Foxtrot: retrato de um tema que não sai do lugar

Assisti por esses dias a um filme israelense do qual gostei muito: Foxtrot. Meu marido, israelense como o filme, estava curtindo um tanto até chegar nos últimos 20 minutos. Daí começou a quase morrer de tédio e “bode”.

Se ele acompanhasse com mais atenção o noticiário cultural, se lembraria de que esse é o filme que levantou tanta polêmica na esfera do Ministério da Cultura por aqui, há poucos meses (entendo o porquê clicando aqui), ao ser indicado para concorrer no Festival Internacional de Veneza (merecidamente levou o Leão de Prata. Recebeu também outros prêmios, e está a caminho de mais uns tantos – quem sabe o Oscar de filme estrangeiro?).

Cada um vai com um olhar ao cinema, e eu fui assistir a um filme que conta o drama de um pai que recebe do exército a notícia de que seu filho morreu em serviço – ou “caiu”, termo que aqui designa a morte de um soldado. Os conselhos médicos à família, a visita de um oficial que explica como será a cerimônia de sepultamento e outros detalhes conseguem fazer com que nós, o público, sintamos um pouco do turbilhão emocional desse momento. Mas só um pouco, porque para compreender dor como essa não há cinema que baste.

A atuação dos atores é ótima. As ironias são bem colocadas. O humor cáustico (amo) e os diálogos tão cheios de duplo sentido são incrivelmente bem sacados. Merece prêmios e atenção, sim.

But… o filme navega também por um tema que um israelense de posição que politicamente vai do centro em direção à direita e além não suporta: a crítica ao exército de Israel.

A cena que fez a ministra israelense da Cultura e do Esporte Miri Regev estrilar foi a mesma que fez meu marido desanimar com o filme: o momento de pânico dos soldados cuja consequência é enterrada na escuridão da noite (para saber mais, vá lá e assista).

Se isso de fato acontece ou não é tema pra outro artigo.

O que digo aqui é que esse assunto é abordado com incrível frequência no cinema israelense. Autocrítica é uma coisa ótima, né?, e fazer qualquer gesto no sentido de impedi-la de vir à tona aqui seria algo como exigir que o cinema brasileiro não abordasse os anos de ditadura ou a violência policial.

No entanto, apesar de acreditar nisso, saí do cinema com um gosto meio amargo, por conta da impressão de que já se estabeleceu mundo afora que o cinema israelense só pode ser apreciado quando critica e expõe nossas feridas internas.

Cansativo esse negócio, polêmico e tudo o mais, mas fazer o quê já que vivemos (e espero que continuemos assim) em uma democracia que defende a livre expressão e o exército faz parte do cotidiano de todos, sem exceção? Além disso, será que esse não é simplesmente um dos melhores papéis do cinema em nossas vidas? Basta desviar o olhar do umbigo e lembrar dos incríveis Quero Ser Um Milionário (sobre a Índia), Central do Brasil (Rio de Janeiro), Guerra ao Terror (Iraque x EUA), entre muitos outros.

Chego aqui e me pergunto: como quero fechar esse texto? A que conclusão eu chego?

Nenhuma. Quando penso no exército, e já escrevi antes sobre isso aqui no Conexão Israel, me sinto melancólica e exatamente como descrevem dois personagens do filme Foxtrot a respeito da dança que dá título a ele: dou quatro passos em quadrado (observo, debato, rumino, reflito e… observo, debato, rumino e reflito), mas volto sempre ao ponto de partida.

Como Israel, segundo a visão do diretor.

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