Entre vingadores e justiceiros

Nos últimos dias, observa-se em Israel um crescente número de vingadores lutando por justiça e de justiceiros clamando por vingança, como se justiça e vingança fossem sinônimos. Não são. E uma confusão dessa ordem já nos conduziu ao seqüestro de três jovens judeus e um menino árabe, nos colocou em uma nova operação militar em Gaza e pode ainda nos levar a uma terceira intifada. A constatação de que a ideia de justiça esta tornando-se vaga é assombrosa.

Nenhum princípio é mais importante para a estabilidade social do que o de justiça. Não é para menos. Na ausência da noção exata do que é justo, o injusto torna-se plausível, regras morais são transgredidas sem que se entenda o porque, princípios e valores são obscurecidos e a sociedade passa a viver sob o caos de uma anarquia ética. Atrevo-me a dizer que toda guerra tem como origem diferentes interpretações de justiça. Uma desavença de interesses torna-se um conflito moral quando as noções de certo e errado ganham definições inversas. Quando cada lado utiliza distintos conceitos de justiça já não há mais possibilidade de coexistência – a existência de um passa a depender da inexistência do outro.

Ao longo da história, a ideia de justiça tem sido atribuída à luta por liberdade e à igualdade de direitos; à jihad e à auto-determinação dos povos; ao estado de bem-estar social e ao apartheid; ao fascismo e ao comunismo; à ocupação e à paz. O conceito de justiça é tão vago que mal somos capazes de distinguir uma vingança pessoal de um ato de justiça. E mesmo quando traçamos uma diferença entre os dois o fazemos baseado mais em uma intuição do que em uma perspectiva moral.

Os recentes seqüestros dos jovens judeus Naftali, Gilad e Eyal e do menino árabe, Abu Khdeir, demonstram que a linha que distingue justiça de vingança é tênue, mas não inexistente. As reações aos seqüestros demonstram que nossas noções de punição, retaliação, vingança e justiça são confusas e necessitam esclarecimento. Para entendermos quando estamos lidando com um ato de justiça ou de vingança devemos perceber as seguintes diferenças.

A justiça é racional e ponderada; a vingança é emocional e impulsiva. Quando o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma que a reação à morte dos três jovens judeus deve ser proporcional e perpetrada apenas contra os envolvidos, está agindo com razão, ponderação e, portanto, sob um princípio de justiça. Quando 35 mil judeus exigem vingança em uma rede social, estão agindo por impulso e sob o comando das emoções.

A justiça é impessoal, imparcial e objetiva; a vingança é pessoal, parcial e subjetiva. Quando Netanyahu afirma que o governo israelense não distingue “terrorismo de terrorismo” ao se referir ao seqüestro e morte de Abu Khdeir, está sendo imparcial e objetivo. Quando árabes atacam veículos de judeus que entram em seus bairros ou quando colonos judeus atacam arbitrariamente casas de palestinos, tratam-se de atos pessoais, subjetivos e, portanto, vingativos.

A justiça é um ato de justificação; a vingança é um ato de revanchismo. Quando o presidente da Autoridade Palestina, Abu Mazen, condena publicamente o seqüestro e a morte de Naftali, Eyal e Gilad, demonstra que o conflito com Israel não justifica a incitação a violência e age sob um princípio de justiça. Quando o ministro das relações exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, afirma que deve-se destruir o Hamas sem traçar qualquer distinção entre seu braço armado Izz ad-Din al-Qassam, seu líder político Ismail Haniyeh e civis inocentes filiados ao Hamas, trata-se de uma busca por revanchismo. A justiça requer reflexão para que a máxima “violência gera violência” ganhe sentido. A justiça exige de nós perceber que “pertencer ao Hamas” não pode ser reduzido a “membro de uma organização terrorista”. Agir com justiça exige levar em consideração que em Gaza vivem 1.7 milhões de pessoas e que cerca de 20 mil são militantes terroristas do Hamas.

A justiça tem como propósito o estabelecimento de uma relação harmônica entre as partes; a vingança tem como propósito a manutenção de um ciclo de violência até que o mais forte prevaleça. Quando Yuval Diskin, ex-diretor do Shin Bet, Meir Dagan, ex-diretor do Mossad, e Gabi Ashkenazi, ex-chefe do estado-maior das forças armadas, afirmam que a ocupação israelense na Cisjordânia é nociva ao processo de paz, percebem a necessidade de estabelecer uma relação harmônica e justa com nossos vizinhos. Quando Netanyahu anuncia a construção de três mil novas unidades habitacionais a serem construídas em Jerusalém Oriental como resposta à ida da Autoridade Palestina à ONU, está preservando um ciclo de vingança e criando obstáculos para criação de uma relação justa entre as partes.

A justiça visa a restauração do equilíbrio no longo prazo; a vingança visa a retaliação no curto prazo. Quando o governo israelense decide negociar as condições para a paz com os palestinos, está buscando uma estabilidade  duradoura e, portanto, a consolidação de uma ordem justa. Quando Israel depende de justificadas operações militares em Gaza para obter silêncio e tranqüilidade, estamos diante de uma política de retaliação e sob um regime de vingança.

A justiça é difícil de ser obtida; é um processo gradual que requer paciência e sabedoria. A vingança atua como um poderoso tranqüilizante em nossos organismos sociais, mas é a justiça capaz de nos trazer paz. Por mais tentador que seja, devemos evitar o vício por vingança. Com o tempo serão necessárias doses maiores para sentirmos seu efeito e os danos colaterais no longo prazo serão devastadores. Se não interrompermos esse ciclo, chegaremos ao ponto em que não haverá mais remédio capaz de nos trazer paz. Para estabilidade de qualquer sociedade não há nada melhor do que uma boa dose de justiça. Se o Hamas já tivesse começado seu tratamento, talvez estaríamos em uma outra situação. Se a Autoridade Palestina não esquecesse de tomar seus remédios, talvez já teríamos condições suficientes para paz. Se Israel não achasse que está imune ao vício, talvez já não haveria mais ocupação. Questionar-se sobre o justo e o injusto é o antídoto necessário ao veneno do desejo de vingança.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Entre vingadores e justiceiros”

  • Mario S Nusbaum

    10/07/2014 at 17:08

    “como se justiça e vingança fossem sinônimos. Não são. E uma confusão dessa ordem já nos conduziu ao seqüestro de três jovens judeus e um menino árabe, nos colocou em uma nova operação militar em Gaza e pode ainda nos levar a uma terceira intifada.”
    Claro que não são, mas não entendi como a confusão levou ao sequestro, e assassinato sempre é bom dizer, dos três jovens judeus.
    Aproveito para perguntar sobre quais são as causas, na sua opinião, claro, dos milhares de foguetes lançados sobre Israel
    Boa sorte a vocês todos, e cuidem-se

  • Gabriel Guzovsky

    10/07/2014 at 23:00

    Oi Bruno,

    Você disse que são 20 mil ativistas/terroristas do Hamas em uma Faixa de Gaza com 1.7 milhões de habitantes. Significaria então que uma minoria está controlando uma maioria? Provavelmente com força e coerção, certo? Imagino que uma minoria não consiga ganhar eleições de outra maneira, especialmente sendo tão “alheios” e desconectados dos outros 1.68 milhões que não tem nada que ver com o movimento terrorista.

    A solução é sufocar esses 20 mil para liberar os 1.68 milhões restantes, não?
    Pensando assim, a operação em Gaza não passa a ser um ato de justiça?

    Você escreveu: “A justiça é difícil de ser obtida; é um processo gradual que requer paciência e sabedoria.”
    Concordo, já fazem mais de 10 anos que o Hamas está nessa frente, atirando foguetes contra civis em Israel. Quando é que as pessoas que vivem na mira do Hamas terão sua justiça?
    Quanto tempo mais devemos esperar para julgar culpadas essas lideranças irresponsáveis e sanguinárias? Um povo doutrinado para odiar através de coerção social é capaz de julgar? Onde estão os anonymous palestinos levantando-se contra o Hamas?

    Olha o que o exército divulgou hoje, um pequeno compilado de criminosos de guerra que merecem, no mínimo, ser julgados em cortes internacionais:
    https://www.facebook.com/photo.php?v=803360656353473

    Abraço e obrigado pelo texto, bem informativo.

  • Michel

    11/07/2014 at 17:55

    Parabens pelo texto nobru. abs