A paz no Oriente Médio virá de Genebra

22/11/2013 | Conflito.

É praticamente um consenso que o Estado Palestino deve emanar de negociações entre israelenses e palestinos. Quase uma obsessão para o presidente Obama, uma exigência do presidente da Autoridade Palestina Mahamoud Abbas (Abu Mazen), e admitido pelo 1º Ministro Binyamin Netanyahu, poucos são os ultrarradicais que sequer admitem que um dia veremos dois Estados no território que se encontra entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo. O problema é que até agora os dois lados, nas poucas vezes que negociaram, não chegaram a um acordo. Há decisivos pontos de impasse, e nem Israel nem os palestinos estão dispostos a ceder. Foi assim em Camp David em 2000, em Taba em 2001 e em Anápolis em 2008. E segue sendo assim: Netanyahu e Abbas, nos últimos quase cinco anos, sequer passaram da primeira rodada de negociações, pois antes de cumprimentar-se já demonstram discordâncias. Mas um grupo jura ter a solução: seu nome: Iniciativa de Genebra.

 

(Acha que não sabe o suficiente sobre o conflito israelense-palestino para compreender este texto? Clique aqui)

 

Logo-topEm 2002, durante a 2ª Intifada, e após os fracassos das negociações de Camp David II e Taba, delegações não oficiais israelenses e palestinas se encontraram no exterior a fim de discutir qual seria o melhor caminho para que se alcançasse a paz. Representavam Israel o ex-Ministro da Justiça Yossi Beilin, além de outros nomes como o ex-general e político Amran Mitzna (atualmente no HaTnua) e o escritor Amos Oz. Do lado palestino o principal nome é Yasser Abed Rabbo. As conversas fluíam em direção a um entendimento, e aos poucos foram tornando-se um movimento. Entre os dias 9 e 13 de outubro de 2003, através de reuniões marcadas na Suíça, surge um movimento, dono de uma poderosa proposta, chamado “Iniciativa de Genebra”. Apoiada por antigos líderes de grande importância como Jimmy Carter, Mikhail Gorbatchev e Frederick De Klerk, o movimento repercutiu positivamente na comunidade internacional e entre celebridades e acadêmicos (ou parte destes, pelo menos), mas não contou com o apoio dos governos Sharon e Arafat. O contexto da Intifada e da Retirada Unilateral de Gaza não favoreceu as propostas deste grupo, que acabou por finalmente cair no ostracismo durante o governo Netanyahu, assumidamente contrário à proposta.

Yossi Beilin
Yossi Beilin

 

Mas que propostas seriam estas? O leitor pode conferi-las, retiradas do próprio site do movimento, disponível em português, clicando aqui.

Status permanente

O Acordo de Status Permanente (doravante “este Acordo”) encerra uma era de conflito e inaugura uma nova era baseada na paz, cooperação e boa vizinhança entre as Partes.

A implementação deste Acordo conciliará todas as reivindicações das Partes relacionadas a eventos anteriores à sua assinatura. Nenhuma reivindicação relacionada a eventos anteriores a este Acordo poderá futuramente ser levantada por qualquer Parte.

 

O reconhecimento mútuo

O Estado de Israel reconhecerá o Estado da Palestina (doravante “Palestina”) a partir de seu estabelecimento. O Estado da Palestina reconhecerá imediatamente o Estado de Israel.

 

Território

  1. De acordo com as Resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança da ONU, a fronteira entre os Estados da Palestina e de Israel deverá ser baseada nas linhas divisórias de 4 de Junho de 1967, com modificações recíprocas na base de 1 para 1, como apresentado no Mapa 1 (abaixo)
  2. As Partes reconhecem as linhas divisórias, conforme dispostas no Mapa 1, como fronteiras internacionais permanentes, seguras e reconhecidas entre si.

  Mapa Genebra

Assentamentos

O Estado de Israel será responsável pelo reassentamento dos israelenses residentes no território soberano da Palestina para fora deste

 

Segurança

As Partes reconhecem que o entendimento mútuo e a cooperação em assuntos de segurança constituirão  parte significativa de suas relações bilaterais e aumentarão a segurança regional. Palestina e Israel basearão suas relações de segurança na cooperação, na confiança mútua, em relações amistosas entre vizinhos e na proteção de seus interesses comuns. (…)

Israel e Palestina trabalharão com seus vizinhos e com a comunidade internacional para construir um Oriente Médio seguro e estável, livre de armas de destruição em massa, tanto convencionais como não-convencionais, no contexto de uma paz abrangente, duradoura e estável, marcada pela reconciliação, boa vontade e pela renúncia ao  uso da força. (…)

Nenhuma força armada, além do especificado nesse Acordo, será usada ou baseada na Palestina.

Yasser Abed Rabbo
Yasser Abed Rabbo

 

Terrorismo

As Partes rejeitam e condenam o terrorismo e a violência em todas as suas formas e seguirão políticas públicas nesse sentido. Além disso, as Partes se refrearão de ações e políticas que possam nutrir  o extremismo e criar condições propícias para o terrorismo em qualquer dos lados.

 

Jerusalém

As Partes reconhecem os significados cultural, espiritual, religioso e histórico universais  de Jerusalém e sua santidade venerada no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Em reconhecimento a este status, as Partes reafirmam seus compromissos em preservar seu caráter, santidade e liberdade de culto na cidade e em respeitar a divisão existente das funções administrativas e práticas tradicionais entre as diferentes denominações. (…)

As Partes terão suas capitais mutuamente reconhecidas nas áreas de Jerusalém sob suas respectivas soberanias.

 

Refugiados palestinos

As Partes reconhecem que, no contexto de dois Estados independentes, Palestina e Israel, vivendo lado a lado em paz, uma  solução acordada para o problema dos refugiados é necessária para a obtenção de uma justa, ampla e duradoura paz entre si. (…)

Aos refugiados deve ser  assegurada uma compensação pela sua condição  e pela perda de propriedade.(…)

O status de refugiado palestino será extinto após o estabelecimento no Local de Residência Permanente  (PPR) do refugiado individual como determinado pela Comissão Internacional.

(veja mais em www.haeskem.org.il)

TelAvivDemonstration
Iniciativa de Genebra em uma manifestação em Tel-Aviv.

A proposta da Iniciativa de Genebra desagrada à direita israelense, que não admite que seja criado um Estado Palestino com base nas fronteiras de 1967. Movimentos ultra-direitistas acusam a iniciativa de ser pró-Palestina e de extrema esquerda, mas, na realidade, é uma proposta que se afasta bastante do pacifismo de determinados grupos. Eu, particularmente, a considero de forma geral pragmática. Apesar disto, alguns membros de movimentos como o Paz Agora[ref]O ex-líder do Paz Agora e membro do partido Meretz Mossi Raz, sugeriu em entrevista ao conexaoisrael.org a proposta da Iniciativa de Genebra como solução definitiva.[/ref], por exemplo, já admitem que, apesar de não concordarem 100% com a proposta, é ela a mais viável e possível de ser executada. Diversos políticos de partidos como o HaTnua, Kadima, Trabalhista (Avoda) e Meretz apoiam oficialmente a iniciativa. A proposta possui aceitação desde o centro até a esquerda.

 

Por meio do diálogo, israelenses e palestinos elaboraram uma pauta bastante interessante. Pode não ser a mais justa, mas quem conhece a situação sabe que a satisfação completa é impossível de ser atingida neste caso. Alguns podem alegar que o lado palestino não aceitaria a proposta, justificando sua opinião na recusa de Arafat às propostas de Barak em Camp David e Taba. A proposta da Iniciativa de Genebra, no entanto, se baseia fortemente na contra-proposta de Arafat a Barak em Taba (o leitor pode encontrá-la no site do movimento). Isto me dá a sensação de que, atualmente, quem tende a não concordar com ela não é o lado palestino, mas sim o lado israelense. Gostaria que chegasse o dia em que o nosso 1° Ministro propusesse algo nos termos do acordo da Iniciativa de Genebra. Seria no mínimo um bom começo.

 

Iniciativa de Genebra acusando o governo de usar factoides

(Naftali Bennet, líder do partido HaBait HaYehudi, utilizou a mesma linguagem de vídeo para lançar seu programa de anexação parcial da Cisjordânia, prontamente respondido pelo grupo Paz Agora. Relembre aqui)

 

Iniciativa de Genebra mostrando como se chega a paz em dois minutos.

Comentários    ( 15 )

15 Responses to “A paz no Oriente Médio virá de Genebra”

  • Mario S Nusbaum

    22/11/2013 at 19:51

    “grupos como o Paz Agora 1, por exemplo, já admitem que, apesar de não concordarem 100% com a proposta”

    Do que eles discordam João?

    ” Isto me dá a sensação de que, atualmente, quem não tende a n]ao concordar com ela não é o lado palestino, mas sim o lado israelense. ”
    Quando e onde eles concordaram com: “c. A opção (iv) estará sujeita à discrição de Israel e de conformidade com um número que Israel submeterá à Comissão Internacional. Este número representará o total de refugiados palestinos que Israel aceitará”

    Esse é o ponto que sempre impediu um acordo, o surreal e absurdo “direito de retorno” do qual nenhum líder palestino abriu mão até hoje.

    Discute-se como dividir uma pizza, mas os palestinos exigem comer as duas partes depois.

    • João K. Miragaya

      22/11/2013 at 19:59

      Mário Sílvio,

      O Movimento Paz Agora não possui uma proposta para a solução do conflito, sua forma de atuação é o que o caracteriza. A maioria dos seus membros, no entanto, aprova a Iniciativa de Genebra. Já escutei opiniões que se diferem em alguns termos de membros do movimento, o que não quer dizer que não apoiem a Iniciativa de Genebra como um todo.

      Um abraço

    • Mario S Nusbaum

      23/11/2013 at 15:22

      Obrigado João. No dia em que tivermos no lado palestino o mesmo número de pessoas e organizações a favor da paz que temos em Israel e entre os judeus em geral, um acordo sairá em menos de um ano.
      abraços e Shabat Shalom

    • Moisés Storch

      26/11/2015 at 05:37

      Prezado Mário,

      Já houve múltiplas manifestações de líderes palestinos da relativação do chamado “Direito de Retorno”, concordando com alternativas como implementar o “retorno dos refugiados palestinos” dirigindo-o para um futuro Estado Palestino, e/ou a definição de cotas para a absorção por Israel (depedendo da anuência israelenses caso a caso, para a reunião de famílias.

      O próprio Mahmoud Abbas já declarou, publicamente, que apesar de ter nascido em Zfat, só pretende voltar para lá como um turista com passaporte palestino.

  • Fernando

    22/11/2013 at 23:44

    Muito bom! Parabéns!

  • Raul Gottlieb

    24/11/2013 at 20:57

    Caro João,

    A meu ver a paz virá de Ramala e de Gaza e não de Genebra. Não importa quantos Palestinos de boa fé se renuam e acertem esquemas com israelenses, eles só terão sucesso quando a sociedade Palestina e Árabe abandonar a vitimologia, parar de receber ajuda internacional e mudar a sua mentalidade racista.

    Enquanto isto não há o que fazer. Só podemos achar meios de nos defender. Genebra é bonito, mas é só isto.

    Abraço, Raul

    • Mario S Nusbaum

      25/11/2013 at 15:36

      “eles só terão sucesso quando a sociedade Palestina e Árabe abandonar a vitimologia, parar de receber ajuda internacional e mudar a sua mentalidade racista.”
      Acrescento que a chance de ísso partir de suas lideranças é quase zero. Cabe aos palestinos acordarem e perceberem o que conseguiram até hoje com essas atitudes.

    • Moisés Storch

      26/11/2015 at 05:44

      Prezado Raul,

      A vitimologia não é exclusividade de palestinos.

      É inquestionável a manipulação do discurso do medo existencial feito pelos políticos da direita israelense.

      Netanyahu chegou a indicar um líder palestino como o estimulador da política nazista de extermínio dos judeus. Falou, escreveu e reiterou.

      O Acordo de Genebra é prova de que existe com quem conversar do outro lado.

  • Daniel Herszenhaut

    27/11/2013 at 05:15

    O site deles não seria http://www.geneva-accord.org/ ? Lá eles tem vários mapas detalhados das áreas mais “complexas”. Entrei agora no site e parece que haverá um evento comemorativo dos 10 anos da iniciativa no dia 04/12 em Tel Aviv.

  • Edu

    28/03/2014 at 19:26

    Desde de 2006 tenho lido sobre o conflito entre “Palestina” e Israel (na verdade Islã vs Israel). Minha conclusão é que não há possibilidade de paz por causa da cosmovisão dos mulçumanos. E o fim do Estado de Israel chegará se houver acordo de Paz com os “palestinos”.

  • Edu

    28/03/2014 at 19:34

    Na cosmovisão islâmica só há paz se vc é muçulmano. Na verdade é uma cosmovisão que sobre qualquer pretexto a morte e perseguição é teologicamente justificada inclusive entre si.

    E muito me assusta israelenses e judeus de outras nações acreditar em paz com o Islã.

  • Moisés Storch

    26/11/2015 at 05:29

    Prezado João,

    Parabéns pelo artigo, que se soma a uma série de trabalhos que trazem uma contribuição oportuna e necessária para a compreensão do conflito no Oriente Médio

    Devo, porém, fazer um reparo, e pediria que se fizesse a devida correção na divulgação do seu artigo.

    O movimento israelense SHALOM ACHSHAV participou ativamente, através de diversos e conhecidos membros, não só da divulgação da Iniciativa de Genebra, como das próprias negociações com parceiros pragmáticos palestinos.

    Citando só alguns de seus membros que participaram das conversações diretas e que se manifestaram desde a primeira hora por sua implementação,relacionamos ativistas com a representatividade dos premiados escritores A.B. Yehoshua, Amós Oz e David Grossman, Contou também com Shaul Arieli (que focalizou especificamente a questão de Jerusalém) e Avraham Burg (ex-presidente do Knesset), entre muitos líderes e formadores de opinião em Israel.

    O SHALOM ACHSHAV, como movimento supra-partidário, sempre se associou, integralmente, à Iniciativa de Genebra, desde sua gestação até hoje.

    Os Amigos Brasileiros do PAZ AGORA (www.pazagora.org), elaboraram e publicaram a versão em português do Acordo – exatamente a que você, meritoriamente está aqui divulgando – poucos dias após ela ter sido lançada, publicamente em Genebra.

    Isto foi feito também por nossos parceiros na Argentina e França.

    A Iniciativa, embora totalmente ignorada oficialmente desde o governo de Sharon, teve e tem o apoio de políticos hoje na oposição, como os ex-ministros de Israel, Amram Mitzna e Iossi Belin.

    Internacionalmente, recebeu o aval explícito de representantes do governo norte-americano e da União Européia.

    Do lado palestino, teve o apoio não oficial de Mahmoud Abbas e foi subscrito e continua com apoio de personalidades do porte de Saeb Erekat, até hoje responsável pelas negociações da OLP com Israel e Yasser Abed Rabo, um dos principais líderes palestinos.

    A Iniciativa é, ainda hoje, uma referência para qualquer negociação que leve a uma solução pacífica do conflito no princípio de 2 Estados para 2 Povos.

    Mais do que isto, o avanço do reconhecimento mútuo entre as partes gerou a consolidação de núcleos – um israelense e um palestino – que persistem nos esforços para chegar à paz justa e duradoura que israelenses e palestinos merecem.

    Existem soluções aceitáveis para ambas as partes, para cada aspecto crucial do conflito.

    Só faltam estadistas autênticos que se disponham a conversar e coloquem essas idéias na mesa de negociações.

    Obrigado e parabéns pelo seu trabalho.

    Um abraço, com esperança.

    Moisés Storch – coordenador

    Amigos Brasileiros do PAZ AGORA

    • João K. Miragaya

      27/11/2015 at 15:25

      Ola Moises. Obrigado pelo elogio. Só não entendi qual reparação você quer que eu faça.

Você é humano? *