Em Haifa uma pedra fundamIntel

13/09/2014 | Opinião; Sociedade

1974 – em Haifa uma pedra fundamIntel

O ano era 1974 e como descrito no artigo anterior, Dov Frohman finalizou a construção de Centro de desenvolvimento de Haifa ou formalmente falando: Intel’s Israel Development Center (IDC). E assim foi dada a largada para uma união de muito sucesso entre o Estado de Israel e a empresa Intel. Vamos conhecer três figuras israelenses importantes dentro da Intel, são eles:

· David (Dadi) Perlmutter
· Ron Friedman
· Shmuel (Mooly) Eden

Explicarei a história destes três engenheiros e como eles influenciaram na mudança de rumo e foco da empresa. Esta mudança de direção salvou a Intel financeiramente segundo analistas desta área e, na minha opinião, mudou o curso da história. Dadi, como é conhecido mundialmente, ingressou na Intel em 1980 depois de terminar sua graduação; faculdade em Engenharia Eletrônica, rapidamente subiu na empresa assumindo toda a direção de Haifa antes de se mudar para Santa Clara (Intel headquarter) e virar Vice Presidente de área de PC (Personal Computer).

A área até então mais rentável. Ron, começou a trabalhar na Intel no ano de 1984 logo após terminar sua faculdade de Engenharia de Computação em Technion. Dirigiu por muitos anos a departamento de design e produção de chips de Haifa e hoje é o vice-presidente corporativo e responsável por todos IP blocks a nível mundial: EUA, Europa, Ásia e, claro, Israel. É o segundo homem forte em Israel, logo depois de… Mooly, que por sinal é uma figuraca, foi contratado no ano de 1982 depois de trabalhar numa empresa de telecomunicações na qual ingressou logo após se formar em 1973 no curso de Engenharia Elétrica também em Technion. Teve inúmeras funções dentro da empresa, tanto técnicas quanto gerenciais. Ele já foi vice presidente de muita coisa (PC, Mobiles, Chipset), exerceu parte destas funções nos Estados Unidos a partir de 2004, porem voltou a Israel em 2011 como presidente da Intel em Israel. Hoje acumula a função de presidente de Intel Israel e diretor geral de Perceptual Computing. Mas voltando à história; quem tinha um computador na década de 90 pode se lembrar da palavra Pentium. Pentium foi uma tecnologia desenvolvida pela Intel que era focada em aumentar a velocidade do processador.

Se fizermos uma analogia com um carro, é exatamente como a empresa automobilística pensa ou melhor, pensava: aumenta-se a potência dos motores (1.5cc, 1.6cc, 2.0cc, 4.2cc) e dane-se o consumo. Essa ânsia por aumentar a velocidade de processamento vinha sempre junto com um sistema complexo de resfriamento, quanto mais o processador é executado, mas ele tende a esquentar. E isso ocupava um espaço considerável dentro da famosa minitorre.

Esse sistema de resfriamento começou a ficar muito grande e complexo, chegando ao seu ápice quando em um dado momento, o resfriamento passou a ser hidráulico. Mas quem se importava? Naquela época as pessoas não acreditavam que a mobilidade estava batendo na nossa porta. As pessoas, com exceção, é claro, de: Dadi, Ron e Mooly. Somando a isso, nenhum dos executivos e diretores da Intel naquela época queria assumir a área de mobilidade (naquela época, Laptop era o segmento mais móvel conhecido). E por quê? Simples, Laptop era pesado, a bateria durava algo em torno de 01:30hs e quem precisava disso? Existiam os Desktops superpoderosos, ou ainda os Servidores que então, eram o “suprassumo” da família de processadores.

O processador dito mais “veloz” era designado para a área de Servidores, o desenvolvido no ano anterior era designado para Desktop e o desenvolvido dois anos antes, era jogado em cima da turma dos laptops. Portanto os laptops, sempre tinham dois anos de atraso em relação aos seus co-irmãos. Mas aí entra Intel Israel no jogo, Dadi recebe de “presente” (até então de grego) a área de “mobiles” e começa junto com Molly e Ron a mudar o curso da história. Em 2004, o projeto Banias (nome dado em homenagem ao site arqueológico situado nas colinas do Golan – Israel), conhecido como Pentium M, foi um divisor de aguas.

Esse trio resolve pegar um processador mais antigo (Pentium III ao invés do Pentium IV) e redesenhá-lo ao invés de continuar o desenvolvimento a partir da última geração. Em 2006 vieram Yonah (Pomba em hebraico), também conhecido por Intel core duo, e no ano seguinte Meron (um monte na Galileia), cujo o leitor verá no mercado com o nome de Intel core 2 duo. Eles chegam a conclusão que tinham que focar no consumo de bateria, sem negligenciar a diminuição das medidas físicas do processador, e não mais na velocidade. Começa o marco da mudança. Com ajuda de matemáticos (muitos israelenses), utilizou-se uma técnica chamada Branch predictor.

Tentando simplificar o máximo possível seria o seguinte: O processador passa a “adivinhar” através de um algoritmo, as próximas instruções dadas a ele (instrução é o nome dado a comandos feitos diretamente a um processador). A partir disso, os processadores precisariam trabalhar bem menos, mais bem menos mesmo e assim poderiam ser mais rápidos (não precisariam executar todas as instruções) e esquentariam menos, logo o sistema complexo de resfriamento não seria mais necessário.

Exemplificando:

Vamos supor que você acorda cedo, tem que fazer café, arrumar a casa, fazer almoço, janta, etc. E isso é um procedimento quase que diário. Porque não te entregar todo dia a casa arrumada com café, almoço, janta sem ter que passar por todas as tarefas intermediarias (não esqueçam que estamos falando de cálculos usando dois dígitos, “0” e “1”). Ai o leitor deve se perguntar, e se a “adivinhação” falhar? E se hoje eu não quero jantar? Simples, neste caso, executam-se todas as instruções do começo. Estatisticamente, as instruções se repetem muitas e muitas vezes a cada milissegundo, com isso, essa nova tecnologia era uma garantia de sucesso. E foi.

Hoje em dia, a nova geração de ultra books, celulares e basicamente tudo o que é móvel não necessita mais de resfriamento (utiliza-se a tecnologia fanless), prestem atenção se você ainda escuta aquele ventilador enorme fazendo um barulho que no mínimo te dava vontade de desligar a mini-torre. Tudo mudou a partir disso, Dadi passou a ser umas das pessoas mais influentes na empresa, os processadores cada vez menos consumiam tensão elétrica (relativamente) e o mais importante, os processadores dos laptops começaram a diminuir consideravelmente e ficaram no topo do foco da Intel. Agora quem dita a regra é Haifa: o mesmo processador é usado tanto para Mobile, quanto para Servidores e para Desktops (nessa ordem), só que agora este mesmo processador é usado em todas estas esferas, claro com pequenas mudanças, e o mais importante, sendo liderado por “Mobiles”.

Ok, agora Haifa faz processadores que funcionam com muita velocidade, consomem e esquentam menos, só falta descobrir como eles estão “encolhendo”. Falaremos de nanotecnologia. Mas isso é para o próximo artigo… No começo do ano de 2014, quando o ex-presidente da Intel Paul Otelini resolve se aposentar, surge o nome de Dadi para seu lugar. Imagino que por problemas políticos ele não assumiu e então resolve se demitir. Ron hoje é o homem mais importante em Haifa, liderando a produção de processadores, sensores e chipset. Molly voltou dos EUA, é hoje o presidente de Intel Israel, tendo o fardo de desenvolver umas das áreas de mais atenção da empresa.

O futuro estamos vendo, a mobilidade entrou com forca total e graças ao baixo consumo da bateria e à nanotecnologia, vemos essa difusão de smartphones, tablets e ultrabooks… E digo mais, as partes vão ficar menores! Por que? Tratarei disso no próximo artigo, no qual vou falar sobre a nova fábrica de processadores de 10nm que será construída em Kiriat Gat, Israel. Até lá!

Foto de capa:  David (Dadi) Perlmutter


Marcelo Marcelo Korn  mora em Israel há 9 anos (desde 2005). Cursou no pais duas faculdades: Engenharia de Sistemas e Ciência da Computação no Hadassah College of Technology em Jerusalém. Trabalha na Intel desde 2008, atualmente ocupa a função de Engenheiro de Software e Firmware no campus Jerusalém(IDCJ) – Israel Design Center Jerusalém. (LinkedIn – Marcelo Korn)

Comentários    ( 9 )

9 Responses to “Em Haifa uma pedra fundamIntel”

  • Marcelo Starec

    13/09/2014 at 21:06

    Oi Marcelo,
    Parabéns pelo artigo! Acho que todo mundo sabe a importância da Intel no mundo de hoje, mas pelo menos eu não tinha ideia de como o pequeno Estado de Israel foi importante para a empresa chegar lá, melhorando de forma impactante a área de informática, vital para todos, em todos os cantos do mundo. Interessante saber o quanto o mundo deve a Intel e a Israel por esse salto qualitativo nessa área!
    Abraço,
    Marcelo.

  • Marcelo Korn

    14/09/2014 at 09:18

    Oi Marcelo, obrigado pela participacao.

    Os engenheiros israelenses sao muito “bem vistos” dentro da Intel, a partir dessa mudanca de norte que contei no texto, assim e possivel entender a influencia deles frente a empresa como um todo.

    Abcos

  • Louise H. K.

    14/09/2014 at 17:32

    Excelente texto!
    Muito interessante.

    • Marcelo Korn

      15/09/2014 at 13:08

      Ola Louise, obrigado pela sua participacao.

      Continue sempre vindo ao Conexao Israel, estou certo de que voce vai gostar 🙂

  • Raul Gottlieb

    14/09/2014 at 17:43

    O mundo deve ao ambiente capitalista as conquistas da tecnologia de informação que vêm revolucionando o conceito de bem estar no mundo.

    Bilhões de pessoas (inclusive eu) estão vivas hoje exclusivamente por conta da evolução da ciência e da tecnologia propiciada pela busca do melhor resultado.

    O socialismo com sua planificação estatal e com a sua busca pela igualdade de resultados não conseguiu criar nada minimamente semelhante. Muito pelo contrário – ele cria igualdade na pobreza e uma casta de super milionários.

    Louvemos os engenheiros de Israel e a Intel e o capitalismo.

    • Marcelo Korn

      15/09/2014 at 13:42

      Ola Raul, mais uma vez obrigado pela sua participacao.

      Sem a competicao e a meritocracia, com certeza nao chegariamos onde chegamos.

      Quanto aos defensores ao “boicote a Israel”, por favor peco que nao use tecnologia para criticar, voce estara dando um tiro no pe.

      Me permita citar Shimon Peres (Premio Nobel da Paz – 1994)

      “In Israel, a land lacking in natural resources,
      we learned to appreciate our greatest national advantage: our minds.
      Through creativity and innovation, we transformed barren deserts into flourishing fields
      and pioneered new frontiers in science and technology.”

      “Em Israel, uma terra com falta de reservas naturais,
      nos aprendemos a apreciar nossa maior vantagem nacional: nossas mentes.
      Atraves da criatividade e da inovacao, nos transformamos desertos estereis em campos prosperos
      e desbravamos novas fronteira na ciencia e na tecnologia.”

    • Raul Gottlieb

      16/09/2014 at 16:27

      Olá Marcelo.

      Realmente o boicote aos produtos israelenses é patético.

      Eles boicotam produtos que não iriam comprar, independente da origem, e se acham o máximo.

      Nem pensar em deixar de usar tecnologia de informação – toda ela eivada de produtos israelenses – a vida ia ficar insuportável fazendo assim.

      Estes boicotadores deveriam tentar curar o câncer dos familiares com chá de camomila, porque qualquer método médico moderno tem dedo israelense.

      Tempos atrás vi uma foto do Mahmoud Abbas jogando no lixo produtos fabricados nos territórios que estavam à venda em Ramala: uma quantidade de caixas de creme hidratante Ahava. É sensacional!

      Viver sem hidratante para os pés é moleza. Quero ver viver sem tomógrafo. E suspeito que logo depois da foto eles recolheram as caixas e colocaram à venda de novo.

      O que não falta por aí é hipocrisia dos que entendem e estupidez dos demais.

      Abraço.
      Raul

  • Rina A. Hasky

    16/09/2014 at 00:12

    Muito bom artigo,bastante esclarecedor para quem e leigo como eu.
    Estou aguardando os proximos artigos.
    boa sorte.

    • Marcelo Korn

      16/09/2014 at 11:57

      Ola Rina, obrigado pela participacao.

      Fico feliz em poder esclarecer e difundir a importancia de Israel na area tecnologica como um todo.

      O proximo artigo ja esta no forno…

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