Gil e Caetano: o lado B da notícia

29/07/2015 | Sociedade

Os baianos, por fim, chegaram, falaram, passearam, cantaram e se foram da Terra Santa. Gilberto Gil e Caetano Veloso, em uma passagem meteórica de três dias por Israel, cumpriram com o show prometido, sem ceder à pressão do BDS. Bateram pé, deram um chega prá lá nos panfleteiros e radicais de plantão. Ainda no Brasil, falaram um tanto de besteira na mídia, deram outras bolas muito dentro (como a resposta do Caetano para Roger Waters, em carta publicada pelo O Globo), e aqui encheram os bolsos com uma plateia lotada, porque afinal não tá fácil pra ninguém.

No saldo final, me parece que se saíram o melhor possível.

No entanto, para uma parte da comunidade judaica brasileira, que eu não saberia dizer se grande ou pequena, a coisa não soou bem assim. Quando Caetano afirmou para a plateia em um evento antes do show um sonoro “chega de ocupação, chega de repressão”, muita gente foi pra mídia social, esse palco tresloucado, para reclamar. Convocaram outros brasileiros a devolver o ingresso. Afirmaram que os cantores são traidores, pois se portaram como “convidados” mal-educados. Aproveitadores. E por aí afora.

Pois, pelo pouco que sei (e certamente não sei de tudo — ótima oportunidade para falar-se sobre isso, estou atentíssima para ouvir), o que aconteceu foi o seguinte. Logo no início da polêmica com o BDS, ONGs israelenses que trabalham em prol da paz contataram os músicos, convidando-os a conhecer o seu lado da história. Isso quer dizer cumprir com o roteiro que todos já conhecem, mas que poucos aprovam: visitar os territórios, encontrar-se com ativistas de direitos humanos, conhecer a realidade do ponto de vista de (alguns) palestinos. Sem pedir nenhum tipo de proteção ao governo israelense, foram ao vilarejo de Sussiya, na Cisjordânia, com a ONG de ex-militares israelenses Breaking the Silence. No dia seguinte, encontraram-se com 80 representantes de ONGs israelenses e palestinas em Tel Aviv, em um encontro organizado pelo brasileiro Davi Windholz, diretor de uma ONG que promove o diálogo sem violência entre crianças cristã, muçulmanas, judias e drusas, e a fundação americana New Israeli Fund. Os queridos David Broza e Mira Awad, artistas consagrados por aqui, estiveram no evento gritaram seus bordões, clamando por paz e diálogo.

Nelson Burd, colunista do ConexãoIsrael, entrevistando Caetano e Gil.
Nelson Burd, colunista do ConexãoIsrael, entrevistando Caetano e Gil.

Por outro lado, o nosso amado Estado de Israel fez o seguinte: nada. Levá-los para Sderot para ouvir da população o que é conviver com mísseis desvairados enviados de Gaza durante a guerra e fora dela; conversar com jovens esposas enlutadas de jovens soldados, pais enlutados de crianças pegas por mísseis dentro de casa, nada. Ouvi dizer que um grupo de judeus brasileiros sionistas fizeram suas tentativas de comunicação com os dois, mas seus convites não deram resultado. Alguns hão de gritar que, assim, Gil e Caetano mostraram que vieram com a “cabeça feita”. A verdade é que será impossível saber se foi assim que aconteceu.

Enfim, depois dessa carga toda – palestinos chorosos (digo isso sem tirar o seu total direito às lágrimas), territórios devastados, lutas inglórias locais, artistas emocionados –, Caetano é chamado para o microfone e dispara um “chega de ocupação”, depois de várias entrevistas bastante moderadas. “Ah, ele já veio com essa frase na garganta”, dirão os revoltados da internet.

Talvez. Mas duvido.

Agora o lado B. Ouvi várias vezes durante a cobertura da passagem dos dois por aqui, da boca deles, que eles preferiram o diálogo com o país e a sociedade israelense, e não o apoio ao isolamento político, que é o objetivo maior do movimento de boicote ao qual Israel está sempre sujeito. Acho que foram sinceros.

Falaram que acreditam na esperança, no diálogo, no entendimento, entre muitas outras coisas, que foram amplamente divulgadas na mídia. Encontraram-se com o eterno presidente de Israel, Shimon Peres. Foram jantar com músicos e empresários locais. Foram gentis, solícitos, sorridentes todo o tempo. Seguiram todos os conformes.

Eles não falharam ao não dizer “Israel tem o direito de se defender”. Também não falharam ao dizer “chega de ocupação”.

Eles não falharam, em absoluto. Se alguém falhou, foi o status quo.

Comentários    ( 11 )

11 comentários para “Gil e Caetano: o lado B da notícia”

  • Alex Strum

    29/07/2015 at 18:19

    Amos Oz: “o conflito Israel-Palestina” é trágico porque os dois lados tem razão.
    Difícil discordar e é difícil, para quem não está diretamente envolvido, se posicionar para alem de platitudes.
    Alex

    • Miriam Sanger

      29/07/2015 at 22:34

      Pois é. Esta para nascer o sábio que vai dizer: “e trágico pra todos nos. Então vamos sentar e resolver logo essa parada”. Enquanto ficarmos competindoo para ver quem se dana mais, a situacao vai continuar como esta, uma meleca.
      Obrigada pela mensagem.
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    29/07/2015 at 20:36

    “Eles não falharam ao não dizer “Israel tem o direito de se defender”. Também não falharam ao dizer “chega de ocupação”.

    Concordo com a segunda frase, discordo da primeira. Por que não deveriam dizer que Israel tem o direito de se defender?

    • Miriam Sanger

      29/07/2015 at 22:35

      Porque só da para defender aquilo que se conhece.
      Abraço!
      Miriam

  • Marcelo Starec

    30/07/2015 at 02:13

    Oi Miriam,

    Muito bom artigo!…Parabéns!…Acho que é isso…Eles vieram cantar, que é o seu ofício normal e se eles tem interesse em conhecer Israel e o problema palestino também, que vejam com os seus próprios olhos!…Aliás, recomendo a todos os críticos que falam sem conhecer que, quando puderem, vejam in loco como é a situação real e façam críticas fundamentadas, se for o caso!..E mais – a paz se constrói com tolerância e uma legítima compreensão de ambos os lados e não pregando o ódio e a intolerância, como fazem o sr. Águas e companhia!

    Abraços,
    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      30/07/2015 at 11:14

      De acordo em melodia e letra 🙂
      Abraço!
      Miriam

    • Miriam Sanger

      02/08/2015 at 10:29

      Olá, Eloi.
      Minha filha estuda em uma ótima escola pública e gratuita. Toda minha família paga uma taxa de cerca de 150 por mês (somos seis) para utilizar a saúde pública. Assim, não posso concordar com a afirmação de que Israel é símbolo do capitalismo selvagem.
      Gil e Caetano tiveram algo como 3 ou 4 horas de contato com a região palestina. Em Israel, seguiram uma agenda de grandes e pequenos eventos, quase sempre culturais. “Rasparam” na realidade local e não têm condições de contar nenhuma experiência — como de fato não fizeram. Foi isso o que eu achei louvável: não deram uma colherada e acharam que provaram o caldo inteiro.
      E, sim, queremos um fim nesses conflitos. Se possível, agora.
      Abraço e obrigada pela mensagem.
      Miriam

  • Eloi Laufer

    30/07/2015 at 21:32

    Cara jornalista, concordo com quase tudo o que tenha dito, menos com a expressão “mísseis lançados a partir de Gaza”, pelo menos ao que vimos via TV nos noticiosos daqui, pois sempre me pareceram tubos de ferro preenchidos de propelentes e que pelo visto nunca atingiram seus objetivos. Quanto aos dois cantores, eles tem o direito de cantarem onde quiserem, e de preferência nunca se aliarem a políticos ou idéias políticas, mas no caso desses dois fica difícil a um brasileiro ver os mesmos agirem com tanto cinismo, já que no passado políticos de ambos constam muitas manifestações bem contrarias e contraditórias ao capitalismo selvagem, do qual Israel me parece ser o simbolo maior. Se, no entanto, eles foram até a Palestina, e tomaram conhecimento da realidade dos fatos, muito melhor, pois assim poderão voltar ao Brasil e, não se gabarem do dinheiro que ganharam, mas nos dizer com clareza o que viram, o que há de ruim e de inverdades, ou o que há de bom e de verdades nesse conflitos, que gostaríamos, tivesse um fim, que desmentisse as premissas de Hobes, do homem eminentemente mau e predisposto à Guerra.

    • Mario S Nusbaum

      02/08/2015 at 15:49

      Israel simbolo maior do capitalismo selvagem???????? Essa eu nunca tinha ouvido! Você nos deve explicações Eloi. Sobre os misseis, tecnicamente você tem razão, mas isso não muda em nada o FATO de que Israel foi, e continua sendo, atacado diariamente. Por um acaso errar no calibre com que alguém atira em mim tira meu direito de me DEFENDER?

  • Eloi Laufer

    03/08/2015 at 00:03

    Obrigado Miriam Sanger, gostei muito da tua resposta, pois só assim para nós que estamos distantes do realidade local, podemos ficar mais esclarecidos a respeito da real condição existente em Israel…

    • Miriam Sanger

      03/08/2015 at 00:20

      Fico feliz em informar.
      Obrigada pela participação.
      Miriam

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