Experimento em Democracia

Dia 12 de Fevereiro de 2013 resolvi fazer uma experimento em democracia. No mesmo dia, havia lido uma notícia no jornal Haaretz sobre um grupo de mulheres que foram presas por rezar no Muro das Lamentações usando talit. O grupo é conhecido como “mulheres do Kotel”, e o Marcelão já escreveu sobre o assunto em um post nesse site. Concordo com cada palavra escrita por ele, e neste dia resolvi escrever um email para os representantes do povo na Knesset. O meu texto dizia:

Caro parlamentar
Meu nome é Yair Mau, sou físico, moro em Beer Sheva, sou casado e pai de uma menina. Fiz aliá há 8 anos porque acredito que em Israel eu posso me realizar como judeu, como sionista e como alguém que deseja a paz.
É com tristeza que leio no jornal (http://goo.gl/4Lqzl) que no “país dos judeus” não existe liberdade de culto à mulheres que querem rezar no Muro das Lamentações do jeito que quiserem. Eu tenho vergonha da situação atual e me pergunto como foi que demos a um setor determinado da sociedade a propriedade do judaismo. Isso não é bom para a democracia e é contra direitos humanos básicos.
Eu lhe desejo um trabalho proveitoso e bem sucedido nessa Knesset que está começando, e peço que atue com vigor para solucionar muitos problemas nas áreas de Religião-Estado, igualdade entre os sexos, liberdade religiosa e coerção religiosa.
Atenciosamente
Yair

Mandei o email para todos os parlamentares dos seguintes partidos: Meretz, Avoda, Kadima, HaTnua, Yesh Atid, Likud Beitenu e Habait Hayehudi. Traduzo abaixo algumas das respostas mais significativas que recebi.

Olá Yair
Obrigada pela sua carta e pela preocupação que se depreende dela.
Eu lhe prometo que os parlamentares do Meretz vão atuar com toda a força nessa nova Knesset em prol do direito das mulheres rezar no Muro das Lamentações, e em qualquer outro lugar, em prol do avanço da igualdade plena entre homens e mulheres em Israel, e em prol da liberdade religiosa e liberdade de culto, bem como o combate à coerção religiosa.
Meu melhores cumprimentos
Zahava Gal’on

A resposta chegou em 3.5 horas após o envio. Zahava Gal’on é a líder do partido Meretz, que luta para a separação total entre religião e estado.

Olá Yair
Eu lhe agradeço pela sua carta.
Eu creio que é importante manter a união do povo e tentar chegar a entendimentos entre todos os setores do povo em tudo o que diz respeito à relação entre religião e Estado em Israel.
Cordialmente
Yariv Levin

A resposta chegou em 6 dias após o envio. Yariv Levin é parlamentar pelo Likud, e em sua educada resposta ele quer dizer que é contra o que eu escrevi. Citar a “união do povo” é uma expressão usada por aqueles que crêem que poderia haver um possível racha no povo se houvesse alguma mudança, então é melhor não mexer em nada.

Olá Yair. O tema da reza de mulheres é uma das nossas maiores preocupações, e a parlamentar Aliza Lavie já propôs diversos pedidos para que se verifique e se mude o estado atual. Eu acredito que juntos poderemos trazer a mudança e devolver o judaismo aos judeus.
Obrigada
Adi

A resposta chegou em 8 dias após o envio. Quem assina é Adi Koll, parlamentar pelo partido Yesh Atid. Adi Koll tem doutorado em direito, e aos 37 anos já tem um amplo currículo de atuação em ONGs nas áreas de educação e juventude. Ela escreve sobre a parlamentar Aliza Lavie, também do Yesh Atid, que é ativa na área de direito das mulheres e em assuntos ligados à relação religião-estado.

No total recebi 13 respostas, sendo 9 escritas pelos próprios parlamentares, e as outras quatro por seus assessores parlamentares. Recebi resposta de parlamentares do Kadima (1), Meretz (1), Likud Beitenu (2), Avoda (2) e impressionantes 7 respostas do Yesh Atid. Cerca de 10% dos parlamentares de Israel se deram o trabalho de responder o meu email, e certamente uma maior quantidade leu e resolveu não responder.

No passado mandei dois ou três emails para os parlamentares sobre questões ambientais, e recebi um número parecido de respostas a cada email. É uma sensação muito boa saber que os representantes do povo leem os emails que lhes mandam e pensar que isso pode ter uma certa influência em sua atuação. Acho que esse é uma prática muito saudável em uma democracia, e uma ferramenta essencial para o cidadão que quer participar mais que votando a cada quatro anos.

Eu mandei o mesmo email a muitos parlamentares, e escrevi frases que achei que todos eles pudessem se relacionar. Este certamente não é o melhor método de comunicação, embora seja rápido. A parlamentar Shelly Yachimovich, líder do partido Avoda, escreve em seu site instruções para aumentar o impacto de uma carta a um parlamentar, e entre elas:

– Cuidar para que o email pareça uma carta pessoal, e não um email que foi mandado em massa. É mais efetivo mandar dez cartas pessoais e diferentes umas das outras a mandar mil emails iguais.
– Escrever um email curto e que vai direto ao ponto, não se extender demais.
– Pode-se expressar sentimentos como ressentimento, protesto, raiva, mas jamais usar palavrões ou ameaças.
– Se o parlamentar agiu conforme suas expectativas, deve-se escrever elogiando-o, é importante manter o diálogo entre cidadão e representante do povo.

Fiquei bastante satisfeito com os resultados da minha carta, e certamente no futuro farei uso dessa ferramenta. Sugiro aos demais leitores no Brasil, Israel, ou onde quer que seja, testar essa via de comunicação, os resultados podem ser surpreendentes.

Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Experimento em Democracia”

  • Gabriel

    07/04/2013 at 23:11

    Espero que façam mais que só responder e-mails… 🙂
    Mas a sua iniciativa foi muito legal. Abração!

  • Paulinho

    08/04/2013 at 06:27

    Interessante Yair!
    Certamente essa é uma forma de participar mais da vida política e exercer a democracia. Concordo com a frase que copiei a seguir, mas gostaria de fazer uma ressalva. “Acho que esse é uma prática muito saudável em uma democracia, e uma ferramenta essencial para o cidadão que quer participar mais que votando a cada quatro anos.”
    Não sei se vivemos o modelo ideal de democracia. Estamos muito distantes do cenário político e muitos entendem que votando já exerceram o papel que cabe ao cidadão. Escrever o e-mail também é participar, mas delegar mais uma vez ao outro o papel de te representar. Acho que a sociedade deveria se sentir protagonista e não apenas representada. Querer influir e não apenas comentar ou avaliar a decisão de nossos políticos.
    Não sou contra o atual modelo pois ainda não conheço uma forma melhor. Mas acho que a militância em movimentos sociais é o caminho mais próximo do ideal. Em Israel a situação ainda me parece melhor do que no Brasil. O povo vai mais para a rua, se engaja mais, no entanto, ainda acho pouco. Talvez se existissem comitês populares ou se houvessem mais referendos para decisões importantes contribuam na construção de uma sociedade democrática.
    Grande abraço

    • Claudio Daylac

      08/04/2013 at 14:09

      Paulinho,

      Em relação ao Brasil, mandei um email ao Fernando Gabeira, elogiando sua postura na época em que o Severino Cavalcanti era presidente da Câmara Federal e ele me respondeu no dia seguinte!

      No Brasil, a relação entre o eleitor e seu deputado é pessoal, uma vez que você vota no candidato específico e eu fiquei bastante satisfeito de receber uma pronta resposta do meu representante.

      De qualquer maneira, concordo contigo em linhas gerais.

      E parabéns ao Yair pela iniciativa!

      Um abraço.