Escalando a minha seleção

14/01/2015 | Eleições; Política

Como membro do Partido Trabalhista Israelense (HaAvodá), fui ontem votar nas eleições primárias.

Mas, afinal, pergunta-se o leitor, o que são estas eleições primárias?

Eu já expliquei detalhadamente o funcionamento das eleições israelenses, mas faço aqui um resumo dos elementos mais importantes para a compreensão deste artigo.

Existem dois tipos de eleições primárias: para a eleição do líder do partido (seu candidato a primeiro-ministro) e para definir sua lista de candidatos. A eleição para líder do partido e candidato a primeiro-ministro é auto-explicativa. Vemos o processo ocorrer nos partidos brasileiros e, com muito mais destaque, nos grandes partidos americanos. A principal diferença entre as eleições legislativas brasileiras e israelenses se dá no sistema de votação: enquanto no Brasil usa-se a lista aberta, aqui usamos a lista fechada.

No Brasil, quando o eleitor vota para vereador e deputados estaduais e federais, na prática, está dando um voto duplo. Ao escolher um candidato, o eleitor brasileiro está votando, em realidade, no partido – e influenciando na divisão das vagas disponíveis entre os partidos concorrentes. O nome específico do candidato não influência nesta etapa, na qual os partidos disputam as vagas entre si.

Apenas após a apuração da quantidade de mandatos que cada partido conseguiu, olha-se os votos individuais que cada candidato recebeu. Por isso o sistema se chama “lista aberta”: o partido apresenta à população os seus candidatos e os eleitores votam para colocá-los em ordem de prioridade.

Em Israel, nós votamos apenas nos partidos, cuja lista em ordem de prioridade já foi previamente definida. Por isso, o nome “lista fechada”: pois o eleitor não tem influência sobre a sua composição. Cada partido ou coligação tem o direito de compor sua lista usando o método que julgar mais adequado, e alguns deles usam o método de eleições diretas, em que todos os membros têm direito a voto – as famosas primárias.

O Partido Trabalhista está coligado com o partido HaTnuá. Juntos, concorrerão em uma lista chamada  “O Centro Sionista” (HaMachane HaTzioni) que deverá eleger entre 20 e 25 deputados, de acordo com as pesquisas mais recentes. Os líderes de ambos os partidos, Isaac Herzog e Tzipi Livni, respectivamente, já estavam garantidos como os dois primeiros nomes da lista, assim como alguns dos lugares que serão reservados a nomes do partido HaTnuá (8, 16, 21, 24 e 25) e a dirigentes dos trabalhistas, como o secretário-geral do partido, Hilik Bar, garantido na sétima posição e uma indicação pessoal de Herzog para o décimo-primeiro nome.

Na prática, ao votarmos nas primárias, estávamos decidindo a ordem em que os demais candidatos trabalhistas seriam inseridos na lista e pode-se estimar que os 10 ou 15 mais votados ontem serão deputados na vigésima Knesset.

Nas últimas primárias, convocadas para eleger o líder do partido, votei em Isaac Herzog, por acreditar que ele conciliaria as questões socioeconômicas com os temas de diplomacia e segurança de uma maneira mais equilibrada que a então líder, Shelly Yachimovich. Yachimovich era uma excelente líder da oposição, posto ao qual chegou por seu foco nos temas socioeconômicos, logo após os protestos de 2011. Ao decidir coligar-se com Tzipi Livni, notória defensora das negociações com os palestinos, Herzog demonstrou que suas prioridades estavam alinhadas às minhas. Foi simples, como eleger um líder para um cargo executivo, mas as eleições primárias para a composição da lista de candidatos são diferentes.

Caso tivesse que escolher apenas um candidato a deputado, votaria em Stav Shaffir. Entre os líderes dos protestos sociais de 2011, Shaffir vem desempenhando um excelente papel na Comissão de Finanças da Knesset e concedeu uma entrevista à equipe do Conexão Israel há alguns meses. A jovem deputada tem exposto os inescrupulosos e, até então, muitas vezes secretos acordos que priorizam a transferência de verbas para assentamentos judaicos na Cisjordânia, em detrimento de investimentos em cidades israelenses “dentro da Linha Verde” – isto é: localizadas dentro das fronteiras formais do país – e em setores como saúde e educação. O foco de Shaffir nas questões socioeconômicas balancearia meu voto anterior em Herzog.

Mas eu precisava votar em oito a dez candidatos. São tantas as causas que julgo importante que sejam representadas, que votar em dez candidatos era mais difícil do que escolher apenas um. Olhando pelo lado positivo, eram muitos os candidatos com potencial para serem bons parlamentares, defendendo posições com as quais me identifico. Ter mais de 15 boas opções e ter que descartar algumas para limitar-me ao máximo de dez, naturalmente, é um “problema” menor do que encontrar apenas alguns nomes relevantes e ter que completar minha lista para chegar ao mínimo de oito.

As minhas prioridades eram (não necessariamente nesta ordem) o fim da ocupação e a solução do conflito com os palestinos através de dois Estados para dois povos; separação da religião e do Estado; planejamento econômico que permita a redução da quantidade de israelenses vivendo abaixo da linha da pobreza; fortalecimento dos serviços à população, como educação e saúde; direitos de minorias étnicas e sociais, mulheres e correntes liberais do judaísmo. Priorizei candidatos ligados aos protestos sociais de 2011 e busquei mulheres candidatas que lutem pelas causas que julgo importantes, ainda que não tenha feito questão de votar em um número igual de homens e mulheres.

Ao final, minha “seleção” ficou assim: Shelly Yachimovich, Stav Shaffir, Iztik Shmuli, Merav Michaeli, Michal Biran, Raleb Majadale, Erel Margalit, Omer Barlev, Gilad Kariv e Yossi Yonah.

Hoje de manhã, os resultados foram divulgados, e pude constatar que algumas das opiniões da maioria dos membros do partido coincidem com as minhas. Shelly Yachimovich, Stav Shaffir e Itzik Shmuli (presidente da União Nacional dos Estudantes durante os protestos) foram os três candidatos mais votados, seguidos por Omer Barlev, com sua carreira militar bem sucedida, e sua herança familiar histórica[ref]Seu pai, Haim Barlev, foi Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel[/ref], pela feminista Merav Michaeli, pelo “cacique” Eitan Cabel, no qual acabei não votando, e pelo empresário jerosolimitano[ref]Jerosolimitano, hierosolimitano, jerusalemita, hierosalemita e yerushalmi são os termos mais comuns para designar as pessoas de Jerusalém.[/ref]Erel Margalit.

A jovem deputada Michal Biran, que ganhou meu voto por apoiar os movimentos juvenis, e o professor universitário Yossi Yonah, também ligado aos protestos de 2011, não receberam tantos votos, mas alcançaram posições razoáveis que devem garantir suas respectivas eleições. Por outro lado, Raleb Majadele não superou seus rivais na disputa pela representação da minoria árabe, e a bandeira levantada pelo rabino reformista Gilad Kariv tampoco parece ter conquistado muitos adeptos.

Mesmo assim, acredito que elegemos uma boa lista, que ainda contará com fortes nomes trazidos por Tzipi Livni, como Amir Peretz e Manu Trajtenberg – anunciado como futuro ministro das finanças – e me senti orgulhoso de ter participado deste importante processo da democracia israelense.

Comentários    ( 11 )

11 Responses to “Escalando a minha seleção”

  • Raul Gottlieb

    14/01/2015 at 20:30

    Oi Cláudio,

    A candidatura do Rabino Gilad Kariv me parece esquisita. A Reforma advoga a separação entre religião e estado, então porque um Rabino reformista quer entrar na Knesset?

    Eu conheço o Gilad, eu me encontrei com ele há duas semanas atrás em Tel Aviv e já conversei com ele sobre este meu estranhamento há um tempo atrás aqui no Rio.

    Ele me disse que a candidatura é feita por ele como cidadão e não como representante do movimento Reformista, mesmo ele sendo o presidente do movimento Reformista em Israel.

    É uma explicação esquisita, a meu ver, pois é muito difícil afastar o Gilad cidadão do Gilad ativista religioso.

    Independente disso, ele é uma pessoa muito interessante e muito inteligente. Uma pena que não tenha ficado numa boa posição, mas fico feliz que você tenha considerado ele na tua lista pessoal.

    Uma pergunta, você sabe informar quantas pessoas votaram nas primárias do Avodá? E do Likud? E dos demais partidos que realizaram primárias?

    É de conhecimento público quantos afiliados tem cada um dos partidos maiores?

    Abraço,
    Raul

    • Claudio Daylac

      14/01/2015 at 21:02

      Oi, Raul.

      Compartilho da sua estranheza, mas li um pouco sobre o rabino Gilad Kariv, vi uns vídeos no youtube e achei que valia investir nele o meu voto. Vamos torcer pro Avodá surpreender, eleger mais de 30 deputados e aí ele tá dentro!

      Os trabalhistas tem cerca de 50 mil membros e o Likud tem o dobro. Em ambas as primárias, votaram em torno de 60% das pessoas. Eu não sei se esse comparecimento foi especialmente alto ou especialmente baixo.

      Um abraço!

    • Raul Gottlieb

      15/01/2015 at 00:54

      Sim, Cláudio, se eu votasse aí também votaria no Gilad, até colocaria ele mais alto do que você na lista. A questão da divisão religião e estado é um tanto incoerente, mas ele não endossaria o Abbas falando que Israel comete genocídio, tal como a líder do Meretz. Abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      15/01/2015 at 01:35

      Onde você viu isso, Raul? Tem o link?

    • Ricardo Gorodovits

      19/01/2015 at 21:13

      Prezados,

      Conversando com o Hilik Bar aqui no Rio (ver entrevista na mais recente edição da Devarim) , apresentei essa questão a ele que respondeu, a meu ver, de forma muito adequada e me convenceu de que a candidatura do Gilad Kariv faz sentido inclusive e especialmente como lider reformista. O desejo de ver Estado e Religião atuando em suas esferas distintas e de forma independente, não impede de se constatar o quanto estão hoje interligadas, o Estado sendo usado por religiosos para obtenção de verbas e poderes, usando a religião como justificativa. Neste cenário, o caminho mais efetivo parece ser trazer ao espectro político opiniões diferentes sobre o tema. Segundo o Hilik. cada deputado tem um ou alguns assuntos que são prioridade de sua pauta e falta hoje na Knesset alguem com a bandeira religiosa não ortodoxa, com a visão moderna de Estado e religião. Ou seja, a ideia separar a religião do Estado, mas para isso a ação política e fundamental. E nisso o Gilad Kariv seria fantástico.
      Abraço,

  • Raul Gottlieb

    15/01/2015 at 11:49

    Saiu em todos os cantos, Cláudio.

    Foi logo depois do discurso do Abbas na ONU quando ele alardeou o suposto genocídio que Israel teria cometido em Gaza (um genocídio no qual o suposto exterminado cresce mais que o exterminador – algo só compreensível num universo mental perturbado).

    A líder (agora reeleita) do Meretz disse que o discurso do Abbas provava a falta de confiança dele no governo Netaniahu e não falou sobre a alegação de genocídio. A meu ver com esta omissão , ela está endossando o discurso do Abbas.

    Você certamente achará matérias sobre isto. Foi no final de setembro do ano passado. Veja uma das notícias que ressalta a diferença entre a reação da líder do Meretz e a de um deputado do Avodá:

    http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.617900

    Como diz, com toda a razão, o nosso amigo Miragaya: a esquerda (acho que ele dizer o Meretz, onde está inserido) tem adotado um discurso patético.

    Eu comecei a escrever um editorial para a Devarim sobre “como matar uma ideologia” comentando sobre o uso político dos fatos, mas depois me decidi por um outro tema. Contudo, ainda estou muito p da vida com a atuação política desta senhora.

    Abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      15/01/2015 at 23:40

      Eu concordo com o João (e com você) que falta à esquerda um discurso que toque e conquiste eleitores de outros partidos. Mas daí a entender que ela chamou Israel de genocida é um grande salto interpretativo.

    • Raul Gottlieb

      16/01/2015 at 01:55

      Ela não chamou.

      Ela comentou o discurso de uma pessoa que chamou claramente Israel de genocida e não protestou contra esta declaração.

      Na minha forma de ver as coisas se alguém fala para mim que fulano de tal é um fdp e que a casa dele tem paredes é azuis e o meu comentário é que as paredes são azuis com tons de verde eu estou endossando a afirmação que o cara é um fdp.

      Não creio que eu esteja estressado demais os fatos.

      Ela escolheu não falar das alegações de genocídio. Não porque ela acha que tenha acontecido, mas porque interessava a ela falar mal do Bibi. Mas é claro que ao fazer isto ela mostrou uma falta de sensibilidade do tamanho do Pão de Açúcar aqui em frente e endossou a fala do Abbas, mesmo sem ter intenção.

  • Marcelo Starec

    15/01/2015 at 23:29

    Oi Claudio,
    Gostei do artigo!…Desses nomes que você votou, eu não conhecia o Raleb Majadale, mas verifiquei que ele é um árabe muçulmano, israelense, que atua com destaque na política de centro esquerda desde 2004, tendo sido inclusive Ministro da Ciência e Tecnologia de Israel, entre os anos de 2007 e 2009. Por meio do seu artigo, entendi que muitos árabes não votam na Lista Árabe Unida, que diz representar o interesse dos árabes israelenses. Pesquisando também verifiquei que o Meretz (outro partido da esquerda israelense), tem um foco, ao menos parcial, em também disputar o voto árabe nas eleições. Aproveito então este tema para perguntar se você teria uma ideia de como o voto da minoria árabe se distribui dentro do espectro político israelense?
    Um abraço,
    Marcelo.

    • Claudio Daylac

      15/01/2015 at 23:44

      Oi, Marcelo.

      Não tenho dados sobre o voto dos árabes, mas há árabes que votam em todos os principais partidos sionistas.

      Muitos cidadãos árabes deixam de votar em partidos árabes apenas porque são árabes e preferem votar em partidos sionistas que representem as políticas que querem ver implementadas no país. O Partido Trabalhista, o Meretz, o Likud e até mesmo HaBait Hayehudi (anteriormente conhecido como Partido Nacional Religioso) têm eleitores e candidatos árabes.

  • Marcelo Starec

    16/01/2015 at 00:01

    Oi Claudio,
    Que interessante!…
    Abraço,

Você é humano? *