False Flag é o novo Homeland?

04/12/2015 | Cultura e Esporte

Em 19 de dezembro de 2010, Mahmoud Al-Mabhouh foi assassinado em um quarto de hotel em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Al-Mabhouh foi um dos fundadores das Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, o braço armado do Hamas. De acordo com a polícia local, o terrorista teria sido sedado e asfixiado com um travesseiro por uma equipe de agentes do Mossad que entraram no país usando passaportes roubados de cidadãos europeus e australianos.

Esta operação, digna dos mais mirabolantes roteiros cinematográficos, serviu de inspiração para o seriado israelense Kfulim, que vem fazendo bastante sucesso em Israel, especialmente entre a equipe do Conexão Israel. O título original da produção – “duplos” – refere-se ao fato dos cinco personagens serem cidadãos israelenses com passaporte de cinco países europeus, mas seu título internacional, False Flag, faz menção às “operações de bandeira falsa”, realizadas de maneira a transparecer que foram obra de outro país.

O primeiro episódio começa de maneira dinâmica, com um incidente que habita a galeria de temores de qualquer fã das clássicas histórias de espionagem e conspiração: cinco israelenses acordam para mais um dia comum de suas pacatas vidas, mas são surpreendidos ao verem as imagens de seus passaportes estrangeiros expostas em todos os veículos da mídia local e internacional. Segundo o Serviço de Segurança Russo (FSB), estes são os rostos dos cinco agentes do Mossad responsáveis por sedar o ministro da Defesa iraniano em um quarto de hotel em Moscou e sequestrá-lo para uma localidade desconhecida.

À medida em que o episódio avança, o espectador é envolvido no drama pessoal de cada um dos suspeitos. Natalie vai se casar no mesmo dia à noite com um procurador do Ministério Público. A mulher de Ben (Ishai Golan, que o leitor pode reconhecer de Chatufim – Prisioneiros de Guerra e de Street Food Around The World) está grávida de seu terceiro filho e ele não quer que ela descubra que teve um caso com Emma, uma professora de inglês cuja foto também está sendo divulgada pela mídia. Assia (interpretada pela charmosa Ania Bukstein) trabalha num jardim de infância, sonha em ser famosa, mas estava em Moscou no dia do sequestro.

Os passaportes estrangeiros de Emma, Ben, Assia, Sean e Natalie
Os passaportes estrangeiros de Emma, Ben, Assia, Sean e Natalie

Enquanto cada um dos personagens tenta lidar com seus compromissos diários em meio à inevitável atenção da mídia e dos curiosos, reuniões do alto escalão exibem a perplexidade do governo israelense, da polícia, do Mossad (o serviço secreto que opera no exterior) e do Shin Bet (o serviço secreto que atua em Israel e nos territórios palestinos ocupados). Nenhuma agência parece ser a responsável pelo sequestro, nem conhecer seus executores, mas a suspeita de que seja uma operação de bandeira falsa torna necessário descobrir quem são os cinco personagens e qual sua conexão com o ministro iraniano.

Kfulim tem um bom roteiro e uma competente direção. Seus dinâmicos episódios cativam a atenção do espectador, que não sabe em quem acreditar, de quem ter pena e por quem torcer. A imprensa local encheu a série de elogios, indicando-a como a prova de que a televisão de Israel pode produzir programas de nível internacional. Trata-se de uma produção corajosa, sem medo de perder espectadores por não trazer alívios cômicos e não recorrer a diálogos meramente expositivos que garantam que o público entendeu todo o contexto. Para a audiência estrangeira, o seriado mexe com aspectos do imaginário coletivo, como o Mossad e a ideia de que qualquer cidadão israelense é um agente em potencial.

O episódio final foi exibido na última quarta-feira, mas os produtores já confirmaram uma segunda temporada. Por enquanto, o leitor fluente em hebraico pode assistir a série completa aqui, com áudio e legendas no idioma de Eliezer ben Yehuda. O trailer tampouco está traduzido, mas é possível absorver o clima do seriado mesmo sem entender os diálogos:

A televisão israelense vem ganhando espaço no exterior. Desde os mais bobos reality shows até dramas icônicos, um número crescente de produções tem sido exibido pelo mundo e muitos dos formatos são vendidos para adaptações locais. HaKochav HaBa – Rising Star virou SuperStar na Rede Globo e BeTipul virou In Treatment na HBO e Sessão de Terapia no GNT. Os Estúdios Fox, que produzem Homeland baseado no israelense Chatufim – Prisoners of War, já adquiriram os direitos de exibição de Kfulim para 127 países e anunciaram a produção de uma versão em língua inglesa.

Será que daí virá o novo Homeland?

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