Fauda – Caos no Oriente Médio

18/03/2017 | Conflito; Cultura e Esporte
Fauda


(Alerta: há alguns pequenos spoilers ao longo do texto, embora quase todos acessíveis no próprio material de divulgação da série.)

Quando você abre Fauda no Netflix, ele avisa que a série tem linguagem imprópria e cenas de violência. Eles não estão mentindo. É violenta mesmo.

A história trata de uma secreta equipe israelense de contra-terrorismo, que vai atrás de um terrorista que, até então, supunha-se morto. Em doze capítulos, tudo que poderia ter dado errado na missão, dá. (O nome da séria, “Fauda”, significa caos, em árabe). Como um bom bang-bang, a ação é ininterrupta. Um pouco de Máquina Mortífera, em que a hierarquia, as ordens superiores e as regras, são meras sugestões, e são sumariamente quebradas a cada cena. O envolvimento entre os lados torna-se perigosamente pessoal ao longo da perseguição. Tudo: família, amigos, colegas se tornam secundários para os dois lados da trama.

A ação se passa em Ramallah, Nablus e vilas palestinas da Cisjordânia. Serviu de cenário a cidade árabe-israelense de Kfar Kassem. Filmada com uma equipe mista de judeus e árabes, justamente durante a guerra de 2014. Parte da tensão retratada é real.

Como são reais várias das situações impossíveis retratadas no roteiro. Lior Raz, ator que faz o papel do comandante do batalhão israelense, e co-autor da série, foi um soldado no batalhão Duvdevan do exército, que executa ações semelhantes às vistas na série. O outro co-autor é Avi Issacharoff, jornalista que cobriu o conflito por mais de 15 anos, entrevistando líderes do Hamas e do Fatah, prisioneiros e políticos palestinos.

E tudo isso serve de pano de fundo para mostrar como é complexa, simbiótica e parasítica a relação entre israelenses e palestinos.

Soldados israelenses sozinhos entre eles próprios usam jargão árabe. Árabes usam palavras em hebraico entre si. Nas cenas em que estão juntos, de tão parecidos que são, se não lembramos quem é quem, fica fácil se confundir.

E o mais importante: não há mocinhos nem bandidos. São todos imorais e obcecados. Nem bons, nem maus. Todos bons. Todos maus. Judeus e israelenses podem ter fortes dores de estômago ao ver as coisas que são feitas pelos seus soldados na Cisjordânia e Gaza. Palestinos e árabes não vão se sentir mais confortáveis por conta do retrato tão próximo de seus heróis e políticos.

Outra coisa que chama a atenção é a proximidade entre os lados. Não são só fisicamente parecidos. Não só falam quase a mesma língua e agem com a mesma crueldade e sangue frio, mas moram tão próximos que em uma manhã, um dos soldados toma café em casa. Um telefonema e poucas horas depois, está em ação. No fim da tarde ainda volta de carro para base. Há poucos conflitos no mundo em que algo assim pode acontecer.

Em Fauda, o pior e mais cruel dos terroristas é um apaixonado marido. E tem esse ‘ponto fraco’ devidamente explorado pelo grupo de soldados. Uma jovem palestina busca vingança pela morte do marido. E acaba com a vida de dezenas de inocentes completamente sem relação com o caso. Políticos palestinos vendem os seus em busca de poder. Simpáticos negociadores israelenses acabam com a vida de seus protegidos entre sorrisos.

A série foi altamente elogiada em Israel, tanto por pessoas mais ligadas a direita como a esquerda. Incrivelmente, foi também elogiada por palestinos, inclusive por gente ligada ao Hamas. As críticas ao redor do mundo também são muito positivas. Aos que não entendem ou não se interessam pelo conflito, a história segue sendo ótima, com personagens profundos, multidimensionais e complexos. E uma trama que torna impossível esperar pelo próximo capítulo. Saber que coisas assim acontecem o tempo todo é ao mesmo tempo assustador e fascinante.

Veja o trailer da série aqui:

Aqui, um making-off (em hebraico) muito interessante:

A série está disponível no Netflix também no Brasil.

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Comentários    ( )

One Response to “Fauda – Caos no Oriente Médio”

  • Raul Gottlieb

    19/03/2017 at 16:00

    Ouvi falar muito bem desta série. Mas não a vi e como não gosto demais de cinema não sei se vou me animar a ver. Principalmente porque tenho uma certa aversão a filmes com violência.

    O escritor Elias Canetti (prêmio Nobel de literatura 1981) escreveu sobre a transformação das pessoas quando em grupo. É um assunto apaixonante. Cada um de nós é um “eu” diferente conforme o ambiente que nos envolve, sendo que quanto maior e vociferante o grupo em que estamos mais distantes ficamos do nosso “eu” quando sozinhos.

    Sempre que leio ou vejo algo sobre as dimensões pessoais do conflito (e também sobre as atitudes familiares e culturais de assassinos) o livro de Canetti me vem à mente. E chego à conclusão que não importa muito avaliar as individualidades humanistas (ou não) dos envolvidos no conflito. Pois o que vai determinar o seu curso é como os diversos grupos envolvidos (e são, obviamente, muito mais do que dois) agirão como grupos e não como pessoas.

    A natureza humana é muito complexa e desafia as análises, mesmo as muito bem elaboradas e inteligentes.