre” em relação à paz não ficou adequado a realidade e que a desilusão dos israelenses com o processo de paz veio da tomada do Hamas em Gaza, dos tantos e tantos atentados terroristas contra civis (homens bomba, tiros, esfaqueamentos de crianças, mísseis…) que Israel vem sofrendo e o povo não se sente seguro em acordar algo nessas condições, inclusive considerando não apenas os árabes palestinos, mas todo o cenário incerto acerca do futuro redesenho do Oriente Médio.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    14/01/2015 at 02:02

    ” mas isso não tem nada a ver com o Gato de Schrödinger, mas sim com o Princípio da Incerteza de Heisenberg”
    O que os físicos tem a dizer?

Você é humano? *