Futebol, um instrumento de paz

11/11/2016 | Conflito, Cultura e Esporte.

por Gabriel Holzhacker

Muito já se falou sobre os conflitos de Israel: 1948, 1967, palestinos, territórios ocupados, assentamentos, Jerusalém, sionismo, paz (caso queira ler um resumo da história do conflito, clique aqui). Talvez, nessa região marcada por guerras, violência e tensão, a solução esteja debaixo do nosso nariz e tem a ver com o Brasil: o futebol.

Em novembro, a ONG “Gol da Igualdade” inicia seu oitavo ano de atividades. Fundada em 2009 por um grupo de estudantes da Universidade Hebraica de Jerusalém, contou inicialmente com sete times, todos em Jerusalém. Já na temporada 2016-17, participaram das atividades quase 3 mil crianças de 200 escolas de todo o país, desde Kiryat Shmona e Majdal Shams no norte (próximas às fronteiras com o Líbano e a Síria), até Mitzpe Ramon, no sul do deserto do Negev. Entre os participantes se encontram meninos e meninas, judeus e árabes, muçulmanos e cristãos, seculares e religiosos, drusos e beduínos, “sabras” e olim chadashim (novos imigrantes judeus), filhos de refugiados africanos e outros. São muitas diferenças, unidas pela paixão pelo futebol.

A ONG se propõe a colaborar para a construção de uma sociedade melhor em Israel, baseada em valores de respeito, tolerância e convivência. Seu objetivo é proporcionar a crianças da periferia social do país um quadro social, esportivo e educacional nos horários da tarde, após a escola. O formato é simples: cada equipe, composta por 15 jogadores, reúne-se quatro vezes por semana durante o ano letivo: dois dias são dedicados a deveres escolares e atividades sociais, e outros dois a treinos de futebol com treinadores profissionais. As equipes são compostas em escolas de todo o país e divididas em 12 regiões. Em cada uma delas, acontecem campeonatos regionais mensais.

Os encontros podem ser tensos. As crianças chegam de suas casas, bairros e escolas com receio. Já tivemos casos de crianças que se recusaram a apertar a mão de um colega de outra escola, ou de se desculpar por cometer uma falta mais grave. É nesse ponto que entra em ação a magia do futebol: ele funciona como uma ponte, ajudando a desenvolver a comunicação entre as crianças, de forma que elas possam tão simplesmente brincar. Assim, na hora do jogo, todos querem a mesma coisa: fazer o gol e correr para abraçar seus companheiros. Acreditamos que este resultado só pode ser alcançado dessa maneira, com encontros pessoais, informais e recreativos.

Ao lado da equipe de diretores da ONG e dos treinadores de futebol, mais de 400 voluntários participam do Gol da Igualdade em funções administrativas ou como monitores. Estes voluntários são também muitas vezes ligados a vários institutos acadêmicos em Israel, ao serviço nacional e a outras organizações. Eles trabalham acreditando em sua missão e em sua capacidade de influenciar as próximas gerações das comunidades em que vivem, bem como as de todo o país.

A participação das crianças nas atividades de futebol depende unicamente de seu comportamento, esforços e participação na escola e nos encontros educacionais, independentemente do desempenho em campo. Nos seus primeiros anos, a ONG trabalhou somente com crianças do ensino fundamental, da quarta a sexta séries. Em 2016, o projeto foi expandido a adolescentes do sétimo e oitavo ano escolar. Quando atingirem o ensino médio, os participantes serão integrados como treinadores e instrutores nos times das crianças menores, num formato semelhante ao de um movimento juvenil. Os integrantes, que se acostumaram com jovens que vêm de fora para atuar em suas comunidades, desta vez atuarão em suas próprias escolas primárias como adultos responsáveis em transmitir os valores do Gol da Igualdade para as gerações mais jovens.

Gol da Igualdade no Brasil

As atividades da ONG foram tema de uma matéria no programa de TV Fantástico em maio desse ano, na qual acompanharam um campeonato mensal em Jerusalém. Dois meses depois, a organização foi convidada pela CBF, apoiada pelas comunidades árabes e judaicas do Brasil, a organização Caminho de Abraão, a Federação Paulista de Futebol e clubes de São Paulo (Hebraica, Maccabi, Monte Líbano e o Sírio-Libanês), a trazer ao Brasil um time árabe-palestino e outro judeu-israelense para o Brasil, em plenas Olimpíadas. E assim foi.

Embarcamos no começo de agosto com 22 crianças, acompanhadas por uma equipe de 10 diretores, coordenadores, técnicos e professoras para essa grande aventura. Visitamos o Museu do Futebol no Pacaembu, o Museu da CBF no Rio de Janeiro, o Centro de Treinamentos do São Paulo F.C., do Santos, assistimos jogos de futebol nos clubes e visitamos o Parque Olímpico para torcer pela judoca Yarden Gerbi, que acabou trazendo a primeira medalha israelense com a ajuda de nossa torcida.

O grande evento da nossa estadia no Brasil, no entanto, foi o Gol da Paz, que aconteceu em 7 de agosto. Ele foi realizado no Allianz Parque antes da partida entre Palmeiras e Vitória pelo Campeonato Brasileiro. As crianças visitaram as instalações do estádio, participaram de jogos amistosos — em pleno gramado e com o estádio cheio —, subiram a campo com os jogadores, e ainda encontraram ídolos como Zé Roberto, Mauro Silva, Juninho Paulista, Paulo Sérgio e integrantes do grande time do Santos da década de 1960. Realizaram um sonho que nem ousavam sonhar.

O relacionamento entre as crianças antes da viagem era raro, apesar de muitas serem vizinhas em Jerusalém, como por exemplo crianças judias do bairro de Pisgat Zeev e crianças árabes do bairro de Shuafat, ambos na zona norte da cidade e separados por uma estrada. Nesse período de viagem, além de jogarem futebol juntas, elas compartilharam histórias, dividiram angústias, expuseram anseios e desenvolveram laços de amizade. Após dez dias de intensa convivência, as línguas hebraico e árabe já não causavam estranhamento. Elas saíram do Brasil conhecendo os nomes uns dos outros, cantando, jogando bola, brincando juntas e até conhecendo palavras básicas na outra língua.

Ao retornar a Jerusalém, essas crianças trouxeram na bagagem as sementes do respeito ao próximo e da coexistência. O grande desafio, que começa agora, será cultivá-las até transformá-las em raízes tão firmes que já não possam mais ser arrancadas. Para isso trabalhamos.

“Foi maravilhoso jogar diante de um público tão grande, no mesmo estádio que jogam jogadores famosos do Brasil. O futebol pode mudar a vida das pessoas. A minha com certeza já mudou”, contou Yossi Teferi, judeu de ascendência etíope de 10 anos. Yossi, inclusive, conhece de perto o poder transformador do esporte: o irmão dele, o maratonista Maru Teferi, representou Israel nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Ele conta, de maneira direta e ingênua, que a viagem foi uma oportunidade boa de conhecer novos amigos. Um deles é o árabe Ayman Gheit, da cidade velha de Jerusalém, mais maduro e realista (tem 14 anos), que concluiu: “Nós mostramos às pessoas que, mesmo sem falar a mesma língua e com grandes diferenças e barreiras, podemos jogar futebol juntos numa boa. O esporte pode aproximar a todos, e quem sabe até trazer a paz”.

Amén, Inshallah!


O Gol da Igualdade lançou há poucos dias uma campanha de angariação de fundos no juntos.com.vc. Assista o video da campanha e ajude a manter este belíssimo projeto.

Clique aqui para a página da campanha.

Veja abaixo algumas fotos das crianças do Gol da Igualdade


*Gabriel Holzhacker, brasileiro, vive em Israel desde 1999, e atua como vice-diretor da ONG Gol da Igualdade. Formado em Direito na Universidade Hebraica, abandonou a advocacia para se dedicar ao projeto. Para contato: gabi@the-equalizer.org