Eu não conheço Itzhak Rabin

09/11/2015 | Opinião; Política; Sociedade

Eu tinha apenas 9 anos quando Rabin foi assassinado. Ainda vivia no Brasil e não tinha noção do impacto que três tiros disparados por um extremista religioso seriam capazes de provocar.

Hoje, já um israelense, contemplo ano após ano uma estranha sensação ao pensar na morte do ex-primeiro-ministro. Sinto uma nostalgia de tempos que não vivi. Uma ausência de algo que nunca esteve presente na minha vida. Cultivo uma idolatria por um ser humano que não cheguei a conhecer. Reconheço essa esquizofrenia em grande parte da sociedade israelense, o que me concede um certo conforto; um alívio por saber que não sou o único a tentar recriar memórias baseadas em informações que não se encontram no “banco de dados”.

Durante esse processo introspectivo me questiono sobre a nossa capacidade de viver pelo espírito de um grande líder. Como nossa mente é capaz de abstrair a realidade e nos conduzir a um período em que nos faltam ferramentas para entendê-lo? Será o vácuo ideológico que paira por ares israelenses o responsável por tal fenômeno?

Percebo, então, que esse lapso emocional que tantos sofrem é a demonstração de que Rabin teve a capacidade de transcender espaço e tempo; de ganhar existência onde não havia condições para mesma.

Percebo que o ex-primeiro-ministro tornou-se uma ideia a ser materializada. Hoje, eu e milhares de israelenses vivemos numa incessante busca pela realização dos valores e princípios que Rabin representa. Para alcançar esse objetivo passamos a aceitar uma vida repleta de fragmentos de memória e emoções que nos remetem ao desconhecido. Rabin tem esse poder de nos transportar à uma realidade paralela. E isso nos é suficiente para manter a esperança de que novos tempos virão.

É verdade que a opção de viver sob a sombra do passado nos enclausura e nos impede de enxergar o novo e acreditar em outras possibilidades. Mas essa é a doença com a qual escolhemos viver. Ela nos consome na mesma medida em que nos cura.

Muitos afirmam sentir falta de Rabin. Mas, como podemos sentir falta de alguém que não esteve presente em nossas vidas? O fato é que a saudade que sentimos não é sinal da ausência daquele que para muitos se tornou um herói nacional. Essa sensação de falta é a tentativa de eternizar a sua presença no imaginário popular.

Vivemos um ensaio sobre a loucura política em Israel, mas com o tempo nos tornamos conscientes desse quadro. Com os anos, deixamos o homem de lado para convivermos com seu espírito. Passamos a sentir falta de Rabin como ideia, como valor e razão política. Espero que um dia a sociedade israelense possa materializar esse Rabin em um novo personagem. Até lá, sinto dizer, estamos fadados a viver como esquizofrênicos.

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Eu não conheço Itzhak Rabin”

  • Rita Burd

    09/11/2015 at 15:02

    Nobru, como sempre o teu texto e as tuas teses são excelentes

  • Marcelo Starec

    09/11/2015 at 16:56

    Oi Bruno,

    Excelente texto!!!…Eu tive a oportunidade de conhecer (acompanhar) o Rabin e uma parte da sua trajetória…Ele sempre foi linha dura – e não tinha nenhum tipo de discurso “pacifista” ao longo de sua vida, muito pelo contrário…Ele tinha plena consciência das reais dificuldades de lidar com os vizinhos…Em um determinado momento, ele mudou o seu discurso, acredito que muito por pressão do Clinton, que queria deixar um legado de uma construção de algum tipo de acordo de paz…O Clinton pressionou muito ao Rabin e este, em meu entendimento, foi quase que obrigado a ceder…Eu na época estava tão feliz!!!…Eu achava que o caminho da paz seria traçado com uma certa facilidade…Seria mera questão de tempo e os EUA nos ajudariam a chegar lá…Infelizmente, essa mudança abrupta no discurso de Rabin não foi bem recebida por uma minoria irrelevante mas barulhenta e ativa, extremista, em Israel…mas longe desse ter sido o único problema…Ao contrário, o Arafat continuava a incitar a violência para o seu povo e o Rabin dizia que uma coisa independente da outra (podemos lidar com a violência e negociar a paz, ao mesmo tempo!). Eu na época concordava, mas hoje discordo, pois como você vai de certo modo “apoiar a violência contra civis e legitimá-la”…Quem disse que essa violência pararia depois?…O Arafat por fim recusou-se a fazer qualquer tipo de concessão, inclusive na absurda reivindicação de milhões de refugiados, o que, todos sabem, torna inviável qualquer acordo…Em minha modesta opinião, o Rabin era um excelente político, deu a sua vida pelo país, e não é diferente de tantos outros…Ele estava no lugar certo na hora certa, ou no lugar errado na hora errada – eis que pagou com a sua vida por isso e ganhou essa importância sem igual na história de Israel…O Beguin fez um excelente acordo de paz com o Egito e tivesse ele sofrido o que Rabin sofreu, possivelmente seria hoje lembrado do mesmo modo…Hoje, creio, o importante é antes de mais nada, construir toda uma infra-estrutura de paz, exigindo e cobrando essa construção das lideranças palestinas, que infelizmente não tem interesse em fazê-lo…Querem uma especie de um “feudo”…Não querem a democracia, a tolerância e a coexistência…Infelizmente, seremos nós obrigados a “plantar” esses valores por lá, à revelia das atuais lideranças….

    Abraços,

    Marcelo.

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