Exército de zumbis. E casos psiquiátricos.

Yaron Alon tem 83 anos. Mas quem o visse naquela pose blasé de desdém pelo mundo em geral e a rua Shenkin em particular, não dava para ele mais de 60. Atlético, pequeno, atarracado, usando um chapéu de pano de abas largas, óculos de sol e camiseta do Led Zeppelin, enquanto tomava seu capuccino.

 

– Então? Você quer que eu te conte alguma coisa?

– Ia ser engraçado eu escrever sobre o senhor tomando café, não?

– Era capaz de ser mais interessante do que o que eu talvez tenha a contar… Quer que eu fale sobre o que? Política?

– Pode ser.

– Falar o que? A esquerda morreu. É um exército de zumbis arrastando os membros traseiros pelas ruas. Se comessem cérebro, ainda talvez ingerissem alguma ideia nova… Mas nem isso. Comem granola. A direita é um caso de jardim de infância. Ou psiquiatria. – E parou para pensar. – Ou de polícia talvez. E ao que parece, nem o público que critica entende nada.

– A esquerda acusa o governo de ser retrógrado.

– Retrógrado? E as pessoas chamam esse governo de retrógrado? Com que direito?

– É que…

– É que coisíssima nenhuma! – Com firmeza Yaron espalmou a mão sobre a mesa. Eu queimei algum fusível na paciência dele. – Como é que você sabe que o governo é retrógrado? Algum ponto de referência? Algum universo paralelo que possamos comparar o que aconteceria se outro governo estivesse no lugar?

– Mas você tem que concordar comigo que não há negociação com os palestinos, a situação de Israel frente ao resto do mundo…

– É? E onde está escrito que isso é ser retrógrado? Como se a história fosse uma linha, em que se pode ir para frente ou para trás, e esse tipo de colocação implica que estamos indo para trás, portanto o governo é retrógrado.

Yaron gesticulava muito com os dedos fortes. Fez uma pausa e deu mais um gole do seu café:

– Eu acho que o governo é imbecil, o que é outra coisa muito diferente. Mas retrógrado, ou avançado? Faça-me o favor! Essa gente vê tudo numa resolução pequena demais. São mesquinhos com o calendário. Foguete ontem, guerra amanhã, boicote depois, atentado antes… É tudo nós. É tudo sobre quem somos e onde estamos agora. Me cansa… Você sabe desde quando morre gente aqui? Desde sempre! Criou-se a civilização, foi aqui pertinho. Ali para aquelas bandas de lá. – Ele apontou para o oeste, como quem espanta um bicho incômodo para aquela direção. – Dá duas horas de ônibus. Então, criou-se a civilização e exatamente treze segundos depois morreu o primeiro. É ali, ó, bem pertinho daqui. Já entrevistou algum arqueólogo? Pergunta para ele se não há ossos de crianças, mulheres, velhos, destroçados violentamente. E é porque morreram há 17 mil anos atrás que eles são menos relevantes? Você já viu a ossada de um bebê de colo com um buraco assim desse tamanho na cabeça? Morreu sabe-se lá há quantos mil anos, em Jerusalém. Foi pai bêbado? Caiu da escada? Não, tovarish, foi guerra mesmo. Guerra tão tragédia quanto qualquer outra. Só que não sobrou ninguém que conhecia a família do nenê para chorar. A tragédia se faz menos trágica e o Uri Ariel[ref]Parlamentar ultra direitista, defensor dos Assentamentos, do partido Casa Judaica[/ref] não precisa mais se preocupar com ele. Viu como ele não é retrógrado? – E sorrindo, continuou: – E aí me aparecem esses messiânicos que conseguem ser ao mesmo tempo loucos, megalomaníacos e estúpidos, e anunciam uma Jerusalém eterna e indivisível capital do povo judeu. Você está entendendo? Morreu uma montanha de gente desde 17 segundos depois do início da civilização e essas criaturas me anunciam eternidade! Zilhões de povos vieram e se foram e se mataram eles me gritam indivisibilidade.

– Mas é exatamente isso que as pessoas querem dizer quando chamam o governo de retrógrado.

– É mesmo, tovarish? E quem foi que te disse que isso? O Isaac Herzog[ref]Parlamentar líder do Partido Trabalhista e líder da oposição[/ref]? A Zehava Galon[ref]Parlamentar líder do partido de esquerda Meretz[/ref]? Esses nossos heróis do avanço e do liberalismo? Por que? Eles decidiram que sentar para conversar e assinar acordo é a coisa certa a longo prazo?

– Bem, é esse o posicionamento do mundo ocidental quase inteiro.

Ele começou a rir. Uma longa risada. Cada vez com mais gosto.

– Você sabe o que eu vou responder a você sobre o mundo ocidental quase inteiro, né?

– Que 17 segundos depois de…

– 12. 12 segundos. Nem um micro pentelhésimo a mais. Sairam matando gente. Ou você acha que o DAESH[ref]O ISIS, ou Estado Islâmico, como é conhecido em árabe e em hebraico[/ref] é o que? Colônia de férias? Parque temático da Disney? O DAESH somos nós. O que nós fomos e o que seguimos sendo enquanto eles existirem. Somos nós mesmos, rapazinho. É o Ariel Sharon sem restrições. O Gengis Kahn com Kalashnikovs. Os franceses com um Napoleão messiânico fanático. Cruzados montados em hummers e tanques roubados correndo para liberar uma Jerusalém fictícia dos infiéis. Os infiéis também somos nós, aliás.

– Mas se é assim, o que nos resta, Yaron?

– Como dizia o grande filósofo inglês, D. Bowie: “Ashes from Ashes, and Funk to Funcky”. Eu sou publicitário. Passei a vida inteira mentindo para viver. E sabe por que funciona? Olha só que linda propaganda enganosa é esse mundo! Ainda nos resta aproveitar isso. Tomar um bom café, cuidar de quem a gente ama e fingir que somos a primeira geração da civilização sobre a terra, e que há uma chance de que não somos mais só símios pelados.

– E eu, que estava achando que o senhor era um niilista.

– Perdi a fé no niilismo. – Disse ele piscando o olho para mim. A ironia não me escapou, e eu entendi direitinho a bronca que ele tinha acabado de me dar.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Exército de zumbis. E casos psiquiátricos.”

  • Alex Strum

    12/08/2015 at 15:37

    Visão de quem não só enxerga mais do que a árvore mas enxerga alem da floresta.
    Com esta visão não dá para deixar de ser um niilista e irônico.
    Muito bom, parabéns

  • Leandro Rocha

    12/08/2015 at 17:28

    Como eu disse no facebook, não consegui entender essa crítica feita à esquerda.

  • Marcelo Starec

    13/08/2015 at 06:13

    Oi Gabriel,

    Muito bom texto!…Parabéns!…É interessante como essa discussão é abrangente e agradável de ler, além de que sai dos “chavões”, das “frases prontas” tanto da esquerda quanto da direita, mostrando que o mundo real é muito mais complexo!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Rodrigo

    13/08/2015 at 12:09

    Acho que esse senhor deve ter lido muito Emil Cioran. Um ceticismo ácido contra as auto-ilusões narcóticas do bixo-homem. Deve ser realmente uma figura muito interessante.

Você é humano? *