HaMaapach: como Begin chegou ao poder

24/03/2014 | Eleições; Política

Em 1977, após quase 30 anos de domínio trabalhista na política israelense – ou ainda mais, se forem contados os anos anteriores à fundação do Estado – Menachem Begin aproveitou uma oportunidade única e liderou o Likud à sua primeira vitória nas eleições para a 9ª Knesset. Além dos eleitores que se identificavam com sua ideologia liberal, e o apoiavam desde os tempos do partido Herut, Begin conseguiu reunir os votos dos mizrahim[ref]judeus orientais, vindos dos países muçulmanos e mediterrâneos[/ref] e dos sionistas-religiosos em torno de sua figura e de seu partido.

Um fator decisivo para o apoio dos mizrahim a Begin era a questão da honra, pois os judeus orientais sentiam-se negligenciados pela liderança ashkenazita [ref]os judeus europeus[/ref] do partido governante Mapai[ref]O antecessor do atual Partido Trabalhista[/ref] e por sua maneira de conduzir o país. O tema da honra também fica claro quando olha-se para trás e lembra-se da Guerra do Yom Kipur, em outubro de 1973. Até hoje uma ferida aberta na sociedade israelense, trata-se de um interessante caso de influência do psicológico coletivo na percepção posterior do resultado de uma guerra. Israel manteve todas as suas posições militares e impôs aos seus inimigos um número de mortos, ao menos, três vezes superior, mas a sensação de que o país fora pego de surpresa e despreparado para o próximo embate – e teria assim perdido a guerra – mancharia para sempre a imagem da liderança trabalhista, especialmente a figura da primeira-ministra Golda Meir.

A abordagem mais tradicional com que Begin tratava o judaísmo – Begin comia kasher[ref]alimentos preparados de acordo com as regras dietéticas judaicas religiosas[/ref], por exemplo, ainda que não fosse muito religioso – representava uma posição mais atraente a ambos os públicos mizrahi e sionista-religioso, em oposição ao estrito secularismo da liderança trabalhista.

A liberalização da economia, iniciada ainda durante o mandato de Levi Eshkol[ref]1963-1969[/ref], atraía os eleitores tradicionais do Likud, um partido liberal em sua essência, mas também a todos os insatisfeitos com as políticas socialistas ou social-democratas dos trabalhistas. Em contraste com a opinião trabalhista de que a colonização dos territórios palestinos ocupados era apenas uma medida em prol da segurança do Estado de Israel, Begin declarara que tratava-se de um direito judaico, o que também agradou bastante aos sionistas-religiosos. Esta questão representava a essência do recente racha entre os trabalhistas e os sionistas-religiosos, que haviam compartilhado todas as coalizões de governo até então, e representou um rompimento de paradigma ao colocar o setor religioso como “aliado natural” do Likud até os dias atuais.

Com estas posições, Begin conseguiu unir todas as forças insatisfeitas com a maneira com a qual o trabalhismo conduzia o país. Ressentimentos em relação à economia centralizada e à política do melting pot cultural que minimizavam o indivíduo em benefício do coletivo – ou quaisquer políticas vistas à época como forçadas “de cima para baixo” pelo governo ao povo – estavam sendo abordados. Tudo isto levou o Likud a atrair não apenas o voto dos judeus orientais, mas também o apoio do Partido Sionista Religioso (Mafdal, atual HaBait HaYehudi) e formar uma nova coalização que assumiu o poder em Israel.

Esse momento histórico, conhecido como HaMaapach, ou “a virada”, mudou a política israelense e a história do país para sempre.

Foto de capa: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/16/Menachem_Begin_1978.jpg

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “HaMaapach: como Begin chegou ao poder”

  • Marcelo Starec

    25/03/2014 at 11:21

    Oi Claudio,

    Gostei do seu artigo! Acompanhei bem a política israelense nessa época. Entendo que o Begin foi, enquanto político, naquele momento, muito pragmático, sabendo aproveitar como nenhum outro a divisão que havia então em Israel entre ashkenazim e sefaradim, sendo que os segundos representavam cerca de metade dos eleitores e não se sentiam devidamente representados na sociedade e na política israelense. O Begin fomentou essa divisão, ao chamar os ashkenazim de “barões do socialismo” e outras coisas do tipo. O engraçado é que o próprio Begin era ashkenazi e pouco religioso, mas isso passou quase que desapercebido pelos seus eleitores! Outro momento muito interessante ocorreu pouco após a sua eleição quando, apesar de seu discurso, considerado por muitos como fortemente radical, este soube aproveitar uma janela de oportunidade e fazer um importantíssimo acordo de paz com o Egito, o país árabe mais populoso e o mais perigoso inimigo de Israel, naquela época.

    Abraço,
    Marcelo.

    • Claudio Daylac

      28/03/2014 at 11:38

      Olá, Marcelo.

      Concordo contigo, é engraçada essa relação – até hoje existente – do Likud com os religiosos, além sua relação, na posição de partido liberal que sempre foi, com as camadas mais pobres da sociedade, que geralmente não apoiam políticas liberalizantes.

      Creio que são frutos das falhas nas políticas dos trabalhistas que abriram esse espaço.

      Obrigado por mais uma visita.

      Um abraço.