Eleições lá e cá

Domingo, o Brasil volta às urnas para escolher, em segundo turno, governadores de vários estados e o presidente da república. Brasileiros, que moram no exterior e se registraram, atualizando o domicílio até meados de maio, poderão escolher entre Dilma e Aécio. Em Tel Aviv, a votação ocorre na Embaixada.

No Brasil, o voto é obrigatório, tornando-se facultativo aos 70 anos. Pois, em Israel, o papo é diferente:

– Votar é um direito, não um dever. Entre 62 e 65% do eleitorado tem comparecido nos últimos pleitos. Número interessante. Países europeus, sem voto obrigatório, chegam a 40%.

– Em Israel, a eleição nacional é feita em lista partidária ao parlamento. Proporcionalmente, elegem-se os deputados. O “número um” costuma ser o primeiro ministro. Na verdade, conquista-se o direito de tentar montar coalização, com outras siglas, para governar. Em 2009, a vencedora Tzipi Livni, do Kadima não levou, pois quem fechou o bloco governista foi o segundo colocado, Bibi Netanyahu (Kadima 28 – Likud 27).

– Parlamentarismo aqui. Presidencialismo lá. Mesmo assim, em Israel, também vota-se pensando no “número um”, no candidato, na “pessoa que irá mandar”, no “carisma de um líder”. Parece controverso, mas é a realidade.

– Como o voto não é obrigatório, colocar ônibus para levar eleitores aos locais de votação é visto como um “ato de cidadania”. No Brasil, é crime eleitoral.

– As urnas são caixas de papelão pintadas de azul, muito primitivas. Não há comparação com as eletrônicas brasileiras.

– O eleitor entra na cabine, escolhe o bilhete equivalente ao seu partido, coloca dentro de um envelope, fecha-o e deposita na urna. Diferente do Brasil, pode-se levar o celular e fotografar o ato cívico. Pela legislação brasileira, seria forma de caracterizar o “cabresto”.

– Lá e cá, há propaganda eleitoral na televisão, com jingles, ofensas, comparações, promessas, propostas e calúnias. Tudo igualzinho. Pelas ruas, também há poluição visual.

– Não existe fidelidade partidária. O mandato fica em poder do político, em caso de troca de sigla, mesmo com o voto em lista.

– As eleições sempre ocorrem em terças-feiras, das 8h às 22h. Tudo abre normalmente, com exceção de locais utilizados para votação, como escolas, por exemplo.

– Ampla cobertura da imprensa, durante a apuração.

– Pesquisa de boca de urna costuma acertar o resultado, mas já errou em 1996, quando indicou vantagem de Shimon Peres, 4 pontos percentuais sobre Netanyahu, que acabou vencendo.

– Assim como no Brasil, os poderes Executivo e Legislativo ficam muito atrelados. Ainda mais até, por ser parlamentarista.

– Há enormidade de partidos nanicos, que não conseguem representação no parlamento. Em 2006, aproveitando voto de protesto dos jovens, os “Aposentados” conquistaram 7 cadeiras.

– Enfim, “tanto lá como cá”, há pessoas que se envolvem com eleições, torcendo como se fosse uma Copa do Mundo.

Foto da capa: Yair Mau.

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Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Eleições lá e cá”

  • Marcelo Starec

    25/10/2014 at 19:25

    Oi Nelson,
    Muito interessante o seu artigo. Um ponto que me surpreendeu – “Não existe fidelidade partidária. O mandato fica em poder do político, em caso de troca de sigla, mesmo com o voto em lista.” (Israel). É algo que me parece, em principio estranho, pois eu sempre entendi o sistema parlamentarista israelense como um voto na ideologia e nas propostas que o eleitor crê e portanto no meu entender seria um absurdo um membro de um partido de extrema esquerda, digamos, ser eleito por esse partido, cujas propostas seriam de aumentar a participação do Estado na economia e durante o mandato ele “mudar de ideia” e ir para um outro partido que defende posições diametralmente opostas – não me parece justo com quem votou no partido que o elegeu. No mais, sempre fui totalmente contrário a ideia do voto obrigatório, mas até hoje não houve no Brasil uma oposição firme a essa obrigatoriedade de votar. Espero que um dia isso ainda venha a a ocorrer por aqui…
    Abraço,
    Marcelo.

    • Nelson Burd

      25/10/2014 at 22:20

      Marcelo, isto não costuma acontecer, mas há exemplos como o do Sharon, em 2005, que fundou o Kadima e levou muita gente do Likud e do Avodá. A questão da obrigatoriedade do voto é muito cultural. No Brasil, não sei se os legisladores aceitariam.

  • Marcelo Starec

    26/10/2014 at 20:26

    Nelson, muito obrigado pelas informações!…Bom saber que essa troca não costuma ocorrer em Israel, mas de todo modo em princípio não me parece algo correto. No mais, concordo contigo que o voto obrigatório é algo cultural no Brasil mas, ainda que em uma análise superficial do tema, acho que já está mais do que em tempo disso ser repensado, pois inclusive comparando a democracia brasileira com várias outras, eu desconheço qualquer outro exemplo de País democrático com voto obrigatório.
    Abraço,

    • Nelson Burd

      26/10/2014 at 21:09

      Marcelo, o problema é que os legisladores são os próprios políticos eleitos, que fazem as leis, segundo seus interesses. Até o momento, para eles, não vale a pena mudar. Abraço.

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