Esperança e Nostalgia

30/10/2017 | Cultura e Esporte

Foram 94 anos de vida, quase 95. Nascida em Porto Alegre, lá viveu por mais de quatro décadas. Casou, teve três filhos. Ficou viúva cedo. O marido vinha de família religiosa. Em casa, imperou este modo de proceder. Seguiam os mandamentos e faziam cumprir.

Maio de 1948. Por volta de 20 e poucos, ouviu a notícia da independência de Israel. Alegrias e comemorações. Os pais, avós e bisavós vieram da Turquia ao Brasil. Antepassados moraram em Toledo-Espanha, até a expulsão, em 1492. A identidade judaica a chamava para registrar o fato histórico.

Sentou em frente ao piano. Letra em português. Composição simples e direta, para ser tocada por bandas marciais em solenidades. Deu-lhe o nome de “Hino da Esperança”.

Matilde Zouvi não sabia da coincidência. Não conhecia o Hatikva, de Naftali Imber. Apenas pensou na própria história, por tudo o que passaram. “Era um sonho, do qual não se desistiu”, explicou.

O sonho do marido, Marcos, era morar em Israel. Matilde reuniu os filhos e perguntou se queriam concretizar este desejo póstumo, não menos latente. Eles toparam.

O apartamento em Bnei Brak, região metropolitana de Tel-Aviv, recebido na chegada, foi seu lar por mais de 40 anos. Os filhos se casaram, deram-lhe netos e bisnetos.

2007-2008. O Estado de Israel celebra 60 anos. A rádio Galey Tzahal (Ondas do Exército) divulga concurso para eleger a canção de aniversário – em memória do maestro-regente Ziko Graciani, da Orquestra Militar.

Matilde, há muito, já gostaria de ouvir uma gravação da própria criação, ou a execução ao vivo. Era a oportunidade.

Um músico famoso, Dov Aharoni, foi contratado para fazer as partituras. Após a inscrição, esperaram os resultados. Veio a classificação entre os 12 finalistas. Transmissão ao vivo pela emissora, direto de um teatro em Kfar Saba, com exibição das obras. Apenas isso já significava o sonho realizado, mas o destino guardava algo ainda melhor.

Kissufim (Nostalgia) foi o título escolhido. Não poderiam traduzir o nome original ao hebraico, pois ficaria estranho.

Todos dentro do teatro. Aflição. Depois de ouvirem todos os classificados, iriam repetir, pela ordem o terceiro, segundo e primeiro.

“Lembro de uns russos, que fizeram obras primas, longas, de muita qualidade, com subidas e descidas, efeitos. Minha canção era simples, curta e demorava um minuto e vinte segundos. Nunca pensei que ganharia. Na verdade, só de escutar minha música naquele teatro, pensar no povo em casa pelo rádio, já estava bom demais”, relembrou.

Ocorre que o Hatikva, de Imber, também é curto e direto, como o povo israelense. Deve ser algo cultural. Traço, este, que a jovem gaúcha, filha de judeus turcos de Esmirna e Urla, descendente de expulsos de Toledo, trazia no seu DNA. Afinal, como disse Menachem Begin, “Sefaradim, Ashkenazim, Yehudim (judeus)”.

Os primeiros acordes executados pela orquestra militar eram os mesmos compostos por Matilde em 1948, na região central de Porto Alegre. Subiu ao palco, acompanhada pelos filhos e foi agraciada.

Canção da Esperança

Tendo fé em D´us se vence
Os obstáculos que possam vir
É preciso não deixar
A fraqueza dominar,
Pois pra frente iremos sem cessar.

Este é um Hino de Esperança
Que não morre, nem morrerá.
Saberemos esperar até alcançar
Nosso eterno ideal.

Se algum dia à luta formos,
Conquistaremos nosso lugar
Entre glórias e lauréis,
Gravaremos em painéis,
A epopéia de um povo
Forte e leal.

Confira os links https://www.youtube.com/watch?v=SU25BYMRrmI Resumo da epopéia
https://www.youtube.com/watch?v=56xJtPY4L4k Íntegra da cerimônia
https://www.youtube.com/watch?v=Av94Oo5hnRY A música

Rachel Begun foi o nome adotado por Matilde em Israel. Na verdade, Zouvi de solteira. Begun, de casada.

Fotos: Arquivo Familiar.

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Esperança e Nostalgia”

  • Raul Gottlieb

    05/11/2017 at 13:10

    Olá Nelsinho.

    Lindo texto, obrigado por trazer esta bonita história ao nosso conhecimento.

    Observo apenas que a letra do “Hatikva” é uma adaptação do poema “Tikvateinu” de Imber, que ele escreveu para a fundação de Petach Tikva. O poema de Imber era grande, muito grande (nove estrofes!). Na adaptação ele ficou curto e direto. Consta que Imber não tenha ficado muito feliz com a adaptação/amputação de sua obra.

    Veja em: http://thetorah.com/tikvatenu-the-poem-that-inspired-israels-national-anthem-hatikva/

    Um abraço forte!
    Raul

    • Nelson Burd

      06/11/2017 at 10:14

      Obrigado, Raul. Nao conhecia esta historia. Sei que dizem sobre a melodia, que teria sido “inspirada” em obra ja existente. O hino Techezakna, do movimento trabalhista-kibutziano, tambem sao duas estrofes iniciais do poema Birkat Ha’am, do Bialik. Parece que talvez fosse um costume da epoca, pegar poemas prontos e musicar os pedacos que encaixam. Abracao.

  • Raul Gottlieb

    06/11/2017 at 14:07

    Oi Nelsinho,

    A melodia do Hatikva é inspirada na melodia “La Mantovana” registrada pela primeira vez no século 16, na Itália. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=pc-OdOYX_Jg

    Muitos compositores usaram a frase musical de “La Mantovana” em suas composições. Inclusive Mozart e Smetana.

    O costume de recortar pedaços de obras (musicais, literárias e pictóricas) para usar em outras (o que chamamos hoje de copy-paste) vem de tempos imemoriais. A literatura religiosa judaica usa e abusa deste recurso, muitas vezes mudando o sentido do texto original.

    Nenhuma cultura é inteiramente original. Todas obras de arte emergem da cabeça de seu criador, que por sua vez é cheia de referências das obras que ele apreciou ao longo de sua vida.

    Abraço, Raul

Você é humano? *