Garrafas

05/04/2013 | Cultura e Esporte

O colega Yair Mau já escreveu sobre reciclagem. Eu quero falar, especificamente, sobre garrafas. Durante minha infância, lembro que o pessoal comprava bebidas e guardava o “casco”, para trocar no supermercado e ganhar desconto. Inclusive, havia preços com e sem casco (garrafa de vidro). Depois, com as embalagens plásticas de refrigerantes, a prática caiu em desuso, até mesmo para a cerveja.

Aqui, em Israel, cada casco de meio litro de cerveja rende 1,20 Shekel de depósito. Latas e outras embalagens retornáveis, 30 centavos. Muita gente que trabalha complementa a renda familiar catando garrafas na rua. Todos os supermercados trocam por dinheiro, ou crédito em compras. Trata-se de uma maneira boa de preservar o meio ambiente e ganhar uma grana extra. Em casa, eu guardo para trocar. Sempre rende um troco legal para comprar algo.

Nesse esquema de pegar garrafas na rua, dizem, inclusive, que há máfia envolvida nisso. Os catadores trabalhariam para “organizações” que pagam entre 20 centavos e 1 Shekel por volume e movimentam milhões por semana, em Israel. Isso ocorreria por todas regiões do País. Nestas áreas, todos catadores são “registrados pelos mafiosos”, ou seja, “é tudo deles”.

Há, inclusive, uma cena no premiado filme israelense Or, de 2004, em que a personagem-título percorre a praia de Tel Aviv, com um sacão de lixo, catando garrafas e, depois, trocando no super.

Lembro de um episódio, maio de 2009, sul de Tel Aviv, numa madrugada de sexta para sábado. Estava com um amigo bebendo cerveja, do lado de fora de uma boate, quando passou um senhor, de setenta anos, creio, com um carrinho de feira, pegando garrafas. Ele parou ao nosso lado, puxou papo e esperou a gente parar de beber para ganhar o casco. Era noite de Shabat. Eu o saudei com “Shabat Shalom”. Então, ele começou a falar sobre tradições judaicas, sua infância na Europa, vinda a Israel, ainda na adolescência. Conversamos por uns dez minutos.

Quando estava indo embora, ele arregaçou as mangas do casaco, para empurrar o abarrotado carrinho e apareceram alguns números no seu punho. Yom Hashoá está aí, por coincidência, mas eu queria mesmo falar sobre garrafas e situação social em Israel.

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