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Eu não tenho medo do “Mein Kampf”

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por Carlos Reiss

Em 2016, expiraram os direitos autorais de “Mein Kampf”, autobiografia de Adolf Hitler. Ao contrário do que muitos acreditavam, a circulação de “Mein Kampf” não estava proibida na Alemanha até o início desse ano, como é o caso de símbolos nazistas. Na verdade, os direitos pertenciam ao estado da Baviera, que sempre se recusou a republicá-lo. O governo inclusive defendia que, excepcionalmente nesse caso, os direitos não caíssem em domínio público, pois temiam uma onda de edições que poderia provocar um crescimento de grupos nacionalistas com ideias neonazistas.
Com os direitos expirados, editoras em todo o mundo anunciaram a publicação de versões comentadas. Numa delas, estavam previstas 3.700 notas de rodapé! Em Munique, berço de tudo, uma equipe de pesquisadores preparou, durante três anos, os comentários históricos para contextualizar a obra e dissecar o discurso de ódio. Uma leitura totalmente crítica, com o intuito de desmistificar o texto original. O objetivo é pedagógico em sua essência.

Porém, há quem defenda que nenhum benefício educativo poderia compensar o mal absoluto que aquele texto “venenoso” sempre fez. No Brasil, advogados e grupos políticos (judaicos) já saíram bradando em voz alta, com apoio do Ministério Público e de órgãos de classe. A publicação da obra é proibida através da decisão final do STF, após o “Caso Castan”, em 2004, baseada no artigo 20 da Lei 7.716/89, que estabelece pena de reclusão de um a três anos para quem “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”.

Em Israel

A controvérsia sobre a publicação ou não, obviamente, chegou a Israel — muito antes, há décadas, porém hoje sem tanto alarde. No final dos anos 1980, o sobrevivente do Holocausto, Dan Yaron, encabeçou uma campanha que culminou com a elaboração de uma versão encurtada e comentada em hebraico, utilizada nas universidades israelenses. Yaron, que morreu em 1999, lutou para que o livro, proibido até então, fosse publicado em hebraico para fins educativos, o que foi realizado pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Uma vitória da educação, que proporcionou grandes avanços nas pesquisas históricas.

O professor Meir Litvak, especialista em textos do Holocausto, destacou que “há uma rejeição emocional” compreensível pelo livro e que nenhuma editora israelense o publicaria seco, sem comentários. Em Israel, não seria necessária uma legislação revisada. Atualmente, o professor Dan Michman, chefe do departamento de pesquisa do Yad Vashem, trabalha numa dessas versões comentadas com 3.500 notas explicativas. Para ele, é positivo publicá-lo num contexto mais amplo: “serão incluídas uma série de questões em torno do texto — onde, quando e como as ideias de Hitler foram traduzidas em ações”.

O próprio Yad Vashem já publica, há anos, trechos comentados da obra tanto em seu site quanto em estudos históricos de nomes fortíssimos como Yehuda Bauer, David Bankier, Israel Gutman, Yitzhak Arad e Avraham Margaliot. Ao contrário do Brasil, não existe em Israel uma campanha desenfreada e perturbada de grupos judaicos para proibi-lo em qualquer situação. Pelo contrário.

Documento histórico

Tudo isso é uma pirotecnia. “Mein Kampf” não pode ser visto “só” como um texto racista, preconceituoso e discriminatório que — sem dúvidas — é. Ele é um documento histórico importantíssimo para as novas gerações. Fala-se tanto em “lembrar”, “não esquecer”, “Holocausto nunca mais”… e isso só será possível se realmente lembrarmos. O livro é uma forma eficiente de educar e mostrar o quão absurdas eram essas ideias. Ele precisa ser estudado, comentado; enfim, lembrado. Assim se educa.

O clamor pela censura só se justifica por uma visão limitada de História ou por ódio e rancor. E não se cura ódio com ódio. Se cura com educação, com transmissão de lições morais e éticas. Defender a censura é uma jogada política. Política, equivocada e burra. O fim dos direitos autorais do “Mein Kampf”, mais do que a possibilidade de ser publicado, é uma oportunidade para que esse texto seja difundido legalmente, estudado, compreendido e usado na luta contra o Racismo e o Antissemitismo. O historiador Nélson Jahr Garcia disse que o “Mein Kampf” foi a melhor obra já escrita contra o próprio Nazismo: “quanto mais se conhecer, maior se tornará o repúdio e aversão”.

Eu não tenho medo do “Mein Kampf”, e explico abaixo.

1) A obra, em pleno século XXI, só é capaz de convencer àqueles predispostos. De acordo com muitos historiadores e autoridades alemãs, os neonazistas encontram nessas páginas poucos elementos com os quais se identificam. Como destacaram os jornalistas Ricardo de Querol e Luis Doncel: “tirando seu evidente valor como documento histórico, Minha Luta, hoje em dia, é apenas um plúmbeo e reiterativo ensaio repleto de argumentos pseudocientíficos e pseudohistóricos que não resistem a uma análise séria”. Para o historiador Marc Buggeln, professor na Universidade Humboldt e especialista no tema, “a obra de Hitler triunfou porque oferecia respostas fáceis aos problemas dos princípios do século XX. Mas elas não funcionam para o mundo atual”.

2) O livro pode ser encontrado, sem muitas dificuldades, em edições antigas ou na internet, em qualquer idioma. Rapidamente. Por isso, historiadores concordam que a estratégia de silenciá-lo não faz sentido. O escritor britânico Antony Beevor, uma referência acadêmica, destacou: “a tentativa de ocultá-lo, seja através do tabu social ou da legislação, só serve para aumentar o atrativo do proibido. Os neonazistas e os jihadistas poderão citá-lo, mas essa é uma razão a mais para dispor de exemplares que demonstrem a desonestidade intelectual e as falácias que impregnam cada página”. Os benefícios são infinitamente maiores do que qualquer prejuízo ou medo. O saudoso ativista comunitário mineiro Marx Golgher, há muitos anos, já defendia: “aproveite a internet e leia. Entenda sua retórica. Perceba por que ele fascina os racistas. Entenda por que é preciso se defender deste texto”.

3) Agrada-me a ideia de versões comentadas. Porém, não é possível exigir que qualquer obra seja obrigatoriamente comentada. Vejo as notas explicativas com bons olhos, importantes, mas esse é um precedente perigoso. O novo testamento, por exemplo, interpreta a morte de Jesus (principalmente no Evangelho de Matheus) como um crime cometido pelos judeus, um deicídio — mito difundido popularmente até hoje. Por ele, milhões foram mortos em séculos. Não podemos obrigar que se publique o Novo Testamento apenas com comentários. Ou a obra antissemita de Martinho Lutero. Como uma legislação lidaria com isso? Alguns historiadores poderiam comentar e outros não? O “Mein Kampf” é um documento histórico. E com o passar do tempo, passou a ser mais do que um veículo de propaganda.

4) Inúmeros documentos e discursos (inclusive do Hitler), até mais veementes e específicos sobre a discriminação e extermínio do povo judeu, são publicados livremente e usados como fonte de pesquisa e estudo em todo o mundo. E não são censurados. Porque só o “Mein Kampf” seria?

5) Muitos condenam a publicação em razão do lucro a ser obtido com a obra. Esbravejam que “Mein Kampf” não pode ser fonte de lucro para nenhum editor. O argumento é descabido, já que há muito tempo a sociedade transformou ideias em mercadorias. Outro problema que uma legislação específica enfrentaria — no caso brasileiro, indo contra a própria Constituição.

6) Sobreviventes do Holocausto sentem-se atacados e insultados com a publicação. Este é um argumento sentimental, emotivo, e serve de legitimação para a estratégia (burra e equivocada) de censura. Existe um respeito incomensurável por cada sobrevivente, que sofreu o que não podemos imaginar. Mas, a construção de uma memória coletiva universal do Holocausto pressupõe a transformação de traumas em lições, de comoção em consciência histórica, de dor em ensinamentos.

7) A Shoá pode ser um alerta ou um precedente. Só deixará de ser precedente se for estudada, que suas lições sejam compreendidas e incorporadas. Para isso, as fontes históricas precisam ser disponibilizadas. Caso contrário, o discurso do “Nunca mais” torna-se vazio, causado pela dificuldade de compreensão das causas do Holocausto — e, consequentemente, de sua transmissão aos jovens.

Eu não tenho medo do “Mein Kampf”.


Carlos Reiss é coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, única instituição no Brasil que uniu os trabalhos de memória, educação e pesquisa com um projeto museológico sobre a Shoá. Jornalista, especialista em Geopolítica e Relações Internacionais, egresso da Escola Internacional para o Estudo do Holocausto do Yad Vashem, em Jerusalém, e da Fundación Bamá de Educación y Cultura, em Buenos Aires. Professor de Ética e História Judaica na Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann e no Centro de Línguas e Interculturalidade da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Viveu por 5 anos em Jerusalém.


 

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5 opiniões sobre o artigo “Eu não tenho medo do “Mein Kampf””

  1. Fábio
    12/02/2016 em 05:23 #

    Caro Carlos:

    Escrevi esses dias a respeito do assunto e uma boa parte dos seus argumentos pela não censura do “Minha Luta” eu mencionei. Penso igual.

    Entretanto, algumas considerações também são necessárias.

    Em resumo: o livro incita ao ódio. Demoniza todos os judeus. Cerca de 80% do conteúdo ocupa-se disso.

    Se um livro escrito em 1925 fizesse o mesmo, mas o alvo não fosse os judeus e o texto não tivesse qualquer relação com um genocídio (como o “Minha Luta” tem…), mas sim contra islâmicos; contra negros; contra mulheres; contra gays; contra hispânicos; contra índios…e por aí vai.

    A sociedade brasileira e os respetivos grupos engajados em anti-difamação ou das comunidades mencionadas teriam ou não direito de reclamar contra a incitação ao ódio e a demonização?

    E os “Protocolos dos Sábios de Sião”, igualmente proibido, embora não seja um livro autoral, mas só uma invenção da polícia do Kzar, também é um documento histórico. Esse pode ser publicado?

    Não advogo censura. Mas acho que o debate é bastante complexo.

    Com um abraço, Fábio.

    • Carlos Reiss
      13/02/2016 em 00:02 #

      Caro Fábio, creio que qualquer documento histórico que pode ser usado como função educativa pode (e deve) ser publicado. Seja ele “Os Protocolos dos Sábios do Sião”, o “Mein Kampf” ou qualquer outro ligado ou não a um genocídio. A educação está acima de qualquer incitação ao ódio. Abraço.

      • Fábio
        13/02/2016 em 21:29 #

        Caro Carlos, não desejando ser retórico. Esse também é o “argumento” dos negacionistas, que se apresentam como “revisionistas”. Eles falam até mais do que em educação, mas de ciência e uma história não contaminada ou dominada.

        Os limites de tudo isso são subjetivos e o assunto pendula entre a expressão de censura e a tolerância com intolerantes.

        Eu não tenho no momento uma resposta definitiva para o tema.

        Com um abraço, Fábio.

  2. Raul Gottlieb
    12/02/2016 em 09:05 #

    Realmente a republicação do livro não mete medo. O que sim é preocupante á a percepção que existe público para o livro a ponto de interessar editores em todo o mundo.

    O ódio aos judeus continua forte, vigoroso, não dá sinais de abatimento. Tivemos um brevíssimo e envergonhado interlúdio de uns 30 anos após 1945, mas foi só.

  3. Raul Gottlieb
    15/02/2016 em 09:25 #

    Caro Carlos,

    Acho importante notar que a publicação atual não tem objetivo acadêmico, visto que o livro pode ser encontrado em muitíssimas bibliotecas de universidades e baixado em forma de pdf pela internet.

    O fenómeno que se discute é a publicação para o grande público de um livro que faz apologia aberta ao racismo, à limpeza étnica, ao genocídio, fora o resto.

    Se o autor tivesse como alvo os negros algum editor se atreveria a republicar o livro?

    O ódio aos judeus continua muito vivo e é tolerado por uma imensa quantidade de pessoas.

    Esta é a questão.

    E penso ser muito prudente ter medo deste fenômeno. Um medo combativo, é claro.

    Abraço,
    Raul

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