A falta de problemas para os partidos árabes

18/03/2016 | Política, Sociedade.

Na arena política, o duelo ideológico-filosófico faz parte do jogo.

Dito isso, acredito que representates eleitos devem ter cuidado em não ignorar as consequências que suas palavras e ações reverberam, quando atingem um público que não lhe é muito simpático e que, nos últimos anos, tem demonstrado cada vez menos paciência para as suas nuances.

Há pouco tempo, foi publicada uma carta aberta dos partidos políticos árabes “Balad” e “Hadash”, denunciando os países do Conselho de Cooperação do Golfo, que teriam incluído o Hezbollah na lista de “organizaçãos terroristas”.

É claro que a discussão é relevante:  para uns, o Hezbollah é manifestadamente uma organização terrorista, ou seja, utiliza-se do dano a civis inocentes, como um meio para alcançar seus objetivos.  Outros impõe a visão de que a maioria das atividades da organização não tem intenção de prejudicar pessoas inocentes – deseja-se atingir forças inimigas armadas, tornando o Hezbollah um grupo de resistência.

Neste sentido, os foguetes disparados ao território israelense são percebidos como nada mais do que uma técnica de auto-defesa – uma vez que Israel também fere inocentes em seus ataques. Não concordo com esta posição. A organização é responsável por um número suficiente de ataques internacionais em alvos não militares (como os ataques em Buenos Aires, o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri e a um recente ataque terrorista na Bulgária) que poderiam justificar a sua definição como um grupo terrorista. É possível que você não concorde comigo. O fato é que esta discussão ideológica não é o ponto central nesta ação.

A condenação ao Hezbollah, promulgada pelo do Conselho de Cooperação do Golfo, é um movimento político que está muito mais relacionado com a atividade que o grupo vem desempenhando na Síria, do que com os seus ataques terroristas. A resposta dos partidos  Hadash e Balad constituem uma cegueira política sem precedentes.

A maioria dos israelenses tem um grande problema com o Hezbollah. Não porque o terrorismo é o seu principal curso de ação. O ponto fundamental é que o Hezbollah defende a destruição de Israel. A mensagem publicada por Hadash e Balad argumenta que a inclusão do grupo no rol dos terroristas representaria um “apoio à ocupação”. Neste sentido, uma vez que o Hezbollah se opõe à ocupação territorial do futuro Estado Palestino, qualquer ação que vise enfraquecer o grupo, estaria direcionado a apoiar os assentamentos.

A mensagem também louva a “resistência do Hezbollah diante da ocupação do  sul do Líbano perpetrado pelo exército israelense”. Ocupação esta que – diga-se de passagem – não mais existe. Já faz tempo que Israel não controla uma polegada sequer do solo libanês. Além disso, existe o pequeno detalhe que o Hezbollah não está satisfeito com o retorno às fronteiras de 67. Seus líderes defendem a remoção da entidade sionista de terras árabes como forma de eliminar um câncer, que se espalhou no corpo da nação árabe.

Representantes dos partidos árabes argumentaram que não apoiam qualquer programa político-militar do Hezbollah. Concentram-se apenas na defesa que o grupo faz do povo palestino. Outro argumento que tenho dificuldade em aceitar. Grande parte do mundo se opõe à ocupação como, por exemplo, a Coreia do Norte. Não me recordo dos partidos árabes terem condenado as sanções impostas àquele país.

Benjamin Netanyahu, em discurso recente no parlamento, perguntou a membros dos partidos árabes: “נפלתם על השכל”? (tradução direta: -“Vocês ficaram malucos”?). Muito além das sutilezas do debate ideológico-filosófico (com a definição do que seria uma organização terrorista)) e além da estratégia política (qual a necessidade de criticar esta decisão dos países do Golfo? Que efeito esta decisão possui sobre a sua vida dos seus eleitores?) o que me causa estranheza é perceber a completa falta de tato político.

Parlamentares árabes em Israel são rotineiramente acusados ​​de apoiar os inimigos do país e de justificarem, explícita ou implicitamente, o terrorismo como uma forma válida de reinvindicação política. Esta última declaração é uma arma que será muito utilizada nas mãos de seus acusadores.

Existe hoje, em Israel, injustiças caseiras suficientes que poderiam estar sendo melhor mediadas pelos partidos árabes.  Há um número grande de indivíduos que necessitam de ações objetivas no Knesset para a promoção de seus direitos.  Como partidos políticos, deveriam servir melhor os seus eleitores.

 

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “A falta de problemas para os partidos árabes”

  • Mario S Nusbaum

    18/03/2016 at 15:26

    Em Israel não é crime apoiar um grupo estrangeiro cujo objetivo é a destruição do país? Se não é, por que?

  • Marcelo Starec

    18/03/2016 at 20:12

    Oi Marcelão,

    Com certeza!…É inaceitável, em pleno século XXI partidos árabes continuarem a simplesmente, sejamos francos, defender a destruição do Estado de Israel…de dentro do Estado Judeu, onde seus eleitores gozam de todos os direitos políticos e de todo o tipo – são cidadãos, desde que o Estado de Israel existe!…Não obstante, esses partidos continuam defendendo quem apóia o fim do Estado de Israel…Fico assim com a sua perfeita conclusão: ” Há um número grande de indivíduos que necessitam de ações objetivas no Knesset para a promoção de seus direitos. Como partidos políticos, deveriam servir melhor os seus eleitores.”…Está mais do que em tempo dessa parcela de eleitores entenderem que não é justo ou razoável prosseguir vivendo em Israel com todos os direitos e não tendo nenhuma vontade de deixar esse país (Pois também tem o direito de ir e vir – quando bem entendem – mas só saem para fazer turismo !) e ao mesmo tempo não querem cumprir as suas obrigações de cidadão (isso sem perder nenhum direito!). Assim, entendo que está em tempo dessas pessoas se integrarem devidamente ao Estado (mantendo plenamente a sua religião islâmica, se quiserem e toda a sua cultura – mas serem cidadãos com deveres e obrigações, pois em qualquer país democrático há limites claros para esse tipo de postura!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    20/03/2016 at 14:52

    Olá Marcelo,

    Em todos os cantos é muitíssimo frequente juntar os adjetivos “civil” e “inocente” quando se fala de terrorismo. Não fiz a conta, mas estimo que em de mais de 95% das vezes em que o assunto é terror, “civil” arrasta o apêndice “inocente”.

    Você faz isto em teu texto com abundância.

    A meu ver isto, induz a imagem que os militares são culpados, ou no mínimo que eles não são inocentes. E aí eu me pergunto qual o crime cometido por um menino de 18 anos convocado para defender o seu país. Porque ao descrever cenas de guerra não se diz nunca que foram feridos dois soldados inocentes?

    Me pergunto também se um civil não inocente (um ladrão de verbas públicas ou um político que assedia moralmente juízes) merece ser justiçado ou ser julgado. Idem para um soldado culpado por crimes de guerra.

    A meu ver, todos estes abusos da linguagem se devem ao fato que nos dias de hoje o discurso (todo ele, inclusive o não político) é recheado de sensacionalismo e de mensagens que se dirigem ao estômago (às emoções) em vez do cérebro (ao raciocínio).

    Talvez isto explique a atitude de alguns dos parlamentares árabes em Israel, que em vez de procurarem sensatamente colaborar com o governo no sentido de melhorar a vida de seus eleitores e também do Estado de Israel, ficam dando declarações inócuas (visto que o mundo não muda um milímetro pelo discurso destes deputados com relação à rotulação do Hezbolá pelos países do Golfo) e até mesmo contraproducentes para seus eleitores.

    O mundo precisa recuperar a sensatez e isto começa pelo discurso político. Mas pelo que temos visto, não será amanhã a véspera (conforme Asterix). Muito pelo contrário.

    Infelizmente,

    Um abraço,
    Raul

    PS quanto ao direito deles falarem o que falaram, eu sou um defensor ferrenho. Eu defendo com unhas e dentes o direito aos imbecis falarem imbecilidades. O que mais poderia se esperar deles?

Você é humano? *