Haifa, Haifa

O cantor israelense David Broza castiga o seu violão e canta: “Haifa, Haifa Ir im atid, Haifa, Haifa ir amitit…”, ou seja, “Haifa Haifa cidade com futuro, Haifa Haifa, cidade de verdade”.

Quem não a conhece, talvez passe por lá e não a entenda. Tantas subidas e descidas, sem saber onde chegar. Os moradores, por sua vez, tem o segredo de como aproveitar, apreciar, degustar, como a iguaria que é.

Parte alta e parte baixa, com praia linda, banhada pelo Mediterrâneo, e o Monte Carmel, com vista para o mar, todo arborizado, apesar do grande incêndio de três anos atrás. Aliás, o nome Carmel vem de irmãos carmelitas que fizeram um mosteiro na região, há quase duzentos anos.

Haifa tem tudo. É cultural e trabalhadora. Boêmia, mas acorda cedo, como os gancheiros do seu tradicional porto, que recebeu tantos brasileiros, que vieram para Israel, antes da era dos vôos para cá. O Brasil está marcado lá também nos grupos de capoeira e, principalmente, na Universidade de Haifa, projetada por Oscar Niemeyer. Construção plana, no pico do Monte Carmel, além de prédio de 30 andares, com mirante de onde se vê as Colinas do Golan.

Haifa é diferenciada, também, por ter ônibus circulando no shabat. Depois da independência, em 1948, David Ben Gurion manteve o status quo: onde já havia transporte público, manteriam. Onde não, respeitariam o shabat. Há linhas noturnas circulares todos os dias, das 22h até às 4 da manhã. Certeza que muita gente de Tel Aviv inveja os “Hefaim” neste ponto.

Morei em Haifa durante 1 ano e oito meses. Sinto muita falta da capital do norte, terceira maior cidade israelense, com 270 mil habitantes. Vivo em Ramat Gan, distante 50 minutos de lá, mas tenho ido pouco. Quando vou, pego trem ou ônibus, paro na estação Hof HaCarmel (Praia de Carmel), caminho pelo calçadão, como algo, vejo o mar e encontro os amigos.

A noite cai. Subo para o Merkaz Horev, ponto central entre o caminho para a universidade, à direita, e o Merkaz HaCarmel (ponto mais badalado da cidade). Pego a esquerda e vou até a Cinemateq, onde vi mais de 150 filmes, sem exagero.

Descemos em direção do Merkaz Hadar, passamos pelo mercado público e seguimos para um café na Moshavá Germanit (Colônia Alemã), pé do jardim Bahai, patrimônio da humanidade pela Unesco. Se este passeio dura até o amanhecer, veremos o nascer do sol no mirante Stella Maris, onde o entardecer também é fantástico.

Haifa, do bairro Neve Shaanan, o maior e mais populoso, local da universidade Technion, referência mundial. Do Wadi, histórico bairro árabe, com suas casas baixas e comida típica excelente. Aliás, é uma das únicas cidades, na qual árabes e judeus convivem numa boa, em plena harmonia. Não há divisão. Simples assim.

Porque Haifa é diferente. São muitos estudantes, que lotam os bares à noite. São os aposentados, que viajam de ônibus para fazer compras em Kiriat Eliezer. São os torcedores verdes do Macabi Haifa no futebol e basquete, ou os guerreiros do glorioso Hapoel Haifa, campeão nacional de 99.

Alguns saem de lá para centros maiores, ou procuram mais tranquilidade em cidades vizinhas. David Broza encerra sua canção assim: Kan noladti vekan gam egmor (Aqui nasci e aqui também vou terminar).

Foto de capa: Daniela Feldman (acervo pessoal).

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 9 )

9 Responses to “Haifa, Haifa”

  • Marcelo Starec

    24/04/2014 at 00:31

    Oi Nelson,
    Gostei do artigo! Sempre gostei das qualidades de Haifa, que o seu texto coloca muito bem. É uma pena que a maioria das pessoas no mundo não sabem, mas em todo Israel e especialmente em Haifa, onde fica evidente, árabes e judeus realmente “convivem numa boa, em plena harmonia. Não há divisão. Simples assim.”

    Abraço,
    Marcelo.

    • Nelson Burd

      24/04/2014 at 11:13

      Obrigado, Marcelo. Esta característica difere Haifa de Jerusalém, por exemplo, apesar de que a própria capital ficou um pouco mais hefaísta, nos últimos tempos.

  • Ricardo Arcanjo

    24/04/2014 at 05:17

    Texto muito bacana. No entanto acredito que o Monte Carmelo é quem deu nome a ordem religiosa dos carmelitas e não o contrário. O Monte Carmelo é famoso pelo episódio envolvendo o profeta Elias (Eliyahu) e os sacerdotes de Baal.

    • Nelson Burd

      24/04/2014 at 11:15

      É possível, Ricardo. Lembro de ter lido um texto em 2007, do modo que eu escrevi, mas tudo é possível. Eu posso ter me enganado. Vou procurar. Valeu.

  • Johnny

    24/04/2014 at 09:45

    Muito legal o texto Nelsinho!

    Eu também destacaria em Haifa o festival “Hachag shel Hachaguim” (“A Festa das Festas”), que em dezembro celebra festividades das três principais religiões (Chanuká, Natal e Ramadã) através de uma agenda cultural intensa e reflete a tolerância e coexistência que caracteriza a cidade.

    Outro ponto positivo de lá são suas muitas trilhas urbanas, principalmente através dos vales, de fácil acesso e bem sinalizadas. Cidade de natureza também coexistem em Haifa.

    Abraços!

    • Nelson Burd

      24/04/2014 at 11:19

      É verdade, Johnny, tanto descer as escadarias, como andar pelas trilhas, fora o Carmelit, que não citei, o único metrô israelense. Em 2007-08, quando eu estava lá, por causa dos porcos-do-mato, javalis, a prefeitura proibiu fazer trilhas em certos locais, principalmente à noite. A festa das festas, realmente, é especial, excelente pedida para aquela época do ano. Pouco antes, em outubro, tem o Festival Internacional de Cinema, que agita a cidade também. Abraço.

Você é humano? *