Há algo de novo em Yom Hashoá

Estou há pouco tempo por aqui e confesso: nem eu tenho mais vontade de fazer as mesmas coisas de sempre no Yom Hashoá, em que os judeus mortos no Holocausto são lembrados. O ponto central fica por conta das cerimônias públicas. Cada cidade faz a sua, e aqui em Raanana ela sempre acontece na principal praça. Já para o alto escalão israelense, formado por políticos, personalidades e uns convidados por não sei qual critério, há um eventão oficial, que sempre termina com a turma toda cantando o Hatikva.

Na primeira vez que vi o evento na praça de Raanana, fiquei superemocionada e chorei. Na segunda, emocionei-me, mas sem lágrimas, e confesso que fiquei bastante distraída com o batalhão de mosquitos que, nessa época do ano, se esbaldam com meu sanguezinho suburbano (ah, Raanana!). Na que seria a terceira vez – esta –, declarei à minha família que não iria. Fiz um programa legal com minha filhinha, ficando em casa com pipocas e assistindo a programas incríveis pela televisão.

Por que a coisa é assim, para quem não sabe: ao longo das 24 horas de Yom Hashoá, não se tocam músicas alegres no rádio. Na TV, não há a programação normal, mas sim a exibição de documentários e filmes, todos ligados ao Holocausto. Claro que é um dia em que não se celebra nada também. Ficamos estateladas na frente da telinha das 8 da noite à uma da manhã e, confesso, foi difícil parar e ir dormir. Vi coisas incríveis, e acho muito louco que esse assunto nunca se esvazie ou perca sua força. Mais incrível ainda foi ver em minha filha esse mesmo sentimento. De curiosidade, medo, tristeza, terror, vontade de entender o que não dá para ser compreendido. Não com a mente, mas sim com o coração, que fica aos pedaços. Bem pequeninhos.

Mas houve um outro programa legal que, me informou uma amiga querida, já acontece há alguns poucos anos aqui em Israel: o Zicaron BaSalon, que significa literalmente “Lembrança na Sala”. Um carinha novo, com 20 e uns poucos anos, chegou certo dia nesse estado de desânimo a que eu rapidamente cheguei nesse ano e entendeu a importância de realizar um evento no qual as pessoas se engajassem, e pudessem sentir e compartilhar lembranças, impressões e conhecimento. Essa é, afinal, a parte mais importante da história: cutucar a memória para que não ela se esqueça, como um antídoto para que nada do gênero possa novamente acontecer. Deus queira.

Ou seja, convidam-se uns amigos e familiares, convoca-se um palestrante (melhor se for um sobrevivente – ouvi que há agora apenas 120 mil deles vivendo em Israel – e, na falta dele, historiadores, pesquisadores, parentes de sobreviventes etc.), organiza-se uma comidinha (judeu = comida, né?) e rola um tipo de sarau. Vi fotos de alguns com gente tocando músicas, assistindo filmes, ouvindo palestras etc. Um dia para se mergulhar na escuridão do holocausto.

Parece que a coisa começou com um único evento na casa desse idealizador, mas hoje já são mais de 1500 que são organizados particularmente em todo o país. Existe inclusive um site divulgando o que acontece onde, com dados completos e qual a atividade proposta. É preciso inclusive se inscrever, e rola casa lotada. Sei que houve aqui em Raanana. No ano que vem, não posso faltar.

Confesso que os programas de televisão me ajudaram muito a entender melhor como os israelenses observam esse dia. Também me ajudaram a manter o foco na hora em que, às 10 da manhã do dia seguinte, uma sirene tocou por um minuto no país inteirinho, durante os quais permanecemos todos estáticos, mudos, apáticos, estarrecidos. Um minuto por seis anos, um minuto por seis milhões, um minuto por gerações que nunca chegarão a existir.

Espero ter forças e alguma boa ideia para, no ano que vem, fazer um Zicaron BaSalom na minha casa. Queria promover um só para “tirronim”, como se chamam aqui os alunos do colegial. Isso porque um dos programas que assisti com a minha filha mostrava um grupo deles, de uma escola X, que empreendeu uma viagem tradicional dentro da comunidade judaica em todo mundo: o Massá. Foram levados por cerca de uma semana para a Polônia (e jovens não israelenses depois esticam para cá) e passam por experiências diversas cujo objetivo é fazer com que sintam o drama vivido por uma geração que está logo ali: a dos seus avós.

E me deu vontade de chorar ao ver a falta de sensibilidade da maior parte dessa gente. Ao chegar a Sobibor, quase todos fizeram uma alegre guerra de neve. Em um bosque repleto de túmulos de membros de famílias inteiras assassinadas, uma garota encontrou a do seu avô: imediatamente sacou o telefone e fez um selfie. Com smile. Parecia filme de terror; ou foi de fato. A menina tem por volta de 16 anos. Minha filha tem 14, e ficou horrorizada com essa cena. Ou seja, claro, óbvio ululante, que não é toda a juventude que está tão distanciada do sentido de uma tragédia como a garota do selfie tumular. Mas aquela turma ali, pelo menos, estava. E gravavam vídeos contando do quanto se esforçavam, sem sucesso, em sentir algo com relação ao que estavam vendo.

(pausa para um suspiro)

Bom, se você não se emociona dentro de uma câmara de gás com capacidade para 200 pessoas, talvez não se emocione com nada na vida. Ou não: talvez seja apenas hora de adaptar essa lição para uma nova mídia que possa captar a atenção da geração start-up. Melhor crermos nisso e não aceitarmos a total falta de identificação com a tragédia alheia (sírios, sudaneses e muitos mais, como compreendo vocês!).

Sei que, depois de 5 horas assistindo essas e muitas outras histórias – uma alemãzinha de 93 anos, sobrevivente, que faz shows de rap para contar sua história a jovens; um casal que se conheceu em um campo e se dedica um a escrever, a outra a palestrar, sobre o nazismo, há nada menos do que 70 anos, e por aí vai –, minha filha sacou da mochila da escola uma latinha com uma velinha de 24 horas dentro. Grudada nela, havia uma etiqueta com o nome de Roman Karmashtik, um polonês de Varsória, pintor, filho de médicos, que nasceu em 1885 e morreu em 1942. Todas as crianças israelenses receberam uma como essa, cada um com um nome de uma vítima do Holocausto e seus dados pessoais. Cada pessoa tinha um nome, esse era o lema da campanha. Assim, antes de ir dormir, pensamos no Roman e acendemos uma vela por ele.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “Há algo de novo em Yom Hashoá”

  • Marion Vaz

    16/05/2016 at 22:58

    Lindo texto. Eu sempre me emociono no Hashoá, mas essa frase: “Um minuto por seis anos, um minuto por seis milhões, um minuto por gerações que nunca chegarão a existir” … diz tudo! Parabéns por transmitir informação repleta de sensibilidade.

    • Miriam Sanger

      17/05/2016 at 09:29

      Olá, Marion.
      Agradeço muitíssimo, a leitura e o elogio.
      Abraço,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    20/05/2016 at 22:37

    Oi Miriam,

    Que belo artigo!…É de fato emocionante participar desse ato em memória dos 6 milhões…Eu estive em um colégio público e assisti a uma cerimônia simples, mas emocionante. Crianças de todas as origens (etiopes, do leste europeu e por aí vai…), lendo textos, explicando o que ocorreu, tudo de uma forma tão emocionante que, é fácil perceber, todos realmente se sentem parte disso tudo)…Sim, precisamos sempre lembrar – e acho interessante pensar em novas formas de fazer isso!…Mas sempre lembrar!….E andar para frente!…

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      24/05/2016 at 11:41

      Tô contigo e não abro.
      Obrigada pela mensagem.
      Abraço!
      Miriam