A guerra na Síria e o avanço do Irã

05/09/2017 | Conflito; Política
Ilustração de Biderman, no jornal Haaretz

Cinco anos depois de iniciada, o percurso / o enredo da guerra na Síria começa a apontar para um fim. Ou, pelo menos, aparenta convergir para uma situação estável, ainda que violenta.

Percebe-se isso pois os exércitos do Estado Islâmico estão perdendo terreno em ritmo cada vez mais rápido e, pelo prosaico motivo que os envolvidos na guerra já estão começando a traçar as linhas do que virá a ser o novo Oriente Médio.

Spoilers: o Novo Oriente Médio será muito parecido com o Velho Oriente Médio, só que mais complicado.

Nas últimas semanas de agosto, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, para tentar encontrar termos satisfatórios para Israel dentro dos acordos de cessar-fogo. É um sinal claro de que as coisas vão mal para Israel pois, se estivesse tudo bem, o primeiro-ministro não teria que conversar pessoalmente com os russos sobre uma guerra em que praticamente não se envolveu.

O problema é que, de acordo com o que se desenha, depois do fim da guerra, a Síria terá algumas bases militares russas — o que já havia ali antes mas também bases militares iranianas e fábricas de armamentos também iranianas, além de centros de treinamento que deverão ser usado pelo Hezbollah. Tudo isso próximo da fronteira de Israel, nas Colinas do Golã.

É um dos piores resultados possíveis para Israel. A Síria já não representava perigo expressivo desde os anos 80. Já o Irã, desde 1979 diz e repete que quer a completa destruição de Israel. E quando uma nação com capacidade nuclear e 80 milhões de habitantes diz que quer varrer você do mapa, recomenda-se uma certa prudência.

 

Como isso foi acontecer?

Uma impressionante combinação de fatores:

O primeiro fator, mais antigo, é a relação ambígua que sempre houve entre a família Assad (de Bashar el-Assad, presidente da Síria e seu pai, Hafez el-Assad) e o Irã.

A Síria e o Irã, desde sua revolução islâmica, tornaram-se aliados. Irã: de maioria xiita, islâmico, persa e república teocrática. Síria: de maioria sunita, laica, árabe e ditadura autocrata. Longe de serem almas gêmeas. Ainda assim, aliados.

Assad, tanto o pai quanto o filho, mantiveram essa relação com os iranianos em fogo baixo. Por um lado ela era obviamente vantajosa. Por outro, quisesse o regime sírio estender a mão para o ocidente (inclusive aqui, em um possível acordo de paz com Israel), uma relação com os iranianos seria inconveniente. Seguiam, portanto, aliados pero no mucho. Durante a guerra, no entanto, os interesses imediatos dos governos sírio e iraniano transformaram os dois em aliados militares imediatos.

O Hezbollah por exemplo, uma milícia xiita libanesa financiada e treinada pelo Irã, nunca teve presença na Síria, mesmo dentro da complicada e ambivalente relação entre os dois países antes da guerra civil ali. Porém, lutou junto aos exércitos sírio e russo contra os rebeldes e contra o exército do Estado Islâmico. Além disso, o próprio exército iraniano auxiliou diretamente na luta, proveu armamentos e equipamentos sofisticados.

Outro fator que levou a esta situação foi o quase completo desinteresse do ocidente pela Síria. Agora que os acordos começam a ser esboçados, nem a Europa nem os EUA têm qualquer influência no que será ratificado. Em condições normais, os EUA poderiam fazer uso de algum tipo de força diplomática. No entanto, Trump já se posicionou inequivocamente como aliado da Arábia Saudita (que está em guerra fria com o Irã), têm um discurso ambíguo com a Rússia e forneceu equipamento para os rebeldes, contra Assad. Não há qualquer chance dos EUA influenciarem o resultado das negociações. Não agora.

Por fim, a Rússia, que ajudou Assad do começo ao fim da guerra civil, não tem nada específico contra o Irã. Apenas um leve aborrecimento. No mais, quer ver suas bases militares florescendo no Oriente Médio, o mundo ocidental mergulhado no caos e acha bastante conveniente a presença do Hezbollah na região. E vai conseguir tudo isso com a presença do Irã na Síria pós-guerra.

 

E agora?

Agora o Hezbollah, que estima-se que já tenha mais de 100 mil foguetes (um para cada 80 habitantes de Israel, judeus e árabes grande parte deles com alcance suficiente para chegar à humilde residência deste que vos escreve), vai ter também fábricas de foguetes protegidas por mísseis antiaéreos de primeira linha vindos da Rússia. Israel vai ter muito pouco apoio norte-americano, já que os EUA parecem estar mais ocupados com o extremo oriente no momento.

A força aérea israelense vem agindo sobre a Síria desde o início da guerra civil. Suas ações são sistemáticas e secretas. De acordo com informações que são obtidas por vezes na imprensa estrangeira, às vezes por fofocas entre jornalistas locais, tratam-se de ações preventivas contra a estruturação do Hezbollah, envio de armas sofisticadas pela fronteira com o Líbano dentre outros. O engraçado é que essas ações são plenamente coordenadas com as forças russas. Têm que ser: o espaço aéreo sírio é hoje controlado por elas.

Os russos estariam fazendo um jogo duplo? Pode ser. E nem sequer seria a primeira vez. Os russos sempre fizeram várias alianças contraditórias ao longo da história. Tanto para manter os inimigos sob controle, quanto para abrir seu leque de opções.

 

Fico devendo aos leitores uma previsão mais apurada. No Oriente Médio é difícil prever até mesmo o passado.

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