Herdeiros de Hillel

*Por Lucca Myara

O Talmud, a obra literária dentro do cânone judaico de maior abrangência, estrutura-se primordialmente em torno de machlokot, controvérsias. Entre os protagonistas das mais apimentadas, encontram-se Abbaye e Rava, Rav e Shmuel e, talvez os mais conhecidos e citados mundo afora, Hillel e Shammai. Essa última sendo preconizada no Pirkei Avot como o exemplo qualitativo de Machloket a ser seguido – machloket le’shem shamaim -, controvérsia em nome dos céus.

Ao aluno desavisado, pode ser frustrante chegar no fim de uma unidade temática do Talmud sem uma conclusão explícita de quem prevaleceu ou objetivamente como a lei deve ser observada. Ao que possui maior intimidade com texto, é justamente nessa característica que se encontra a grandeza da obra. Quando estudo uma nova sugya (caso) no Talmud quase posso escutar os meus professores sussurrando no meu ouvido: “Você só realmente entendeu o texto se souber explicá-lo pelas diferentes vozes que nele se encontram”. Por mais que no Talmud seja possível encontrar princípios gerais para determinar a lei em certas situações, o processo legislativo não constitui o seu interesse principal. Não por acaso, é possível constatar nas diferentes camadas do Talmud o interesse em sustentar diferentes argumentações.

Com isso, não quero dizer que o judaísmo rabínico diante dos desafios que se apresentam a cada geração permanece mudo ou sem um posicionamento claro às grandes questões de seu tempo. Ao contrário, quem já entrou num beit midrash, casa de estudo, conhece a extensão das obras que dedicam-se exclusivamente ao veredito da lei judaica – halacha.  Porém, o primeiro livro que se propôs a codificá-la pertence ao período dos Geonim (do século VIII ao início do século XI da era comum), época em que a edição do Talmud já havia sido encerrada.

O judaísmo rabínico possui como pedra fundamental a controvérsia. Talvez seja essa a sua cláusula Pétria – o compromisso em preservar opiniões ou escolas de pensamento que não prevaleceram ao teste do tempo por reconhecer que elas representam faces da mesma realidade. A escola de Shammai, por exemplo, já havia desaparecido após a destruição do Segundo Templo, período em que o judaísmo rabínico estava começando a se desenvolver enquanto “mainstream” . Ainda que seus representantes mais eloquentes não tenham sido parte do processo de edição do Talmud, a sua voz foi preservada para as gerações vindouras.

No Tratado de Eiruvin está escrito que as escolas de Hillel e Shammai debateram por três anos incansavelmente. Sem consenso no plano terrestre, uma Bat Kol (voz divina) irrompeu os céus e disse: “Ambos refletem as palavras do D’s Vivo, porém a halacha é como a escola de Hillel”.

Opiniões diametralmente opostas podem refletir a mesma essência da verdade, o mesmo apreço e zelo pela lei. Esse é mais que um simples código para organizar a vida social e resolver questões cotidianas, apesar de também servir a isso. A halachá é a lente pela qual os rabinos enxergam o mundo. Por meio dela, abrem-se caminhos para discutir questões relacionadas às limitações e às potencialidades do ser humano e da existência. As palavras do D’s Vivo ecoam no universo em fragmentos, sem direitos de propriedade. A machloket – controvérsia – é o fio pelo qual é possível conectar as partes para recompor o todo.

A machloket não pretende ser uma disputa de poder em torno de determinada questão. Não pretende ser uma disputa de retórica ou mesmo de lógica. Ainda sim, as questões, a retórica e a lógica estão presentes. Os elementos se somam, de modo que ao fim não há respostas, porém há uma visão mais sensível, profunda e com mais nuances da realidade. Se por um lado a Halacha LeMa’asse- a lei na prática- quer prover determinados contornos e emoldurar certos aspectos da realidade, o Talmud quer manter os traços da mesma em paralelo, de modo a se encontrarem no horizonte. Portanto, não há contradição em opiniões diferentes, mas sim caminhos distintos a serem percorridos. Ao final, no entanto, elas convergem, porque, juntas representam a totalidade.

A pergunta inevitável que se segue é:  Se as duas opiniões são igualmente legítimas, por que na prática a lei segue Beit Hillel? Qual é a qualidade de Beit Hillel que faltava a Beit Shammai? O Talmud responde que a escola de Hillel ensinava a sua perspectiva assim como a de Beit Shammai. Mas não só isso, os ensinamentos de Beit Shammai eram recitados por Beit Hillel antes mesmo dos seus próprios. No Talmud Yerushalmi – Talmud escrito na Terra de Israel – está escrito que Beit Hillel constantemente revisava os ensinamentos de Beit Shammai. A palavra usada no hebraico é “chozrim”, que denota um exercício de internalização.

Beit Hillel possui a capacidade de entender a realidade pelas categorias de Beit Shammai. Quando julgamos alguém ou alguma situação, colocamos nossos valores como referencial absoluto do que é razoável e do que é absurdo, do certo e do errado, do bem e do mal. Não por má intenção, mas por falta de um recurso melhor. Afinal é por nossos filtros que apreendemos o que acontece ao nosso entorno. Porém, como sabemos que o nosso filtro está melhor calibrado que o do outro? Somente pelo simples fato de fazer parte do Eu, da nossa consciência existencial?

Beit Hillel parece entender que o melhor teste de qualidade a si é simplesmente estar aberto às palavras da escola que é a sua arquirrival. Buscando a verdade que nela há, Beit Hillel redescobre os seus próprios valores, repensa o seu próprio olhar para o mundo e, não surpreendentemente, muitas vezes passa a ensinar como Beit Shammai. No plano celestial, ambas as escolas refletem a palavra do D’s Vivo. No plano terrestre, Beit Hillel foi meritoso de que a lei fosse determinada como a sua escola, talvez porque nas palavras dele outras vozes também encontrem legitimidade.

 

Lucca Myara é estudante de rabinato no Jewish Theological Seminary of America. E-mail para contato: lumyara@jtsa.edu 

Comentários    ( )

Um comentário para “Herdeiros de Hillel”

  • Marcelo Starec

    01/12/2014 at 23:27

    Interessante o artigo…”O Talmud, a obra literária dentro do cânone judaico de maior abrangência, estrutura-se primordialmente em torno de machlokot, controvérsias.” Entendo que uma característica fundamental do judaísmo sempre foi a intensa discussão sobre todos os assuntos, com um intenso debate entre diferentes entendimentos de algum tema da Torá – e isso fica muito claro em uma visita a qualquer local de estudos do judaísmo, desde tempos muito antigos – antes até da existência das demais religiões monoteístas. Inclusive, pessoalmente acho até engraçado falar que Hegel inventou a dialética, quando os judeus já a usavam a milênios!
    Abraço,
    Marcelo.

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