Hamas, Hezbollah, Estado Islâmico e…BDS

10/06/2015 | Conflito; Política

O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) é uma campanha global lançada por organizações não governamentais palestinas cujo objetivo é elevar a pressão econômica e política sobre Israel. Dessa forma, o movimento visa sufocar o país até que este atenda as suas demandas de acabar com a ocupação e a colonização de terras palestinas, conceder igualdade de direitos à árabes palestinos que vivem em Israel e respeitar o direito de retorno de refugiados palestinos.

Deixemos de lado a preocupante retórica antissemita usada por membros do movimento e sua singela hipocrisia e negligência em relação às suas aspirações. O momento é de encarar a realidade tal qual ela se apresenta: o BDS, movimento de apenas 10 anos, se consolidou como uma verdadeira ameaça a Israel.

O impacto do boicote a instituições, acadêmicos, artistas e produtos israelenses ganhou tamanha proporção que dois dos maiores investidores em Israel, os multi-milionários Sheldon Adelson e Haim Saban, deixaram suas divergências políticas de lado para organizar uma conferência cujo objetivo é “coordenar forças e estabelecer a melhor estratégia para lidar com o BDS”. Não fosse suficiente, Benjamin Netanyahu recentemente afirmou estar preparando uma “ofensiva” para neutralizar o impacto do movimento. Ao menos momentaneamente, Hamas, Hezbollah, Estado Islâmico (Daesh) e mesmo o Irã, que costumava figurar como a maior das “ameaças existenciais” em palanques ao redor do mundo, perderam o trono de protagonistas no discurso político israelense.

Em Israel, desde a declaração do CEO da empresa de telecomunicação Orange, que afirmou ter o desejo de retirar sua empresa do país, o principal assunto em reuniões de gabinete é como o quarto governo Netanyahu, instável e de caráter ultra-nacionalista, conseguirá  transformar sua maioria mínima de 61 membros em uma vibrante equipe capaz de controlar a avalanche diplomática à caminho de Israel.

Considerando que o país encontra-se em uma situação delicada, não será tarefa simples reduzir a velocidade com a qual a onda de boicotes se expande. Para tal fim, Netanyahu terá que desenvolver um plano de ação diplomático que lide simultaneamente com as armadilhas do BDS e a empreitada palestina em deslegitimar Israel em fórums internacionais. Esse novo plano estratégico deve invariavelmente incluir uma mudança de filosofia – se até o dado momento Israel manteve uma posição defensiva diante dos ataques realizados pelo BDS, chega-se a um ponto crítico em que Benjamin Netanyahu deve ignorar suas egocêntricas divergências com Barack Obama, nomear um ministro do exterior, demonstrar genuino interesse em retomar as negociações de paz e renunciar à ineficaz tática de “boicotar em retorno” (como se a medida fizesse cócegas nos gigantes que boicotam o país) .

É difícil acreditar em uma mudança dessa magnitude. Segundo alguns políticos da direita, Israel está diante de um nova “onda de terror” e tal percepção apenas reafirma quão obsoleta é a política externa do país. O boicote é uma questão a ser resolvida em campos diplomáticos – a mesa de negociação e os corredores dos fórums internacionais. Sendo assim, enquanto Israel tentar explicar o tsunami diplomático que está vivendo em termos de guerra, não será capaz de responder à altura de um movimento que cresce exponencialmente ao redor do mundo. Enquanto a política israelense deve passar por profundas transformações, aos israelenses resta apenas esperar que seu próprio governo não boicote a promessa que fez de tornar o país um lugar melhor para se viver.

Comentários    ( 25 )

25 comentários para “Hamas, Hezbollah, Estado Islâmico e…BDS”

  • Fábio

    10/06/2015 at 08:32

    Caro Bruno, fico com impressão de que Israel preparou-se e aprimorou-se por muitos anos em defender-se militarmente, mas no plano diplomático e de propaganda (ou mídia, cujo o alvo é a opinião pública estrangeira – os eleitores – fundamentais nos regimes democráticos), tem atuado muito muito mal, a despeito de qualquer outra questão.

    Uma explicação recorrente é a de que os diferentes governos israelenses sempre preocuparam-se em moldar seus discursos para “quem interessava”, ou seja, os inimigos. Se expressam dentro “da lógica” (ou da retórica) dos regimes do Oriente Médio e proximidades. Afinal, o que importa a opinião pública “ocidental”, tão ignorante do assunto e longe dessas fronteiras e vizinhos complicados?

    A experiência com a campanha internacional contra a África do Sul do Apartheid é um exemplo de como a estratégia da propaganda demonizadora funciona.

    O atual BDS é ruim e potencialmente muito perigoso. Ainda assim, fazem os palestinos o jogo da propaganda e da diplomacia. Do mesmo modo, quando buscam espaço na ONU ou tentando convencer a Fifa a excluir Israel. Ruim, mas considerando as estratégias anteriores, que incluíam o terror, atos terroristas…já é uma evolução, sem dúvida. São estratégias e campanhas políticas.

    O governo israelense, como você bem diz, precisa desenvolver e treinar-se nesse terreno. Discursos truculentos, secos e curtos só voltados para o mundo árabe não vão mais funcionar e os riscos são imensos.

    Com um abraço, Fábio.

  • Mario S Nusbaum

    10/06/2015 at 17:41

    Concordo totalmente em que Israel perdeu de goleada na disputa de PR. Eu diria até que perdeu por WO, nem entrou em campo.
    Faz muito tempo que eu digo: Netanyahu, ou quem estiver no poder tem que dizer, todos os dias, em todos os canais possíveis, que está disposto a negociar, basta marcar data e local.
    Melhor ainda seria ele mesmo fazer isso e enviar uma delegação para lá. Seria muito mais provável o Messias aparecer do que os palestinos.

    • Claudio Daylac

      10/06/2015 at 22:42

      Então porque ele não vai lá e negocia, Mario?

    • Mario S Nusbaum

      13/06/2015 at 16:15

      Lá onde Claudio? Não entendi. Se você estiver falando do meu lá, aquele que eu escrevi, seria um local qualquer marcado pelo Netanyahu, e tenho certeza absoluta de que não encontraria ninguém.
      A cada dia que passa me convenço mais de que estou certo e essa tática só poderia beneficiar Israel. Não faço ideia do porque não a usaram até hoje, mas parece que vão começar, veja esta notícia de alguns dias atrás:
      “Palestine: Abbas rejects Netanyahu’s call for talks unless settlements are halted”

      Dei um Google em Abbas rejects e apareceram 432 mil resultados.
      De 2013: “Abbas rejected Netanyahu offer to free 50 pre-Oslo prisoners for new talks”
      De 2011: “The Palestinian Authority has rejected several attempts to sway it away from its statehood bid at the United Nations and toward resumed peace talks with Israel, Haaretz learned on Sunday, with sources saying that Palestinian President Mahmoud Abbas rebuffed proposals that included compromises by Prime Minister Benjamin Netanyahu.”
      De 2009: “Palestinian president Mahmud Abbas said on Saturday he sees no point in meeting Benjamin Netanyahu if the Israeli premier approves a fast expansion of West Bank settlements before considering a freeze”

      O medo que as lideranças palestinas tem de uma conversa séria é tão grande que chegam a isso: “Palestinian Authority President Mahmoud Abbas said on Sunday Israel had released frozen tax revenue to the Authority but that he had ordered the funds to be returned because money had been deducted to cover debts to Israeli utility companies”.
      O “moderado” Abbas recusa 400 milhões de dólares e o povo que se dane, ele, financeiramente, vai bem obrigado.

      Finalizo com algo para os que acham razoável exigir o congelamento dos assentamentos (sou contra eles) ANTES do inicio das negociações: “In early 2010, Benjamin Netanyahu, imposed a ten-month moratorium on settlement construction in the West Bank as gesture for the Palestinian Authority, after previously publicly declaring his support for a future Palestinian state, however he insisted that the Palestinians would need to make reciprocal gestures of their own. The Palestinian Authority rejected the gesture as insufficient. Nine month later, direct negotiations between Israel and the PA relaunched, after nearly two years stalemate”

    • Fábio

      14/06/2015 at 07:04

      Caro Mario, não compreendo o estranhamento em relação a posição palestina de exigir o fim da expansão nos territórios ocupados para início das negociações. Com um abraço, Fábio.

    • Mario S Nusbaum

      14/06/2015 at 21:17

      É simples Fábio, é na negociação que se faz exigências, não antes. Mas isso nem é o mais importante, dado que quando a expansão foi congelada em 2010, nada mudou, eles continuaram fugindo.
      Repito que sou contra os assentamentos, mas antes deles não havia paz e tudo indica que não passam de um pretexto.
      É mais ou menos a mesma situação das Sheba Farms, que foi retratada em um programa humorístico da TV libanesa:

      Interviewer : Sayyid [Hassan] Nasrallah, if the Shebaa Farms are liberated, do you then intend to give up your weapons [to the central Lebanese government]?
      Nasrallah (obviamente um ator no papel dele): We do not have weapons because we love them but rather to realize our right to do so After [the liberation of] the Shebaa Farms we will liberate Abu Hassan’s garden in Detroit , USA

      Interviewer : And after that will you give up your weapons?
      Nasrallah:No. We will still have to get rid of the American-imperialist-Zionist satellites which are circling overhead and passing over our air space and infringing on our sovereignty

      um abraço

    • Fábio

      15/06/2015 at 13:55

      Caro Mário:

      Me parece que Sheba (e a turma do Hesbolah) não seja o melhor dos exemplos comparativos. Se é, pode ser comparado então a aquele prédio de hotel em Taba (ou Taba inteira) junto a Eilat, um pedacinho irrelevante de alguns metros de terra, que os egípcios fizerem questão de ter de volta e a paz (um tipo de paz, mas paz) veio.

      A continuidade da colonização na Cisjordânia além de evidenciar as intenções do governo israelense (e de parte da sociedade); a má vontade ou a nenhuma vontade de negociar acabam produzindo uma situação de fato que a longo prazo deixam as negociações sem objeto.

      Elas não são e não tem sido elemento de pressão em cima dos palestinos para que negociem ou punição pelas exigências e propostas deles para a paz. São simplesmente “migué”, como dizem na gíria. Enquanto um lado nada faz e não tem força para fazer, “vamos tomando mais”.

      Ao mesmo tempo que não aproxima os palestinos de negociação, afasta o que resta do apoio da opinião pública mundial, deslegitima e desacredita que Israel quer mesmo uma paz.

      Trata-se de ato hostil que produz mais do que desconfiança, certeza no lado palestino. Se o conflito tem relação direta com terra e a propriedade dela, como é que se pode acreditar em alguém que diz que quer negociar mas segue aumentando o problema?

      Com um abraço, Fábio.

    • Alex Strum

      15/06/2015 at 17:33

      Fabio, o que voce descreve é mesmo a realidade, na verdade é uma parte da realidade.
      Israel é uma democracia e como voce mesmo diz esta política é do governo (eleito) e de parte da sociedade. Que parte da sociedade é esta e quanto que ela representa do total da sociedade israelense?
      Presumo que uma parte desta parte seja mesmo ideologicamente a favor desta política mas ela não é majoritária.
      Creio que boa parte dos que elegeram este governo estaria perfeitamente de acordo em reverter esta política, se confiasse que a outra parte de fato está interessada em negociar a paz, o que alguns diversos episódios não confirmam, pelo contrário.
      Embora tudo o que voce argumenta seja verdade, não concordo que se coloque a responsabilidade apenas no governo e sociedade israelense. Quais foram os gestos equivalentes que os palestinos já fizeram na direção do que os americanos chamam de confidence building?
      Tem ou não tem uma parcela significativa da sociedade israelense que votou neste governo mas que estaria perfeitamente disposta a mudar a política de ocupação se confiasse nos palestinos??
      abs,
      Alex Strum

    • Mario S Nusbaum

      15/06/2015 at 21:44

      Caro João, pode não estar claro (acho que não está mesmo), mas concordo com TUDO o que você escreveu em 15/06/2015 13:55, em especial que isso é péssimo para a imagem de Israel. Aparentemente nossa discordância é que eu acho que os palestinos (suas lideranças e boa parte da população) agradecem a Deus todos os dias por isso..
      Conseguem o que querem, continuar o conflito, e a culpa fica com Israel. Eu nunca disse que essa atitude israelense é inteligente, só que com ou sem ela não haveriam negociações sérias. A História prova isso.
      um abraço

    • Fábio

      18/06/2015 at 05:57

      Caro Alex, tenho fé (crença…) de que a maioria dos israelenses desejam paz. Pelo menos isso pode ser visto nas músicas e em várias expressões da cultura local. De certo modo, a paz com segurança para Israel.

      A maioria dos palestinos – em especial, os que tem convicção de que possuem direitos ou direito a terra – que não estão satisfeitos com a existência de Israel não tem essa fé. Eles tem as razões deles para isso.

      Ainda assim, e aí é o ponto, para todos os efeitos, práticos e diplomáticos, Israel não deveria abandonar de seu discurso a permanente intenção de estabelecer a paz. Mesmo que isso possa soar retórico e falso.

      O que Bibi fez nas últimas eleições foi escrachar. Péssimo em todos os sentidos. Fora outros absurdos.

      Com um abraço, Fábio.

    • Alex Strum

      18/06/2015 at 16:23

      Fábio, com relação a isto concordo com você.
      Não me parece nada inteligente colocar mais lenha na fogueira gratuitamente embora os políticos tenham suas razões para fazer coisas não inteligentes na visão da maioria.
      Mas vamos combinar que TAMBEM devemos cobrar ações concretas das lideranças palestinas na direção de criar e desenvolver um ambiente de confiança mútua que é pré-requisito para negociações de paz.
      abs,
      Alex Strum

    • Fábio

      21/06/2015 at 09:19

      Caro Alex, é preciso romper com o ciclo vicioso (em verdade, viciado) de usar os modos do inimigo como argumento para não insistir na paz. É esse mesmo argumento – baseado na continuidade da colonização do que poderia ser um dia a Palestina; discursos intolerantes em relação a árabes etc – que os palestinos usam para dizer que com os israelenses não dá para entrar em entendimentos.

      Com um abraço, Fábio.

  • Marcelo Starec

    10/06/2015 at 21:16

    Oi Bruno,

    O seu texto é interessante, porém focado em uma certa ótica (a política, no meu entender)…Gostaria de colocar a questão de um prisma que a meu ver é mais abrangente, com o objetivo de trazer para a discussão mais elementos: não é a primeira vez que o povo judeu é boicotado e todos os que conhecem história sabem disso com toda a tranquilidade…o que talvez muitos não saibam é que tampouco é a primeira vez que Israel é duramente boicotado!…E é nesse ponto que quero focar – Israel foi extremamente boicotado logo após ter conseguido resistir aos árabes em 1948 e ter conseguido sobreviver como um Estado independente e a partir daí, aliado à estratégia militar, houve também severos boicotes contra o País, inclusive com intenso apoio do mundo ocidental – Exemplos?…O assim chamado “boicote árabe” impediu até mesmo empresas como a cadeia de fast foods Mac Donalds a ingressar em Israel…Na década de 80, havia uma “imitação” chamada de Mac David…e todas as empresas que faziam negócios com Israel acabavam de algum modo sendo boicotadas no mundo árabe (obviamente muito mais interessante!)…Em 1973, toda a Europa fechou o espaço aéreo para Israel receber mercadorias enquanto os países árabes, melhor armados, estavam segundo os principais historiadores ganhando a Guerra, com o claro objetivo de mais uma vez “jogar os judeus ao mar”…Quem salvou Israel foi talvez um milagre ou eventualmente a ajuda americana que chegou tarde, mas ainda a tempo, por via aérea e com o arriscado abastecimento em pleno ar, tendo ainda de fazer uma série de desvios pois muitos países europeus não permitiram a passagem desses aviões pelo seu espaço aéreo…sem contar com os tantos e tantos heróis que deram a sua vida para resistir enquanto essa ajuda não chegava!…Enfim, coloco tudo isso simplesmente para dizer que nada disso é novidade, faz parte de uma guerra existencial, a mesma que existe desde 1948 e a questão palestina é um mero pretexto…O fato é que o mundo ainda não legitimou o direito de Israel existir plenamente, aliás talvez nem mesmo o direito do povo judeu a existir…Sim, Israel pode ter lá as suas dificuldades diplomáticas hoje, mas essas já foram muito maiores em outras épocas e o governo, por mais incrível que possa parecer, era de esquerda !….Faço questão de fazer essas colocações para que ninguém se iluda e ache que a culpa dessa nova onda de boicotes é exclusivamente do Primeiro Ministro ou mesmo do atual governo israelense – o problema é muito mais complexo, infelizmente!…..

    Abraço,
    Marcelo.

    • Alex Strum

      10/06/2015 at 22:51

      Marcelo, concordo 200% com você. Como se diz por aqui: “o buraco é bem mais em baixo”.
      Que o Bibi e seu governo não são nenhum primor de diplomacia quase todos concordam, mas este definitivamente não é o centro da questão.
      Citando do seu texto: “O fato é que o mundo ainda não legitimou o direito de Israel existir plenamente, aliás talvez nem mesmo o direito do povo judeu a existir”.
      É isto que o Bibi e todos nós deveríamos repetir diariamente até que o mundo se convença que viemos para ficar e vamos defender este direito, nem sempre da forma mais acertada.
      Sem esta legitimação se não for BDS será qualquer outra coisa que teremos que enfrentar.
      abs,
      Alex Strum

    • Mario S Nusbaum

      13/06/2015 at 16:25

      Excelente Marcelo, só quero acrescentar que os EUA usaram sua base nos Açores para abastecer Israel.

  • Fábio

    11/06/2015 at 04:09

    Prezados Alex e Marcelo, discordo. Colocar o atual movimento BDS na conta de antissemitismo é o lugar comum das desculpas. O antissemitismo é um termo que encerra qualquer debate e reflexão. “É antissemitismo” ou mais precisamente, anti-judaísmo. Fim, “explica tudo”.

    Não há dúvida de que antissemitas se alinham nessas oportunidades de serem racistas sem aparentarem deixar de serem politicamente corretos.

    O que Marcelo descreve é verdade. Mas um boicote diferente o do Mac Donalds (e da Pepsi!). Os membros da Liga Árabe diziam que quem vendesse para eles, não poderia vender para Israel. Ou quem vendesse para Israel, eles não comercializariam. A coca-cola deu de ombros. Por isso aliás, quando estive na Síria em 1990 só havia pepsi.

    Ou seja, uma opção por parceiro de negócios, o que é bastante diferente de uma opção por não vender para um cliente em razão de campanha política. São coisas diferentes.

    E, infelizmente, pior hoje. O motor da campanha anti-israel é pós queda da URSS. Pós Oslo. É posterior a um tempo de otimismo. E os palestinos (Fatah) hoje se apresentam de maneira muito diferente. Já são quase 50 anos de dominação na Cisjordânia sem anexação e sem concessão de cidadania e direitos políticos. A situação dos árabes na Cisjordânia e o tratamento que lhes é dado é uma razão mais do que justa para que pessoas no mundo inteiro se mobilizem para pressionar por melhorar a sorte dos que sofrem.

    Assim fazem em relação a outras situações e outras causas pelo mundo. De um modo geral, isso (violação dos Direitos Humanos) é realizada por Estados não democráticos. A pressão é dura de realizar e complexa. Como pressionar economicamente um notório violador (e protetor de violadores) de Direitos Humanos como a China, por exemplo? Se o Estado violador é democrático, utiliza-se justamente da mobilização da opinião pública.

    Israel é uma democracia. Muitas gente sem qualquer preconceito em relação aos judeus sinceramente se incomoda com o que ocorre na Cisjordânia.

    A forma de enfrentar BDS é diplomática e não acusar os críticos de antissemitas. Bem, o assunto é complexo e longo.

    Com um abraço, Fábio.

    • Alex Strum

      11/06/2015 at 15:27

      Fabio, não acho que BDS é apenas uma questão de antissemitismo, acho apenas que na cadeia de causas e consequencias a ocupação da Cisjordania, motivo alegado do BDS, não é a raíz do problema.
      Sugiro ler o artigo do David Horovitz no Times of Israel, em http://www.timesofisrael.com/no-mr-president-you-dont-fully-understand-our-fears/. Ele mostra a assimetria entre o que se cobra de Israel e dos Palestinos e tambem os riscos envolvidos na questão.
      Onde está o BDS contra o que se ensina nas escolas palestinas? ou contra o programa do Hamas que explicitamente nega a existencia de Israel? ou contra os foguetes que continuam sendo lançados sobre o sul de Israel? e tantos outros.
      Todos nós somos a favor de direitos humanos e não gostamos do que sucede com os palestinos da Cisjordania. Mas tem que haver um equilíbrio nas cobranças.
      abs,
      Alex Strum

    • Fábio

      12/06/2015 at 13:13

      Caro Alex:

      Li esse artigo que você indicou, obrigado. O texto não é bom. É político e essencialmente retórico. O desequilíbrio nas cobranças tem um bom número de explicações. A falta de preocupação e empenho dos governos israelenses em se empenhar diplomaticamente (conforme já escrevi) é um deles. Os líderes e ativistas palestinos estão longe de serem santos, mas a paz é justamente feita com os inimigos e não com os amigos.

      Preocupa-me a sorte dos palestinos baixo dominação e mais ainda, independente do que produzirá efetivamente o BDS, a que será da sociedade israelense como o prolongamento indefinido e sem perspectiva de dominação na Cisjordânia.

      Não existem soluções fáceis e milagrosas. Mas qualquer expressão de tentativa de paz é infinitamente melhor do que nenhuma tentativa ou pior, respostas demonizantes no mesmo nível daquelas que condenamos.

      Com um abraço, Fábio.

    • Mario S Nusbaum

      13/06/2015 at 16:38

      Fabio, concordo em que a falta de preocupação e empenho dos governos israelenses em se empenhar diplomaticamente (conforme já escrevi) é um dos motivos pelo desequilíbrio nas cobranças. O anti-semitismo é outro e o fato de que, até hoje, os EUA apoiavam Israel (as esquerdas odeiam isso) um terceiro, mas não consigo pensar em mais “um bom número”. Você poderia citar alguns?

      Também concordo que é pior hoje, bem pior. Sim, já são quase 50 anos de dominação na Cisjordânia sem anexação e sem concessão de cidadania e direitos políticos, mas quando foi que as lideranças palestinas se mostraram minimamente dispostas a mudar isso? “A situação dos árabes na Cisjordânia e o tratamento que lhes é dado é uma razão mais do que justa para que pessoas no mundo inteiro se mobilizem para pressionar por melhorar a sorte dos que sofrem.” Sim, MAS, porque não se mobiliza primeiro contra os maiores culpados?

      “Como pressionar economicamente um notório violador (e protetor de violadores) de Direitos Humanos como a China, por exemplo?” De várias formas, inclusive economicamente. Você cita a China, só que ela é um caso a parte, praticamente impossível de ser boicotada (por causa do tamanho). O Irã sofria sanções e elas estavam começando a funcionar quando o Obama se apaixonou pelo Rohani.
      “Muitas gente sem qualquer preconceito em relação aos judeus sinceramente se incomoda com o que ocorre na Cisjordânia.” Acredito, mesmo porque eu também me incomodo, mas quando um vazamento em casa me incomoda, não mexo na parte elétrica, vou fuçar o encanamento.
      “A forma de enfrentar BDS é diplomática” E mais uma vez concordo. Um abraço

    • Fábio

      14/06/2015 at 07:41

      Outras razões para que as pessoas apoiem algum modo de pressão para que o governo israelense pare a colonização e anexação de territórios na Cisjordânia; o tratamento reservados aos que ali vivem e a ocupação daquele território?

      A lista é grande, como disse. Colonos judeus produzindo violência em árabes e a polícia não apurando e a justiça não atuando; aprisionamento sistemático de crianças palestinas; prisões do exército em território ocupado onde crianças (outro dia uma de seis anos…) são presas e sofrem violência física e psicológica; jovens palestinos alvo de tiros nas pernas; áreas confiscadas pelos mais diferentes “argumentos”; oliveiras arrancadas; proposição de ônibus separados para árabes e judeus (ótimo argumento para os que comparam com Apartheid) posso continuar, mas sei que você sabe do que estou falando.

      Há repressão ao comum estilo de ditadura militar na Cisjordânia. A repressão e a violência é algo comum a um exército que ocupa e pretende controlar. Isso é ruim para quem é oprimido e também danoso para a sociedade que oprime.

      O argumento israelense é a sua própria segurança, a complexidade do contexto e as dificuldades em se encontrar parceiros para a paz; garantias de continuidade dela, o que de certo modo, esconde um pouco também a má vontade do lado que cá; a falta de interesse em devolver *a terra* (afinal, essencialmente o Estado judeu deveria conter aquilo como também os dois lados do Jordão, conforme “era”, embora os árabes em muitas de suas cidades acusem os “sionistas” de desejarem, em verdade, estabelecer-se – “conforme as bandeiras deles, duas listras” dizem eles – entre o Nilo e o Eufrates).

      O mundo (ONU) faz também boicote aos russos pelo que andam fazendo na Ucrânia. Mesmo com a enorme dependência que os europeus tem do gás (= calefação no rigoroso inverno, especialmente).

      Boicote é um recurso diplomático interessante. É pacífico e contribui para pressionar governos e impedir a naturalização de certas situações.

      Alguns ditos marxistas (ou membros de diferentes igrejas, como a gramsciniana e outras) ainda mantém os condicionamentos dos tempos da Guerra Fria. Boa parte deles ignorantes que ficam chocados ou duvidam quando informadas do apoio (inclusive em armas, tchecas) da URSS a Israel em 1948.

      Essa turma em boa parte não propõe exatamente boicote, mas o fim do Estado judeu.

      Mesmo com todos esses “senãos” e tudo que já falamos, percebe-se que muito além da situação em si, o tema é tratado como recurso *político eleitoral* pelo Bibi, conforme os absurdos que incríveis declarações e incitações racistas que ele realizou a poucas horas da eleição.

      Ainda assim, com esse ou qualquer outro governo, ainda há espaço para uma diplomacia um pouco mais cuidadosa, profissional e apurada. A nomeação do atual embaixador (de origem drusa, intelectualmente muito preparado) para o Brasil foi uma ótima decisão, considerando as trabalhadas anteriores.

      Com um abraço, Fábio.

  • Marcelo Starec

    11/06/2015 at 20:41

    Oi Fábio,

    O assunto realmente é complexo e longo (como você coloca!) e acho que precisamos mesmo discutir mais a fundo sobre o tema…Preliminarmente, quero te dizer que esse, de fato, é mais um desafio para a existência de Israel e infelizmente os que não querem que Israel exista sabem e se aproveitam desse e outros temas para esse fim…mas voltando a “vaca fria”, enfim, Israel não teve lições muito produtivas em suas fronteiras, quando efetuou recuos…Veja, Israel tinha uma pequena faixa de segurança no Sul do Líbano e uma milicia aliada (o exército cristão)…Israel saiu completamente do Líbano, o Exército Cristão foi desarmado e…um Grupo Terrorista Islâmico (Hezbollah) abertamente financiado e aliado do Irã, domina hoje o Sul do Líbano, tem um exército forte e uma montanha de mísseis apontados para Israel e está pouco se lixando para a soberania do Líbano – responde aos seus patrões, os Ayatolas!…Na fronteira Sul, Israel desocupou Gaza e esse Território foi dominado por outro Grupo Terrorista (Hamas), cujo objetivo declarado e praticado é destruir Israel, nada mais, nada menos…Sobrou a Cisjordânia, onde há a autonomia do Abbas (com 10 anos de mandato, quando foi eleito para quatro) e nenhuma segurança de que, em caso de uma rápida e completa saída de lá este Território não será assumido pelo Hamas ou algum outro grupo terrorista similar, com uma mesma agenda (destruir Israel)!…Não é tão simples falar de “ocupação” quando há um risco existencial de fato!…Não será nenhuma surpresa haver, no auge do BDS, um ataque coordenado do Hamas e do Hezbollah contra Israel, sendo que a fronteira da Cisjordânia (a mais importante!) não estaria hoje em condição de participar!…Infelizmente, a agenda de jogar os judeus ao mar não foi ainda retirada das possibilidades de muitos grupos extremistas islâmicos e toda essa negociação, para criar um Estado Palestino, precisa envolver em meu entender a Liga Árabe e um acordo que garanta definitivamente o direito de Israel existir e não apenas uma simples aposta!…Não podemos “apostar”, de modo irresponsável a meu ver, com o nosso direito de existir, que infelizmente ainda não está garantido, que ninguém se iluda!…Por fim, deixo aqui alguns dados para reflexão…A guerra na Síria já matou 230.000 pessoas, inclusive dezenas de milhares de civis, mas realmente eu não vejo os mesmos que ficam indignados com qualquer coisa que envolve o Estado Judeu também se indignarem com isso, o que constantemente se vê são dois pesos e duas medidas!…

    Um Abraço,
    Marcelo.

    • Fábio

      12/06/2015 at 13:38

      Caro Marcelo, eu discordo de sua interpretação em relação a saída do Líbano. O custo daquela ocupação – não falo nem no político – era terrível. As baixas era enormes e sistemáticas. Pior, legitimadas, uma vez que os ataques eram de natureza da guerrilha (sim, pois quando o Hisbolah atacava um soldado no Líbano se podia considerar guerrilha) contra um exército invasor, diferente dos ataques terroristas do mesmo Hisbolah quando dirigidos a população dentro de Israel.

      Do ponto de vista de defesa, a faixa ali instalada não era larga o suficiente para proteger Israel dos mísseis e foguetes lançados a partir do Líbano de qualquer maneira. Manter-se no sul do Líbano (que nunca foi em tempo algum parte de qualquer Estado judeu) não melhoraria a situação. A efetividade do “exército do sul do Líbano” era mais simbólica do que efetiva.

      Quanto ao restante, os palestinos tem os líderes e o sistema político (?) deles. Novamente, a paz não se faz com amigos.

      Desde que foi criado em 1948 Israel vive risco existencial. Israel existiu entre 1948 e 1967 com um “pescoço” de 14/15 quilômetros. Se os palestinos da Cisjordânia não vão vender a terra e ninguém (de Israel) vai matá-los ou promover expulsão maciça, a solução é conceder-lhes independência ou cidadania.

      Não é a primeira vez que ocorre a tentativa de dominação (sem prazo de saída) naquela região. Entre outros tantos, quando eram os judeus que eram dominados pelos ingleses, os esforços para se verem livres deles foram enormes e não é que obtiveram sucesso? E olha que os ingleses apesar de limitarem a imigração, concediam mais direitos aos residentes (como passaporte, por exemplo) do que são concedidos aos palestinos cisjordanianos nos dias de hoje.

      Não é possível comparar o que ocorre na Síria com a situação em Israel ou no último conflito em Gaza. Os 230 mil não foram mortos por Assad, mas por ambos lados. Ou melhor, pelos múltiplos lados. É uma guerra civil. A responsabilidade é coletiva.

      Com um abraço, Fábio.

  • Marcelo Starec

    12/06/2015 at 17:49

    Caro Fabio,

    Acho que esta discussão está sendo muito útil e muito construtiva, em meu entender, para nós e todos os leitores!…Agradeço ao Bruno e à equipe do Conexão por permitir que ela aconteça nesse espaço!…Acho que o assunto já saiu devidamente da superfície e dos “chavões” e por ora me dou por satisfeito, pois cada um pode ter a sua opinião, mas agora melhor embasada!…Achei muito importante a sua colocação e faço questão de repeti-la com os devidos elogios: “Desde que foi criado em 1948 Israel vive risco existencial. Israel existiu entre 1948 e 1967 com um “pescoço” de 14/15 quilômetros.” Perfeito!…E por fim, apenas para concluir também concordo com a sua colocação sobre as opções existentes (cidadania ou independência)…Estamos em pleno acordo nisso – acho que a grande questão para todos os que querem o bem de Israel e dos árabes não é somente ter a ciência disso, mas encontrar um modo de pôr isso em prática, obviamente de forma responsável e levando à paz e não a uma nova guerra em uma situação mais complicada!…..

    Um abraço e shabat shalom a todos,

    Marcelo.

    • Alex Strum

      12/06/2015 at 21:03

      Concordo com o Marcelo sobre a qualidade deste breve debate.
      Gostaria apenas de acrescentar o seguinte: estamos todos de acordo que o objetivo final é a existência de Israel em paz com os Palestinos e todos os povos da região. A questão, como foi colocado, é como chegar lá.
      As estratégias se diferenciam em probabilidade de sucesso, prazo para atingir o objetivo, custos e riscos envolvidos, entre outros.
      Cada um tem uma percepção sobre estes fatores para cada estratégia. São na verdade palpites, ou melhor apostas, como também foi dito, já que ninguem pode ter certeza que qualquer uma das estratégias propostas terá o sucesso esperado.
      Para quem considera o risco de vítimas isaelenses, principalmente civis, como um fator de muito peso na ponderação geral, creio que a estratégia atual tem méritos já que, pelo menos com base no que eu sei, a sua política de segurança, mesmo não sendo a desejável, reduziu muito as baixas israelenses.
      Creio que boa parte da população israelense considera isto o mais importante.
      Shabat Shalom
      Alex

  • Mario S Nusbaum

    13/06/2015 at 16:42

    ” Entre outros tantos, quando eram os judeus que eram dominados pelos ingleses, os esforços para se verem livres deles foram enormes e não é que obtiveram sucesso? ” Pois é Fabio, mas tenho certeza de que os ingleses tivessem oferecido 97% do território para Israel, seus líderes teriam aceito e o sucesso seria obtido antes e com muito menos custo e esforço.
    É verdade, a paz se faz com inimigos, mas estes precisam querer.

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