Exército: um noivo indesejável

15/03/2017 | Sociedade

Meu olhar de imigrante sobre o exército e a guerra

Ao meu redor, tenho pelo menos seis famílias de amigos brasileiros que estão prestes a enviar seus filhos ou filhas para o exército. Aqui em casa, temos também um futuro soldado, o filho mais velho de meu marido. Há de ser por isso que tenho agora a súbita impressão (talvez tardia) de que o exército por aqui está em todo lugar. Ele e tudo o que representa para um cidadão israelense. Claro que cada um atribui um significado diferente a cada coisa. O máximo que posso fazer aqui é tentar botar em palavras o que isso quer dizer para mim.
(E já aviso que esse não será um de meus textos tipicamente otimistas e sonhadores. Não, não será.)

Sei que, no dia de Purim, a missão é alegrar-se e procurar contato com aquilo que nos faz feliz. Não foi o que rolou no último. Na tarde daquele dia, comemorado no começo de março, em vez de sair por aí fantasiada de alguma coisa, liguei a TV e procurei no VOD um programa que gosto muito, o Maarechet (Sistema, com Miki Haimovich). A cada episódio, é apresentada uma grande reportagem de uma hora sobre um assunto específico. Como ando com as antenas ligadas no exército, parei de tamborilar o dedo no controle remoto em um que abordava a dificuldade das famílias de fazer com que o governo se responsabilize por cobrir despesas com tratamentos psicológicos para soldados que sofreram traumas durante operações militares.

Eu já sabia que há centenas de pessoas com os corpos em frangalhos por aí nos hospitais de Israel, vitimadas pela última, penúltima ou antepenúltima guerra. Mas confesso que, na minha ingenuidade, nunca havia pensado nos milhares que voltaram para casa sem sua auto-estima, sua naturalidade e até mesmo seu apego à vida. Corpos presentes, almas ausentes.

Ando acompanhando o drama nada juvenil do meu enteado mais velho. Há um ano perguntei como ele se sentia frente ao alistamento, que aconteceria em breve. Na época, ele me disse que não pensava nisso. “Mas você não conversa sobre esse assunto com seus amigos, por exemplo?”, perguntei. Para minha surpresa, ele disse que não. Preferia deixar para quando o momento certo chegasse. Ele chegou, e agora sei que a turma dele só fala sobre isso. É a hora de refletir em que unidade se deseja servir, passar por provas, exames físicos, psicológicos e médicos, em que os dois lados — o exército e o/a menino/a — tentam definir como fazer esse “casamento” da melhor forma. Percebi que agora, o momento em que esse assunto entrou na minha casa, passei a ver o exército como um noivo indesejado.

Já perguntei várias vezes ao meu marido (israelense) o que ele acha disso. Sinto a maior curiosidade por dois motivos: por eu ser brasileira e, assim, ver no serviço militar algo meio “fora da curva”, e por ter apenas uma filha menina, que certamente não será chamada para uma unidade de combate; muito embora recentemente passaram a aceitar meninas que batem pé para atuarem como combatentes (o que me causa calafrios delirantes). Ele, o cara mais pacífico que conheço, responde com terrível naturalidade que não acha nada. “Já nascemos sabendo que esse momento chegará”, ele diz. Sua única preocupação é que meu enteado descubra a tempo o que gostaria de fazer, de forma que seja ele a traçar, mesmo que minimamente, o seu destino ao longo dos próximos três anos de vida em vez de permitir que o exército o faça. É um menino sociável, cheio de energia e de amigos e que, como muitos, não faz a menor ideia do que gostaria de fazer na vida. Conversei com a sobrinha de meu marido, que deixou o exército há cerca de cinco anos, sobre como ter uma boa experiência nesses anos, o que ela diz que foi seu caso. “É preciso sorte”, respondeu ela. Sorte?

Outro dia, ouvi um amigo meu comentar que existem diferentes fases da imigração de uma família. Em cada uma delas, acontece algo que “fixa” o imigrante à nova terra: o primeiro emprego, a primeira casa etc. etc., e o alistamento do primeiro filho. Quando isso acontece, disse ele, você percebe que “a coisa é séria”. Ainda não consigo imaginar como processar a ideia de “dar” seu filho para o exército assim que ele comemora 18 anos. Será essa instituição que definirá onde ele viverá, o que fará diariamente, o que comerá, o que vestirá, como se comportará. Você acompanhará tudo de longe, muito longe. Essa é uma ideia para mim insuportável.

É justo nessa hora, em que percebo a crueldade dessa situação, que me sinto culpada. Para onde foi todo o orgulho que eu deveria sentir por viver em um país que, pelas circunstâncias de sua existência, tem um exército forte o suficiente para defendê-lo? De ver com um sorriso no rosto o amor à pátria que muitos jovens soldados expressam no momento em que recebem sua farda? Claro que sei que ninguém quer a guerra. Sei que ninguém quer sofrer ou infligir sofrimento. No entanto, isso não me impede de ver o exército como uma instituição absurda. E me sinto encurralada pela consciência de que não existe outra saída, não nesse momento da história desse país. E me sinto frustrada por entender que não há nada sendo feito para mudar essa realidade.

Conversações de paz inexistem e são prorrogadas para o dia-de-são-nunca. A reafirmação da sentença “não temos líderes históricos nessa geração, nos dois lados, que possam nos encaminhar para uma solução” virou um slogan desesperançoso. Temos aqui nesse furacão médio-oriental duas vítimas, dois povos maltratados que, quando se sentam à mesa, discutem seus traumas, não suas esperanças.

Sobre isso, aliás, ouvi recentemente uma palestra interessantíssima feita por Tal Becker, um bem-humorado advogado israelense que participa das rodadas de negociações entre israelenses e palestinos há pelo menos 20 anos que falou para um grupo de políticos brasileiros em visita a Israel. Ele tratou sobre a psicologia da negociação de forma ampla, deixando no ar perguntas que mostram questões “morais”, digamos assim, que permeiam o conflito entre israelenses e palestinos. Afinal, duas vítimas têm condições de chegar a um acordo? Será possível que o povo palestino consiga sobreviver como nação a uma realidade que não inclua a figura de um eterno agressor, a ponto de ter integrado essa psique às duas últimas gerações? Existe alguma chance real de uma conversa sincera entre as duas partes com tamanha intromissão internacional e exposição midiática? Podem os líderes dos dois povos afirmarem frente ao seu público interno que pretendem a paz e estão dispostos a uma negociação real? Será que o primeiro-ministro Bibi Netanyahu sobreviveria ao dia em que dissesse aos israelenses que se sentará com o líder palestino Abu Mazen para construir uma solução real? E o inverso? Perguntas terríveis. Concordo com Becker: não há solução para essa questão, mas tão somente a transformação da atual realidade para algo um tanto melhor, que provoque menos sofrimento, menos morte, menos susto. E que apenas no momento em que um povo tiver empatia pelo sofrimento do outro, reconhecendo esse sentimento como legítimo, será possível iniciar uma conversa.

Cara, que complicado.

Estava com isso tudo na cabeça quando fui com minha filha, nesse Purim, para o Museu de Arte de Tel Aviv. Lá, como em muitos outros lugares aqui em Israel, cruzamos com um grande grupo de soldadas fardadas que passeava por lá (sei que o exército promove várias viagens e eventos para os jovens). “Puxa, como são pequenas”, ela comentou em seu português já meio atrapalhado, observando algumas que, de fato, pareciam ter muito menos do que 18 anos. Em alguns segundos, muitas lembranças pipocaram em minha memória. O atentado em janeiro a um grupo de soldados que, durante uma dessas atividades culturais, foi vítima de um ataque terrorista por atropelamento em Jerusalém, que resultou em 4 mortos e 17 feridos. A mãe de um casal de filhos que prestava exército, que comentou em uma entrevista para mim que sente que a farda faz deles alvos em potencial de terroristas — e que por isso sofre ondas de pânico toda vez que eles saem de casa para se dirigirem às suas unidades. As cenas noturnas transmitidas pela TV do primeiro grupo de jovens soldados — uns meninos como o meu enteado — que entrou em Gaza por terra na última guerra. E, sem querer entrar aqui em polêmicas, o soldado Elor Azaria, que atirou um terrorista palestino quando ele já estava imobilizado (e não precisa me dizer que estou olhando só para um lado, porque é isso que a humanidade faz).

Desculpe-me caso você esteja entre aqueles que vibram com alegria ao ver um grupo de soldados do exército israelense. Caso você acredite que o exército de Israel (ou o de qualquer outro país desse desgraçado planeta) seja um símbolo nacional do qual devemos nos orgulhar. Para mim, não dá. Mesmo conhecendo as circunstâncias, meu único sentimento pelo exército é o de terrível ansiedade. Se essa pudesse ser uma escolha, prefereria ver meu enteado agora pensando no que gostaria de estudar, e não a qual unidade militar deverá pertencer.

Que Deus proteja a ele e a todos os nossos meninos e meninas dos dois lados da fronteira. E que se concretize o sonho de que a geração atual seja a última a ser obrigada a vestir-se de verde e forçar-se a sentir orgulho por isso.

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