Estado palestino, prioridade sionista

20/01/2013 | Conflito; Política

Paremos de falar sobre paz. Falemos sobre o fim da ocupação.

A ocupação dos territórios já passa de 45 anos. Mais do que um punhado de terras, ocupamos a vida de quase quatro milhões de palestinos há quatro décadas e meia.

Na Guerra dos Seis Dias, que ocupa no imaginário nostálgico nacionalista israelense o lugar do qual a Copa do Mundo de 1970 dispõe na memória coletiva brasileira, o pequeno Estado de Israel triplicou sua área. Das mãos egípcias, tomamos a Península do Sinai e a Faixa de Gaza, consideradas duas entidades distintas para ambos os lados. O Sinai, desocupamos e devolvemos aos nossos vizinhos na virada das décadas de 1970 para 1980. Gaza, recusada pelos egípcios por sua população palestina, desocupamos em 2005, ainda que não a tenhamos devolvido a ninguém especificamente. O Golã, sob domínio sírio anteriormente, anexamos e à sua população concedemos status de residentes permanentes com direito à cidadania, caso queiram. O mesmo foi feito com Jerusalém Oriental: o antigo município jordaniano e uma série de vilarejos à sua volta, foram anexados à Jerusalém israelense. Os palestinos que ali viviam ganharam a “residência” e o direito à cidadania, ainda que poucos a tenham solicitado.

De certa maneira, Israel teve a coragem de tomar decisões difíceis quanto a quatro dos cincos “espólios” da guerra. Ainda que Jerusalém Oriental e as Colinas do Golã não tenham a soberania israelense reconhecida internacionalmente, o país estabeleceu sua posição através de legislação. A Cisjordânia não teve a mesma sorte. Se, de início, o estabelecimento de população israelense era comum aos cinco “territórios”, a indefinição legal sobre o Sinai e Gaza levou ao desmantelamento de suas respectivas colônias. No Golã e em Jerusalém Oriental, ao menos, a presença judaica se justifica através do reconhecimento de que se trata de territórios israelenses – mesmo que de uma flexibilização destas posições dependam acordos futuros. A Cisjordânia não goza de status tão claro. Construímos colônias em um territórios que nem admitimos fazer parte do país. Embriagamo-nos a ponto de que, hoje, vivem cerca de 350 mil israelenses em territórios palestinos. E esse número sequer inclui os novos bairros de Jerusalém Oriental.

A ocupação se dá através da mescla entre assentamentos israelenses e palestinos, de forma a inviabilizar uma indolor re-divisão da terra. Mais do que a simples (se é que pode-se chama-la da “simples”) colonização de terra estrangeira, a ocupação é um vírus que está matando o sionismo por dentro. É tolo todo aquele que não quer entender que, acima de educação, saúde, estabilização da inflação ou cuidados com os idosos, a criação do Estado palestino é a prioridade mais urgente do Estado de Israel na atualidade. E isso afeta qualquer aspecto a ser analisado:

Consciência moral: Não faz parte de nenhum valor judaico a opressão de um povo inteiro. Mesmo que os cerca de 1,5 milhão de habitantes de Gaza não estejam sob ocupação militar israelense, o bloqueio terrestre, naval e aéreo limita sua real independência e os soma aos 2,5 milhões na Cisjordânia, cujos destinos afetamos diariamente. Não há mecanismo de dissimulação capaz de encontrar justificativas para esse fato, nem para o mal que ele exerce sobre o próprio caráter da população israelense. 

Relações Internacionais: Cada passo que tomamos para nos distanciar da solução de “dois Estados para dois povos” é um passo em direção ao isolamento internacional. Se antes de 1967, éramos vistos como um país heroico, de existência quase-milagrosa diante das dificuldades econômicas e militares impostas por nossos vizinhos, hoje somos encarados como potência ocupadora e repressora de quase 4 milhões de vítimas. Durante a maior parte da história do sionismo, enchemos o peito para afirmar que sempre estivemos do lado de uma solução que dividisse a terra entre os dois povos mas nossos vizinhos árabes e palestinos sempre a recusaram. Desde novembro último, como brilhantemente explica meu amigo Michel Gherman em seu blog, oficialmente optamos por trocar de papéis.

Israel deve se apressar em retornar às negociações se tem interesse que estas sejam feitas sob os seus termos, por exemplo: apresentar-se disposta a negociar uma divisão de Jerusalém Oriental nos levará a um acerto muitos mais benéfico do que ignorar que haja uma questão a ser definida e, futuramente, caia sobre nossas cabeças um modelo consensual internacional, segundo o qual poderemos perder o livre acesso que temos a áreas além das fronteiras de 1949-1967, como o Muro das Lamentações e a Universidade Hebraica. O mundo desistirá em breve de sua insistência na criação do Estado palestino e passará a exigir que tenhamos a dignidade de assumir que anexamos a Cisjordânia. Se isso acontecer, por mais que muitos finjam ser possível outro caminho, nos será imposto o dilema entre conceder cidadania aos palestinos ou viver em um Estado de apartheid. Em ambos os casos – ainda que no segundo isso possa levar alguns anos – daremos adeus ao sonho do Estado Judeu. Qualquer governo que se recuse a admitir este simples fato não é um governo sionista de verdade

Economia: No mundo globalizado em que vivemos, os países organizam-se em blocos regionais para enfrentar a concorrência econômica internacional. Apenas um acordo definitivo com os palestinos nos permitirá o reconhecimento mútuo e completo com nossos vizinhos e nossa inserção no crescente mercado consumidor do Oriente Médio. Poderíamos sonhar, inclusive, com um mercado comum, que derrubasse barreiras alfandegárias e nos permitisse aproveitar o crescimento econômico dos países petrolíferos do Golfo Pérsico. A paz duradoura representaria também uma redução no custo de vida, através da compra de mercadorias que nossos vizinhos podem nos oferecer a preços inferiores aos que pagamos atualmente a exportadores mais distantes. Inclusive água e petróleo. Laços comerciais gerariam uma interdependência bastante saudável para a criação da consciência de que partilhamos de um futuro comum. Contribuiriam para a criação de laços pessoais.

Turismo: Ainda no âmbito dos ganhos financeiros, a indústria do turismo poderia passar por uma revolução. Milhões de cidadãos dos países árabes poderiam se livrar dos tabus sociais e visitar Israel. O velho hábito de conhecer diversos países em uma única viagem poderia também ser aplicado à nossa região, que se livraria dos boicotes a determinados passaportes, carimbos e vistos. O cidadão israelense também usufruiria, logicamente, de uma série de destinos a nossa volta, onde poderia desfrutar de férias sem ter que encarar vôos mais longos. Sem mencionar o fato de que o vôos de Israel para diversas partes do mundo seriam encurtados (em até 90 minutos), se os países árabes e muçulmanos à nossa volta concedessem às aeronaves israelenses autorização para sobrevoar seus espaços aéreos.

Trabalhadores estrangeiros: Assunto na moda entre a direita racista, o crescimento do número de trabalhadores africanos presentes no mercado de trabalho israelense poderia ser facilmente revertido à situação anterior, em que as fronteiras eram abertas para os palestinos que queriam vir trabalhar em Israel. Morando aqui do lado, os trabalhadores palestinos não precisariam mudar-se para Israel e ainda contribuiríamos para a redução da alta taxa de desemprego nos territórios. Poderíamos seguir acolhendo refugiados das guerras civis locais, mas sem a necessidade de atração proposital de uma mão-de-obra que já foi europeia-oriental e hoje é asiática e africana.

Orçamento e investimento: O fim da ocupação representaria o fim imediato de todo um custoso aparato militar dentro dos territórios. Posteriormente, a normalização das relações entre Israel e os demais países da região poderia contribuir para mais cortes no orçamento da defesa. Um país cheio de desigualdades sociais (as maiores do mundo desenvolvido) não pode seguir gastando mais de 6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) – e 16% de todos os gastos governamentais – no orçamento de defesa. Adicionalmente, cada centavo gasto em infraestrutura nos territórios é um centavo investido em terras que, provavelmente não ficarão sob autoridade israelense em um acordo futuro e, consequentemente, é um centavo a menos investido no futuro de Israel. Todo esse dinheiro, tanto do orçamento militar quanto dos investimentos em infraestrutura nos territórios, poderia estar sendo gasto dentro de Israel, não apenas em infraestrutura – ainda que esta também seja uma necessidade – mas também em saúde, serviços para a população e educação de nossa próxima geração, além de poder ser parcialmente revertido em cortes nos impostos que pressionam nossa cada vez mais empobrecida classe média.

Estes são apenas alguns exemplos de como usufruiríamos do estabelecimento de um Estado palestino independente, ao nosso lado. Sequer falamos de assuntos menos urgentes, como intercâmbios culturais e esportivos, ou da maior boa vontade que o resto do mundo teria para conosco em termos de comércio e cooperação. Tampouco pode ser ignorada a triste realidade da juventude israelense, automaticamente convocada ao serviço militar após o Ensino Médio. Dezenas de milhares de rapazes e moças que anualmente interrompem suas vidas por, respectivamente, três e dois anos e submetem-se a uma experiência que sem dúvida molda sua personalidade. São incontáveis as áreas a serem beneficiadas por um acerto definitivo com os palestinos, e a consequente estabilidade regional que ele nos traria. A normalização da vida em Israel só ocorrerá com o fim da ocupação, que deveria ser a nossa prioridade nacional.

Naturalmente, não venho exigir de ninguém um comportamento ingênuo. O Estado deve seguir capaz de defender-se, e muito bem. Mas parte deste esforço de defesa também passa por não criar razões de inimizade regionais. Como afirmei no início, não devemos almejar a paz a curto prazo, mas sim o fim da ocupação, dos desafios morais que ela nos impõe e do mal que nos causa. São inúmeros os casos de povos vizinhos que, por séculos, muitos mais tempo do que o conflito aqui já dura, se odiaram e se enfrentaram. Mas suas lideranças foram corajosas o suficiente para emergir em meio ao ódio e à desconfiança e estabelecer acordos. A paz, que só é verdadeira se entre os povos, vem com o tempo, após algumas gerações. Devemos desocupar a Cisjordânia por que os palestinos e os judeus merecem ser um povo livre em sua terra e atualmente não o somos. Ambos os povos somos reféns da ocupação.

Só não enxerga quem não quer.

Fonte dos dados sobre o orçamento e os gastos militares:

http://www.tradingeconomics.com/israel/military-expenditure-percent-of-gdp-wb-data.html

Foto de destaque:

http://media.cmgdigital.com/shared/lt/lt_cache/thumbnail/960/img/photos/2013/01/07/39/1a/e0abf0d98e764041bcd222c21cbc83cf-27dd86811c9e429aabfa45fda9011577-0.jpg

Comentários    ( 56 )

56 Responses to “Estado palestino, prioridade sionista”

  • Mario Silvio

    22/01/2013 at 01:39

    “a) “Ele direciona boa parte dos recursos recebidos pelos palestinos ao ensino do ódio a Israel”
    Você tem provas desta sua afirmação ou é apenas uma opinião jogada ao vento?
    b) “Os livros das escolinhas do Fatah são iguais aos do Hamas”
    Você tem provas desta sua afirmação ou é apenas uma opinião jogada ao vento? Você poderia indicar quais livros?”

    Sério Marcelo? Acho impossível que você não saiba que os livros escolares palestinos pregam o ódio, já que existem milhares de fontes atestando isso, mas como você pediu, vamos lá:

    http://www.theaustralian.com.au/opinion/world-commentary/hate-v-hate-as-peace-is-sidelined/story-e6frg6ux-1226047182848
    Trecho:
    “On the Arab side, new research shows a disturbing policy of incitement from the time Palestinian children begin school.
    And the Palestinian Authority continues to glorify terrorists. The PA’s Minister for Prisoners’ Affairs, Issa Karake, last month visited the family of the man who planned Israel’s Passover massacre, Abbas Al-Sayed, and gave them a plaque to mark the anniversary.”

    http://www.impact-se.org/docs/reports/PA/PA2011.pd
    Trecho:
    “The Palestinian Authority school textbooks cling firmly to four fundamentals:
    (1) Disclaim Jews’ rights and Israel’s existence
    (2) Demonize both Jews and Israel
    (3) Present the Arab-Israeli conflict in a slanted way;
    (4) Don’t advocate tolerance and peace, but rather
    Advocate martyrdom and violent struggle ”

    Finalizo com um site que contém fotos e trechos de livros:
    http://www.eufunding.org/Textbooks/NewSchoolbooks.html

    Um dos exemplos:
    Lurratuna Aljamila (Grade 1)
    Our Beautiful Language Part 2
    Page 106: Shahids – a song dedicated to Shahids “Your Shahids, salt of the earth, you grew up in blood.

  • Mario Silvio

    22/01/2013 at 01:52

    Do Marcelo Treistman sobre o post do Augusto Langer:

    “Você tem provas desta sua afirmação ou é apenas uma opinião jogada ao vento?”
    sobre fatos de conhecimento público!
    “Eu desqualifiquei apenas as suas “informações” porque eu não acho que elas sejam verdadeiras… ”
    Idem
    “Eu procurei e não achei.
    Continuo afirmando que as suas informações não são verdadeiras e são frutos de um senso comum perigoso e danoso para o futuro de Israel.
    Não há uma só informação dada em seu comentário que resista a uma verificação mais profunda e séria da questão.”
    Idem

    ” traga os “números” e “evidências” para engrandecer o debate e então será possível discutir os fatos…”
    Apesar de não estar envolvido, no intuito de engrandecer o debate, citei algumas fontes, de origens bem diversas, sobre o assunto livros “didáticos”.

    Ainda com o mesmo intuito:
    http://www.haaretz.com/news/pa-names-ramallah-street-after-hamas-terror-mastermind-1.891
    The Ramallah street was named for notorious Hamas suicide bomb mastermind Yihyeh Ayyash, also known as the “engineer,” who was the architect of multiple attacks, including a 1994 bombing of a Tel Aviv bus, which killed 20 people, and injured dozens.

    http://www.nytimes.com/2010/04/14/world/middleeast/14westbank.html?_r=0
    Itamar Marcus, director of Palestinian Media Watch, an Israeli organization that monitors Palestinian society, said the honoring of Mr. Ayyash is widespread. In 2007, for example, Al Quds University, which many consider a moderate campus, devoted a week to the 11th anniversary of his death, including an art competition.

    Marcelo,
    Sinceramente não entendi o que você pretendeu contestando coisas que todo mundo sabe.

  • Mario Silvio

    22/01/2013 at 02:00

    Só mais uma (prometo) coisinha Marcelo,
    “d) “existem evidências fortíssimas de que ele foi um dos articuladores do ataque terrorista aos atletas israelenses nas Olimpiadas de Munique“.
    Sério mesmo? Que evidências? Você poderia dividir este material conosco ou são apenas informações jogadas ao vento?”

    É mesmo importante saber se ele articulou ou não ESTE ataque? Não bastam as outras proezas dele?
    “Kuntar was convicted in 1979 of dragging 4 year-old Einat Haran and her father, Danny, from their Nahariya apartment to a nearby beach, where he murdered the little girl by smashing in her head with his rifle butt and killed her father by shooting him in the back and drowning him in the Mediterranean”
    É pouco?

    • Marcelo Treistman

      23/01/2013 at 16:44

      Olá Mario,

      Agradeço pelos links e fontes trazidas.

      Analisei com a atenção necessária todas as “informações” que você postou e afirmo que desqualifico todas sem exceção. A grande pergunta ao Augusto era que ele relacionasse tais condutas ao Abbas como ele afirmara em suas mensagens. Nem ele, e nem você, conseguiram passar no teste… Senão vejamos.

      a) O link dos livros escolares (de 2003) não comprovam que a confecção foi ordenada pelo Abbas. Livros racistas existem também do nosso lado. O Exemplo claro, é o livro Torat Hamelech, publicado no ano passado, que incentiva o assassinato de Goym. Não é por isso, que você afirma que o Bibi não poderá ser considerado um “parceiro para paz”.

      b) O link que fala da “honra” oferecida a um terrorista palestino com o seu nome em uma rua de Ramalah, não comprova que a influencia de Abbas na questão. Seria o mesmo que dizer que as Yeshivot que determinaram uma reza especial a Baruch Golstein (assassino judeu que matou 29 árabes no tumulo dos patriarcas) foram influenciados pelo Bibi.

      c) Você pergunta sobre a questão de munique: “É mesmo importante saber se ele articulou ou não ESTE ataque?”. Ora, para a questão que eu coloquei ao Augusto sim é importante. Se para ele é importante afirmar que o Abbas participou desta ação terrorista, para mim é impostante saber qual é a “evidência forte” que ele traz consigo, porque eu desconhecia… Agora entendo que o meu “desconhecimento”, era porque – de fato – esta evidência não existe…

      ISto posto, Mario, gostaria de chamar a sua atenção de que as palavras são importantes… O Augusto fez acusações sérias ao Abbas e não conseguiu trazer nenhuma comprovação de suas afirmações. Eu vejo um grande problema, quando “opiniões” e “fantasias” são colocadas como se fossem “informações verídicas e comprovadas…

      Eu confio 100% no Abbas? É claro que não… Estou disposto a dialogar com ele, enfraquecendo o Hamas e vislumbrando um futuro diferente para Israel? É claro que sim…

      Um grande abraço
      Novamente agradeço a sua participação!

  • Eduardo

    23/01/2013 at 09:38

    João, Claudio… cobro posicionamentos com relação aos refugiados porque o texto começa com a expressão “consciência moral”. Mas parece que há clara adesão ao ‘fato consumado’ de que os palestinos foram expulsos e não mais voltarão.

    Este é o nó aparentemente sem saída do ‘sionismo real’, o fato de que não poderiam fundar um estado democrático e judeu em 1947 sem que os palestinos deixassem suas casas e terras, e eles deixaram suas casas a força, ou sob terror, ou porque não é bacana viver baixo uma guerra. Nenhum dos três motivos me parece justificativa para que suas casas e terras sejam tomadas.

    O que rima menos sentido ainda é a comparação entre os refugiados palestinos e os colonos israelenses. Fiquei com a impressão de que se disse: ‘se os colonos judeus voltarem, qual o problema dos palestinos não voltarem?’ Lembremos que os colonos são colonos, e os refugiados, refugiados.

    • João Koatz Miragaya

      23/01/2013 at 18:07

      Bom, Eduardo, vou te responder mesmo que não ache que seja o momento adequado. Eu ainda pretendo escrever sobre o tema, e o Claudio, repito, NÃO PROPÔS SOLUÇÃO NEM FRONTEIRAS. Só escreveu sobre o bem que seria para Israel a criação de um Estado palestino. Eu acho que o texto correspondeu muito bem à ideia, quando for o momento de falar sobre como, ele certamente não esquecerá esta questão.

      “Mas parece que há clara adesão ao ‘fato consumado’ de que os palestinos foram expulsos e não mais voltarão.”

      Já não é a primeira vez que discuto o assunto contigo e sou sempre obrigado a afirmar que uma minoria foi vítima de expulsão, de acordo com os registros. Lamentavelmente eu não tenho acesso a obras que não sejam em hebraico para te citar. Mas você segue repetindo que “os palestinos foram expulsos”. Não entendo qual a sua intenção quando afirma e reafirma uma verdade bastante questionável.

      “Este é o nó aparentemente sem saída do ‘sionismo real’, o fato de que não poderiam fundar um estado democrático e judeu em 1947 sem que os palestinos deixassem suas casas e terras, e eles deixaram suas casas a força, ou sob terror, ou porque não é bacana viver baixo uma guerra. Nenhum dos três motivos me parece justificativa para que suas casas e terras sejam tomadas.”

      Não faço a menor ideia do que seja o ‘sionismo real’ citado por você. Certamente não era objetivo da liderança do ishuv expulsar árabes, os arquivos não mostram sequer discussões deste tipo. Na oposição, sim. Parte do movimento revisionista sim desejava a expulsão dos árabes, mas estes não tinham o comando da operação. O Plano de Partilha foi aprovado pela ONU em 29 de novembro de 1947. Em 30 de novembro você sabe como reagiram os 1,2 milhão árabes residentes no local? Iniciaram uma guerra civil contra os judeus residentes em todas as áreas da ainda colônia britânica, alegando que não reconheciam a divisão do território. Eu, ainda assim, não acho justo que Israel tenha expulsado ninguém, e tampouco tomado suas casas. Mas analisar uma história conturbada como esta “esquecendo-se” propositadamente a atitude da liderança árabe também é perigoso.

      “O que rima menos sentido ainda é a comparação entre os refugiados palestinos e os colonos israelenses. Fiquei com a impressão de que se disse: ‘se os colonos judeus voltarem, qual o problema dos palestinos não voltarem?’ Lembremos que os colonos são colonos, e os refugiados, refugiados.”

      Neste ponto eu estou 100% de acordo com você. Acho que os dois lados devem abrir mão de algo para que se alcance a paz, não adianta cobrar só dos palestinos. Os refugiados deveriam ser indenizados pelo que perderam e os assentamentos deveriam ser 100% desmantelados, na minha opinião. Não é justo um acordo em que só um lado abre mão. Os colonos, obviamente, também devem ser indenizados, pois foi o Estado quem os colocou ali.

      Mas você aqui embaixo, Dudu, tocou num ponto interessante: alguém já perguntou aos refugiados se eles querem viver em Israel ao invés de na Palestina? Quem me questionou sobre isto foi o ex-terrorista Bassam Aramin, do grupo pacifista judaico-árabe Guerreiros da Paz. Antes que eu tenha esta resposta, prefiro não sugerir nada. Pode ser que eles nem queiram.

    • Claudio Daylac

      23/01/2013 at 19:09

      Eduardo,

      Eu não estou comparando refugiados palestinos a colonos israelenses. Estou falando da comunidade judaica milenar que vivia em Hebron (e outras áreas da Cisjordânia) até a guerra eclodir. Eles também foram expulsos e, eu espero, não morarão lá sob um acordo definitivo. Parte da cicatrização das “feridas da guerra” é que ambos os lados engulam essas mágoas e passem a viver dos seus respectivos lados da fronteira.

      Exatamente por isso, sou a favor da desocupação dos territórios.

      Você está convidado a comentar e perguntar a minha opinião sobre os assuntos que quiser.

      Mas não está convidado a me cobrar abordar nenhum assunto. Eu me propus a escrever um texto que não fosse nem um pouco minucioso. Não quis discutir cada ponto de um possível acordo de paz. Já expliquei que entrar em minúcias é tolice, uma vez que nenhum de nós participa das negociações.

      Um abraço.

    • Eduardo

      24/01/2013 at 05:39

      Não pago para ler o site, não sou patrão de ninguém pra fazer cobranças. Entendo que a questão dos refugiados é central pra quem tente pensar o sionismo em cima de uma consciência moral humanista e minimamente civilizada. E há um completo silêncio sobre isso na sociedade Israelense. Queria saber a posição de quem pensa na resolução do conflito baseado nessa coisa aí que chamamos de consciência moral, valores etc, só isso… Ninguém tá obrigado a responder nada não…

    • Marcelo Treistman

      24/01/2013 at 11:27

      Em breve você você poderá encontrar as opiniões de cada autor sobre o assunto!
      Agradeço a sua participação!

  • Eduardo

    23/01/2013 at 09:42

    A outra falácia, no caso, afirmar que os judeus que foram expulsos dos países árabes durante a guerra não poderão voltar. Meus familiares foram expulsos do Egito, mas nunca exigimos nosso direito ao retorno. Mas isso não quer dizer que o nosso direito ao retorno não siga sendo direito. Quem quiser voltar, cobra e volta.

  • Lava Fabio

    02/06/2013 at 17:46

    http://www.mako.co.il/news-channel2/Friday-Newscast/Article-e42c7ca0fabfe31004.htm

    Nunca pensei que chegariamos tao rapido neste ponto. Toda a questão de dois estados para dois povos é que este é o único caminho para a sobrevivência do sionismo. Um estado binacional é o fim do sionismo e o caminho para uma guerra civil. Um estado com cantões estilo Africa do Sul pré Mandela é impensável. Tem muito pouca areia, o tempo está acabando para dois estados….

  • Michel Gherman

    31/05/2015 at 23:21

    claudio, parabens pelo excelente artigo. Com tudo que já foi escrito aqui posso, pontualmente, concordar ou discordar, mas isso importa menos,o que importa mais, e esse é o grande mérito de artigos como o do claudio, é discutir a ocupação a partir da lógica sioista. Nestas últimas inversões promovidas pela direita israelense, qualquer crítica a ocupação se transforma lentamente em um discurso antissionista (e por vezes antissemita), enquanto que o apoio a loucas politicas expansionistas de messianicos lunaticos passa a ser sionismo. Mais do que o Iran e suas armas, mas do que o hamas e sua teocracia estupida, mais do que o ISIS e seu fundamentalismo de ostentação, esse é o maior risco a existência de Israel e do sionismo como projeto nacional. Assim, se calar diante dessa estupidez, secalar diante daqueles que monopolizam o discurso sionista, deixar quue nos tomem a força o debate do sionismo é um erro estratégico, que nos custará muito caro. Assim, escrever, falar e discuir os destinos da ocupação, seja em termos morais, estratégicos ou políticos é uma necessidae estratégica. O silêncio dos sionistas hoje, pode custar a vida do sionismo e o fortalecimento de um neo sionismo (como escreve Uri Ram) que se encaminha para a criação de um Estado da Judeia, onde todos nós que lemos esse artigo não desejaríamos estar e de onde, de qualquer maneira, seráiamos enxotados.