Entre Gaza e o Kibutz

Campo de girassóis próximo ao kibutz Dorot, sul de Israel

– Íamos cedo de manhã para praia. Às vezes, era para (kibutz) Zikim, ou Gaza City mesmo. Eu passava a manhã jogando futebol na areia. Mais tarde, voltávamos para casa com peixes frescos comprados por lá mesmo para fazer de almoço. Minha mãe sempre fazia compras no shuk (mercado) em Gaza. No kibutz mesmo, quase toda a mão de obra, no campo e boa parte da fábrica, vinha da cidade de Gaza e região. Eu não vou dizer, é claro, que era uma convivência edílica. Afinal, desde os anos de 1920, há atrito com os fadayun [ref](do árabe fidā’ī, plural fidā’iyūn, فدائيون) é um termo que se refere aos militantes ou guerrilheiros de orientação nacionalista entre o povo palestino. Wiki em Inglês[/ref]vindos de lá. Houve um grande número de emboscadas e teve muita gente boa que morreu, durante muito tempo. Confusão não faltou. Depois, durante a guerra de independência, inclusive, o kibutz ficou completamente isolado e era abastecido pelo ar. Sofremos bombardeios quase diários dos egípcios.

Doron Metzger é um sujeito grande. Enorme e falando lenta e pausadamente, parecia uma figura mitológica, agachado no meio dos campos do Kibutz Dorot, com os eucaliptos que margeavam uma estrada ao fundo, analisando alguma peça de irrigação enquanto me falava. Doron nasceu no kibutz, que fica a pouco mais de oito quilômetros de Gaza, em 1962. Tinha mais de um metro e noventa (me confessara depois) e pesava bem mais de cem quilos (eu calculei). Tinha uma barba ruiva e cabelos castanhos escuros muito mal penteados. Usava calça jeans muito velha, camisa xadrez e sandálias de couro. Tinha o braço esquerdo todo coberto por uma feia cicatriz de queimadura.

– Foi na guerra do Líbano. Eu era comandante de tanque e fomos atingidos poucos meses depois de entrar na linha de frente. Um rapaz, assim, desse tamanho saiu de trás da carcaça de um carro com um RPG[ref]Rocket-propeled granade – arma anti-tanque[/ref]  na mão. Nos atingiu em cheio. Uma unidade de infantaria neutralizou a célula que nos abateu e acabou por me salvar. O resto da equipe do tanque morreu. O braço não foi nada. O pior foi uma série de complicações respiratórias das quais eu tive que me recuperar. Eu passei o resto da guerra no hospital e depois fui estudar. Boa parte dos meus amigos saíram pelo mundo[ref]É comum para os israelenses, depois do serviço militar, fazer uma grande viagem pelo exterior.[/ref] depois da guerra. Alguns nunca mais voltaram. Outros voltaram diferentes. Eu preferi sossegar por aqui mesmo.

– Estudou o que?

– Engenharia mecânica, no Technion. Foi uma boa época. Foi bom para mim, bom até para o Kibutz. E lá conheci minha esposa. Fiz meu passeio depois da universidade, com ela. Mas voltei só quatro anos depois, com uma pós graduação e dois filhos.

– E hoje, faz o que?

– Hoje eu cuido da fábrica no Kibutz. Da parte de engenharia de produção. Também dou aula na universidade Ben-Gurion, em Beer Sheva.

Subimos num quadriciclo e fomos por uma pequena estrada de terra pelos campos de girassóis, tão comuns naquela região. Ele foi me apontando os lugares onde haviam caído foguetes e morteiros. Eram dezenas, centenas desde 2004.

– Quando foi que as relações com Gaza passaram a ser tão hostis?

– Na verdade, sempre foram hostis. A população de Gaza sempre teve tendências mais jihadistas do que suas contrapartes na Cisjordânia. Até mesmo pela história da população de lá, que sempre teve uma relação mais próxima à Irmandade Muçulmana do Egito. E Gaza sempre foi um lugar surreal.

– Como assim?

– Como povo, sempre teve um conflito entre o pragmatismo de seguir a vida normalmente, como aqueles os que vinham e trabalhavam aqui em Israel, os que nos vendiam no shuk e os que nos viam na praia, e entre as milícias violentas que atacavam as cidades e kibutzim da região. Veja essa história, por exemplo. Uma vez, durante um cessar fogo na Primeira Intifada, eu estava como reservista numa patrulha dentro da cidade de Gaza. (Yasser) Arafat havia dado ordens de não provocar e não agir com violência por conta dos acordos. Então, na frente da patrulha, havia um grupo armado, palestino, dando porrada de cassetete em qualquer um que viesse comprar briga. Crianças, adolescentes em sua maioria. Todos eles apanhando da polícia palestina. Você percebe o absurdo? Um grupo armado palestino nos protegia, a nós, uma unidade do exército, dando porrada na própria população. A população que havia sido incitada pela própria liderança, que agora nos protegia para evitar conflito.

Paramos sobre um morro, de onde se via, a poucos quilômetros a cidade de Sderot, o Kibutz Gevim e, logo a seguir, Beit Hanoun, na faixa de Gaza. Doron prosseguiu, com sua voz profunda e um hebraico de linda e perfeita dicção:

– Acho que as coisas mudaram bastante com a Primeira Intifada. Havia menos facilidade da sociedade israelense aceitar árabes palestinos circulando em meio à sua população civil. Ainda assim, o parque industrial Erez seguia funcionando. Era um projeto já dos anos 1970, em que fábricas ficavam na fronteira e eram tocadas por palestinos e israelenses. Aí veio a Segunda Intifada. Acho que foi aí que tudo mudou mesmo. Os palestinos não tinham foguetes ainda, mas tinham granadas e agentes suicidas com cintos explosivos. Então aí a fronteira fechou. O parque industrial Erez foi completamente abandonado. Nós, e o país inteiro, paramos de contratar palestinos. Até mesmo por motivos logísticos: eles não tinham como chegar aos seus empregos. A fronteira estava fechada mesmo. Eu, e na verdade, quase ninguém mais daqui esteve em Gaza. Alguns anos depois começou a construção do muro de separação na Cisjordânia.

Ele parou para olhar um medidor em uma bomba que fazia um barulho monótono ao nosso lado e continuou:

– Então pense que coisa impressionante: um palestino que no começo da segunda Intifada tinha seus cinco, seis anos, hoje tem 20, 21. Ele nunca viu de perto um israelense, que não fosse um soldado. E a mesma coisa com israelenses. Nunca viram um palestino que não fosse uma ameaça, um terrorista.

– Teus filhos também?

– Claro. O Lior, meu filho do meio, lutou agora na (Operação) Margem Protetora. Entrou em Gaza. Nós tínhamos aqui no kibutz um auxiliar de jardinagem que morava, pelo menos naquela época, em Jabalya, pouco ao norte de Gaza. Se chamava Ali, o rapaz. Ele ajudava o Lior a subir na ameixeira que ficava perto da nossa casa de então. Eu sabia que o Lior gostava e lembrava dele. Pouco antes das forças israelenses entrarem em Gaza, eu falei com meu filho e disse: “Mande um abraço para o Ali”.

Doron pensou um pouco, anotou alguma coisa numa plaqueta que pendia de um dos tubos da geringonça que sacudia ali e voltou para o quadriciclo, para desfechar:

– Ele ficou triste com meu comentário. Talvez eu não devesse ter dito isso para ele naquela hora. Mas acho que tristeza é importante. Importante para nos manter humanos. E humanidade é importante para um soldado.

 

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Entre Gaza e o Kibutz”

  • Raul Gottlieb

    05/11/2015 at 21:53

    Ai vai um relato de uma pessoa do Oriente Médio que não acredita que exista um Islã moderado, tal como se imagina existir na Cisjordânia, que seria diferente do de Gaza. Vale a pena ler:

    http://rorate-caeli.blogspot.com/2015/08/theres-no-such-thing-as-moderate-islam.html

  • Marcelo Starec

    07/11/2015 at 04:33

    Oi Gabriel,

    Muito bom o texto!…Infelizmente fica claro um fato…Sim todos somos humanos!….mas que esse conflito foi iniciado em 1920 não há como negar e tampouco quem o iniciou – essas lideranças palestinas que desde 1920 até hoje tem o mesmo pano de fundo…Jogar os judeus ao mar!….Isso sempre foi dito claramente e ensinado as crianças e infelizmente é assim até hoje!….A coexistência e uma solução definitiva só não acontece devido à ocupação, mas a ocupação de 1920!….Bom, isto posto o que fazer?….Entendo que sim precisamos focar em uma solução de longo prazo com mudanças estruturais entre os palestinos…e isso Israel precisa impor salvo se aparecer alguma liderança decente por lá…e impor uma educação de boa qualidade e voltada a coexistência, um uso racional dos fartos recursos que lá chegam e a construção de instituições que servirão a um futuro Estado viável e pacífico….Enfim, é triste mas infelizmente real….

    Abraço,

    Marcelo.

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