Epopéia Cruzeirista na Terra Santa

25/07/2013 | Cultura e Esporte

O primeiro time brasileiro a jogar em Israel foi o glorioso Esporte Clube Cruzeiro, de Porto Alegre. Em 1953, realizou excursão à Europa, passando por vários países, chegando a Tel Aviv, em dezembro. Uma façanha gigantesca para um clube do sul do Brasil, que galgou passos enormes, em tempos remotos. Este foi um dos pioneirismos cruzeiristas, que foi o primeiro a viajar de avião, pelo menos do Rio Grande do Sul, ao exterior, em 1932 (Varig direto a Montevidéu), primeiro gaúcho em várias modalidades (futebol, basquete, aliás, é o mais vezes campeão estadual de basquete, ao lado do Corinthians, de Santa Cruz do Sul).

Através de contato com o jornalista esportivo da rádio Guaíba, de Porto Alegre, e grande cruzeirista, Ernani Campelo, transcrevo detalhes da epopéia cruzeirista em Israel. O texto é do historiador gaúcho, torcedor fanático do Cruzeiro, Eugênio Vasconcelos. (http://blog.comunidades.net/epopeiagaucha/)
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“O CRUZEIRO EM ISRAEL

De Roma, o Cruzeiro deixa a Europa e parte em direção à Ásia, onde o clube gaúcho deverá exibir seu futebol no Oriente Médio, mais precisamente em Israel. O Cruzeiro chegou a Tel Aviv, capital do Estado de Israel, no dia cinco de dezembro. É o primeiro clube brasileiro a se apresentar neste recém criado Estado independente.

No dia seis, o alvi-azul gaúcho realizou seu primeiro contato com bola na cidade de Ramatgan, no Estádio Municipal, próximo de Tel Aviv. Este treino foi presenciado por um grande número de aficcionados do futebol.

Se em treino já era bom, imagine no momento do jogo. Esta era a opinião geral dos espectadores. Mas, o que pensavam técnicos de clubes e a imprensa presente ao treinamento do Cruzeiro. O sr. Moshe Halevy, treinador da seleção nacional e do clube campeão local, afirmou que os jogadores que acabaram de se exercitar estavam entre os melhores que ele já tinha visto, tamanha era a movimentação dos atletas em campo e a facilidade com que dominavam a bola.

A imprensa local se encantou com o treino do Cruzeiro e destacaram os jogadores alvi-azuis, como perfeitos controladores de bola. Os preparativos para este embate internacional foram grandes, tendo o Maccabi Tel Aviv feito um seguro da partida contra o mau tempo. Nada poderia deslustrar este espetáculo.

Eis que chega o tão esperado momento. O tempo era ótimo para a prática futebolística e a expectativa dos organizadores do espetáculo foi confirmada. Grande público acorreu ao Estádio Municipal de Ramatgan, calculado em mais de 27 mil pessoas, que não se cansavam de aplaudir o esquadrão brasileiro.

O Cruzeiro iniciou a partida jogando com La Paz, Valtão e Xisto; Laerte III, Casquinha e Paulistinha; Hoffmeister, Ferraz, Huguinho, Nardo e Jarico. O Maccabi Tel Aviv atuou completo e disposto a fazer boa figura perante os visitantes.

Antecedendo a disputa, houve o desfile das duas delegações e a tradicional troca de flâmulas entre os capitães das duas equipes. Após, o Ministro brasileiro, dr. José de Oliveira Baião deu o pontapé inicial. Colocada novamente à bola no centro do gramado, foi dado início a esta disputa internacional. O jogo começou com bastante rapidez, os atletas estrelados infiltraram-se na defesa adversária, bateu pânico, confusão na área israelita, surge Huguinho para marcar o primeiro golo da partida. O cronômetro ainda não havia saído do primeiro minuto. O jogo transcorreu normalmente, com a equipe cruzeirista sempre à frente, em busca de um novo golo.

As finalizações estavam deixando a desejar e o que se pôde constatar foi o contra-ataque do Maccabi, por intermédio de seu centro avante Glazer, que aos 23 minutos da primeira etapa, igualou o marcador, em jogada individual, que deixou a defesa brasileira sem ação.

Depois disso, foi só Cruzeiro no ataque. Quem brilhou foi o arqueiro da equipe local, Bendori, que realizou brilhantes defesas ao longo desta primeira fase. O goleiro cruzeirista La Paz, também foi muito aplaudido, em bela defesa realizada, quando do chute, a 16 metros, de Goldstein.

Na segunda etapa, o Cruzeiro voltou com toda a força. Atuando de forma magnífica, mas que, devido à falta de sorte de seus atacantes, não aplicou uma saudável goleada. O golo da vitória foi marcado novamente pelo atacante brasileiro Huguinho, que aos 20 min, em posição difícil e a uma distância de 16 metros, fulminou o arco guarnecido por Bendori. Durante os dez minutos finais, os macabeus atacaram, mas não conseguiram colocar a meta brasileira em perigo.

Foi jogo para ninguém botar defeito e que os israelitas só verão outro igual, talvez no próximo século. O Cruzeiro saiu desse prélio com as honras de vencedor pelo escore de dois a um, mas que poderia ter sido mais dilatado.

EM JAFFA, A SEGUNDA APRESENTAÇÃO

O Cruzeiro chegou a Israel em viagem de avião, vindo de Roma. No dia nove de dezembro jogou com o Maccabi Tel Aviv e venceu pela contagem de dois tentos a um. O público israelita não se cansou de aplaudir a equipe de Porto Alegre, durante os noventa minutos. Foi um show de bola. Nos dias 10 e 11, os agentes, que recepcionavam a delegação, levaram-nos a vários passeios históricos, sendo que o mais importante deles foi a visita a Jerusalém, cidade repleta de histórias e significado religioso.

No dia doze, o Cruzeiro realizou seu segundo compromisso, no Estado de Israel. O adversário, Maccabi Petah Tikvak era um clube considerado mais fraco que o campeão israelense e, portanto, não seria um adversário a altura, para os brasileiros. A crônica esportiva especializada, de Israel consideravam os gaúchos, franco favorito.

O jogo foi disputado na cidade de Jaffa, também próxima de Tel Aviv, como a cidade de Ramatgan. A equipe do Maccabi Petah Tikvak é o clube local da cidade Petah Tikvak, situada mais a nordeste de Tel Aviv.

O Petah Tikvak, não estava interessado em vencer a disputa, postando-se quase todos os seus jogadores na defensiva, colocando apenas um atacante mais à frente. O jogo foi realizado apenas numa metade do campo, o que proporcionou a todos assistir de perto, pelo menos 45 minutos.

A platéia composta de treze mil israelenses, aplaudia entusiasticamente quase todas as jogadas realizadas pela equipe brasileira, que demonstrava possuir alta qualidade técnica. Novamente, quem deu o pontapé inicial da contenda, foi o dr. José Oliveira Baião, Ministro do Brasil, em Israel. Após iniciada a disputa, o Cruzeiro, durante todo o jogo se manteve no ataque, mais concentrado na área do adversário, já que os avanços da equipe do Petah não passava de sua zona intermediária. Foi um bombardeio constante, durante os 90 minutos. Só para exemplificar o massacre, nos primeiros quinze minutos de jogo, o Petah, já havia cedido oito escanteios.

Quem assistia ao jogo pensava:
“-Vai ser um massacre!”
Duas bolas na trave, chutadas por Huguinho e Nardo. Hoffmeister e Huguinho desperdiçaram esplêndidas oportunidades de marcar. Devemos parabenizar a defesa do Petah, que atuou de maneira enérgica, sem usar a violência e, também, ao arqueiro israelense que praticou defesas espetaculares.

O resultado deste jogo não espelhou o que foi a partida nos seus noventa minutos. Porém, representou um prêmio à modesta equipe do Petah Tikvak, que entrou em campo para não levar golo. O resultado foi zero a zero.

Cruzeiro, “O Abre-te Sésamo”

“O E.C.Cruzeiro deu o ‘arranco’ inicial e atingiu os gramados da Velha Europa, numa iniciativa de grande significado e que para muitos não passaria de uma aventura. Contudo vem brilhando o elenco estrelado e a sua passagem pela Espanha, França, Suíça, Itália, processou-se de maneira altamente meritória e o futebol brasileiro tem sido condignamente representado”.
“Jogou seis partidas até agora o Cruzeiro, incluindo Israel, e sofreu apenas uma derrota. Resultado altamente compensador e que bem demonstra o elevado nível técnico do futebol gaúcho”.
“Muitos céticos ou derrotistas, há estas horas, devem ter mudado de opinião a respeito do nosso futebol. O Cruzeiro foi o ‘Abre-te Sésamo’, pois abriu as portas do futebol do mundo aos clubes gaúchos, mostrando que já estávamos em condições de comparecer diante de platéias mais exigentes”.
“Joga hoje a equipe estrelada sua sétima partida enfrentando o Maccabi Petah Tikvak, em Jaffa, no Estado de Israel, em pleno Oriente Médio. Lá estará esta tarde, representando o futebol brasileiro, uma equipe do Rio Grande do Sul. E já temos razões fortes para confiar no resultado desse jogo”.

Arre…piadas Olímpicas
Diário de Notícias – 11.12.1953
“Se o Cruzeiro houvesse perdido em Tel Aviv teria sido decretado feriado na Av. Osvaldo Aranha e em toda a zona do Bonfim”.

Diário de Notícias – 15.12.1953
“- O Cruzeiro, agora é o time do zero a zero
– Do zero a zero ou do lero lero?”.

Diário de Notícias – 18.12.1953
“- O G.E.Israelita, do Bonfim, telegrafou ao Cruzeiro, ontem!
– Felicitando-o?
– Não. Pedindo revanche”.

“- Sabe por que, os times brasileiros atuam bem no estrangeiro?
– Não”.
– Porque os jogadores ficam separados de suas concentrações particulares”.

Correio do Povo – 19.12.1953
REGRESSARAM SETE ELEMENTOS DA EMBAIXADA DO CRUZEIRO
Regressaram ontem da Europa, onde se encontravam, como participantes da embaixada do Esporte clube Cruzeiro, os esportistas Ivan Coelho, tesoureiro da delegação; Jorge Rolla e os jogadores Dilvo, Delto, Tesourinha II e Bolacha. Pelo mesmo avião retornou ainda a Porto Alegre o cronista Ari dos Santos, que acompanhou a embaixada alvi-azul, como representante da imprensa local.

Diário de Notícias – 19.12.1953
Arre…piadas Olímpicas
“- O futebol, na Europa, deve andar pesado!
– Por que?
– O Cruzeiro só mandou de volta jogadores tipo’meio-quilo’, com Bolacha, Dívoli, Tesourinha II”.

Telegrama

De Santa Maria, chegou à sede do Cruzeiro o seguinte telegrama:

“-No momento em que o glorioso Cruzeiro nos campos da Velha Europa honra o futebol pátrio, em nome da cidade de Santa Maria apresento cumprimentos à digna diretoria. Abraços”.
Heitor Silveira Campos, prefeito municipal.

AGORA, A FORÇA ISRAELENSE

O povo de Israel não se cansava de aplaudir o Cruzeiro, a imprensa dedicava grandes espaços em seus matutinos. Os alvi-azuis, do Rio Grande do Sul, eram as atrações a todo momento. O jogo contra a seleção nacional era esperado com ansiedade. A seleção se preparava para as eliminatórias da Copa do Mundo, quando deveriam enfrentar a Iugoslávia e a Grécia.

Através do noticiário local, não foi possível descobrir o motivo da troca de adversário, ou até mesmo, se o próximo adversário do Cruzeiro possuía grande número de jogadores na seleção nacional e por isso era encarado como a própria seleção.

Acontece, que o adversário a seguir do Cruzeiro, foi à equipe do Hapoel, esquadrão futebolístico israelense, que possui em seu quadro, vários atletas da seleção nacional de Israel.

O jogo se realizou no dia 15.12.1953, com tempo chuvoso, talvez seja este, o motivo do pouco número de espectadores desta contenda. Cinco mil pessoas assistiram ao jogo, que foi classificado como “um verdadeiro ballet futebolístico brasileiro de primeira classe”.

O resultado de cinco a zero, não refletiu completamente o domínio exercido durante os noventa minutos, pelo esquadrão do Cruzeiro. Os israelenses saíram de campo, agradecendo a Deus, por não terem levado mais golos, pois o escore do prélio, poderia ter sido mais elevado.

A principal figura do gramado foi o goleiro israelense, que pertence à seleção nacional e que teve atuação destacada, realizando defesas brilhantes e bastante difíceis.

Jogando com grande facilidade e com suas linhas funcionando com eficiência, o Cruzeiro comandou o espetáculo desde o início. A primeira etapa, deste magnífico espetáculo, terminou com a contagem de dois a zero para os brasileiros, tendo em vista, que o Hapoel ainda conseguia oferecer alguma resistência. Na segunda fase, o Cruzeiro fez mais três golos e aí começou o baile. O público israelense, não se cansava de aplaudir as jogadas dos alvi-azuis brasileiros, que realizavam um jogo penetrante, com passes rápidos e precisos, de curta distância, envolvendo os jogadores do Hapoel por completo. Foi um verdadeiro carnaval.

Registro de jogos:

Até o momento, o Cruzeiro jogou oito vezes, em cinco países, venceu três jogos, empatou quatro e foi derrotado, uma vez. Concluiu positivamente, em doze oportunidades e sofreu sete golos. Tem um saldo favorável de cinco golos.

Arre…Piadas Olímpicas

“Do noticiário da United Press a respeito da vitória do Cruzeiro sobre o selecionado de Israel:
– A partida foi classificada por muitos dos cinco mil espectadores com ‘um ballet futebolístico brasileiro de primeira classe’.
-A força de dançar aqui, os jogadores do Cruzeiro terminaram aprendendo para ensinar os outros”.
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Faço questão de registrar também que o primeiro campo do Cruzeiro foi no bairro Bom Fim, onde concentrava-se a comunidade judaica ashkenazit, por isto, muitos judeus tinham o Estrelado como clube do coração. Destaco a figura do inesquecível Moacyr Scliar, torcedor ilustre. Quando assumiu cadeira na Academia Brasileira de Letras, Scliar declarou: “Sinto-me como o Cruzeiro na primeira excursão à Europa”.

O clube, em 1960, retornou ao Velho Continente, mas fica a lembrança da façanha em Israel, especial para mim por ser neste país fantástico onde vivo há 8 anos, com o time do coração do meu avô paterno Jayme Burd, sócio cruzeirista desde 1932, e saúdo também o meu pai, Armando Burd, atual dirigente. Batam palmas ao glorioso Cruzeiro, no mês do seu centenário.

Fiquem com o hino, escrito pelo poeta gaúcho Túlio Piva, um verdadeiro mantra de amor ao clube.

http://www.youtube.com/watch?v=XJCLolnzNDE

Link israelense sobre o Cruzeiro http://wiki.red-fans.com/index.php?title=%D7%A7%D7%A8%D7%95%D7%96%D7%99%D7%99%D7%A8%D7%95_%D7%A4%D7%95%D7%A8%D7%98%D7%95_%D7%90%D7%9C%D7%92%D7%A8%D7%94

Link2 sobre o Cruzeiro em Israel http://wiki.red-fans.com/index.php?title=%D7%9C%D7%95%D7%97_%D7%9E%D7%A9%D7%97%D7%A7%D7%99_%D7%90%D7%99%D7%9E%D7%95%D7%9F_%28%D7%9B%D7%93%D7%95%D7%A8%D7%92%D7%9C%29_1953/54

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