Entre a poesia e o terrorismo

18/12/2012 | Conflito

Israel - entre a poesia e o terrorismo

Obrigado, Rafeef,

Eu agradeço a existência de Rafeef Ziadah, mesmo discordando de praticamente todas as suas convicções.

Eu agradeço a ela por ser palestina e poeta.

Rafeef nasceu e cresceu em Gaza. Recentemente publicou um audio-book onde declama a sua “autobiografia em versos”. A cada estrofe, Rafeef nos convida, com uma brilhante atuação, a entrar num mundo sofrido de lembranças de morte, angústias, agressões físicas e psicológicas.

Rafeef trabalha hoje como uma militante pró-palestina e promove diversas manifestações ao redor do mundo contra Israel. Ela define o meu país como “racista”, “ocupador” e “executor de uma política de apartheid”. Não reconhece o direito de existência de Israel e reclama a propriedade de terrenos pertencentes aos seus avós, localizados em Haifa – cidade que nunca visitou e que Israel não lhe permite acesso.

E então, eis que surge a pergunta: Como posso estar agradecido pela existência de uma pessoa com tais crenças e pensamentos sobre o país que escolhi viver?

A resposta gira ao redor de dois pontos principais.

Em primeiro lugar, agradeço a Rafeef por negar a hipótese falsamente concebida de que todo palestino é terrorista.

A hipótese ignorante é a de que entre os palestinos existem apenas “amantes do terror”. Rafeef é um símbolo desta quebra. É impossível negar que estamos diante de alguém que deseja nos derrotar utilizando versos no lugar de armas.

Rafeef é uma poetiza, não uma mulher-bomba.

Nesse sentido, Rafeef Ziadah é um “tapa na cara” do extremismo judeu – tanto o religioso como o laico – que acreditam, sem pensar duas vezes, que uma mãe palestina chora menos pela perda de seu seu filho, do que choram pelos seus, as mães judias do lado israelense.

Em segundo lugar, agradeço fortemente a Rafeef por acabar de uma vez por todas com a “´lógica do terror”.

A hipótese ignorante é a de que os terroristas são apenas vítimas de circustâncias. Este pensamento tem como origem, o falso entendimento de que o terrorismo é a consequência exclusiva dos erros cometidos pela democracia israelense. Para esta corrente, o terrorismo nada mais seria do que uma reação aos supostos “anos de opressão israelense”.

Rafeef nasceu e cresceu em Gaza, lado a lado daqueles que optaram por utilizar a morte indiscriminada de civis como instrumento de reinvindicação e luta política. É impossível negar que o ambiente opressivo vivido por ambos (terrorista e poeta) foi semelhante. Ambos (terrorista e poeta) dividiram as mesmas ruas, os mesmos bancos escolares, os mesmos postos de controle…

Constato sem surpresa, que Rafeef é uma poetiza, não uma mulher-bomba.

Não é possível que exista dúvida em relação a este ponto: se alguém acredita que a opressão “criou o terrorismo”, necessariamente a opressão também teria “criado a poesia”.

E a opressão, não é a gênese de nenhum dos dois… A idéia de que Israel possa ser culpado pelo terrorismo que o ataca é simplesmente nojenta. É necessário perceber, que entre a escolha da morte como luta política e entre a escolha pela poesia, existe o abísmo de uma decisão moral simbolizado pela escolha individual.

Nesse sentido, Rafeef Ziadah é um “tapa na cara” de certa intelectualidade que acabou se convencendo, muitas vezes por meio de ameaças e da violência, de que é necessário encontrar alguma justificativa que possa inocentar o ataque indiscriminado a cidadãos israelenses.

Não é porque alguém considera a causa palestina justa, que eu lhe darei carta branca para justificar o lançamentos de misseis sobre nossas cidades ou ataques suicídas em supermercados e ônibus do país. Nunca lhe darei o direito de cassar a possibilidade de defesa de nosso território e de nossos cidadãos.

A estas pessoas eu digo em alto e bom som: Rafeef poderia ter escolhido se tornar uma mulher-bomba. Mas ela acabou optando pela poesia…

Agradeço ainda a Rafeef, por me ajudar a diferenciar os valores defendidos por Israel e os valores defendidos pelos integrantes do Hamas, Jihad e demais grupos terroristas palestinos.

Hoje em Gaza, quem manda é a lei fundamentalista que proíbe mulheres de serem – vejam só – poetizas… Seus versos não podem ser ouvidos no local onde nasceu. O seu governo impede que suas poesias sejam ensinadas nas escolas ou proclamadas em espaços públicos. Em contrapartida, crianças arábe-israelenses lêem sobre Rafeef nas escolas de Israel e seus versos são utilizados como retórica política dos partidos árabes que participaram livremente das eleições em israelenses.

Agradeço a Rafeef por me ajudar a criticar práticas do governo israelense, que diferente do governo existente hoje na Faixa de Gaza, está obrigado a se relacionar com oposições políticas, imprensa livre e responder ao limite da lei estabelecido em um Estado de Direito.

Eu discordo de praticamente tudo o que Rafeef pensa e defende em relação à vida de israelenses e palestinos. Sua visão sobre Israel é míope e errada. Suas análises e concepções deste conflito histórico são completamente deturpadas. Ela é omissa ao não apontar as escolhas erradas de seu povo no passado e no presente.

Entendo, no entanto, que não podemos ignorar que existem muitas “Rafeefs” do lado palestino que não optaram pelo terror como luta política e que se sentem oprimidas, agredidas e deslocadas de sua propriedade. Mas também, não podemos ignorar que existem grupos organizados que escolheram a morte para pavimentar um caminho em direção a cassação de todas as liberdades e valores existentes nas democracias ocidentais – inclusive o direito de voz a uma poeta mulher…

Eu defendo um mundo em que Rafeef Ziadah possa existir como ser-humano, como palestina, como uma voz divergente e como poeta. Defendo o seu direito de criticar o meu o governo e o seu governo, o meu país e o seu país. De pensar o que quiser. De se vestir como quiser, de casar com quem quiser, de ler, ouvir e assistir o que quiser….

Eu espero que um dia, Rafeef possa compreender, que este mundo de garantias individuais e liberdades, está muito mais perto do governo de Israel – alvo de tantas críticas em seus poemas – do que ao lado do Hamas e outros grupos terroristas, poupados tantas vezes em seus versos…

Enquanto isto não ocorre, eu espero que Israel continue lutando contra a destruição de nossos valores. Desta forma, além de garantir o nosso direito de existir como um Estado Judeu Democrático, estaremos dando uma grande ajuda aos palestinos que, a exemplo de Rafeef, escolhem a poesia ao invés da barbárie.

Rafeef Ziadah, muito obrigado.

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Rafeef Ziadah declamando um de seus mais famosos poemas “We teach life, sir” em que faz uma dura critica ao governo de Israel e poupa uma vez mais o Hamas de seus versos:

Comentários    ( 11 )

11 Responses to “Entre a poesia e o terrorismo”

  • Amir

    24/12/2012 at 20:16

    Excelente texto! Kol Hakavod!

  • Raul Gottlieb

    24/12/2012 at 21:16

    Marcelo, não é apenas o Hamas que está convictamente apartado do mundo de liberdades individuais. É a grande maioria do mundo islâmico, que repudiou formalmente a Declaração Universal dos Direitos do Homem e em seu lugar procalmou uma Declaração Islâmica dos Direitos do Homem, onde todos os direitos individuais são mediados por uma autoridade religiosa. Tristemente as autoridades religiosas nos países islâmicos são ligadas aos governos, o que dá aos cidadãos destes países o inalienável direito de concordar com o governo e nada além disso. O teu texto é muito bom, mas é importante ampliar a visão: não é apenas o Hamas que Rafeef poupa em seus versos, mas todo o modelo islâmico de governo.

  • Mario Silvio

    25/12/2012 at 22:44

    “em que faz uma dura critica ao governo de Israel e poupa uma vez mais o Hamas de seus versos:”
    Pois é Marcelo, ela, além de péssima poeta (a julgar pela amostra nem poeta é) APOIA o hamas.
    Pode não ser terrorista, mas nunca, em nenhum lugar do mundo, toda uma população foi.

    • Marcelo Treistman

      25/12/2012 at 23:14

      Raul, O texto estava centrado em uma análise Israel e Faixa de Gaza. Israel e Hamas são dois agentes presentes na vida da poetisa. De qualquer forma, não tenho como discordar de você. Pensamos muito parecido.

      O meu maior objetivo era utilizar a figura de Rafeef, para evidenciar dois pontos que considero extremamente importantes para a compreensão deste conflito:

      1 – A opção pelo terrorismo como reinvidicação política não é uma consequência de políticas israelenses. Como sabemos, o terrorismo é anterior a Israel. Trata-se portanto de uma decisão moral, que deverá ser analisada sob o aspecto da responsabilidade individual.Ou seja: A causa palestina seria “justa” o bastante para que se possa justificar, compreender, condescender com mísseis laçados sobre áreas cívis em Israel? Explosões de homem bomba em supermercados?

      2 – A maioria do povo palestino não é terrorista. Desejo que estas pessoas consigam dar a Gaza o mesmo estado garantidor de liberdades que possuímos em Israel. E, falando novamente em escolhas individuais, os palestinos são os únicos responsáveis por definir se desejam um futuro de terroristas ou de poetas.

      Obrigado pela sua opinião.

  • Mario Silvio

    25/12/2012 at 22:47

    E outra coisa: ela mente.

    • Marcelo Treistman

      25/12/2012 at 23:41

      Olá Mario Silvio,

      Eu li muito a respeito de Refeef e ouvi o integralmente o seu audiobook. Não encontrei nada que pudesse indicar que ela “apoie o Hamas”. Note que neste caso, “Apoiar o Hamas” seria o mesmo que “apoiar o terrorismo”. Ficaria feliz se você nos indicasse alguma fonte para esta sua interpretação.

      Você afirma: “ela mente”. Eu lhe pergunto: “quando”?
      Se você está se referindo a qualificação dada a Israel, eu tendo a concordar com você.
      Mas discordo frontalmente, se você estiver se referindo ao que ela conta sobre o dia a dia nos postos de controle israelense.

      Como eu afirmei no texto, eu não concordo com nenhuma das convicções de Rafeef. Acho que suas considerações sobre Israel são míopes e erradas.

      Eu defendo um mundo que pessoas possam declamar idiotices. Quem deseja aniquilar os bobos e os poetas é o governo da Faixa de Gaza.

      Eu te pergunto, Mario Silvio: de que lado você está?

    • Mario Silvio

      26/12/2012 at 13:48

      ” Note que neste caso, “Apoiar o Hamas” seria o mesmo que “apoiar o terrorismo”. Ficaria feliz se você nos indicasse alguma fonte para esta sua interpretação.”
      Como você mesmo disse, é uma interpretação. Fontes:
      “Ela é omissa ao não apontar as escolhas erradas de seu povo no passado e no presente.”
      “poupa uma vez mais o Hamas de seus versos:”
      Claro que nenhum cidadão tem a obrigação de se pronunciar o tempo todo sobre todos os assuntos, MAS… quando um governo pratica o terrorismo, ou mesmo quando ataca militarmente um vizinho e isso traz consequências trágicas para sua população, acho que quem cala consente, principalmente quando se aborda o assunto.
      Se o governo brasileiro atacar o Uruguai e este REAGIR, quem criticar APENAS o Uruguai estará sim apoiando o Brasil, pelo menos é o que penso.

      Mentiras:
      1) A que você citou (sobre Israel)
      2) We teach life. Como? Assassinando pessoas e arrastando os cadáveres pelas ruas de Gaza? Incendiando parques aquáticos? Mesmo deixando Israel de lado, o que eles ensinam por lá é puro ódio.

      “Eu defendo um mundo que pessoas possam declamar idiotices.”
      Eu também e onde eu possa apontar o que acho idiotice. Nem me ocorreu proibi-la de declamar o que quiser, nem muito menos aniquilá-la.

      “Eu te pergunto, Mario Silvio: de que lado você está?”
      Se entendi a pergunta, estou do lado de Israel, onde se pode declamar qualquer coisa.
      Só que não tenho ilusões, o “mal” existe sim, e uma das suas personificações é o hamas

    • Marcelo Treistman

      27/12/2012 at 15:42

      Mario, o que posso te dizer… Você está completamente enganado com relação a Rafeef e sua relação como Hamas. Por favor, procure conhecer – de verdade – o que a poetisa pensa sobre o assunto.

      No fundo, no fundo, acho que nossos pensamentos são bem parecidos no que tange ao reconhecimento do valor democrático e libertário existente em Israel.

      Discordamos apenas na generalização acerca do povo palestino – (…) “o que eles ensinam lá é puro ódio” (…)
      Este é o mesmo pensamento errado daqueles que acreditam que uma mãe palestina chora menos pela perda de seu seu filho, do que choram pelos seus, as mães judias do lado israelense….

      Resumindo:

      Contra a poesia-bomba da poetisa, eu ofereço o meu artigo-de-defesa-de-israel.
      Contra o homem bomba do Hamas, eu espero que possamos oferecer toda a nossa inteligência a capacidade militar.

      Desejo que um dia possamos transferir este conflito a uma guerra de palavras e retóricas. Será mais proveitoso para todos os lados.

      Agradeço a sua participação.

  • Sergio Niskier

    27/12/2012 at 02:35

    Queridos

    A força das palavras é maior que a das balas. MAs infelizmente as balas tem sido mais usadas. Em algum momento isto de fato deveria ter um fim.

    Saudar uma poetisa, uma intelectual, que faz de suas letras a sua trincheira, é mesmo forte. Não pdoemos no entanto esquecer que usar as palavras como forma de luta, pode ser usado como incitamento, como educação negativa. Um livro escolar cheio de preconceitos, por exemplo, pode contaminar toda uma geração.

    Mas concordo com voce MArcelo, que olhando pelo prisma intelectual, quando se pode ouvir uma voz, e se a voz tem ouvidos tambem, a distância diminui. Que chegue este dia, onde as pessoas podem se sentar uma em frente a outra, SEM ARMAS QUE MATAM, e podem honesta e sinceramente falar de suas dores, de seus temores, de seus sonhos e de seus desejos. Na maior parte das vezes, vamos nos surpreender por vermos como são proximos do que pensamos nós proprios da vida.

    Outro dia, escrito pelo poeta Marco Luchesi. membro da Academia Brasileira de Letras, saiu um artigo no O GLOBO, onde ele cita trechos do poeta palestino MAhmud Darwish, que eu achei incrivel. Em especial quando ele pergunta a um carcereiro israelense, onde esta o pai dele, carcereiro antes dele. O jovem responde, que ele morreu de tedio, por ter ficado preso a vida toda na cadeia, tomando conta do poeta. E este ainda pergunta, ser carcereiro foi a herança que ele te deixou? E completa com textos incriveis sobre a necessidade de entendimento. Obvio que o Luchesi pinçou trechos pacifistas, e que certamente encontrariamos textos opostos nas poesias.

    Mas concordo com voce MArcelo, temos que investir nas palavras, mesmo nas duras. POis podemos nos aproximar e ver o outro. e entender que dor e vilania não são exclusividade de um ou de outro lado de um conflito. Existem ambas em todas as direções, e entender isto, confere humanidade a todos, e permite quem sabe, encontrar uma pequena chave.

    Como em uma luta de boxe, um simples resvalar no queixo, pode levar um gigante a ser nocauteado. Sera que temos como nocautear a intolerancia, a violencia descabida e desmedida, com um simpels resvalar de poemas e cronicas? Voce está ficando um mestre na escrita MArcelo. te leio sempre nas Menorahs da vida. Um dia quem sabe, voce e a poeta palestina se encontram nas Europas da vida, e podem entender as diferenças e diminuir as distâncias. Seus filhos vão agradecer por isto.

    beijos

    Niskinha

    • Marcelo Treistman

      27/12/2012 at 18:05

      Niskinha,

      Agradeço o seu comentário e feedback! Eu já enviei uma mensagem para a poetisa em sua página no Facebook. Nunca obtive resposta. Quem sabe esse encontro não sai um dia!

      Estamos te esperando Baaretz ano que vem!

      Grande abraço!

  • João Koatz Miragaya

    27/12/2012 at 15:17

    Prezado Mário,

    O texto do Marcelo valoriza o método de atuação da poetiza, não a causa que ela defende. Isto foi escrito, explicado e reexplicado por ele. Quando te pergunta “de que lado você está”, o faz pelo fato de que você critica a poetisa, que no caso não faz nada de errado, apenas defende causas com as quais você não compactua.

    Será que os fins justificam os meios? O Marcelo já demonstrou não crer nisso. E você?

Você é humano? *