Energia bronzeada – os rumos da energia solar em Israel em 2018

Em Dezembro de 2009, durante a COP 15 (Conferência das Partes) em Copenhagen, o então presidente de Israel, Shimon Peres assinou um compromisso de que até 2020, 10% da energia em Israel seria gerada através de fontes renováveis. Historicamente, a eletricidade em Israel era majoritariamente gerada por queima de carvão. Com as recentes descobertas de grandes reservas de gás natural na porção norte da nossa costa mediterrânea, hoje em dia a queima de carvão representa 30% da energia gerada em Israel, sendo o restante quase completamente proveniente da combustão do gás natural. Com a transição de carvão para gás natural, a emissão dos principais poluentes (SO2, NOx, partículas aerossóis) diminui drasticamente (de 85% a 99%, segundo a ‘Autoridade de Regulação de Energia em Israel’). No entanto, a emissão de CO2 continua bastante alta. Ao contrário dos outros poluentes, o CO2 é inofensivo à saúde humana, mas é o principal agente intensificador das mudanças climáticas atualmente em curso e projetadas a se tornarem piores.

Portanto, a preocupação com o clima do planeta, através dos acordos internacionais, é a principal motivação para se aplicar recursos para uma transição para fontes renováveis de energia elétrica, uma vez que o problema da saúde humana é quase resolvido com a substituição de carvão e petróleo para gás natural. Para atingir a meta de 10%, quais são as opções de Israel?

Por motivos óbvios, a geração hidrelétrica é irrelevante. Diga-se de passagem, antes da construção da represa do Kineret (Mar da Galiléia) na década de 1960, para distribuir boa parte de sua água para abastecer o país através da Adutora Nacional, havia uma usina hidrelétrica em operação no Rio Jordão. Mas, infelizmente, o Rio Jordão praticamente não existe mais desde a década de 1960, e portanto a usina foi desativada. Israel é seca e pequena demais para esse tipo de geração de energia.

Os ventos em Israel são muito fortes e constantes. O potencial de geração de energia eólica no país é de 10% do total. Mas por melhor que essa fonte de energia seja para o clima global por não emitir CO2, o principal grupo contra a instalação dessa fonte de energia em Israel é o dos ambientalistas. Israel é a segunda maior rota do mundo de pássaros migratórios no sentido África-Europa. O principal lugar onde as turbinas de vento seriam instaladas seria as Colinas do Golan, onde habitam os raros abutres que restaram no país. O Golan é um dos 15 lugares em Israel que recebeu o status de “Important Bird Area” (“área de importância para os pássaros”) da organização internacional “BirdLife International”. Turbinas de geração de energia eólica, que podem atingir até 150 metros de altura, são muito perigosas para os pássaros em geral, e podem ameaçar seriamente os pássaros migratórios, a população dos abutres e outras aves raras que já sofrem tantas pressões em Israel. Debaixo das poucas turbinas existentes em Israel já foram encontradas diversas aves mortas devido ao choque direto com as pás – entre elas cegonhas, espécies raras de morcegos, abutres e outras aves de rapinas, além de outros pássaros raros e protegidos por lei.

Ave morta em consequência do choque com uma turbina de energia eólica. Foto de Edi Ben Eliahu, divulgada pela Rashut Hateva Vehaganim

 

Isso nos leva à conclusão de que o caminho mais lógico e eficiente para Israel atingir a meta dos 10% em energia renovável é a fotovoltáica. A quantidade de nuvens no país é muito baixa, o sol brilha muito praticamente o ano inteiro. O que Israel fez então para converter 10% de sua matriz energética para solar até 2020? Sentou e esperou. E funcionou.

Quando o compromisso de Copenhagen foi assinado, o custo de geração de energia solar por kWh (quilowatt – hora) era de 200 agurot (centavos de shekel), enquanto o custo de geração de energia por queima de carvão é em torno de 15 a 25 agurot. Hoje em dia, o custo do kWh gerado pela energia solar é 20 agurot. Diminuiu dez vezes em menos de dez anos! Em 2009, o subsídio anual que o governo teria que dar para a construção dos painéis solares era da ordem de 4 bilhões de shekalim. Com o atual custo, o subsídio anual caiu para 2 bilhões de shekalim. Em 2011, Israel decidiu suspender a expedição de novas cotas para a geração de energia solar, esperando o custo baixar. E ele caiu dramaticamente, economizando dezenas de bilhões de shekalim aos cofres públicos. E quem pagou esse custo? Países que resolveram sair na frente da corrida, como a Alemanha, por exemplo, que historicamente investiu 300 euros anuais per capita para a instalação pioneira em grande escala de painéis solares. Os 2 bilhões de shekalim anuais que Israel paga atualmente equivalem a cerca de 65 euros per capita anuais.

Até o final de 2017, Israel já tinha transformado 3% de sua matriz energética em solar. O ano de 2018 vai fechar com 5% do total, quando os projetos atualmente em construção ficarem prontos. Nos dois anos restantes, os outros 5% serão completos, com um custo significativamente mais baixo do que se isso fosse feito dez anos atrás.

Apesar da instalação em telhados residenciais e comerciais ser altamente recomendada, a maior aposta de Israel é em grandes campos de painéis solares. Isso gera outro tipo de questões, como por exemplo, a baixa eficiência de geração. Para cada hectare de terra coberto por painéis solares, gera-se 1 megawatt de eletricidade. Já a área ocupada pelas termelétricas é irrelevante comparado ao volume de energia que elas geram. E estamos falando de um país minúsculo de 20.000 km2, onde em certas áreas do centro a densidade populacional chega a 3 mil pessoas por km2. Cada centímetro aqui vale muito. O deserto é grande, mas coberto por imensas áreas militares, reservas ecológicas, além de que há implicações climáticas de se cobrir o deserto, que naturalmente reflete radiação solar, por painéis cujo objetivo é absorver essa radiação (e apenas parte dela é convertida em eletricidade).

O futuro parece brilhar para a geração de energia em Israel. Os custos extremamente mais baixos encorajaram o governo a estipular uma meta de completar um total de 17% da matriz energética solar até 2030. Quando o compromisso internacional for atingido, Israel talvez devesse investir na microgeração – instalação dos painéis solares nos telhados residenciais e comerciais. A “Sociedade para a Proteção da Nautreza” em Israel (“Chevra Lehaganat Hateva”) lançou um estudo em Outubro de 2017, no qual calculou que o espaço em telhados atualmente disponível em Israel seria o suficiente para transformar em solar 25% do total da matriz energética israelense, evitando assim o uso de espaços abertos raros e caros, e diminuindo também impactos ambientais e logística de distribuição.

Parlamento de Israel coberto de painéis fotovoltáicos. Foto divulgada pela ‘Times of Israel’

Este texto foi amplamente baseado numa aula dada pelo Honi Kabalo, da Autoridade de Regulação de Energia em Israel (‘Rashut Hachashmal’) no Instituto Weizmann, dia 14/01/2018, promovida pela SAERI (Sustainability And Energy Research Initiative) e pela Feinberg Graduate School.

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