Festival Sufi em Israel

18/01/2017 | Cultura e Esporte

O sufismo é um ramo místico do islamismo, surgido no século XIII a partir dos escritos de Jalal ud-Din Rumi. Rumi foi um grande místico e poeta que viveu entre os anos de 1207 e 1273 nas regiões entre os atuais Afeganistão e Turquia. Uma de suas grandes criações foi a busca do êxtase místico através da dança. Essa dança consiste em um giro em torno do eixo do corpo, mantendo a perna esquerda fixa no chão e a direita conduzindo o corpo a girar em torno do coração. A mão direita aberta para cima e a esquerda aberta para baixo fazem a conexão entre o céu e a terra.  O pescoço inclina-se levemente para a direita, e os olhos devem permanecer abertos. O giro é realizado ao som de uma música instrumental meditativa, com um tipo de flauta feita de cana e uma percussão grave que simula as batidas do coração. A pessoa que se dedica à pratica do sufismo é chamada de dervixe rodopiante (ou darwish, em árabe), que pode ser considerado uma espécie de monge, ou asceta. Rumi foi o primeiro dervixe rodopiante, e deixou milhares de poemas que ditava para seus discípulos enquanto estava no transe meditativo do giro.

A primeira vez que me lembro de ter tido algum contato com o sufismo foi através do filme “Uma Amizade sem Fronteiras” (tradução pouco fiel do original “Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran” – “Senhor Ibrahim e as Flores do Corão”). O filme se passa na França, e relata a bonita amizade entre um senhor muçulmano e um rapaz judeu. Quando o pai do rapaz morre, ele sai em uma viagem com o senhor Ibrahim para a Turquia, onde vê os dervixes rodopiantes. O senhor Ibrahim, interpretado pelo eterno Omar Sharif, explica para o rapaz o que significa aquela meditação. Lembro de que eu tinha por volta de 14 anos quando vi esse filme, e a emoção que senti ao ver essa cena esteve sempre comigo.

Desculpe pela dublagem em espanhol, foi a única  versão que encontrei.

Cerca de 13 anos após ter visto esse filme e nunca ter esquecido da cena dos dervixes rodopiando, minha grande amiga e parceira espiritual Rafaela Furlan me apresentou um belo poema do Rumi. Imediatamente me identifiquei, e procurando mais poemas, acabei descobrindo que havia muito mais por trás daquela bela dança do filme. Havia muita poesia e sabedoria envolvendo toda a meditação do giro. Pesquisando mais, descobri que atualmente, em Instambul e na Capadócia, na Turquia, é possível visitar e ver os dervixes rodopiando. Poucos meses após todas essas descobertas, vim morar em Israel. Já estava decidido a aproveitar a proximidade e ir visitar os dervixes na primeira oportunidade, mas o clima na Turquia não estava dos mais favoráveis. Atentados, golpe de estado… Me resignei a ler a poesia de Rumi, esperando dias melhores. Li três coletâneas de poemas, e ia ficando cada vez mais inspirado. Eis que um belo dia, meu grande amigo e sensível companheiro Rodrigo Baumworcel me manda a divulgação de um festival sufi… em Israel! Meu coração mal podia acreditar. Sim, eu não precisava nem mesmo ir para a Turquia. Sem pensar duas vezes, comprei o ingresso e fui sozinho, sem conhecer mais ninguém, para o Quinto Festival Sufi de Israel, em Shitim, no coração do deserto do Neguev.

O festival durou três dias, e superou todas as minhas expectativas. Não faltou o que eu estava buscando. Fiz três longas oficinas de giro meditativo. A sensação de girar sem parar, após aprendida a técnica, ao som daquela música é algo inexplicável. Estar no deserto apenas potencializa a experiência. O meu campo de visão estava dividido em dois. Embaixo, o bege do deserto, e em cima o azul do céu. Depois de muito tempo girando, passada a tontura inicial, entra-se num verdadeiro transe, e a divisão entre o céu e a terra se rompe, as cores e os universos se misturam de verdade, e o que sente-se internamente é inexplicável. Além das oficinas de dança, de giro, havia apresentações de música de todos os tipos – bandas da Jordânia, Turquia, Israel… Música sufi, música judaica do cáucaso, do Yemen, orquestra de flautas… Tudo. Além da parte artística, havia também palestras de todos os tipos. Uma aula maravilhosa que eu assisti explicava um dos conceitos básicos da meditação sufi, o “zicher”. A palavra zicher, em árabe, vem da mesma raiz de zecher, em hebraico, que é lembrança. O sufismo acredita que através da meditação, e de outras coisas na vida que despertam aquela sensação boa no coração – se apaixonar, escutar uma música, ver uma bela peça de arte – colocam a alma em contato com a sua essência original. Como se, ao vir à terra, a alma tivesse que esquecer certas coisas que não estão acessíveis  neste mundo. Mas, através da meditação, da arte, do amor, pode-se fornecer à alma um gostinho daquilo que ela sente tantas saudades, e isso ajuda a alma a seguir em frente nesse mundo e realizar as suas missões.

Agora, um dos aspectos mais interessantes do festival é o que apenas poderia acontecer em Israel. A esmagadora maioria dos participantes do festival eram judeus. Eu podia contar nos dedos os muçulmanos que vi ali, e deveria ter quase quinhentas pessoas no festival. Em boa parte das aulas e palestras, tanto os palestrantes quanto os participantes tinham muito interesse na interseção do sufismo com o judaísmo. Assisti a uma aula interessantíssima em que o palestrante falava das relações entre o sufismo e o chassidismo[1]. Como ambas as linhas, cada uma em sua religião, enalteciam o aspecto místico, o contato com Deus através da música, da dança, do canto, da alegria. José Tadeu Arantes, em seu comentário no livro “A Flauta e a Lua – Poemas de Rumi” (editora Bazar do Tempo) evidencia como a poesia do Rumi pode ser entendida através da filosofia de Martin Buber. “Feliz o momento em que nos sentarmos no palácio, dois corpos, dois semblantes, uma única alma – tu e eu. (…) Tu, que conheces Jalal ud-Din. Tu, o Um em tudo, diz quem sou. Diz: eu sou tu.” – Rumi, tradução de Marco Lucchesi. Rumi, que ao longo de boa parte de sua poesia fala sobre a sua amizade com Shams de Tabriz, mostra que os indivíduos existem sozinhos, mas é o encontro entre o eu e o tu que permite a vida. E isso é extrapolado para a relação entre a humanidade e a divindade.

Faustino Teixeira, em seu comentário no mesmo livro, mostra as relações entre a poesia de Rumi e derradeira poesia hebraica de todos os tempos – o Shir haShirim (“O Cântico dos Cânticos”, um dos livros do Tanach[2]). O Shir haShirim sobreviveu no cânone bíblico após Rabi Akiva afirmar que, para além da paixão carnal e erótica entre a mulher e o homem descrita nesse belo conjunto de poemas, está a chave para a verdadeira conexão entre a humanidade e a divindade. Que Deus ama os seres humanos e vice versa assim como a amada ama o seu amado, e que isso é descrito com detalhes quase gráficos no Shir haShirim. A poesia de Rumi está repleta de referências muito parecidas. Durante todo o festival não faltavam profundas referências judaicas. Muitas das apresentações musicais cantavam musicas tradicionais de judeus de origem da região do Rumi (Turquia e Afeganistão), com diversos versículos do Tanach. Fizemos um lindo kabalat shabat no deserto, e a leitura do Shir haShirim foi uma das mais especiais da minha vida. Em uma das apresentações musicais, um dervixe rodopiava ao som de trechos da Amidá, o conjunto central de orações da liturgia cotidiana judaica.

Em diversos de seus poemas, Rumi fala sobre a embriaguez e sobre o vinho como formas de alteração de consciência, ajudando a atingir o êxtase místico. Comentaristas de Rumi debatem se o vinho e a embriaguez são símbolos abstratos ou práticas concretas. Além do chassidismo com seus fraberguens[3] e outras celebrações notoriamente alcoólicas (especialmente em algumas festas como Purim[4] e Simchat Torá[5]), a referência à embriaguez sempre me intrigou muito na poesia de Avraham Halfi[6], por exemplo (muitas delas cantadas pelo Arik Einstein). Além do poema que se chama “haShikor”, a embriaguez meio mística está presente em outros poemas, como “Atur Mitzchech Zahav Shachor”, “Az Ma Im Ben Adam”, “Shtei Yonim Yonim”. A música escrita pelo próprio Arik Einstein “Ki Shikor Ani” também traz esse elemento. Até mesmo Natan Alterman, em seu “Erev Ironi” faz referência à embriaguez. Finalmente, o Shir haShirim também está repleto de referências ao vinho e à embriaguez: “Teus amores são melhores do que o vinho”, “levou-me à casa do vinho, e seu estandarte sobre mim era o amor”, “bebi o meu vinho com o meu leite. Comei, amigos, bebei, ó amigos, e embriagai-vos!” “Teu paladar é como um bom vinho para o meu amado, que se bebe suavemente e faz com que falem os lábios dos que dormem”. – Shir haShirim.

“Quando as uvas se tornam vinho,
imitam nossa capacidade de mudança (…)
O vinho embriaga-se conosco
e não o contrário.” – Rumi

Outra referência literária que me chama atenção é a ênfase que Rumi dá ao silêncio. Muitos de seus poemas terminam com uma convocação a um silêncio quase sagrado. Não sei se há alguma relação, mas em Shakespeare essa referência ocorre com certa frequência também. O famoso solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet termina com os versos “Silêncio agora. Ah, bela Ofélia, ninfa, em tuas preces recorda meus pecados”. A famosa frase “o resto é silêncio” é o fechamento da peça de Hamlet. O leitor interessado na poesia de Rumi vai encontrar diversas variações dessa convocação ao silêncio ao final de seus poemas, como por exemplo:

“Silêncio!
És feito de pensamento, afeto e paixão.
O que resta é nada
além de carne e ossos.”
– Rumi, em Sama IV

“Silêncio! Faz silêncio!
O silêncio é o sinal da morte.
Em nome da vida
não fujas mais do que guarda silêncio!”
– Rumi

Além de toda a inspiração que o festival me trouxe, voltei muito feliz e realizado por outros motivos também. Acredito que esse festival é a prova de que o contato entre o judaísmo e o islamismo nesta região pode produzir coisas muito lindas, e não apenas guerras e conflitos. Uma cultura pode beber da fonte da outra, e ambas podem se inspirar mutuamente trazendo mais espiritualidade, arte e cultura para todos aqueles dispostos a se beneficiar deste contato, valorizando, engradecendo e expandindo sua própria identidade. Como disse Rumi:

“A cada nascer do sol oram juntos
muçulmanos, cristãos, judeus.
Abençoado todo aquele em cujo coração
ressoa o grito celeste que chama: Vem!”
– Rumi

Belo vídeo com trechos de festivais passados

Yair Mau, em dias melhores (2005), visitou a Turquia e nos presenteia com esse belo vídeo para apreciação e inspiração para o poema que vem em seguida, no qual Rumi enaltece a dança e o giro.

Sama II

“Vem, vem, tu que és a alma
da alma da alma do giro!
Vem, cipreste mais alto
do jardim florido do giro.

Vem, não houve nem haverá
jamais alguém como tu.
Vem e faz de teus olhos
o olho desejante do giro.

Vem, a fonte do sol se esconde
sob o manto da tua sombra.
És dono de mil Vênus
nos céus desse remoinho.

O giro canta tuas glórias
em mil línguas eloquentes.
Tento traduzir em palavras
o que se sente no giro.

Quando entras nessa dança,
abandonas os dois mundos;
é fora deles que se encontra
o universo infinito do giro.

Muito alto, distante se vê
o teto da sétima esfera,
mas muito além é que encontras
a escada que leva ao giro.

O que quer que exista, só existe no giro;
quando danças, ele sustenta teus pés.
Vem, que este giro te pertence
e tu pertences ao giro.

O que faço quando vem o amor
e se agarra ao meu pescoço?
Seguro-o, aperto-o contra o peito
e arrasto-o para o giro!

E quando as asas das mariposas
abrem-se ao brilho do sol
todos caem na dança, na dança
e jamais se cansam do giro”

Jalal ud-Din Rumi, em “Poemas Místicos –Divan de Shams de Tabriz”, editora Attar, tradução de José Jorge de Carvalho

Boneco gigante de um dervixe rodopiante montado no festival.

[1] Corrente judaica criada no século XVIII que democratizou o acesso ao judaísmo, legitimando outras formas de elevação espiritual além da reza e do estudo. Tais como a alegria, a música e a dança, por exemplo.

[2] A bíblia hebraica.

[3] Refeições festivas repletas de alcóol e de nigunim (melodias meditativas) que celebram todo tipo de ocasião, inclusive o aniversário de falecimento de algum mestre (que é um motivo de alegria, por ser encarado como o aniversário da elevação da alma).

[4] Literalmente, “Sorteio”. Festa tradicional judaica que celebra como a rainha Ester e seu tio salvaram os judeus de um massacre na Pérsia antiga.

[5] Literalmente, “Alegria da Torá”. Festa judaica que celebra o fim do ciclo anual de leitura da Torá, que volta para o início no mesmo dia.

[6] Poeta e ator judeu que viveu em Tel Aviv no pré Estado de Israel.

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