A ficha caiu

01/08/2014 | Conflito; Opinião

Sempre soube que, após uma mudança de país, a ficha leva um tempo pra cair. Quem tem menos de 30 anos não vai entender essa expressão, então explico: nos antigos orelhões públicos, alimentados por ficha telefônica, ela só “caia” para dentro da máquina quando a ligação era completada.

A comunicação se estabelecia, aí a ficha caía.

Em Israel é assim também. A ficha só cai quando você entende que o mundo enxerga em você a judia israelense que você passou a ser. Ele percebe antes que você mesmo o perceba e a guerra grita isso em seus ouvidos e olhos, com todas as letras. Você entende que se tornou alvo de todas aquelas coisas feias que, em seu país de origem, pareciam ser direcionadas a outras pessoas. Judeus sujos, sedentos de sangue, israelenses dominadores, cruéis desalmados, assassinos de criancinhas, racistas desgraçados.

Um dia, você acorda e percebe que estão falando de você. Essas mensagens sublimes são voltadas especialmente para você. A comunicação entre você e seu novo país é feita, você sente o peso da sua escolha. E aí a ficha cai.
Tomou-me algum algum tempo para entender que todos os palavrões que vinham em minha direção eram dirigidas, também, para todos que fazem parte de nossa vida aqui. Os judeus sujos, racistas, sanguinários somos eu, minha filha pré-adolescente, a velhinha do segundo andar, o moço que toca órgão na esquina em troca de um troco, a bebê de seis meses que mora no apê ao lado do meu, que agora ri para mim quando estamos juntas no abrigo antiaéreo do prédio.

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Somos todos dominadores fanáticos que se satisfazem em derramar sangue inocente. O exército israelense está em Gaza há três semanas e esse foi o tempo que me levou para entender que, no tiroteio virtual das mídias sociais, o alvo sou eu. Por que a ficha não tinha caído. Por que é tão mais fácil ler e ouvir quando a coisa parecia não ser comigo.
Eu, uma rata raivosa do Oriente Médio, judia desgraçada e cruel, semente de todo o mal do mundo, ainda me impressiono com as sirenes antiaéreas. Não sei se isso vai mudar.

Até a semana passada, me impressionava com os ataques e as manifestações anti-Israel, seja nas mídias sociais, seja na cobertura vergonhosa do jornalismo internacional – embora seja a brasileira que me cause mais calafrios, com algumas raras exceções.

E, até ontem, me impressionavam os ataques antissemitas virtuais, que continuam virtuais porque, até agora, ninguém bateu na minha porta para me dizer nada pessoalmente – bendita e maldita essa máscara internáutica, atrás da qual as pessoas podem destilar seu ódio sem precisar se apresentar com a explicação para seus motivos.
Agora, me acostumei.

E esse lugar, o da insensibilidade, é o pior dos mundos. Mas uma opção irrecusável em tempos como esses.

Comentários    ( 14 )

14 Responses to “A ficha caiu”

  • Rebeca Daylac

    01/08/2014 at 17:18

    É isso aí Miriam!!!!
    bjs
    Rebeca

  • Mario S Nusbaum

    01/08/2014 at 19:12

    “Agora, me acostumei.”
    Eu ainda não Miriam, mas me incomoda muito mais, me faz passar mais mal, ler coisas asquerosas escritas por Gideon Levy, Noam Chomsky e Norman Finkelstein. Esses, por mais que eu me esforce, não consigo entender.

    • Raul Gottlieb

      03/08/2014 at 15:06

      Então faça como eu e não leia, amigo Mário!

      Da mesma forma como você não é obrigado a comer comida estragada, não é obrigado a ler opinião de filhos da você-sabe-quem.

      Quando o leite azeda na geladeira você joga fora, certo? Porque não faz o mesmo com os textos de notórios fdp?

    • Mario S Nusbaum

      03/08/2014 at 21:03

      Eu não leio Raul, pode acreditar. Fico sabendo das pérolas de autoria desses self-hating jews porque elas são sempre citadas por anti-semitas nos blogs que eu frequento para “provar” que até judeus acham isso e aquilo.
      No começo eu respondia com lógica, por exemplo: Fulano, um brasileiro, acha Lula o máximo, Beltrano, também brasileiro, acha uma desgraça, o que isto prova? Nada claro.
      Esses leites azedos prestam um grande desserviço a Israel e aos judeus porque colocam dúvidas em quem não conhece muito bem a História do conflito e tendem a pensar: puxa vida, se até intelectuais judeus…..
      Infelizmente não dá para jogar eles fora! Um abração e boa sorte por aí.

  • Eloi Laufer

    01/08/2014 at 20:20

    Que eu faço minhas todas as palavras do texto acima de Mirian Sanger, só que tenho a lamentar que não devia ter dito “judeus”, mas sim “sionistas”, sim porque não é o povo judeu como um todo que esta envolvido nesse guerra, mas o movimento sionistas que domina Israel e que não soube administrar a situação política em 1948, 1956, 1967 , quando deviam ter ocupado todo o território e estendido sua administração sobre a Faixa de Gaza e Cisjordânia, o que teria impedido o absurdo que hoje se vê naquela Região. E agora que aquele povo, prisioneiro em seus muros, não tendo outra coisa a fazer a não ser filhos, se multiplicou como ratos em suas tocas, ninguém os quer e sobrou à Israel os destruir para conseguir seus territórios, pois o povo de Israel também cresceu e já não tem onde se enfiar naquelas areias quentes e sem água…

    • Raul Gottlieb

      03/08/2014 at 15:02

      Eloi,

      É impossível deixar de manifestar a minha indignação quanto ao teu infeliz comentário. Comparar pessoas com ratos é asqueroso e injustificado sob as mais básicas leis do convívio humano.

      Como se isto não fosse bastante você ainda advoga que Israel deveria ter exterminado os Palestinos, em 48, 56 e 67.o que é muito, mas muito mesmo tolo! Os sionistas nunca quiseram exterminar os Palestinos, nem no passado e nem agora. Os sionistas são dotados de um senso de humanidade que talvez ultrapasse completamente a tua compreensão, mas que existe e se manifesta diariamente, inclusive na guerra.

      E para coroar o coquetel de absurdos você ainda supõe que Israel luta hoje por falta de espaço dentro de suas fronteiras. Ora, sr. Eloi, vá se informar minimamente antes de prosseguir cometendo barbaridades pelo teclado!

      Raul

    • Mario S Nusbaum

      03/08/2014 at 21:05

      Endosso o que o Raul escreveu e acrescento:

      ” sim porque não é o povo judeu como um todo que esta envolvido nesse guerra”
      Conte isso para os animais (esses sim) que vandalizam sinagogas no mundo inteiro e atacam judeus Europa afora.

  • Marcelo Starec

    01/08/2014 at 22:26

    Oi Miriam,
    Parabéns pelo artigo! Que bom que a “ficha caiu para você”!…Infelizmente, o fato é que o antissemitismo é mesmo uma doença, uma desgraça que independe do que os judeus façam ou deixem de fazer!…Ele depende, principalmente, de fatores externos, tais como crises ou o interesse de governos ou grupos, assim como antigamente dos reis e califas, de usarem os judeus como “bode expiatório” para os mais variados fins, tais como “ganhar popularidade”, “desviar a mídia de outros problemas” e a lista é infindável. Há governos, entretanto, que por questões morais não insuflam o antissemitismo – posso citar aqui diversos exemplos, infelizmente em outros casos ocorre o contrário, o que é vergonhoso, mas um fato real. Por fim, o que eu assisto na mídia é, em geral, com algumas honrosas exceções, mas estas só confirmam a regra, é que o que vale é criticar Israel a partir de qualquer tipo de argumento e ao mesmo tempo fechar os olhos para todos os tipos de atrocidades, possíveis ou imaginárias, onde não há como se imputar a culpa a Israel ou aos judeus. Infelizmente, o modo de a maior parte da mídia e alguns governos agirem dessa forma tem tudo a ver com o velho antissemitismo, ou seja, a ideia de que os judeus são tudo isso que você escreveu e muito mais. Só que, ainda, embora seja facilmente percebido, normalmente não é assumido de forma publica e notória, mas de forma “disfarçada” mediante a ataques a Israel que sempre existirão, por parte desse tipo de pessoas, independente da política de Israel em relação a qualquer coisa, pois os argumentos mudam, mas o antissemitismo permanece igual !…É muito triste, mas real. E por fim quero concluir com aquele tipo de questão, que muitas pessoas fazem: Então eu não posso criticar Israel ou os judeus que vocês já me chamam de antissemita? Não. Claro que você pode criticar. Israel nem os judeus são perfeitos, somos tão somente seres humanos, com um monte de erros, falhas, politicas que você eventualmente discorde…mas só não faça isso com “viés”, ou seja, elabore as suas criticas aos judeus e a Israel com a mesma “proporcionalidade” com que você critica os outros povos e nações da face da terra. Se você fizer isso e não “fechar os olhos” para as coisas erradas de todos os países e avaliar Israel do mesmo modo que você avalia tudo ao seu redor, você não é antissemita, mas caso contrário eu realmente desconfio.
    Um abraço,
    Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      03/08/2014 at 21:09

      Concordo com tudo Marcelo, e cansei de usar o argumento que você cita no último parágrafo, é uma das minhas réguas para medir anti-semitismo.
      Agora, sou obrigado a reconhecer que Israel, há muito tempo, tem uma péssima política de PR .
      As vezes fico com a impressão, o que me entristece muito, de que faz questão de passar uma imagem negativa.

    • Marcelo Starec

      03/08/2014 at 23:06

      Oi Mario,
      Obrigado. Fico feliz em ler a sua opinião a esse respeito. Na verdade, eu não acho que a imagem de Israel seja tão negativa assim, considerando-se o mundo como um todo. A muito tempo atrás, estive na Índia a trabalho e fiquei impressionado como os Hindus tinham uma boa imagem de Israel e dos judeus e portanto não é surpresa para mim o atual apoio do Governo da Índia a Israel. Eles diziam que em Israel há alta tecnologia e uma tolerância para com pessoas de qualquer religião, o que é fato. Na Europa, nos Estados Unidos, na Rússia, na China, no Canadá, na Austrália e em muitos outros países sérios, Israel também é bem visto por uma parte considerável de sua população, em muitos casos a maior parte. O grande problema é que em certos países e em certos segmentos, o antissemitismo, normalmente “enrustido”, mas sem dúvida presente, é tão forte que você pode colocar os fatos na cara das pessoas, tal como dois e dois são quatro, mas essas pessoas não querem ver, não querem entender, elas sempre olham com uma lógica com “viés” e talvez Israel perceba que para esses segmentos, explicar os fatos é simplesmente perder tempo, “chover no molhado”…De todo modo, não posso deixar de concordar contigo que também acredito que ainda assim um esforço maior poderia ser feito.
      Um abraço,
      Marcelo.

    • Mario S Nusbaum

      04/08/2014 at 17:20

      ” Na verdade, eu não acho que a imagem de Israel seja tão negativa assim,”
      Oi Marcelo, você acrescentou mais um item na lista das coisas sobre as quais torço muito para estar errado e outros certos.
      “o modo de a maior parte da mídia e alguns governos agirem dessa forma tem tudo a ver com o velho antissemitismo”
      100% de acordo, e se continuo participando de vários blogs (brasileiros) sobre o conflito é para tentar contrabalançar o racismo deles, para que quem não tem opinião formada não ouça só um lado.
      Durante esses anos em que faço isso, percebi várias coisas. Por exemplo: muita gente nunca ouviu falar em Camp David e Taba. Menos gente ainda sabe que até 1922 Palestina incluía a Jordânia e por isso dão ouvidos as tais porcentagens que deram aos judeus e aos árabes.

      “Porque temos esta mania de achar que somos os responsáveis por tudo?”
      Bom, eu não tenho, mas concordo com você que muitos judeus, principalmente “intelectuais (?!)” tem.

      “Se um quantidade enorme de pessoas pensa que Israel está errado nós concluímos: “temos um péssimo PR”.
      Tenho assistido à CNN algumas horas por dia e mesmo se eu não soubesse nada sobre Israel, baseado apenas nas declarações dos últimos dias, chegaria a essa conclusão.
      Posso estar totalmente errado, é a opinião de quem mora bem longe de Israel, mas acho que Israel deveria ter “aceito” o governo de união hamas/AP. Não acho que daria em algo bom, muitíssimo pelo contrário, em menos de uma semana a mentalidade assassina do hamas se manifestaria, e é exatamente por isso que Israel deveria, no mínimo, ter elogiado a “boa-vontade”. Qual seria o prejuízo?

      “Não poderia ser que existe uma quantidade enorme de pessoas que não entende bulhufas?”
      Com certeza existe.

      ” Que o mundo está cheio de idiotas, me parece mais consistente com a realidade do que temos um péssimo PR”.
      Veja, por exemplo, qual o produto de maior sucesso do mundo: a Coca-Cola – uma bebida que não mata a sede, que não alimenta e que faz mal a saúde. Que me perdoem os amantes da Coca-Cola (que eu também tomo de vez em quando), mas ela não é um ótimo indicador para o nível de anestesia mental que existe no mundo?”
      Desculpe dizer Raul, mas aqui você se contradiz e prova o MEU ponto de vista! Se uma boa PR (a da Coca) consegue vender algo que não presta (eu tomo, mas admito), o que não faria com um excelente produto que é Israel?

      um abraço forte para vocês dois (e todos do grupo, claro) e uma ótima semana. Dada a situação, no mínimo boa.

      Isto é apenas um pensamento. Abraço, Raul

    • Raul Gottlieb

      04/08/2014 at 04:23

      Mario,

      Porque temos esta mania de achar que somos os responsáveis por tudo?

      Se um quantidade enorme de pessoas pensa que Israel está errado nós concluímos: “temos um péssimo PR”.

      Não poderia ser que existe uma quantidade enorme de pessoas que não entende bulhufas? Que o mundo está cheio de idiotas, me parece mais consistente com a realidade do que temos um péssimo PR”.

      Veja, por exemplo, qual o produto de maior sucesso do mundo: a Coca-Cola – uma bebida que não mata a sede, que não alimenta e que faz mal a saúde. Que me perdoem os amantes da Coca-Cola (que eu também tomo de vez em quando), mas ela não é um ótimo indicador para o nível de anestesia mental que existe no mundo?

      Isto é apenas um pensamento. Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      04/08/2014 at 17:27

      Raul, respondi a você também na resposta ao Marcelo, mas ficou faltando algo:

      ” Que o mundo está cheio de idiotas, me parece mais consistente com a realidade do que temos um péssimo PR”.
      E é nesse mundo que vivemos, você, eu e Israel, por isso uma boa PR tem que ser voltada a eles,

    • Marcelo Starec

      04/08/2014 at 18:01

      Oi Raul,

      Gostaria de dizer que gostei muito e concordo com o que você acabou de explicar. Os judeus não são perfeitos, claro, mas tem uma tendência quase que doentia de tentar explicar as agressões a seu povo com aquela velha questão “O que fizemos para merecer isso?”…Concordo que também é salutar questionarmos os nossos erros, mas infelizmente, no mundo real, nem tudo é explicado por eles. Existem dois lados na questão – por um lado, podemos tentar sempre fazer o melhor, mas em algumas situações, a questão é que há em certos grupos uma predisposição contrária, que é tão forte e arraigada, que qualquer argumento ou atitude, por melhor que seja, será inócuo, visto que a resposta nesses ambientes já está dada – infelizmente, me parte o coração dizer isso assim, mas durante o holocausto, havia muita gente que pensava que os judeus estavam recebendo o “justo castigo” por algo que fizeram (seja lá o que for!). Do mesmo modo, há hoje um grupo de pessoas que, por motivos óbvios, pensam o mesmo e mesmo que Israel viesse a ser aniquilada por um “grande ato terrorista”, essas pessoas ainda assim apareceriam para dizer que Israel e os judeus mereceram isso, visto que (sempre há algum argumento estúpido para se encaixar aqui). Enfim, não devemos deixar de pensar e criticar o nosso lado por causa do antissemitismo, mas que ele existe, existe sim!…
      Abraço,
      Marcelo.

Você é humano? *