Eu sei o que vocês fizeram no verão retrasado

21/06/2013 | Política, Sociedade.

As recentes manifestações no Brasil me inspiraram a escrever sobre um capítulo bem recente da história israelense, que, ao que tudo indica, será rapidamente arquivado junto a outros acontecimentos de pouca importância, e lentamente esquecido pela opinião pública. Trata-se das manifestações por justiça social ocorridas nos verões de 2011 e 2012, deveras distintas entre si, mas que devem ser analisadas em conjunto. O povo saiu às ruas, e, através de marchas nas principais cidades do país com direito a acampamentos populares, exigiu justiça social dentre outras coisas. As manifestações não foram incitadas por nenhum partido político nem movimento pré-existente, e não houve nenhum ato de violência no seu primeiro ano. Sua duração foi de dois os verões, 2011 e 2012, tal qual temporadas de séries televisivas norte-americanas. Veremos agora um pouco da cronologia da chamada em hebraico hamechaá hachevratit e as suas consequências, de acordo com a minha visão, obviamente.

 

São muitos os precedentes, mas o consenso é que o boicote ao queijo cottage foi o pai fundador das manifestações. Eu estava entrando em meu último mês de serviço militar em junho de 2011, e, como quase todo soldado neste país que serve em um quartel fechado [ref]Que volta para casa somente nos fins de semana, quando pouco[/ref] era um tanto quanto alienado em relação a tudo o que ocorria na “vida civil”. Por estas e outras, eu (que não como cottage) fiquei sabendo do boicote só mais de um mês depois, quando havia uma multidão acampada próxima à esquina de onde se localizava o apartamento onde eu vivia com dois amigos, em Tel-Aviv. Para quem não sabe, o cottage foi criado e desenvolvido em Israel e é um alimento básico na dieta do israelense médio. Devido ao fato de a religião judaica não mesclar carne com leite, em Israel há uma cultura, inclusive entre os seculares, de realizar só uma refeição à base de carne por dia, em geral o almoço. Sendo assim, café da manhã e jantar passam a ser refeições chalaviot[ref]À base de leite[/ref], e o cottage pode ser o alimento que contém proteína nas duas. A principal marca produtora do queijo no país decidiu elevar o seu preço em porcentagem exagerada, o que levou a população a organizar um boicote através das redes sociais (especialmente o facebook, muito popular no país) à marca. Tal ação teve efeito imediato, sobretudo após a adesão de mais de 100 mil pessoas. O preço do cottage caiu, o que foi comemorado pelos internautas ativistas.

 

Foto 1: Daphne Leef
Foto 1: Daphne Leef

Pouco menos de um mês depois, a estudante de edição de vídeo Daphne Leef, de 25 anos, foi obrigada a buscar um novo apartamento após ser informada que não teria seu contrato de aluguel renovado por motivo de reforma no seu edifício. Após algumas semanas de busca, Daphne se deparou com preços muito elevados em toda a região metropolitana de Tel-Aviv, que impossibilitavam a jovem de viver próxima ao centro da cidade. Ela, então, recorreu ao facebook avisando a seus amigos e conhecidos que, devido ao alto preço do aluguel na cidade, ela agora passaria a habitar uma barraca no Boulevard Rotschild [ref]Uma das ruas com o metro quadrado mais caro da cidade.[/ref], convocando seus amigos a juntar-se a ela em forma de protesto. Em duas semanas, tanto o Blvd Rotschild em Tel-Aviv quanto a Praça Sião em Jerusalém estavam tomadas por barracas, algo nunca visto antes no país.

 

A concentração de jovens insatisfeitos acampados nas ruas foi só o começo. As ações individuais de pessoas isoladas rapidamente, através do uso de redes sociais na internet, tornou-se um movimento social que se opunha ao alto custo de vida em Israel, sobretudo o preço do imóvel nas grandes cidades. A União dos Estudantes, os movimentos ecológicos e os movimentos juvenis sionistas declararam apoio ao movimento. Os acampados em Tel-Aviv, então, marcaram através do facebook uma passeata em um sábado à noite (23/07), na qual compareceram mais de 30 mil pessoas. Este foi meu penúltimo fim de semana como militar, e confesso não estar compreendendo absolutamente nada do que estava acontecendo. Achava que era uma simples manifestação local, com pouca importância, e não me empolguei quando Jerusalém também marchou (em número 30 vezes menor, é verdade) a favor de justiça social.

Foto 2: Barraca na Blvd Rotschild
Foto 2: Barraca no Blvd Rotschild

 

Minha liberação do exército, no entanto, coincidiu com a segunda passeata, marcada para o sábado seguinte. Toda a cidade de Tel-Aviv estava contagiada pelos protestos, e justo no meu primeiro fim de semana civil após o serviço militar, decidi me juntar aos manifestantes e marchar contra o alto custo de vida. Mais de 80 mil pessoas protestavam em Tel-Aviv pedindo por justiça social. Parte recomendava o 1º Ministro a renunciar. Parte se voltava contra os magnatas e a corrupção dos mesmos. Gritos como “Dimona[ref]Cidade localizada ao sul de Beer-Sheva, uma das mais pobres do país[/ref] e Tel-Aviv, a mesma revolução” ou “Desça para as ruas!”, ecoavam  nas ruas da maior metrópole do país. E não parou por aí. Ao chegarmos à praça onde se encerrou a passeata, escutamos os discursos dos organizadores, entre eles os atuais parlamentares do Partido Trabalhista Stav Shafir e Itzik Shmulik, além da já citada Daphne Leef. Esta última, inclusive, afirmou: “Nós não estamos (sic) aqui para dar as cartas no jogo. Nós viemos (sic) para mudar de uma vez as regras do jogo”. Discurso revolucionário, aplaudidíssimo por todos. Eu me sentia fazendo parte de algo grande.

 

Foto 4: Stav Shafir e Itzik Shmulik
Foto 3: Stav Shafir e Itzik Shmulik

Durante a semana só se falava na passeata do sábado anterior e da que aconteceria em uma semana. O Blvd Rotschild estava cada vez mais abarrotada de barracas, já não se podia pedalar na sua ciclovia. Outras ruas foram tomadas, como os Blvd Ben-Gurion e Nordau (esta, sobretudo, por famílias jovens). Os cartazes acumulavam-se, os acampados viravam a noite em rodas de violão, cinemas populares e mesas redondas sobre todos os temas imagináveis, tendo a política israelense como destaque. No sábado seguinte, como já estava marcado, aconteceu outra passeata: 350 mil pessoas ocuparam as ruas de diversas cidades, sendo mais de 200 mil em Tel-Aviv. O protesto, muito similar ao anterior, me marcou por acontecimento: em Jerusalém, quando um dos líderes das manifestações subiu ao palanque e deu início a um discurso contendo uma série de críticas ao governo, foi vaiado de forma que não conseguiu prosseguir discursando. O argumento dos que o vaiaram era de que o protesto não era contra o governo, mas contra o alto custo de vida. Curioso, não? De fato quase não se viam bandeiras, cartazes e camisas de partidos políticos. O Partido Trabalhista estava se reformulando após o seu ex-líder, Ehud Barak, ter se retirado do partido junto a outros quatro parlamentares por discordar da decisão de abandonar o governo, tomada pela maioria meses antes. Os manifestantes, em reunião com a até então líder da oposição Tzipi Livni (na época do Kadima), alertaram-na de que não queriam que políticos se aproveitassem destas passeatas para popularizarem-se. Fizeram questão de mostrar que não desejavam vincular-se a nenhum partido. Quando afastaram os políticos, no entanto, optaram não só por não vincular-se a partido algum, mas também rejeitaram o rótulo de oposicionistas. Voltaremos aos problemas desencadeados por isto mais tardiamente.

Foto 3: Lema dos protestos. "O povo exige justiça social"
Foto 4: Lema dos protestos. “O povo exige justiça social”

 

Neste momento eu já não estava mais tão encantado com os protestos. Quem conhece um pouco de política israelense sabe que a temática social sempre esteve em segundo plano, principalmente por causa do conflito com nossos vizinhos. O que mais me desagradou, entretanto, foi perceber que governo não era alvo das manifestações de forma oficial nem consensual.

 

Viajei ao Brasil para passar férias com a minha família e não observei de perto as duas últimas grandes passeatas: a passeata da periferia, quando 75 mil manifestantes de cidades menores protestaram no sábado seguinte (Tel-Aviv e Jerusalém tiveram um descanso), e na semana seguinte a famosa passeata do milhão de Tel-Aviv (que na verdade contou com 300 mil na cidade e outros 160 mil no resto do país). A semana anterior havia sido marcada pela ocupação de prédios desabitados por manifestantes, e seguiu-se com a advertência dos mesmos de que caso Netanyahu não tomasse providências em um mês (antes de que a Knesset voltasse do seu recesso), eles tomariam as ruas sem a permissão da polícia[ref]Em Israel, qualquer manifestação com mais de 50 pessoas deve obter uma autorização especial da polícia, que pode vetar o percurso da mesma e indicar um horário mais apropriado[/ref].

 

Netanyahu agiu: convocou uma comissão[ref]Comissão Trajtenberg[/ref] para estudar as exigências dos manifestantes. Ao mesmo tempo o prefeito de Tel-Aviv, Ron Huldai, convocou a polícia para evacuar os acampamentos. Os poucos que resistiram foram retirados à força. O verão terminava, e acampar na rua durante o inverno chuvoso do litoral israelense não seria tarefa das mais fáceis. Além disso, parte dos manifestantes acreditava que seu objetivo havia sido cumprido: Netanyahu não poderia mais ignorar a demanda do povo por uma solução dos problemas causados pelo livre mercado. O preço do aluguel especulação imobiliária, o custo de vida já alto e ainda mais crescente após a crise econômica mundial, e o desemprego da mão de obra qualificada jovem deveriam entrar na pauta do governo. Mas o movimento tinha outro problema: apesar da existência de alguns líderes e mentores intelectuais (como o professor da Faculdade de Educação da Universidade Ben-Gurion, Yossi Yona), o grupo não possuía uma posição homogênea. Alguns gritavam contra o 1º Ministro, outros o protegiam. O Movimento dos Reservistas Otários surgiu em meio às manifestações, exigindo o serviço obrigatório a todos (mas direcionado aos ultra-ortodoxos, que em sua maioria são dispensados), enquanto alguns grupos de judeus charedim[ref]termo hebraico para ultra-ortodoxos, que literalmente significa “tementes”[/ref] participavam dos protestos oficialmente. 96% da população apoiava as manifestações, que ficaram conhecidas como “O Protesto Social”, e era difícil identificar qual era a sua cara.

Foto 5: Yossi Yona
Foto 5: Yossi Yona

 

Pouco menos de um mês após os protestos terem fim (ou trégua), Israel se viu envolto em uma polêmica internacional: a Autoridade Palestina (AP) foi à ONU unilateralmente tentar que a organização reconhecesse o Estado Palestino através de uma votação extraordinária. O Conselho de Segurança vetou a decisão, mas toda esta polêmica foi suficiente para que o tema dos protestos sociais não estivesse mais na pauta do governo. A Lei Tal[ref]Lei que garantia a dispensa do serviço militar a estudantes de yeshivot[/ref] expirou no inverno, e a proposta de uma nova lei de serviço obrigatório universal causou a entrada do partido Kadima, até então o maior da Knesset, na coalizão de Netanyahu em um governo de união nacional[ref]A tentativa durou somente 40 dias[/ref]. O governo Netanyahu lançou um pacote econômico que continha uma série de cortes nos Ministérios da Educação, Habitação, Saúde e Transporte, e a inflação aumentava de forma que, após os protestos, o custo de vida só havia subido.

 

Foto minha. No banner: Sem paz, sem bem estar social, derrubaremos o governo.
Foto minha. No banner: Sem paz, sem bem estar social, derrubaremos o governo.

Com eleições marcadas para janeiro de 2013, parte dos manifestantes do “Protesto Social” decidiram reencontrar-se no verão de 2012. As primeiras manifestações (que igualmente ocorriam em todos os sábados) se diferenciavam muito das anteriores: o número de manifestantes era muito menor; a participação de movimentos sociais e partidos políticos não era mais mal vista; o governo era o principal alvo dos protestos; e atos de violência (escassos) e de desobediência civil (mais frequentes) foram mais comuns. O ápice do movimento se deu quando o Moshe Silman, vítima de um acidente que o tornou deficiente físico durante o tempo no qual prestou o serviço militar, decidiu em meio a uma passeata atear fogo sobre o próprio corpo, suicidando-se na Rua Kaplan. Silman, em carta deixada ao movimento, acusava a Previdência Social de abandonar os portadores de deficiência na miséria, e dizia estar desesperado com a quantidade de dívidas a pagar e com a sua péssima condição financeira. Ele tornara-se um mártir dos protestos, que passaram a ser mais frequentes (não só uma vez por semana) e menos obedientes. Eu, particularmente, compareci a boa parte dos que ocorreram em Tel-Aviv, e presenciei manifestantes fechando ruas de forma ilegal, assim como uma repressão violenta da polícia, sempre ao terminar a passeata, quando o número de manifestantes era ínfimo. Havia policiais à paisana, trajados como civis, filmando os ativistas e ameaçando-os quando questionados, muitas vezes deixando transparecer que eram policiais. Em algumas ocasiões a polícia agiu com truculência. O movimento perdeu o seu apoio popular e foi criminalizado pelo governo. Daphne Leef, inclusive, foi presa em uma destas manifestações após ter seu braço fraturado, sem direito a atendimento médico. Ao fim do verão, sobretudo após a Operação Amud Anan[ref]Coluna de Fogo, no fim de 2012 contra o Hamas[/ref], já não se falava mais em protestos. O orçamento aprovado nesta semana é justamente o oposto do que os manifestantes exigiam: cortes no social e aumento no custo de vida. Os protestos fracassaram? Eu diria que sim.

 

Com exceção da Comissão Trajtenberg, nada mais surgiu destas manifestações. Dois de seus líderes se encontram atualmente na Knesset, ambos na oposição. O Partido Trabalhista, para onde migrou a maior parte dos líderes dos protestos, foi um dos grandes derrotados nas eleições. O partido desenvolveu um elaborado programa de bem estar social a partir de uma reforma tributária e acabou alcançando somente o terceiro lugar, com 15 assentos no parlamento. Mas isto, em minha opinião, é justificável. Além da clara influência da guerra com o Hamas, que ultimamente tem fortalecido a direita, a falta de envolvimento político dos líderes das manifestações fez com que o governo Netanyahu não se sentisse ameaçado, pois a maior parte da população israelense, por mais absurdo que seja, parece não ter identificado os protestos como uma crítica ao governo. No auge das manifestações em 2011, a parlamentar do Likud, Miri Regev acusou Daphne Leef de ser uma “ativista da extrema esquerda” (quem quiser ler mais sobre este tipo de terrorismo político clique aqui). Leef, ao invés de corrigir o “insulto” e dizer qual era a sua posição, optou por afastar-se deste caminho, afirmando que a luta era acima de tudo social e não política, como se isso fosse possível. Quando os trabalhistas, através da sua nova líder Shely Yechimovitch, aproximaram-se dos protestos e recrutaram seus líderes, o momento já não era propício.

Foto 6: Passeata do milhão na Praça do Estado, em Tel-Aviv
Foto 6: Passeata do milhão na Praça do Estado, em Tel-Aviv

Os protestos falharam não só quando optaram por não carregar uma bandeira, mas, principalmente, ao caracterizarem-se como “sem nenhuma bandeira”. O movimento tornou-se vazio, demasiadamente pós-moderno. Não havia um corpo social ali, havia milhares de indivíduos, cada um marchando por uma causa, dono de uma crítica, mas sem nenhuma proposta. Netanyahu não foi ameaçado em nenhum momento, talvez seja justamente por isso que não houve nenhuma mudança significativa. Melhor dizendo, tudo o que aconteceu de relevante na economia israelense foi o corte no investimento social. E o pior de tudo, não há uma autocrítica aos protestos, que parecem já ter caído no esquecimento. Sair pelas ruas aos sábados à noite gritando por justiça social parece ter sido apenas um sonho de verão. Verão este distante, que hoje é recordado muito mais como uma festa do que como uma luta popular. Perdemos a chance de fazermos história. Que pena.

 Fotos retiradas dos sites

Foto da capa: http://www.bayadaim.org.il/wp-content/uploads/2012/02/demontration.jpg

Foto 1: http://pixelit.bac.org.il/art_images/images/articles_2010/%D7%93%D7%A4%D7%A0%D7%99%20%D7%9C%D7%99%D7%A3.JPG

Foto 2: http://megafon-news.co.il/asys/wp-content/uploads/2012/05/%D7%94%D7%9E%D7%97%D7%90%D7%94-%D7%94%D7%97%D7%91%D7%A8%D7%AA%D7%99%D7%AA2.-%D7%A6%D7%99%D7%9C%D7%95%D7%9D-%D7%A9%D7%A8%D7%99%D7%AA-%D7%A4%D7%A8%D7%A7%D7%95%D7%9C.jpg

Foto 3: http://msc.wcdn.co.il/archive/1440970-5.jpg

Foto 4: http://cdn7.staztic.com/app/a/520/520214/comsocialjustice-880442-2-s-307×512.jpg

Foto 5: http://in.bgu.ac.il/SiteAssets/Pages/news/TheMarker3/%D7%99%D7%95%D7%A1%D7%99%20%D7%99%D7%95%D7%A0%D7%94.JPG

Foto 6: http://www.the7eye.org.il/wp-content/uploads/2013/03/040911_demo.jpg

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Eu sei o que vocês fizeram no verão retrasado”

  • Yair Mau

    21/06/2013 at 10:41

    Excelente texto, João!
    Estive presente em diversas manifestações do verão de 2011, inclusive na “manifestação do milhão”. O clima era muito empolgante, havia algo no ar que passava a esperança de um país mais justo e menos desigual. É uma pena o final que ele teve. De toda forma, acho que os protestos mudaram o discurso político no país, trazendo a questão social para a frente do discurso nas campanhas políticas de 6 meses atrás. Lapid soube surfar nessa onda, prometendo cuidar da classe média, que era a base dos protestos de 2011. Os políticos não esqueceram a força que centenas de milhares de pessoas tem quando saem às ruam, isso vai ficar conosco por muito tempo, creio.

    Lembro que havia um consenso de que o protesto era pela melhoria do país, sem atacar a liderança política, para que todos pudessem comparecer às ruas. Se o ataque tivesse sido às políticas do Likud, a classe média direitista não haveria participado, como o fez. Neste primeiro momento achei correto esta escolha, e dar uma chance aos partidos da coalisão ajustarem seu caminho. Eu, que não gosto do Netanyahu, torcia para que ele pusesse em prática as recomendações da comissão Trachtenberg, torci para o seu sucesso, que seria antes de mais nada, o nosso sucesso.

    Os protestos de 2012 são fruto do amadurecimento dos manifestantes, que entenderam que uma real mudança não se atinge sem alvos específicos. Infelizmente parece haver algo inerentemente intimidante ao público em geral em participar de protestos contra um partido ou com metas bem definidas. Todos saímos às ruas para gritar por “justiça social”, mas pouquíssimos estão dispostos a gritar pela “redução do imposto de valor agregado”.

    Para terminar, gostaria de dizer que devido à ENORME diferença entre Israel e Brasil no que diz respeito à segurança pública, a composição dos protestos daqui em 2011 e destas últimas semanas no Brasil é completamente diferente. Na manifestação do milhão, em Tel Aviv, uma boa porcentagem dos presentes eram crianças abaixo de 10 anos, trazidos por seus pais, que queriam que eles “vissem a história acontecendo”. 350 mil pessoas se reuníram na Kikar Hamedina, a praça com todas as lojas mais chiques de Israel, e não houve um caso de depredação, violência, etc. No Brasil dificilmente veríamos pai, mãe e um bebê de 1 ano no carrinho saíndo à rua às 9 horas da noite para participar de uma manifestação.

  • João K. Miragaya

    21/06/2013 at 11:23

    Valeu Yair.

    Eu não sou otimista como você. A atmosfera de fato era boa, mas eu já havia me desencantado com a falta de propostas e de caráter político das manifestações. Não havia uma base, não era um movimento. Eram pessoas, cada uma com a sua ideia, marchando, mostrando-se insatisfeitas com as condições do país, mas sem dizer quais nem como resolvê-las. Ninguém ali queria fazer análise de nada, somente mostrar seu descontentamento. Reflexo de um país cada vez menos politizado, infelizmente.

    Mais absurdo ainda foi uma cena que eu vi no ano passado, quando convocaram uma representante palestina de Gaza a discursar numa passeata. Após ser hostilizada por uma minoria, iniciou-se uma discussão sobre “qual a relação entre uma e outra coisa?” O que tem a ver o conflito com os movimentos sociais? Ora, tudo! O governo gasta com segurança e com construção de assentamentos o mesmo dinheiro que poderia ser investido em outras áreas. Um povo que não quer ser oprimido pelo próprio governo, deveria, talvez, fazer uma reflexão sobre a opressão a outros povos. Há somente dois partidos políticos e pouquíssimos movimentos sociais que abrangem a questão desta forma. Daí vem o fracasso dos trabalhistas.

    É verdade que em 2011 havia crianças e idosos, ninguém com medo. Mas eu prefiro não comparar com o Brasil, pois, na minha opinião, aqui é que foi um caso à parte. Em toda a Europa os manifestantes se chocaram com a polícia nos últimos dois anos, aqui até mesmo estes choques passaram quase despercebidos.

  • Raul Gottlieb

    21/06/2013 at 13:18

    Gostei muito do texto, João. Um ótimo relato e uma boa análise.

    Eu concordo com o Yair, penso que não se pode dizer que os protestos fracassaram. A semente da preocupação primordial pelo tzedek chevrati foi semeada e se bem irrigada vai pautar a política israelense por muito tempo.

    As eleições posteriores aos protestos tiveram resultado singular – a questão da normalização do relacionamento com os vizinhos e com os Palestinos ficou em segundo plano. Parece-me que isto já foi um resultado das manifestações (mas é claro que posso estar errado e o motivo pode ter sido a fadiga por esperar alguma reciprocidade por parte dos Palestinos).

    Penso que ainda é muito cedo para decretar o fracasso das manifestações. Mas fora isto gostei muito do teu texto e você está de parabéns.

  • Marcelo

    21/06/2013 at 15:21

    se fosse no brasil iam dizer q nessa praça nao tem mais de 200 mil pessoas.

  • Mario Silvio

    21/06/2013 at 16:30

    “O governo gasta com segurança e com construção de assentamentos o mesmo dinheiro que poderia ser investido em outras áreas. Um povo que não quer ser oprimido pelo próprio governo, deveria, talvez, fazer uma reflexão sobre a opressão a outros povos.”

    É sério isso João? Sou contra os assentamentos (apesar de entender porque eles existem) mas se o governo não gastasse em segurança, Israel não existiria mais e não portanto não teria mais em que gastar.
    Independentemente disso, fiquei curioso: por que convocar uma palestina de Gaza para discursar ????
    O que esperavam conseguir com isso? Aposto que não era ouvir sobre como o hamas trata as mulheres.

  • Rafael Stern

    21/06/2013 at 20:34

    Mas João, apesar do potencial ser muito maior, será que a grande expressão de votos no Yesh Atid do Lapid, o que possibilitou um governo sem os haredim, não é uma vitória dos protestos? Talvez como ministro das finanças ele possa melhorar o social do país.
    Sobre a relação com o conflito, estou totalmente de acordo. Na época dos protestos em 2011 li um texto do Amós Oz sobre isso, e que ele inclui, além dos gastos militares e civis da ocupação, a verba destinada às yeshivot, e a sustentar os haredim que não trabalham. Por isso vejo que um governo sem os haredim pode trazer muitas melhorias nesse sentido, redistribuindo esses subsídios para outros setores sociais.
    E penso em uma coisa há muito tempo. Sempre leio textos de intelectuais como o Amós Oz, Yoram Kaniuk, Leibowitz e outros, e sempre me incomodou muito o fato de eles não se engajarem na política, para representar setores da população e colocar em prática opiniões muito coerentes que eles tem.

  • João K. Miragaya

    22/06/2013 at 18:14

    Obrigado pelos comentários elogiosos, Raul, Rafael, Mário e Marcelo!

    Raul, não concordo que a questão do conflito tenha ficado em segundo plano. O Likud venceu o pleito com o lema “Primeiro Ministro forte, Estado forte”, claramente se referindo ao Hamas e ao Irã (quem assistiu às propagandas políticas na TV sabe disso). Além disso, o Bait HaYehudi-Ichud HaLeumi subiu de 7 para 12 cadeiras, com um discurso anti-Estado palestino.

    Sou obrigado a concordar com o Rafael, no entanto, que o Yesh Atid obteve um resultado surpreendente a partir do segundo principal pedido do povo nas ruas: igualdade de direitos, sobretudo no que diz respeito ao serviço militar obrigatório. Considerando isso, podemos afirmar que as revoltas não foram um fracasso completo. Mas por duas razões eu diria que elas não foram exatamente bem sucedidas, mesmo reconhecendo este ponto: (1) O fracasso de Mofaz, que tentara aprovar uma nova lei para o serviço militar obrigatório, na minha opinião, fez com que o Yesh Atid, sumido após o adiamento do pleito, voltasse com mais força. (2) Nem o governo anterior nem o atual atenderam aos pedidos da população por “justiça social”. Os cortes no orçamento prejudicaram justamente a classe média e os mais pobres, e foram implantados agora por Yair Lapid, atual ministro das finanças.

    Mário Silvio, inicio a resposta ao seu comentário a partir do seu segundo questionamento. Minha pergunta é: por que não trazer uma palestina de Gaza? Tendo em vista que a economia palestina é fortemente dependente da israelense, por que não considerar que eles também são vítimas da situação sócio-econômica atual no país?

    Já em relação à sua primeira pergunta, parece que não fui claro, mas me referi à segurança dos assentamentos. O caso chega ao absurdo em cidades como Hebron, por exemplo, onde o número de soldados que protegem o assentamento é de mais de três vezes maior do que o de colonos que habitam o bairro judaico da cidade. Não defendo que Israel não invista em segurança, mas acredito que o governo gaste em excesso e desnecessariamente com o conflito. Não somente eu, boa parte da população.

    Se dentro de mais alguns anos o povo for às ruas novamente, ou se houver uma mudança significativa no panorama político do país por iniciativa do povo, poderemos, talvez, considerar estas revoltas como o movimento pré-revolucionário, tal qual o “Ensaio Geral para a Revolução”, que ocorreu na Rússia entre 1903-05. Mas assim como o Encouraçado Potenkim não foi a Revolução Russa, estes protestos não são um agente de mudanças. Estão abrindo as portas para algo grandioso? Só o futuro vai dizer.

    Um abraço a todos!

    • Mario Silvio

      23/06/2013 at 18:23

      “mas me referi à segurança dos assentamentos. ”
      Quanto a isso concordamos totalmente.

      ” por que não trazer uma palestina de Gaza?”
      Porque, na minha opinião claro, o hamas é o culpado pela triste situação deles. Ou seja, não importa o que Israel faça, ela continuará sendo oprimida e vivendo em condições precárias.

      Finalizo dizendo que TODOS os governos gastam em excesso. Alguns como o brasileiro exageram na dose, mas, e sei que sou minoria aqui, governo quanto menos melhor sempre.

      um abraço e obrigado pelas respostas.

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