Em Israel sem carro: transporte coletivo

Carro é liberdade. Carro é conforto. Carro é status.

Muita gente concorda com ao menos uma das afirmações acima. Mesmo assim, um número crescente de pessoas e famílias opta por não possuir um carro. E uma grande parte da população não dispõe dos meios financeiros para comprar e manter um automóvel.

Em Israel, há inúmeras maneiras de contornar as limitações que a ausência do carro impõe. Abaixo, descrevo as principais opções de transporte disponíveis para o residente e para o turista.

Andar a pé

As cidades israelenses são pequenas. Na verdade, se você está acostumado a locomover-se em um grande capital brasileira, levará um susto com o curto tempo necessário pra cruzar qualquer cidade em Israel.

Você pode ler o artigo que o Yair Mau escreveu sobre estas diferentes realidades e como afetam a percepção de distância em Israel e no Brasil, mas, em resumo, para entender como deslocar-se a pé pelas cidades israelenses é uma opção realista, basta saber que a maior cidade israelense (Jerusalém) tem população inferior às 20 maiores cidades brasileiras. E Tel Aviv, sequer estaria entre as 50 cidades mais populosas do Brasil. Pode-se concluir que a ordem de grandeza das áreas que cada cidade ocupa também é proporcional

Levando em consideração que a maioria das locomoções quotidianas não envolvem cruzar a cidade, é bastante simples resolver um monte de coisas a pé pela cidade. Durante o shabat, quando o transporte público é suspenso em quase todas as cidades judaicas do país, as pessoas caminham distâncias razoáveis para cruzar bairros em direção à praia, ao cinema, ou à casa dos amigos.

Durante os anos em que morei em Jerusalém, onde a maioria dos jovens estudantes laicos moram em alguns poucos bairros centrais, eu costumava encontrar muitos amigos e colegas de turma caminhando pela rua às 19 horas da sexta-feira, todos carregando comidas e bebidas em direção a algum jantar de shabat.

Para um turista, é uma delícia sair a pé, procurar os pontos de referência no mapa ou no aplicativo e ir conhecendo as peculiaridades de cada cidade, enquanto atravessa as ruas e dobra as esquinas, sem estar separado do mundo pelo vidro do ônibus ou do carro alugado.

Transporte público municipal

Viagens municipais são realizadas majoritariamente de ônibus. Em Jerusalém, há uma linha de bonde (VLT), em Haifa há um BRT similar ao Ligeirinho de Curitiba e, em Tel Aviv, acabam de ser iniciadas as obras para a construção da primeira linha subterrânea do VLT, mas todas são integradas ao sistema de ônibus, e o preço das passagens e as possibilidade de integração (bilhete-único) não diferenciam entre os modais.

Os ônibus locais são confortáveis, novos (apesar de sempre haver exceções e de vez em quando você ter que encarar um espécime digno de colecionador), possuem ar-condicionado e quase todos são acessíveis a cadeirantes. Um letreiro luminoso e um aviso sonoro indicam as paradas ao longo do caminho. Infelizmente, para os turistas, estas informações estão apenas em hebraico, em quase todos os casos.

Os sistemas de transportes são integrados dentro das metrópoles (Tel Aviv, Jerusalém, Haifa e Beer Sheva). O fato de serem regulados pelo Ministério dos Transportes (e não pelas prefeituras) permite que sua administração seja unificada ao longo de áreas que incluem municípios conurbados, de forma que o preço das passagens é definido pela distância percorrida, e não pelo fato de haverem sido cruzadas fronteiras municipais.

Nos últimos anos, uma ampla reforma vem sendo realizada. Infelizmente, os avanços ocorrem a passos lentos e a população demora a entender o real escopo dos benefícios, mas as possibilidades de pegar mais de um ônibus com o mesmo bilhete (dentro de 90 minutos) se expandiram, assim como foram aumentadas a oferta de passes ilimitados (diário, semanal e mensal, além do anual que apenas os estudantes podem comprar) e as regiões em que se pode usá-los (inúmeras combinações de municípios dentro da mesma metrópole).

Mapa das cidades e regiões que compõem o sistema de transporte na região metropolitana de Jerusalém. O preço dos passes varia de acordo com as regiões a serem percorridas.
Mapa das cidades e regiões que compõem o sistema de transporte na região metropolitana de Jerusalém. O preço dos passes varia de acordo com as regiões a serem percorridas.

Um cartão magnético similar a um cartão de crédito foi introduzido há mais de cinco anos, mas, apenas recentemente, seu uso foi unificado para todas as empresas de transporte do país. Por incrível que pareça, durante todos estes anos, um mesmo cidadão era obrigado a possuir dentro de seu cartão, saldos de dinheiro e viagens específicos para cada companhia. A demanda popular pela unificação dos saldos foi atendida nos últimos meses e – a cereja em cima do sundae – o governo aboliu em fevereiro a cobrança de impostos (17%) sobre passagens de transporte coletivo, reduzindo o preço de todas as viagens em cerca de 15%.

Os pontos de ônibus contam com descrição do trajeto percorrido pelas linhas e um mapa simplificado das opções de transporte na região, além de muitas vezes possuírem letreiro eletrônico indicando o tempo até a chegada dos próximos ônibus. Ainda que estas informações geralmente estejam disponíveis apenas em hebraico, aplicativos como o Google Maps e o Moovit são capazes de traçar o melhor trajeto em qualquer idioma, e estão sincronizados com o GPS dos ônibus para oferecerem seu tempo de chegada estimado.

O preço da passagem simples, à época em que este artigo está sendo escrito, é de 5,90 shekels, podendo ser mais barato nas cidade menores. É possível comprar passes de múltiplas viagens (2, 10, 15 ou 20) com desconto e passes ilimitados por determinado período de tempo. Os ônibus começam a circular ainda antes das 6:00 e terminam por volta da meia-noite, mas há linhas com horários mais restritos e linhas especiais que circulam apenas durante a madrugada nos finais de semana e durante as férias escolares. O serviço semanal é iniciado na noite de sábado e encerrado na tarde de sexta-feira, exceto em cidades de maioria árabe e algumas poucas outras áreas, como Haifa e Eilat, onde há ônibus no shabat e nos feriados judaicos.

Ônibus de longa distância

Muitos dos aspectos das reformas mencionadas acima também chegaram aos ônibus intermunicipais, como a abolição da cobrança de impostos sobre as passagens e o uso do cartão magnético para comprar passes combinados.

Ainda que sejam novos, geralmente limpos, possuam ar-condicionado e alguns até ofereceram portas USB para carregar o celular, os ônibus intermunicipais não são bastante confortáveis. Em Israel, seja para viagens curtas como Jerusalém—Tel Aviv (cerca de 50 minutos) ou para cruzar o Deserto do Negev em direção a Eilat, há apenas um tipo de ônibus, que oferece menos conforto que o “comum com ar condicionado” usado em viagens longas no Brasil. Não há assentos reclináveis, não há grande espaçamento entre as poltronas, não há filme (no máximo, você pode ouvir o rádio junto com o motorista), não há água ou lanche. E o pior de tudo: não há banheiro. Naturalmente, estes desconfortos são amenizado pelo fato de que grande parte das viagens dura menos de duas horas, sendo as mais longas compostas de várias paradas de 15 minutos.

Quando se está procurando uma linha de ônibus para uma viagem entre duas cidades israelenses, é sempre importante informar-se sobre as paradas intermediárias. Há linhas diretas (kav yashir – de ponto a ponto, com talvez uma parada adicional bastante rápida nas cidades de origem e destino), expressas (kav mahir – fazem longas distâncias, mas param apenas em pontos principais e não demoram muito mais que a linha direta) e paradoras (kav meassef – que param em todas as localidades ao longo do caminho, desde rodoviárias de cidades pequenas, até kibutzim, moshavim e bases militares). A última opção deve ser evitada para quem está se locomovendo entre as principais cidades, mas pode ser a única forma de chegar e deixar os pequenos povoados.

O Rav-Kav (multi-linha) é o cartão universal de transporte público de Israel
O Rav-Kav (“multi-linha”) é o cartão universal de transporte público de Israel

Os trajetos mais movimentados costumam ter viagens a cada hora ao longo de todo o dia (desde as primeiras horas da manhã até a meia-noite), com um número de ônibus altíssimo na hora do rush (uma saída a cada seis minutos em ambos os sentidos da linha 480 Jerusalém—Tel Aviv por volta das 8 da manhã e ao final do dia, por exemplo), mas regiões remotas podem ter apenas uma ou duas saídas diárias para o centro do país (Tel Aviv ou Jerusalém). Naturalmente, a distribuição de linhas depende da demanda, de forma que muitos trajetos podem requerer a troca de ônibus, que nem sempre chegam e partem em horários sincronizados.

Para cada parada ao longo da viagem, é divulgado um horário estimado, mas também podem ocorrer atrasos e o motorista também não está obrigado a esperar no ponto caso chegue antes. Se você precisa esperar o ônibus passar em algum ponto qualquer ao longo da rota, próximo a um kibutz ou na rodoviária de uma pequena cidade, é recomendável chegar com antecedência, uma vez que nem mesmo o Google Maps e o Moovit funcionam com perfeição e perder um ônibus pode significar uma espera de algumas horas até o próximo!

O serviço semanal é iniciado na noite de sábado e encerrado na tarde de sexta-feira, exceto em cidades de maioria árabe e algumas poucas outras áreas, como Haifa e Eilat, onde há ônibus no shabat e nos feriados judaicos. De maneira paradoxical, para as viagens que duram muitas horas, como de Eilat no extremo sul, ou de cidades do norte para o centro do país, todos fingem não saber que há saídas no meio da tarde de sábado, pois esperar que o shabat acabasse resultaria em chegar muito tarde no destino e inviabilizaria o serviço.

É possível comprar passes de múltiplas viagens (ida-e-volta, 10, 15 ou 20) no mesmo trajeto com desconto. Alguns passes de ida-e-volta incluem duas passagens locais para deslocamentos na cidade de destino. As passagens podem ser compradas com antecedência ou diretamente com o motorista, e não há lugares marcados.

Trem

Israel possui uma pequena malha ferroviária, que atende de forma eficaz à região costeira, desde Naharia, no extremo norte, até Ashkelon, no sul. O aeroporto Ben-Gurion e outras cidades no centro do país também são atendidos, bem como Beer Sheva e algumas das principais cidades do norte do Negev.

A expansão do serviço ferroviário é custosa e lenta, e cada novo trecho e nova estação são anunciados com bastante festa pelo governo e pelas prefeituras da periferia, sempre temerosas de perderem habitantes que migram para o centro por conta da maior oferta de emprego. Assim como ocorre com os ônibus, a idade dos vagões varia bastante, mas de uma forma geral as poltronas são confortáveis, há ar condicionado (geralmente bastante forte) e banheiro, além de avisos em hebraico sobre as próximas paradas. Com sorte, você encontra internet wifi e uma tomada para cada poltrona.

A atual malha ferroviária de Israel
Mapa esquemático da atual malha ferroviária de Israel

De forma análoga aos ônibus, os trens circulam desde as primeiras horas da manhã, até cerca de meia-noite, de domingo a quinta, com serviço até o início da tarde de sexta e no sábado à noite, após o shabat. Há também um trem que liga as estações principais de algumas poucas cidades ao aeroporto durante a madrugada. O serviço é razoavelmente pontual, mas os trens podem ficar bastante cheios no horário do rush, especialmente domingos pela manhã (quando a maioria dos soldados voltam do final-de-semana), quintas ao final do dia e sextas-feiras.

Os trens praticamente substituíram as viagens rodoviárias nos principais trechos em que operam, incluindo os eixos Tel Aviv—Haifa e Tel Aviv—Beer Sheva, que reúnem parcela considerável das viagens diárias de longa distância no país. A exceção à regra é a ligação entre Jerusalém e Tel Aviv, que usa uma histórica linha de ferro anterior à fundação do Estado e trens mais antigos, com manutenção e limpeza inferiores ao resto da frota. A viagem dura cerca de uma hora e vinte minutos (meia hora a mais do que o ônibus), enfrenta constantes atrasos e atende a um público bastante limitado. A boa notícia é que esta linha será substituída nos próximos anos por um serviço de alta velocidade que ligará as duas maiores cidades do país em menos de meia hora.

As passagens de trem são mais caras que as passagens de ônibus para o mesmo trecho. Por outro lado, ao contrário dos ônibus de longa distância, é possível comprar passes ilimitados semanais e mensais para determinado trajeto de trem, além de bilhetes múltiplos de 2, 10, 15 e 20 viagens com desconto.


Neste primeiro artigo, cobri as modalidades “oficiais” de deslocamento disponíveis para quem não deseja ser dono de um automóvel em Israel. É um sistema de transporte coletivo e de massa de qualidade razoável, que atende direitinho aos seus usuários durante a semana e nas grandes cidades, mas é bastante limitado nas pequenas localidades e virtualmente inexistente no shabat e nos feriados judaicos. O israelense que não possui carro tem sérias dificuldades para comparecer ao jantar de shabat na casa de sua avó que mora em outra cidade, por exemplo, a não ser que esteja disposto a chegar na sexta à tarde, dormir por lá e voltar para casa apenas no sábado à noite. No próximo artigo, contarei sobre formas mais criativas de se locomover pelo país: bicicletas públicas, compartilhamento de carros e cooperativas particulares que funcionam apenas no shabat.


Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/

 

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Em Israel sem carro: transporte coletivo”

  • Alex Strum

    16/03/2016 at 23:43

    Claudio, se me permite uma crítica ao sistema (não ao artigo), se voce chega de avião durante o período do Shabat a única alternativa para sair do aeroporto por transporte público é taxi, bem mais caro que as outras modalidades. Não me parece razoável um país moderno como Israel se submeter a limitações desta natureza por motivos religiosos.

    • Claudio Daylac

      18/03/2016 at 01:17

      Oi, Alex.

      Obrigado por mais uma visita e pelo comentário.

      Ainda que tenha optado por um artigo mais expositivo, acho que a crítica está explicita na meta leitura cuidadosa dos fatos e na simples compreensão desta realidade medieval.

      Um abraço!

  • Charlene Weiss

    20/03/2016 at 04:54

    Muito legal o artigo, Claudio. E por favor escreva sobre as bikes em Israel! Provavelmente será o meu meio de transporte aí!