Fronteiras do espaço

No dia 25 de julho de 2014, durante o conflito entre Israel e o Hamas, o astronauta alemão Alexander Gerst postou a seguinte imagem no site da Agência Espacial Européia. A imagem mostra Israel iluminada de noite, com algumas das principais cidades claramente visíveis. Vejam se vocês conseguem adivinhar qual cidade corresponde às diferentes manchas de luz.

noite0b

 

Escrevendo do espaço, Alexander disse:

Nós não vemos nenhuma fronteira do espaço. Nós apenas vemos um planeta único com uma atmosfera fina e frágil, suspenso em uma escuridão vasta e hostil. Daqui de cima, fica claríssimo que na Terra somos uma só humanidade, e nós acabamos compartilhando o mesmo destino.

O sentimento é bonito, mas a primeira frase é claramente falsa. Talvez as fronteiras de outros países não possam ser vistas do espaço, mas as de Israel podem, e este texto é sobre isto. Antes de falarmos de partes específicas do mapa de Israel, tomem alguns minutos para familiarizarem-se com o seguinte mapa, onde as fronteiras estão marcadas por linhas negras.

israel2

Atenção: a área marrom que cobre parte da Síria é devida a rochas vulcânicas, que resultaram de erupções vulcânicas ocorridas há milhões de anos. Não culpem Bashar al-Assad por essa.

Israel – Egito

Em 18 de janeiro de 2013 o astronauta canadense Chris Hadfield tirou esta foto da Estação Espacial Internacional. Pode-se ver a fronteira entre Israel (à direita) e Egito (à esquerda), além da Faixa (cinza) de Gaza, bem no meio da imagem. Esta foto não foi modificada para dar tons diferentes aos dois países.

IE2

Uma outra imagem, do dia 3 de novembro de 2011 mostra mais detalhes, vejam abaixo:

IE1

As dunas de areia do lado israelense são bem mais escuras que do lado egípcio. Apesar de terem nomes diferentes, o Negev (Israel) e o Sinai (Egito) são o mesmo deserto e não deveria haver diferença alguma entre as dunas de cá e de lá. Como então explicar essa fronteira tão visível?

Com o acordo de paz entre Israel e Egito, no final dos anos 1970, o deserto do Sinai foi devolvido e a fronteira entre os dois países foi fechada. Até então beduínos podiam passar livremente entre o Negev e o Sinai, pois ambos faziam parte de Israel, que conquistou o Sinai na Guerra dos Seis Dias. Assim, rebanhos de cabras e ovelhas podiam pastar livremente a (pouca) vegetação local, e suas patinhas delicadas pisavam nas dunas e quebravam a crosta biológica que as cobriam. Esta crosta é comum na região, e é formada por cianobactérias.

Com a devolução do Sinai, o pastoreio foi proibido do lado israelense da fronteira, mas seguiu desimpedido do lado egípcio. Assim, com o passar dos anos, a crosta biológica, de cor mais escura que a areia, cresceu e fixou as dunas do lado israelense. Vejam a imagem abaixo, com Israel do lado direito, e rotas de patrulha do exército de ambos os países de cada lado da fronteira.

Egito-Israel

Israel – Síria

Na Guerra dos Seis dias, de 1967, Israel conquistou da Síria as Colinas do Golan. Vejam na imagem abaixo se vocês conseguem identificar esta região. Se ficar difícil, podem colar e voltar à segunda imagem do texto.

iss3_b

A fronteira entre Israel e Síria está claríssima: enquanto que o Golan tem coloração totalmente verde, o lado sírio apresenta coloração marrom e cinza. Desta vez não precisamos de cianobactérias nem de cabras para explicar o porquê. O Golan é uma região com alta produção agrícola enquanto que a Síria… bem, a Síria não.

Israel – Cisjordânia

A imagem abaixo mostra a Cisjordânia, com a linha verde do armistício de 1949 entre Israel e Jordânia desenhada com a cor… vermelha!

West_Bank_Political_4

Agora vejam a imagem abaixo, é impossível deixar de identificar a Cisjordânia: Israel do lado esquerdo é verde, e a Cisjordânia é marrom.

CJ2

Como explicar o fenômeno? Dois motivos: agricultura e reflorestamento.

Agricultura todos imaginamos bem o que é, dispenso maiores explicações. Quero falar mesmo é do reflorestamento.

Em 1867 o jornalista e escritor americano Mark Twain viajou pelo Oriente Médio, e seus relatos podem ser lidos no livro “The Innocents Abroad”. É isto que ele escreve sobre a subida que leva o viajante do litoral à Jerusalém:

Nós não vimos nem sequer um ser humano durante todo o itinerário. Apressamo-nos em direção ao nosso objetivo… Jerusalém renovada. Quanto mais nós seguíamos adiante, mais forte o sol se tornava, mais rochosa e sem vegetação, mais repulsiva e sombria a paisagem se tornava. Mal havia uma árvore ou um arbusto em algum lugar. Mesmo a oliveira e o cacto, os amigos leais de um solo inútil quase abandonaram o país. Nenhuma paisagem existe que é mais enfadonha ao olho do que a que faz fronteira com o acesso a Jerusalém.

Vejam no mapa abaixo como a região a oeste de Jerusalém (esquerda no mapa) se parece hoje. Está tudo verde!

A longo de toda a linha verde vemos que o lado israelense é mais verde, e um dos maiores contrastes é no sul do país, na parte norte do deserto do Negev. Vejam o mapa abaixo, da Floresta Yatir.

O Fundo Nacional Judaico (KKL em hebraico) foi criado por Theodor Herzl, pai do Sionismo Político, para angariar fundos para a compra de terras na Palestina otomana, posteriormente sob Mandato Britânico. Com a independência de Israel em 1948, a organização continuou controlando boa parte das terras do Estado (e ainda continua!), e ganhou a nova missão de fazer de Israel um país mais verde.

Foi o KKL que plantou dezenas de bosques a oeste de Jerusalém durante muitas décadas, e é o KKL que ainda planta novas florestas e bosques nos dias de hoje. A Floresta Yatir, do mapa acima, é a maior floresta de Israel, e foi inteiramente plantada. Façam um zoom na imagem do mapa e percebam como é o deserto ao redor desta floresta: não há nada.

Como pode ser que uma floresta exista no meio do deserto, sem que haja irrigação?! Isto foi em parte assunto da minha tese de doutorado, e será assunto para outro artigo. Em uma palavra: pode.

Existe um mito rolando por aí que diz que Israel é o único país do mundo onde a cada ano que passa tem mais árvores que no ano anterior. É verdade que o número de árvores em Israel só aumenta, mas não é o único país, há vários outros onde isto é verdade (quase todos com grandes porções de deserto, nenhum com florestas tropicais).

Conclusão

Aprendemos neste texto as seguintes coisas:

1 – Israel é certamente um lugar no planeta Terra onde pode-se perceber fronteiras do espaço.
2 – Os maiores fatores para este fenômeno são, em ordem de importância: a) cabras e ovelhas, b) seres humanos.
3 – Com fotos bonitas tiradas do espaço é moleza falar sobre ciência e geografia.

Fecho este texto do mesmo jeito que o abri, com uma foto noturna. As três manchas de luz são, da esquerda à direita: região metropolitana de Tel Aviv, Jerusalém e Aman, capital da Jordânia. Como é perto!!

noite

 


Fontes:
Boa parte das fotos são adaptações de fotos publicadas no dia 26 de dezembro de 2014 na página do facebook da Estação Espacial Internacional.
Outras fontes:
Fronteira Israel-Egito, jns.org e earth observatory, da NASA.
Milhares de fotos de satélite de Israel, eol.jsc.nasa.gov, busque por “Israel”, e earth observatory.

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Fronteiras do espaço”

  • Raul Gottlieb

    19/01/2015 at 11:42

    Olá Yair,

    A meu ver, aprendemos algumas coisas mais:

    a) Você é brilhante! O texto é super interessante. Obrigado.

    b) O que conta é a visão política dos seres humanos e não apenas os seres humanos. Há seres humanos dos dois lados da fronteira e uns se dedicam à agricultura e à criação de riquezas e os outros, bem estes não se dedicam (se me permite o plágio).

    c) Até mesmo as cabras e as ovelhas não contam, pois estes animais são domesticados pelos humanos e só fazem o que os humanos permitem. Tudo o que você mostra tem a vontade do homem por trás.

    Você leu o livro do Yuval Harari (A Brief History of Humankind)? Se não leu, eu recomendo fortemente. Se leu, recomendo uma resenha aqui no Conexão. Vai ser interessante conhecer as tuas impressões sobre o livro.

    Abraço, Raul

  • Mario S Nusbaum

    19/01/2015 at 14:49

    Sensacional! Parabéns.

  • Mario S Nusbaum

    19/01/2015 at 16:07

    E o Líbano Yair? Parece haver uma continuidade no verde israelense.

    • Yair Mau

      19/01/2015 at 16:30

      Obrigado, Mario! O Líbano é tão verde quanto o Galil em Israel, e não pode-se distinguir a fronteira do espaço. Eu deixei de lado pois não tinha nada a dizer a respeito…

    • Raul Gottlieb

      19/01/2015 at 17:05

      O Líbano é cheio de florestas há muito séculos. Existem muitíssimas referências às montanhas e às árvores do Líbano na literatura judaica da idade do Bronze (também conhecida como Tanach).

  • Otávio Zalewski

    24/01/2015 at 16:53

    Muito bom artigo, o livro do Mark Twain é imperdível, li e adorei. Uma visão ótima da região em sua época.