Eu, o cidadão

03/08/2013 | Conflito; Cultura e Esporte

Artigo de Sayed Kashua,
Haaretz, 25/07/2013
Traduzido por Yair Mau

Eu, o cidadão

Eu preciso de um acordo de paz. Toda vez que eu olho para o meu filho pequeno eu entendo como é importante para mim um acordo de paz. Não apenas ele ainda não fala sequer uma palavra em árabe, ele também me chama de Said, como o último dos ashkenazim. O hebraico é a língua que ele escuta no jardim de infância, mas em casa eu cuido para responder a ele em árabe – e ele ainda insiste que não entende uma palavra dessa língua estranha que papai Said usa. É verdade que quando visitamos Tira, meus pais ficam maravilhados com o hebraico que sai da boca de meu filho bebê, e não há coisa que emocione mais o meu pai que escutar seu neto lhe chamado em hebraico “saba”, mas isso me constrange muito, e eu não gosto nem um pouco do apelido que meu pai lhe deu, “pequeno Tzion”.

Eu preciso de um acordo de paz para justificar a língua que uso para escrever, eu preciso de entendimentos entre as partes para justificar onde trabalho, o endereço onde moro, a cor do meu RG, o passaporte. Eu necessito um acordo que seja aceito pelos palestinos da Cisjordânia e de Gaza para não morrer de vergonha do fato de eu ser um cidadão.

“Eu sou cidadão”, costumo dizer quando falo perante um público, apesar de toda a dor e embora eu não saiba o quanto o país me considera cidadão, mas eu sou cidadão e atuo, escrevo e penso no papel de cidadão, e se há alguma agenda por trás de minhas atitudes, é a de um cidadão que tenta consertar os caminhos do país onde ele mora. Se apenas vocês soubessem como ainda é difícil para mim declarar que sou cidadão, se apenas vocês soubessem como a declaração deste fato pode ser embaraçosa para mim, e às vezes também ao público a quem me dirijo.

“Eu sou cidadão”, comecei dizendo esta semana a um grupo de jovens judeus americanos que não falam uma palavra da língua israelense e para a maioria se trata da primeira visita. “Eu sou cidadão”, afirmei como de costume e parte de meu corpo tremeu do pensamento que estes jovens, que não sabem que “Eyal Golan lhes chama”, e não tem ideia que “Dudu Aharon procura uma namorada” [dois programas de TV], sentem — e com justiça em seu ponto de vista — contrariando toda lógica possível, que eles são mais cidadãos do país onde estão visitando do que eu, cuja metade do salário vai para impostos.

“Eu ataco as políticas do Estado no papel de cidadão”, disse em um debate esta semana, e quis me enterrar de vergonha quando o palestrante ortodoxo, com um rosto sereno e uma barba sem fim, que estava sentado ou meu lado no painel, foi apresentado como o conselheiro do ministro da educação para assuntos ortodoxos e árabes.

Mas mesmo assim, apesar do ministério da educação, das definições, do hino, da bandeira, da judaização da Galiléia, da redenção do Negev, do Keren Kayemet e da Agência Judaica, a declaração “eu sou cidadão” atinge fundo quando chega à Cisjordância e a Gaza. Será que realmente eu estou disposto a ser um cidadão daquele país?… Daquele? Eu ainda tento a reprimir, como se não se tratasse do mesmo país, do mesmo governo e dos mesmos cidadãos.

Mas enquanto isso eu sou cidadão, e não tenho opção a não ser esperar um acordo de paz entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestina. Uma esperança inútil quase completa, mas ainda sim. Eu, que comemorei nas ruas de Jerusalém com amigos judeus e árabes há 20 anos a assinatura dos acordos, tenho vergonha de ser otimista, tenho terror de desejos em vão, que não explodam e seus estilhaços sejam mais mortais do que nunca.

E como poderá haver esperança com um governo como este? E como ela será possível quando os negociadores do nosso lado não estão fazendo o acordo porque eles creem que os palestinos são dignos de uma vida de liberdade, mas porque eles estão dispostos a engolir o amargo comprimido com muita dor, por nós, pelo Estado de Israel, pelo sionismo e por manter o caráter do Estado Judeu? E do outro lado, como é que podem mandar os mesmos debatedores, que fracassaram uma vez atrás da outra na condução de negociações com israelenses, sério? Saeb Erekat, de novo? E como é possível rezar por salvação se as conversações de paz não são condicionadas à completa retirada israelense de todos os territórios ocupados?

“Eu sou cidadão”, declarei esta semana a um jornalista estrangeiro, decidindo que os acordos de paz sem nenhuma chance são a última oportunidade que eu dou a meu país de ser tornar uma entidade legítima.

“Você está otimista?”, perguntou o entrevistador. E eu tomei o meu tempo e lembrei de meu filho bebê que ainda não sabe que é árabe. Eu o vi sorrindo ao ver suas ‘tias’ quando ele entra no jardim de infância, e lembrei da recepção do resto dos bebês. Sorri quando lembrei que justo tem sim uma palavra que ele fala em árabe. Chuveiro ele diz chamam (חמאם), embora ele pronuncie a letra chet (ח) como chaf (כ). “Eu quero chamam”, diz meu filho.

“Sim”, menti ao jornalista estrangeiro, e tive pena de nós, dos pais, das crianças do jardim de infância, do abismo que nos estão conduzindo aqueles que obedecem os preceitos divinos. Bem no fundo esperava que um dia eu possa explicar a meus filhos o caminho que escolhi para mim e para eles. “Estou otimista”, lhe disse, ao estrangeiro, e sussurrei uma prece sem destinatário, que chegue o dia que eu não tenha mais vergonha de dizer o nome do país do qual sou cidadão.


Sayed Kashua é jornalista, roteirista e escritor. Ele tem uma coluna semanal da edição de fim-de-semana do jornal Haaretz. Seus livros foram traduzidos para diversas línguas, e em 2005 ganhou o Prêmio do Primeiro Ministro a Escritores da Língua Hebraica. Kashua escreveu o roteiro da série de televisão Trabalho Árabe (avoda aravit), onde conta de forma humorística, porém bastante crítica, a vida de uma família árabe que vive em Jerusalém um uma vizinhança judaica.

Comentários    ( )

One Response to “Eu, o cidadão”

  • Mario Silvio

    04/08/2013 at 02:22

    ” E como é possível rezar por salvação se as conversações de paz não são condicionadas à completa retirada israelense de todos os territórios ocupados?”
    Sempre que leio coisas como essa, e tenho lido muitas, penso que conversação/negociação tem um significado completamente diferente em portuguès, que algo se perdeu na tradução.

    Para mim não faz nenhum sentido impor como condição para INICIAR uma conversação/negociação que o outro lado ceda tudo o que eu quero.