Fila não é um atrás do outro.

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Bibi em Paris. Via Eretz Nehederet.

O impressionante avanço do premiê Benjamin Netanyahu pelas fileiras de líderes que posaram para a foto no protesto em Paris chamou a atenção – até mesmo dos israelenses. Lá do fundo, fazendo um saudável uso dos cotovelos, combinando com ginga e apertos de mão estratégicos, Netanyahu partiu lá da quarta fila para a primeira. E olha que é bastante difícil impressionar um israelense no quesito filas.

A estranha relação entre o israelense e a fila já deve ter sido estudada por acadêmicos das áreas humanas (sociólogos e antropólogos), exatas (engenheiros e físicos relativistas) e biológicas (etólogos e simiólogos). Outros mais radicais afirmam que é um estudo vazio: não existem filas em Israel. Existe sim um aglomerado de gente se acotovelando para ver quem é que se serve no buffet antes; mesmo que haja comida à vontade. Ou quem vai subir no ônibus primeiro – horas antes do ônibus chegar. Aeroporto? Chegar com quatro horas de antecedência. Três delas para ficar de pé, na frente do balcão, por razão alguma.

Nem sou eu quem digo, um editorial no jornal Haaretz, do Yossi Verter chama ao povo: “Je suis Bibi! Netanyahu traz o Likud para Paris”. (aqui, em inglês). Afirmando que Bibi cometeu um atentado terrorista à finesse e à façon em Paris. É o “jeitinho israelense”. Onde houver mais de uma pessoa por vez para passar, ou para ser atendido, a confusão impera.

De certa forma, em alguns segmentos da sociedade, e em circunstâncias especiais, há fila. Ou melhor: o acotovelamento se dá de forma mais civilizada e a lei do mais forte não se dá pelo uso dos cotovelos e sim do astuto uso de famigeradas técnicas, cujo conhecimento são imprenscidíveis à sobrevivência neste país. Aqui listo algumas com uma ressalva: não faça uso delas se não estiver bem treinado.

“É só uma perguntinha”

Essa funciona muito bem em departamentos públicos, hospitais e clínicas, e bancos. Há um saguão. Pessoas esperam de pé nas diversas filas, ou estão sentadas com suas senhas na mão, esperando ansiosamente pela sua vez. Eis que surge alguém que se infiltra entre o número 214 e o 215, sem que o 214 tivesse tido tempo de sair do guichê e antes que o 215 se de conta que sua vez está chegando. Nosso herói se posiciona de tal maneira que o avanço é rápido e preciso, dando-se assim, efetivamente, a furada de fila. Lembrem-se, o saguão está cheio, e cheio de israelenses ansiosos (por estarem em uma fila). E o 215 se aproxima velozmente. A resposta a se dar é curta, simples e provavelmente não vai surtir nenhum efeito:

– Ah! Desculpe. Eu não quero ser atendido. É que eu só tenho uma perguntinha.

Como esse truque é velho e bem conhecido, ele deve ser aplicado de forma exata e precisa. Como guichê de informações é coisa rara em Israel, é bem capaz do sujeito estar realmente tentando se informar. Mas é improvável. Se você for vítima desse golpe, use a resposta clássica, e em voz alta, para o saguão inteiro ouvir (e eventualmente ficar do seu lado na briga):

– A fila é para fazer perguntinha também. Pegue um número.

 “Eu já estava aqui antes”

Sendo o inferno burocrático que é, em Israel é bastante possível que de um guichê você seja transferido para outro, sem ter resolvido seu problema ainda. Neste caso, o segundo guichê lhe dá um papel, ou carimbo, ou ficha para ser levado ao primeiro guichê. E evidentemente a fila para o primeiro guichê, como você já sabe por experiência, é enorme. Você não pretende esperar. Portanto se enfia ali, explicando para toda cara feia que te aparece que “você já esteve ali antes”. Evidentemente a criatividade israelense é prodigiosa e usar o “já estava aqui antes” mesmo que o antes seja uma indicação de meses, ou anos, é comum. Saia-se dessa observando a cara do funcionário, que provavelmente não está nem aí para fila. Mas se ele encontra o mesmo sujeito, com o mesmo problema já pela 5a vez no mesmo dia, vai fazer uma expressão inimitável. E a expressão vai confirmar que a história é verdadeira. 

“Vai chegando”

Essa funciona com fila de pé. Em eventos, supermercados, e uma vez me aconteceu uma dessas para limpar os pés na torneira ao sair da praia. Sujeito apressado entra na metade da fila. Fica ali, a olhar a paisagem, sem cruzar a vista com ninguém, mexendo no celular… e seguindo devagarinho junto com a fila, cada vez mais colado. Até que de repente, e não mais que de repente, sem ninguém notar, o sujeito se incorporou e efetivamente, furou a fila. A solução é dizer (sempre em voz alta, afim de que todos na fila ouçam e tomem seu partido)

– Ó, desculpa, acho que o senhor não viu, mas o começo da fila é ali!

“Oi! Eu tô aqui, ó, atrás de você”

Vem um gaiato e te avisa que, na verdade, ele está atrás de você. Mas não está coisa nenhuma, porque logo após a declaração, sai e vai fazer qualquer outra coisa. Retorna depois, avisando “Ó, voltei.”, e explicando para quem efetivamente ficou esperando atrás de você: “Eu estava atrás dele… Pode perguntar”. Ou, na pior das hipóteses, depois que você já está bem longe, diz para todo mundo que perdeu a vez, e se enfia lá na frente. Eu não conheço nenhuma contra-técnica para vencer esta daí.

“Oi, dá licença? É que o meu é rapidinho!”

Dispensa explicações longas. Como o uso do “licença” junto com sorriso é tão raro numa situação de filas, que a vítima, tomada de completa surpresa e perplexidade, deixa o sujeito passar. Acontece muito comigo no supermercado, especialmente com velhinhos. Velhinhos me adoram.

 “Cotovelo”

Usado pelo nosso premiê com maestria. Só faltava chegar no Hollande, dar um tchauzinho de longe e dizer “ele é meu amigo, pedi para guardar lugar para mim!”. 

Bonus! Aprimore suas técnicas com esse simulador, em que você poderá furar sua própria fila na figura de Bibi, em Paris.

Yair Mau, em texto anterior analisou esse dentre outros hábitos israelenses de forma profunda. Clique aqui para ler mais.