Feliz aniversário, Israel

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Feliz Aniversário, Israel. – Ilustração por fotomontagem.

Israel Levi, pachorrento, sentado com uma sweater velha sobre sua grande barriga começou a contar enquanto bebericava seu copinho de café turco que manchava a mesa de fórmica com círculos marrons:

– Eu nasci no dia 14 de maio de 1948, em Fes, no Marrocos. Dia em que Israel declarou independência. Eu vim para cá em 1955. Então tinha seis, sete anos… Algo assim. Viemos toda a família. – E começou a contabilizar devagar, com o indicador direito batendo sobre a mão esquerda espalmada: – Eu, meus irmãos, meus pais (de abençoada memória), meus avós maternos (de abençoada memória). Meu avô era rabino, líder comunitário, era pessoa bastante importante da nossa comunidade. Meu pai era alfaiate. Fazia ternos. Tinha uma alfaiataria conhecida no centro de Fes. Chegou a fazer uma túnica para o Mufti! Meu pai era importante, pessoa de respeito.

– E quantos vocês eram, na sua família?

– Eu tenho sete irmãos e uma irmã. Mais meus pais e meus dois avós.

– E quando vieram, vieram para onde?

– Meus dois irmãos mais velhos foram logo para o exército. Minha irmã foi para Haifa, e eu e o resto da família ficamos num acampamento de transição aqui no Neguev. Dois anos. Você sabe o que foi isso para o meu pai? Ele era conhecido em Fes. Tinha seu negócio, nós tínhamos nossa casa, grande. Meu avô era respeitado e de repente estávamos no meio do nada, sentado em barracas, enquanto o Mapai e o Ben Gurion brincavam com as bobagens dos egípcios em Suez. – Fez um gesto vago, como se espantasse uma ideia da frente do nariz. – Ingleses, franceses, americanos, egípcios… Foram lá meus irmãos a lutar. E a gente naquelas barracas, no meio da politicagem. Meu pai era a cara da frustração. A gente não esquece uma expressão facial dessas com facilidade. Dois anos. – Mostrou com os dedos. – E meus irmãos no exército.

– E aí?

– Aí nos levaram para Yavne. Disseram que ia ser perto de Tel-Aviv, que era uma cidade grande. Meu pai já imaginava Paris. – E sorriu. –  O irmão dele foi para Paris. Mandava cartas, cartões postais. E meu pai foi para Yavne. Éramos eu, meus irmãos, meus pais, meus avós num apartamentinho. Meu pai conseguiu emprego numa indústria têxtil da região, onde trabalhou até morrer. Passamos bastante aperto. Fome mesmo, em alguns momentos

– Ele não continuou como alfaiate?

– Não. Não conseguiu montar clientela. Já não era mais conhecido, tinha que competir com outros alfaiates que já estavam aqui há tanto tempo mais, vindos da Europa.

– Ele se arrependeu de ter vindo para cá?

– Se arrepender de que? Você sabe o que fizeram com nossa família no Marrocos? Nossas coisas? Minha casa nem existe mais! Os muçulmanos confiscaram tudo.

– Sobrou alguém lá?

– Não. Quem não veio para cá foi para a França. Expulsaram todo mundo de um jeito ou de outro.

– Não te dá vontade de ir para lá?

– Onde? Para França? Na minha idade? Eu passei minha vida inteira aqui. Esse aqui é meu país.

– Fez exército?

– Sim, Claro! Golani! 1 Lutei na Guerra dos Seis Dias. E depois de novo, como reservista na de Yom Kipur, e ainda de novo na guerra do Líbano. Na primeira intifada eu já não era mais reservista e não fui chamado. Mas meus três filhos subiram para o Líbano depois. Os três, um depois do outro. Um no Golani, dois do Nachal 2. O do meio, seja sua memória abençoada, morreu por lá. A casamata onde estava foi atingido em cheio por um foguete anti-tanque do Hizbollah.

Isso explicava as insígnias do Nachal que eu via pendurada por detrás do balcão do caixa do café do Israel. Ao lado das insígnias estava uma pequena flâmula do Maccabi-Tel-Aviv e uma do Liverpool. Havia também uma foto desgastada, já azulada dentro de um quadro, do Rav Kaduri. Além de uma Hamsa de cerâmica muito enfeitada com chapinhas douradas, continhas e correntinhas. E uma propaganda genérica, horrorosa, da loteria esportiva.

– Guerra é uma merda. Você acha que a gente já não está cheio de guerra não? Essa última então foi o fim da picada. Quase dois meses de foguetes caindo em cima da gente. Tive que demitir um pessoal, e já tinha até decidido fechar isso daqui. – Disse apontando em nenhuma direção específica. – Mas eu fecho isso daqui e vou fazer o que? Viver de que? De pensão? Vou é morrer de fome! Bem, abençoado seja o Eterno, que pelo menos meus filhos estão criados e bem.

– Eles fazem o que, Israel?

– O mais velho trabalha com high-tech. Mora em Rishon Le’Tzion. Casou com uma russa que chegou aqui com a família no comecinho dos anos 90. Um doce. Tem três filhos. Todos loiros! Minha filha se casou com um goy 3 e mora em Nova Iorque. Ele não quis se converter. Agora ela cria os filhos como pode. Vão ficar meio que sem religião. Shabat, nem sabem mais o que é, e aparecem na sinagoga uma, duas vezes por ano. O que vai ser deles?

– Te preocupa?

– Um pouco. São bons meninos. Mas mal sabem de onde vieram. Daí vão casar com goim 4. Se casarem com judeus, bem, aí quem sabe há uma chance. Mas duvido que vão. E daí a tradição acaba. É assim que vai ser o fim do nosso povo, se a gente não tomar cuidado.

– E teu filho mais novo?

– Ah! Tem um negócio de importação. Casou com uma ashkenaziá 5 klafte 6 e mora no norte de Tel-Aviv.

O sorriso amargo de Israel enquanto para para pensar, procurando um cigarro no bolso, evidenciou que as relações não eram boas.

– Você não gosta da sua nora?

– Prefiro não falar disso. – Mas depois de acender o cigarro, continuou por conta própria: – Essa gente se acha superior aos outros. Pai é doutor de sei lá das quantas quântico, a mãe é PhD em sabe-se lá do que por Harvard… E eu sou o cara que perde dinheiro em cassino.

– Você perdeu muito dinheiro?

– Perdi, ganhei… Como se diz? Money comes, money goes? – E sorriu. – Eu trabalho desde os oito anos de idade para não deixar minha família passar fome. Só estudei até a oitava série. Quem é essa gente para me dizer o que fazer com meu dinheiro? Criei minha família com saúde e de forma honrada, não foi? Era essa gente que fazia pouco do meu pai quando chegamos aqui. Por que? Porque meu pai veio do Marrocos? Porque minha pele é mais escura?

Deu um tempo e Israel deu uma baforada profunda para acabar o cigarro e esmagou a bituca num cinzeiro cheio, no centro da mesa.

– Ah! Família é complicado. Família é importante. Quer um café? Já ofereci, né? Eu vivo esquecendo. Você tem cara de Ashkenazi… Mas diz que é do Brasil? Como é que funciona isso?

– Meus avós vieram da Europa oriental para o Brasil.

– Têm muitos Sefaradim 7 no Brasil?

– Há uma comunidade importante. Safra, por exemplo. Mas me diga, Israel, você vota?

– Voto. Cada vez com menos vontade e com mais desgosto, mas voto sim.

– Para quem?

– Likud.

– Mesmo depois dessa guerra idiota no verão?

– E eu vou votar em quem? No Mapai? – Respondeu Israel com escárnio, usando o antigo nome do Avodá. – O que eles fizeram por mim até hoje? Aqui é Yavne, Habibi! Não é Tel-Aviv. Mostra para mim algum ativista do Avodá aqui, ouvindo o que a gente tem a dizer, que eu voto neles já! Além de que, isso aqui é o Oriente Médio. Quem pisca primeiro perde. É só ameaçar falar em acordo que eles logo acham que podem cagar na nossa cabeça. O que foi a saída do Líbano? A gente ganhou o que de presente do Hizbollah? Paz? Só teve calma depois deles apanharem feio. E depois, em Gaza? Saímos de Gaza e ganhamos o que? Mais e mais foguetes! Ou você está achando que estamos aqui, que o país está aqui, por conta da nossa incrível capacidade de negociar? É só força que eles entendem. Estou aqui, eu, para provar que não é brincadeira. Onde você vê no mundo um pai de família que lutou em três guerras? E perdeu o filho em outra? No mais, vou confiar em quem? No Buji? No Obama?

– E o que você acha das colônias na Cisjordânia? Devem ser ampliadas?

– Aí eu não sei. Mas daí para devolver? Vai devolver aquilo para quem? Para o Hamas? Para o ISIS? Se a gente larga aquilo quem é que vai tomar conta? O Abu Mazen? Se a gente sai de lá vai ser uma bagunça. Eu é que não vou querer estar aqui para ver. Mas meu neto mais velho entra no exército no ano que vem. Vai saber… – E suspirou, um pouco doído, um pouco filosófico.

– Você acha que vai haver paz algum dia?

Israel acendeu outro cigarro e sorriu.

– A gente tem que ter fé, né? Não temos outro lugar para ir. Essa é a nossa casa. Vamos esperar pelo que? O messias? Talvez. Mas isso daqui é o Oriente Médio… vai saber…

– Feliz aniversário então.

– Obrigado! Volte sempre!

 

Notes:

  1. Uma das importantes unidades de solo do exército – http://en.wikipedia.org/wiki/Golani_Brigade
  2. Outra importante e prestigiada unidade do exército – http://en.wikipedia.org/wiki/Nahal_Brigade
  3. Palavra em hebraico que significa não judeu
  4. Plural de goy
  5. Ashkenazim é como são referidos judeus vindo da Europa. Predominamentemente Alemanha e Europa oriental
  6. Vem do Iideshe קלפטע – tem conotação pejorativa e é normalmente usado para definir mulher controladora e podadora
  7. Judeus de origem do norte da África ou Oriente Médio

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Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Feliz aniversário, Israel”

  • Mario S Nusbaum

    25/04/2015 at 16:53

    Mazel Tov para os dois! Para ele bis 120, para o país bis… 1200? 12000?

  • Marcelo Starec

    25/04/2015 at 22:45

    Oi Gabriel,
    Que texto interessante! E como ele mostra bem o sentimento dos judeus expulsos dos países árabes!…Há muitos anos atrás, tive a oportunidade de participar, em Israel, de um programa voltado a entrevistar alguns judeus ashkenazim e outros tantos mizrahim/sefaradim)…Lendo o seu texto, tudo isso me veio a memória…Pelo que sinto, até hoje os judeus que chegaram por ter sido expulsos dos países árabes (e foram muitos, cerca de 850.000 ou mais na época, mas até hoje pouco se fala deles na mídia mundial!) e eles se sentem muito agradecidos a Israel por ter lhes dado refúgio, pois muitos simplesmente foram expulsos, perderam tudo o que tinham e além disso nem mesmo tinham para onde ir….mas por outro lado se sentem um tanto magoados com o jeito que, do ponto de vista deles, foram tratados pelas “elites ashkenazim” (segundo eles!)…..mas está havendo uma progressiva integração e algum dia essa divisão deixará de ser relevante, assim espero!….Parabéns e que Israel seja forever!…Que nunca mais haja no mundo judeus errantes que não tenham para onde ir!!!……
    Abraços,
    Marcelo.

  • Maria Lucia

    25/04/2015 at 23:05

    Força…muita força a você!!!

  • zegeraldo

    27/04/2015 at 18:09

    MAZAL TOV!!!

    ISRAEL LEVI PELO ANIVERSÁRIO QUE SE AVIZINHA
    GABRIEL PACIORNIK PELA ENTREVISTA

    O MELHOR DE QUALQUER PAÍS É O SEU POVO, COM OS PRÓS E OS CONTRA.
    NO BRASIL SÃO MUITOS GOYIM A FAVOR DE ISRAEL E SEU POVO.
    SHALOM!!!

Você é humano? *