Entre Bibi, Abbas e Zoabi

25/06/2014 | Conflito.

por Michel Gherman

O slogan da campanha pelos jovens sequestrados pelo Hamas na Cisjordânia, “bring back our boys”, nos remete a outra campanha anterior, “bring back our girls”, que se relaciona às meninas sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria.

De fato, o contexto e a conjuntura dos dois sequestros é completamente diferente, havendo poucos pontos de semelhança entre a realidade nigeriana e a realidade palestina/israelense, a não ser um: em ambos os casos os “sequestradores” defendem um projeto político religioso, excludente e fundamentalista. Não tenho certeza que Hamas e Boko Haram não seriam inimigos entre si, mas ambos podem ser definidos como fundamentalistas islâmicos.

Claro, sequestrar centenas de meninas nigerianas, estuprá-las e vende-las como escravas pode parecer um ato mais extremo do que sequestrar três adolescentes judeus que vivem nos territórios ocupados. Mas não é. Ambos guardam um princípio idêntico: o outro tem natureza distinta da minha. Ao desumanizar o outro lado, Hamas e Boko Haram não veem limites em seus atos e se permitem sequestrar e matar em nome de suas versões do Islã.

Sabe quem concorda comigo? Mahmoud Abbas (Abu Mazen). Na semana passada, em um discurso histórico, Abu Mazen disse, em árabe e em uma conferência de países islâmicos, que os meninos sequestrados eram “humanos como nós” e que “os responsáveis pelos atos queriam a destruição da Autoridade Nacional Palestina”. Este discurso é importante por alguns pontos. Primeiro, porque Abu Mazen reconhece um grande erro político, ao se aliar ao Hamas, ele acabou por fortalecer seu inimigo. Em segundo lugar, o presidente palestino clama que seu algoz-vítima é humano, tão humano quanto ele. Abu Mazen fala como palestino e islâmico pra uma plateia de islâmicos não-palestinos. O inimigo? O fundamentalismo.

Sabe quem discorda de mim? Outra palestina, Hanin Zoabi. Deputada do parlamento israelense, Zoabi é mulher e não é religiosa. Apesar disso, ela se apressou em justificar o sequestro e acusar os sequestrados. Zoabi legitimou o Hamas e reproduziu uma lógica racista e nacional sobre uma percepção igualitária e humana. Interessante notar: escutei Zoabi em hebraico, e Mazen falou em árabe.

Um deles privilegia o humano ao nacional, enquanto a outra privilegia o nacional ao humano.

Na logica de Zoabi, aquela compartilhada por todos os fascismos, não há nenhuma relação possível entre os dramas das meninas da Nigéria e dos meninos israelenses. Na lógica de Abu Mazen, aquela compartilhada por todos os humanismos, não há como não relacionar as vítimas do Boko Haram aos sequestrados do Hamas.

michel ghermanMichel Gherman possui graduação em História com licenciatura em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Mestre em Antropologia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Atualmente, cursa doutorado no Programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Entre Bibi, Abbas e Zoabi”

  • Mauricio Peres Pencak

    27/06/2014 at 01:55

    ABU MAZEN é um asqueroso oportunista.
    Um típico pescador de ÁGUAS TURVAS. Sempre buscando ver como a sequência dos eventos pode beneficiar sua camarilha.
    Não é capaz de se mostrar um ESTADISTA e romper com círculo vicioso mental que tantas derrotas e amargura trouxe aos árabes.
    Sobre a parlamentar ZOABI?
    É uma TRAIDORA e PRÓ-TERRORISTA.
    Qual o problema de assim classificá-la?
    O país se encontra em permanente estado de conflito e ela se perfila com o inimigo?!
    Deve PERDER O MANDATO e agradecer por não ser presa.

  • Raul Gottlieb

    27/06/2014 at 13:00

    Olá Michel – muito bom o teu texto. Mas ficou faltando o Bibi. Ele está no título e em mais lugar algum.

    Será que com isto você está sinalizando que Israel, o sionismo e os judeus não tem nada a ver com o que você chama de fundamentalismo islâmico?

    Que apesar de tudo o que falam e falam e falam por aí, a ira dos muçulmanos não é provocada por ou dirigida contra os assentamentos, Israel, os judeus, etc. e sim contra todos os que eles percebem como sendo “diferentes”?

    Se for isto mesmo eu redobro os parabéns ao teu texto.

    Realmente entre o discurso bonito do Abbas e o discurso feio da Zoabi não está Israel ou a ocupação e sim uma visão totalitária de mundo que emerge de uma cultura violenta e supremacista.

    Abraço, Raul

  • Mario S Nusbaum

    27/06/2014 at 19:33

    “Abu Mazen disse, em árabe e em uma conferência de países islâmicos, que os meninos sequestrados eram “humanos como nós” e que “os responsáveis pelos atos queriam a destruição da Autoridade Nacional Palestina”. Ou seja, está preocupado é com a reação israelense

  • Daniel

    27/06/2014 at 21:47

    Olá Pessoal,

    Desconheço muito da história da Nigéria e Boko Haram, mas não vejo tanta semelhança nestes dois fatos.
    Pelo que sei, há um crescimento demográfico islâmico, assim como de grupos fundamentalistas islâmicos querendo tornar o governo cada vez mais ligado as suas idéias e seus grupos. Isto ocorre a menos de 2 décadas. Não houve nenhuma fragmentação territorial étnica por parte do governo nigeriano. Tampouco tentativas sucessivas de diálogo e diplomacia com apoio e intervenção internacional, frustadas, guerras, ataques de ambas às partes, ao longo de 60 décadas.
    Tudo isto ocorreu/ocorre no conflito palestina/israelense. Até hoje, o povo palestino segue sem território. A realidade nigeriana mostra uma atitude extremamente radical e desumana com objetivo da tomada do poder de um país. A atitude dos sequestradores no assentamento é sem dúvida, desumana, porém dentro de um contexto diferente. Pressão política para que um povo possa ter direito a viver de acordo com suas regras, autônomo, no lugar que foram expulsos a 60 anos. Certamente, cometer atentados terroristas, ataques a civis, não são as atitudes mais corretas, mas frente ao que já foi tentado e as atuais posturas do governos israelense, enfim as atuais circunstâncias e o histórico dos sequestradores e “sequestrados”, nos dois lados os difere.
    Mas adentrando no próximo passo da conversa, quais seriam outras possibilidades que os palestinos tem para conquistar o que desejam?

    • Raul Gottlieb

      28/06/2014 at 13:29

      Daniel

      De fato a Nigéria tem outra história, mas o contexto do conflito na Nigéria é o mesmo do conflito de Israel – a negativa dos muçulmanos de conviver com outras comunidades, de aceitar o “diferente”.

      Todo o resto é, a meu ver, consequência desta postura.

      Os palestinos não foram expulsos há 60 anos. Eles tentaram expulsar os judeus há 60 anos e perderam a guerra, da qual ainda não desistiram.

      A perspectiva de progresso para os Palestinos é abandonar o seu fortíssimo traço cultural supremacista. A política deriva da cultura e não o contrário.

      Abraço, Raul

  • Daniel

    30/06/2014 at 20:04

    Reconheço que existem muitos casos de violência/terrorismo por parte de grupos islâmicos em muitos lugares hoje em dia, inclusive entre grupos palestinos por não quererem coexistir com outros povos/etnias. Porém não vejo outra alternativa para a paz, tanto para palestinos quanto para israelenses, senão a concessão de autonomia total para a liderança palestina se autodeterminar num território – criação do Estado Palestino.

    Tudo já foi feito, tentado, não há para onde sair. Se a partir da existência deste Estado, houver qualquer tipo de ataque contra Israel, teremos então uma situação que o mundo terá que intervir radicalmente, seja diplomaticamente ou militarmente, pois trata-se de um país atacando o outro.

    Mas antes de ficarmos pensando nessa hipótese trágica e negativa, prefiro que Israel conceda o território e esteja preparado militarmente para tudo, mas que confie que estará fazendo a coisa certa, que ganhará a confiança e gratidão da maioria palestina, e que estes últimos conseguirão controlar seus radicais.

    Abrs

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