A geografia da Torá

A geografia da Torá – como a natureza do Oriente Médio ajudou a formar a cultura judaica

Por Rafael Stern

Se eu pudesse resumir minha faculdade de geografia em apenas uma frase seria assim: o estudo de como as sociedades se inspiram no seu ambiente natural para desenvolver sua cultura. Segundo essa abordagem, que passou a ser a minha visão, o espaço físico, o meio-ambiente de um determinado lugar não é apenas o palco onde se desenvolve a história das sociedades. Não tem um papel meramente passivo, senão também ativo na construção e desenvolvimento da cultura, e por consequência, da história dessas sociedades. Como sempre fui muito curioso e interessado pela cultura judaica, nada mais natural do que, uma vez adquirida essa visão de mundo, a aplicasse para tentar compreender como a geografia do Oriente Médio influenciou a formação da cultura judaica tal como a conhecemos.

O livro que não escrevi

Coloquei na minha cabeça que um dia iria escrever um livro para tratar desse tema. Comecei de fato a escrever textos separados, rascunhos, hipóteses, ideias soltas. Até que, depois de três anos de pesquisas, encontrei alguém que tinha publicado exatamente um livro assim, cinco anos antes, com uma qualidade que humildemente tive que reconhecer que dificilmente alcançaria. Trata-se do Dr. Daniel Hillel, consagrado cientista americano-israelense que estuda solos, e neto de um rabino que lhe ensinou extensivamente as tradições e textos judaicos. Como se não bastasse ser um cientista renomado e um profundo conhecedor da cultura judaica, ele ainda foi um dos fundadores do kibutz Sde Boker[1] e, quando David Ben-Gurion[2] foi morar no kibutz, Daniel Hillel era o seu chefe no trabalho com as vacas. Comprei e estudei seu livro “The Natural History of the Bible” por um ano e meio, e gostaria de expor aqui algumas das suas ideias misturadas um pouco com algumas coisas que eu tinha escrito antes. Realmente acho que muito do que poderia ser dito sobre o assunto já está escrito nesse livro. Espero que um dia, daqui a muitas décadas, eu possa ter ideias novas para dar continuidade. Mas de fato Daniel Hillel era a pessoa certa para escrever esse livro. Afinal, tendo imigrado para Israel com a família enquanto ainda era criança na década de 1930, ele foi, segundo suas palavras “a última geração que saía para passear por Israel utilizando o Tanach[3] como mapa e guia”.

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Primórdios do povo hebreu

O judaísmo é, reconhecidamente, um dos precursores do monoteísmo. Talvez não o único nem o primeiro, mas definitivamente um precursor importante para sua consolidação e perpetuação. Para além de todas as belas histórias bíblicas de comunicação direta de Deus com os seres humanos, Daniel Hillel aborda um aspecto interessante da história judaica. O judaísmo teria se originado, segundo as lendas bíblicas, de um casal que saiu da Babilônia e fixou-se na Terra de Israel. Esse casal teve descendentes que formaram uma espécie de clã, que afinal acabou se refugiando no Egito de uma severa fome em Israel. Finalmente, os descendentes deste clã familiar, agora já bem maior e dividido em tribos, teria feito uma jornada de volta a Israel.

Daniel Hillel divide o Oriente Médio em cinco diferentes domínios geográficos – o domínio fluvial (irrigado pelos rios), o domínio pluvial (irrigado pelas chuvas), o domínio marítimo, o domínio pastoril e o deserto. Entre a história do casal saído da Babilônia e a fixação em Israel após o retorno do Egito, os judeus teriam tido bastante contato com povos que habitavam fixamente estes cinco domínios. O domínio fluvial seria representado pelos babilônios e egípcios, que dependiam para quase tudo dos rios Tigre e Eufrates no caso dos babilônios, e do Nilo, no caso dos egípcios. O domínio pluvial é representado pelas porções central e norte da terra de Israel, onde povos como os cananeus habitavam. O domínio marítimo era representado principalmente pelos filisteus, que habitavam a região de Gaza. O domínio pastoril seria a região do norte do deserto do Neguev em Israel, e o deserto seria o extremo sul de Israel e o Sinai.

Os judeus, ao longo de toda a história de sua formação cultural, de uma forma ou de outra habitaram todos estes domínios. Migrações voluntárias, migrações forçadas pelas circunstâncias, ou até mesmo capturas, fizeram os judeus terem bastante contato com esses domínios geográficos, seus povos e culturas. Em cada um desses lugares, os povos que tradicionalmente se desenvolveram ali, criaram crenças de disputas entre as forças da natureza, representadas por divindades, que dependendo de sua boa vontade, poderiam conceder ou não suas dádivas aos seres humanos. Assim, os babilônios e os egípcios dependiam das cheias e secas de seus rios, os cananeus e outros povos das chuvas, os filisteus das condições marítimas, apenas para citar alguns exemplos. Os hebreus, convivendo e trocando com essas culturas, viam cada uma destas absorta demais em explicar os fenômenos dos quais dependiam para sobreviver através de crenças em divindades que representavam as forças da natureza, com seus caprichos e demandas próprias, mas de certa forma ignorando a relevância ou até mesmo a existência de todo um outro conjunto de forças e fenômenos. Mas os hebreus, talvez os precursores também da globalização e cosmopolitismo, chegaram à conclusão que para além das disputas particulares entre as divindades dos fenômenos naturais de cada domínio geográfico, deveria haver alguma força muito maior regendo tudo. Portanto, através de suas viagens, migrações, trocas culturais e observações, a semente para o surgimento do monoteísmo estava plantada.

A própria condição de migração também pode ter sua origem nas condições oferecidas pelo meio natural. No domínio pastoril, onde as sociedades viviam na região semi-árida, com a vegetação dominada por arbustos esparços e espinhentos, sua principal fonte de alimentos eram os rebanhos de cabras e ovelhas, que conseguiam se alimentar desses arbustos e convertê-los em leite e carne para os humanos. Os pastores desenvolveram portanto um gênero de vida nômade, migratório, habitando cada região enquanto durasse seu estoque de água no poço ou o pasto. Quando um dos dois terminava, o grupo era obrigado a migrar para outra região. A organização em clãs e tribos muito coesas era de certa forma uma medida de segurança para os grupos. Muitas vezes, a dieta dos pastores era complementada por trocas com grupos de agricultores que habitavam os domínios que permitiam a agricultura – pluvial e fluvial. Mas muitas vezes essas trocas não eram amigáveis, se baseavam em invasões e saques. Isso despertou sentimentos hostis contra esses clãs pastoris. Quando os israelitas desenvolveram uma religião distinta, esse sentimento se exacerbou. As tradições migratórias da origem pastoril hebréia talvez tenham preparado culturalmente esta sociedade para sobreviver às diversas migrações que enfrentou ao longo dos milênios. A própria denominação original dos judeus – hebreus, ivrim em hebraico (עברים) – vem do fato do primeiro casal judaico ter atravessado o rio Eufrates para migrar de Ur na Caldéia para Canaã. Atravessar, passar, em hebraico é laavor (לעבור).

Hospitalidade

Isso nos traz a outro aspecto cultural tido como típico dos povos do deserto, e até hoje do povo judeu onde quer que esteja – a hospitalidade. As sociedades nômades sabiam que estariam no lugar onde se encontravam apenas por alguns meses ou anos se tivessem muita sorte. Mas como escolher o próximo destino da migração? Como saber que direção era mais favorável? Isso era virtualmente impossível na época, muitas vezes um palpite cego definia a direção a ser tomada. No entanto, quando uma caravana se aproximava, ela estava vindo de alguma direção. Se a tribo recebesse bem a caravana, dando muita comida, água e conforto, eles se sentiriam bem e contariam com prazer as notícias da região de onde estão vindo e passando. Onde tem grama boa, onde ainda tem água, onde há uma tribo hostil ou um acidente geológico recente. E se a caravana gostasse mesmo da recepção, poderia parar novamente na tribo no caminho de volta, e assim prestar relatos valiosos também da outra direção. Portanto, no deserto, para as sociedades nômades, desenvolver uma generosa hospitalidade era uma maneira de receber notícias que permitiam um planejamento do próximo destino favorável. E essa escolha era uma questão de sobrevivência.

Calendário

O que nos leva agora ao próprio calendário judaico. O calendário judaico é lunisolar, uma combinação de um calendário lunar (meses) e solar (estações do ano). Os meses judaicos e a quantidade de dias por ano são baseados exclusivamente na lua[4], mas há um fator de correção (o 13° mês) que aparece 7 vezes a cada 19 anos para manter os meses judaicos atrelados às estações do ano. O calendário lunar é propício para sociedades nômades migratórias por possuir ciclos curtos, sendo amplamente utilizado pelas primeiras gerações hebréias.

No entanto, após o retorno do Egito, os hebreus se fixaram principalmente em sociedades sedentárias e agrícolas, e agora o calendário lunar apenas não era suficiente. Era necessário ajustar o calendário para que os períodos de colheita da cevada, trigo e das frutas pudessem ser planejados segundo um calendário cíclico para fins de pagamentos de dízimos e oferendas. Assim, o calendário judaico carrega os traços de ambos os calendários. Mas há ainda outra particularidade no calendário judaico. O ano novo ocorre no 7° mês do calendário (Tishrei), enquanto que o 1° mês (Nissan) acontece na primavera. Novamente podemos identificar aqui traços culturais de diferentes domínios. O domínio fluvial da Babilônia era basicamente agrícola, e o planejamento do ano se baseava no ponto máximo da cheia dos rios Tigre e Eufrates, que fertilizavam suas margens e ao baixarem deixavam para trás campos muito fertéis para as culturas anuais (principalmente trigo e cevada). No Oriente Médio, a precipitação é concentrada no inverno, podendo ocorrer em forma de chuva ou neve (principalmente nas montanhas, onde os rios Tigre e Eufrates nascem). A primavera (por volta do mês de Nissan) é o período em que a neve acumulada nas montanhas durante o inverno termina de derreter e determina o ponto máximo de cheia dos rios[5]. Isso permite o planejamento da agricultura, e consequentemente de toda a economia para aquele ano. Portanto, é muito natural que seja um início de ciclo.

Os judeus habitaram o domínio fluvial da Babilônia tanto em sua origem (ancestralidade de Abraão e Sara), quanto depois, quando foram levados cativos por Nabucodonosor, herdando diversos traços culturais babilônicos. No entanto, nos períodos em que os hebreus se instalaram como agricultores no domínio pluvial de Israel, a principal fonte de irrigação eram as chuvas que começavam no outono. Portanto, quando ocorria a primeira chuva, todo o ciclo agrícola poderia ser planejado[6]. Assim, as culturas anuais (principalmente trigo e cevada) eram planejadas no outono (Tishrei), e essa época se tornou um marco de início de um ciclo anual. Inclusive, a decisão de se incluir o 13° mês no ano judaico, antigamente era determinada segundo o ponto de secura da cevada. No mês de Adar um comitê saia pelos campos para observar o ponto da cevada. Se ela estivesse secando, para poder ser colhida no mês seguinte, nada era acrescentado. Mas se ela ainda estivesse muito verde, o Adar II era acrescentado porque a cevada deveria ser colhida para ser entregue em Jerusalém em Pessach. Apenas com o advento da grande diáspora e a desconexão dos judeus com a agricultura da terra de Israel, o ciclo matemático do calendário foi estabelecido.

Egito

Passemos agora para o Egito, Mitzraim em hebraico. Sempre achei que a história que os rabinos contam em Pessach[7], que o Egito são as nossas dificuldades e estreitezas, baseando-se na raiz da palavra hebraica tzar (estreito) era uma ginástica intelectual com pouco fundamento. Mas Daniel Hillel nos chama a atenção para um fato muito interessante. Pode ser observado através de imagens aéreas, principalmente noturnas, que a civilização egípcia, até mesmo nos dias de hoje, é uma estreita faixa ao longo das margens do Nilo, espremida por vastos desertos vazios dos dois lados. O Egito de fato é estreito. E os hebreus, quando foram se instalar ali devido à fome em Israel, não teriam adotado os costumes locais e se tornado agricultores. Continuaram com seu gênero de vida pastoril, e como mencionado anteriormente, isso incluía trocas não exatamente amigáveis com as sociedades argícolas. Isso pode ter sido um fator de surgimento de certa hostilidade egípcia em relação aos hebreus.

Outro fato que atesta para a fidelidade hebréia ao seu gênero de vida original é o seu principal pecado – o bezerro de ouro. Cada sociedade restrita ao seu domínio desenvolveu divindades ligadas ao seu ambiente. Figuras mitológicas e de formatos impressionantes no domínio marítimo, animais com referências femininas, ligadas à fertilidade, no domínio agrícola, e animais com simbologia mais masculina no domínio pastoril, como o touro. Quando os hebreus foram escolher um símbolo para idolatrar no deserto, ignoraram os deuses egípcios e foram buscar um símbolo da sua ancestralidade pastoril cnaanéia, de séculos anteriores. Isso atesta, novamente, para a falta de assimilação cultural hebréia durante sua estadia no Egito e manifesta, mesmo num momento de traição e pecado, um apego às origens ancestrais, uma certa fidelidade ao seu gênero de vida.

Crédito: NASA
Crédito: NASA

Outros traços

Outros traços culturais judaicos podem ser identificados como originários de práticas relevantes para a natureza do Oriente Médio. A colocação de pedras nos túmulos em vez de flores para homenagear mortos pode vir do fato de que no deserto há muitos animais carniceiros, que comem carne em putrefação e até mesmo escavam em busca dessa carne. Na tentativa de manter os corpos de seus parentes queridos protegidos deste destino inglório, a colocação de pedras sobre o local onde o corpo estava enterrado poderia servir bem a este propósito. Além disso, na escassez de intempéries naturais (como chuvas), uma pilha de pedras no deserto pode se manter erguida indefinidamente. Atualmente, marcas de pneus no deserto pedregoso/arenoso de Israel permanecem no solo por décadas (observei isso em primeira mão através dos estudos de um arqueólogo do deserto em Israel, Uzi Avner).

Outro clássico exemplo é a questão da kashrut[8]. Para os mamíferos, a Torá determina que os animais devem ter o casco fendido e devem ser ruminantes para que possam ser consumidos. O que é bastante coerente, quando pensamos em se tratar de uma região de escassez de pastagens e ciclos frequentes de secas prolongadas. O casco fendido dos animais diminui o efeito nocivo do pisoteamento do gado no solo, que destói a vegetação nascente e causa compactação da terra, impedindo a infiltração de água além de outros efeitos negativos. Os animais ruminantes conseguem, através de um sistema de diferentes estômagos e simbioses com diversas colônias de bactérias, quebrar longas cadeias de hidrocarbonetos e extrair calorias que são indigeríveis para os humanos, logo, indisponíveis como fontes de energia. Portanto, em tempos de seca e escassez de alimentos, os animais ruminantes não disputam alimentos com os humanos, obtendo-os de fontes que de qualquer forma não seriam úteis para nós. O caso particular do porco possui outro agravante. Sua criação era inapropriada para nômades em ambientes secos e quentes. Os porcos precisam chafurdar na lama ao invés de pastar em locais distantes, secos e quentes. Além disso, sua carne extremamente gordurosa estragava rapidamente no clima quente e não podia ser transportada por longas distâncias. Por fim, os porcos eram uma fonte importante de carne para os cananeus, inimigos dos israelitas antigos, o que mostra que não são apenas os fatores ambientais que agem na construção da cultura.

Há ainda uma longa discussão se a Torá, ao se referir, segundo a interpretação clássica, a não misturar a carne ao leite, quis dizer isso mesmo. Pois como não há vogais no hebraico, leite (chalav) poderia ser lido também como chelev, “gordura”. Diversos exemplos são encontrados no Tanach de refeições de carne e leite (inclusive Abrãao e David). A hipótese de que seja gordura ao invés de leite faz mais sentido para populações nômades, para quem carne e leite são alimentos básicos, e por isso elas teriam dificuldades para separá-los, principalmente durante as migrações. E em outros momentos a Torá proíbe o consumo da gordura (chelev), quando o faz para o sangue também.

Espero que o leitor não leve esses estudos como um desafio à tradição judaica. Muito pelo contrário, acredito ser muito valioso que eu, nascido no Brasil no final do século XX, possa identificar em diversos costumes meus da infância, traços de uma cultura que surgiu no Oriente Médio há milhares de anos, e que isso me conecte de alguma forma com outras pessoas do mundo todo que também são descendentes dessa cultura. E com muito orgulho me faz querer abraçar essa cultura, sempre atento às suas transformações, pois ela nunca foi estática. Começo a me lembrar das histórias dos judeus de Manaus que contavam como, há mais de 200 anos, com a chegada dos primeiros judeus marroquinos à Amazônia, a matzá do Pessach era substituída pela deliciosa mandioca.

Comunicações pessoais com estudiosos da ecologia em Israel me revelaram que o radical “Yar”, presente no nome dos três principais rios perenes de Israel[9], significa rio perene em aramaico. Yarden, o nome hebraico do Jordão, poderia ser lido como Yar – Dan, o rio da tribo de Dan, que de fato habitou as colinas do Golan, onde acabaram realizando idolatria ao deus Pan, ou Banias. O Rio Banias (chamado de Hermon em hebraico) até hoje é o nome de origem árabe de um dos tributários do Jordão. Dan é hoje o nome do principal afluente do Jordão, responsável por metade da sua vazão.

Cultura e meio ambiente

Antes de concluir, é importante ressaltar que o meio ambiente não determina uma cultura. Afinal, diversas outras sociedades se desenvolveram em domínios geográficos citados no artigo e não criaram necessariamente os mesmos aspectos culturais. Opções coletivas realizadas pelo grupo cumprem um papel fundamental, e as razões para essas opções podem ser diversas. O judaísmo apresentou desde muito cedo um conjunto de lendas e mitos compilados na Torá que ajudavam a elaborar diversas dessas escolhas. Valores sociais abstratos, leis, religião cumprem papel relevante. À medida que a cultura começa a se desenvolver, ela própria pode servir de base para a criação de novos aspectos culturais, se distanciando da influência direta da natureza. Jared Diamond, em seu brilhante livro chamado “Colapso”, dá um exemplo derradeiro quando descreve a ocupação humana na Groelândia. Explica como grupos sociais diferentes que ocuparam a região desenvolveram culturas muito distintas, se baseando em escolhas religiosas, sociais, e de diversos outros tipos, o que levou alguns à sobrevivência e outros ao colapso. É impressionante ver como um dos grupos foi insistente em resistir às pressões naturais de adaptação cultural, mesmo diante do colapso iminente, devido à fortes convicções culturais e religiosas.

Podemos observar também atualmente como o ser humano cada vez mais adapta o ambiente à cultura ao invés do contrário. Israel, contra-intuitivamente, se tornou exportadora de pimentas e de flores para a Europa, condenando o rio Jordão inferior e o Mar Morto a secarem. Rios são desviados, represados, enterrados ao redor do mundo. Grama e pinheiros são plantados em regiões tropicais para seus colonizadores se sentirem na Europa. Frutas fora de época são criadas ao custo de grandes manipulações ambientais para manter os hábitos de uma dieta culturalmente importada, ignorando o potencial das frutas e de outros recursos locais.

Enfim, que papel será que a natureza tem hoje na nossa construção cultural? Conheci uma pessoa em São Paulo que achava que a Ponte Rio-Niterói, que liga a cidade do Rio de Janeiro à cidade de Niterói (e que eu atravessava todos os dias para estudar geografia na UFF para poder escrever este artigo) era uma ponte que passava sobre um rio chamado Niterói. Nada mais natural para uma pessoa que cresceu em uma cidade cortada pelos rios Pinheiros, Tietê, e suas respectivas pontes. Quando eu vivia em Manaus e trabalhava na Amazônia, era consertado pelos locais quando falava “uma onça”. O correto é “a onça”. Não se utiliza um artigo indefinido, ela não é qualquer animal que aparece nos documentários na televisão e representam toda aquela espécie. Cada onça é uma onça que está ali te espreitando, marcando seu território cada uma à sua maneira. Ela está presente no dia a dia de quem trabalha lá e cada uma é única, e não a representante anônima de toda uma nação de onças.

Conclusão

Como será que o retorno do povo judeu a Israel, com uma componente agrícola e de conexão com a terra muito forte, influenciará os rumos da evolução da cultura judaica? Aharon David Gordon, grande pensador sionista, postulava que a única maneira de o sionismo ser bem sucedido era através da reconexão física do povo com a terra, o trabalho agrícola, a plantação. Atualmente, os israelenses percorrem a pé suas paisagens naturais em todas as oportunidades. Há inclusive uma trilha chamada “shvil Israel” (o caminho de Israel) que corta o país do extremo norte ao extremo sul, e que tem muita gente que faz de uma vez só, caminhando por dois ou três meses.

Eu não poderia fechar esse artigo sem antes citar a grande obra prima da poesia judaica, o Cântico dos Cânticos. Este livro, escrito há mais de três mil anos, é um conjunto de poemas de amor entre uma camponesa que cuida das uvas e um pastor que cuida das ovelhas. É extremamente descritivo da natureza de Israel, da forma mais lúdica já vista. Talvez ele mereça um artigo inteiro dedicado a si, mas gostaria apenas de evidenciar que em muitas comunidades o Cântico dos Cânticos é lido toda sexta-feira na sinagoga, quando o Shabat está começando. Ao contrário do que poderíamos pensar, nem tudo o que se lê na sinagoga é reza, pedidos ou conversas com Deus. As vezes é algo como “os brotos são vistos na terra, a época do rouxinol chegou, e a voz da rolinha se ouve em nossa terra”, ou “desci ao jardim das nogueiras, para ver os frutos do vale, a ver se floresciam as vides e brotavam as romãzeiras”.

Avraham Fried, grande cantor de música chassídica[10] da atualidade, pergunta em sua bela música “Por que esse monte é chamado de Moriá[11]?”. E responde de forma singela “É por causa da mirra[12] (mor, em hebraico) que cresce ali”. Simples assim.


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Rafael Stern é formado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, fez seu mestrado em “Clima e Ambiente” no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e é atualmente estudante de doutorado em Ciências Ambientais no Instituto Weizmann, em Israel.


[1] Kibutz é um tipo de colônia agrícola coletivista típico de Israel. Sde Boker é o nome de um kibutz localizado no deserto de Israel.

[2] Primeiro primeiro-ministro de Israel, responsável pela declaração de independência do Estado.

[3] Bíblia hebraica.

[4] A própria palavra mês em hebraico, chodesh, vem da palavra chadash, que significa novo, em referência à lua nova que marca a mudança de mês no calendário.

[5] O rio Jordão também funciona exatamente assim, com o auge da sua vazão sendo por volta de Nissan devido ao derretimento da neve do monte Hermon. No entanto, seu vale é profundo e seco demais, além de que o volume de água é insignificante para se pensar em qualquer produção agrícola em grande escala nas suas margens.

[6] No início da estação chuvosa, a chuva promove a germinação e o crescimento das mudas das culturas anuais, no meio o desenvolvimento (especialmente em locais de solos rasos ou grossos, que limitam a umidade armazenada), no final preenche os grãos amadurecidos para garantir uma boa colheita.

[7] Festa judaica que celebra a saída dos judeus da escravidão do Egito.

[8] Regras alimentícias tradicionais do judaísmo, determinam quais animais são permitidos para o consumo. Kasher em hebraico significa “permitido”.

[9] Nahar. A maioria dos outros rios tem água apenas durante as chuvas – nachal em hebraico ou wadi em árabe. Os rios perenes são Yarden (Jordão), Yarkon e Yarmuch (que vem da Síria e da Jordânia e deságua no Jordão logo que ele sai do lago Kineret, na região de Menechemia, Naharaim. Antigamente fazia parte do território das tribos que habitavam a margem leste do Jordão.

[10] Chassidismo foi um movimento judaico surgido na Europa que abriu o judaísmo para as pessoas mais pobres e analfabetas. Esse movimento tornou a música e a alegria a maneira mais sublime de se aproximar de Deus.

[11] Colina em Jerusalém sobre a qual foi construída o templo sagrado, e onde acredita-se que ia acontecer o sacrifício de Isaac, e de onde Deus teria tirado o pó para criar Adão e Eva.

[12] Erva aromática utilizada em tempos antigos para os incensos e sacrifícios do templo.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “A geografia da Torá”

  • Henrique

    06/07/2016 at 21:37

    Muito bom Rafudo! Hoje vc estuda no Instituto Weizmann, mas no futuro muitos estudarão no Instituto Stern! 😉
    Abração!

  • victor

    08/07/2016 at 18:25

    Texto muito interessante Rafa! Muito bom ter uma visão geográfica sobre a construção de Israel levando em conta os fatores ambientais e a relação do homem com ele! E por outro lado mostrando o quanto a cultura em parte criada por essa relação homem meio também influencia constantemente a natureza do espaço!
    Grande abraço meu brother!

  • Raul Gottlieb

    09/07/2016 at 19:59

    Beleza de texto Rafael!

    Assunto muito interessante e bem desenvolvido por você.

    A única coisa que não me convenceu muito foi a explicação do Hillel com relação a leite e carne. Pois a proibição bíblica é de não cozinhar o cordeiro no leite de sua mãe. Ela é uma proibição específica para o cozimento (e não qualquer outro tipo de preparo) do cordeiro (e não qualquer carne) com o leite da mãe do animal (e não qualquer leite). O texto da Torá é curto e objetivo e não dá vazão a muitas dúvidas.

    Conforme está registrado no Talmud, esta proibição evoluiu para o que temos hoje no período pós bíblico, e por isto Abraão não tem problema nenhum em oferecer manteiga e leite com a carne de bezerro aos seus visitantes (pelo que lembro esta é a única instância na Torá onde há registro de uma refeição com carne e leite).

    No mais, gostei de tudo e comprei o livro para ler.

    Obrigado pela dica!

    Abraço, Raul

  • Paulinho

    16/07/2016 at 05:41

    Lindo texto Yonathan!
    Me emocionei lendo. Algumas dessas informações estiveram presentes em conversas riquíssimas que tivemos. Tive a sensação de estar conversando contigo enquanto lia o texto. Parabéns pela sabedoria e sensibilidade!
    Um grande abraço cheio de saudade