A Quem Interessou o Ataque Químico na Síria?

20/09/2013 | Política

por Marcos Gorinstein

Os últimos anos têm sido bem movimentados no Oriente Médio e muitos países vêm sofrendo mudanças importantes, na medida em que suas populações saíram às ruas, teoricamente, em busca de mais liberdade e direitos.

Não faltaram avaliações de que se tratavam de movimentos revolucionários, mas em função da complexidade da constituição da população de tais países, nada poderia ser previsto.

Um dos primeiros países, e o mais expressivo sem dúvida, a embarcar nas manifestações de massa foi o Egito e um dos últimos, a Síria.

No Egito, depois de décadas de ditadura de Mubarak, o povo ocupou a principal praça da capital por meses, o governo foi deposto, o ditador preso e eleições foram marcadas. Naquele momento a violência foi pouca, o exército não poderia ir contra a população que exigia tais mudanças.

Na Síria a situação foi um pouco diferente. O ditador não poupou esforços para reprimir as manifestações, violência foi usada e uma guerra civil desencadeou-se. Mais de dois anos de guerra, um país dividido em bolsões controlados por grupos diversos, estimativa de cem mil mortos e mais de um milhão de refugiados.

Contudo, há dois meses uma nova reviravolta ocorreu na região. Depois de eleições limpas, no Egito o grupo islâmico Irmandade Mulçumana recebeu a maioria dos votos, elegendo o presidente e obtendo a maioria no parlamento. Porém muito tempo antes do fim do seu mandato, Morsi sofre um golpe militar e é derrubado da presidência. Não cabem aqui avaliações sobre a direção política do governo egípcio, mas quem defende a democracia não pode defender golpes militares quando o governo não o representa. A maioria da população egípcia via em Morsi e na Irmandade Mulçumana a melhor opção para governar o país depois de décadas de ditadura de Mubarak.

Com o golpe militar, apoiadores do Morsi vão para as ruas e manifestações voltam a ocupar a Praça Tahrir. O exército age deixando centenas de mortos pelo país. O exército e simpatizantes do governo deposto começam a travar batalhas por todo país, uma guerra civil se aproxima.

O mundo se choca com o que acontece naquele país que tinha dado poucos anos antes uma demonstração de que a mobilização popular pacífica poderia levar, se não a transformações, pelo menos a mudanças pontuais.

Passam algumas semanas do golpe que derrubou Morsi do governo há um suposto ataque de gás químico perto de Damasco, capital Síria, reduto controlado pelo governo. Imediatamente os “rebeldes” culpam o governo e novamente as imagens de milhares de mortos choca o mundo. Crianças e mulheres mortas voltam às páginas de jornais e sites na internet.

Depois de anos de guerra civil com mais de 100 mil mortos, havia chegada a hora de uma intervenção externa. O governo sírio era acusado de usar armas de destruição em massa e precisava ser deposto.

Engraçado, se é que podemos dizer que há algo de engraçado nisso, é que o ocidente “civilizado” não quer buscar soluções para a guerra civil que assola o país. Mas quando morrem mil e quatrocentas pessoas de uma vez, aí a situação muda de figura. São 30 meses de guerra civil e uma estimativa de 100 mil mortos, ou seja, em uma matemática rápida, são 110 mortos por dia. Não havia o interesse de ninguém em parar com o massacre de ambos os lados.

Mas e o Egito? Estão vendo? Foi só eu começar a escrever sobre o massacre e a guerra civil na Síria que paramos de pensar no que vinha acontecendo no Egito. Será que não era esse o objetivo maior? Cobrir o apoio incondicional do ocidente democrático ao golpe militar contra o governo Morsi? Cobrir a atuação do exército egípcio na repressão contra os apoiadores da Irmandade Mulçumana? Golpes militares em defesa da democracia sempre estiveram na agenda de apoios dos EUA. Se antes era contra governos “comunistas”, hoje é contra governos “fundamentalistas”.

Na balança com vários pesos e medidas a regra é clara. Golpes militares são bem recebidos se em favor da política mundial hegemônica.

Mais de duas semanas depois do suposto ataque químico (que ninguém ainda conseguiu apontar com clareza quem efetuou) a guerra que os EUA gostariam de começar contra a Síria ainda não aconteceu. Se eles tinham tanta certeza de que Assad cometeu o ataque, por que ainda não começaram a guerra? O Conselho de Segurança da ONU diz que não apoia, a Inglaterra diz que não apoia, a França depende do que o governo Americano decidir e esse último empurrou a decisão para o Congresso.

Derrubar o governo de Assad não é do interesse do Ocidente. Ninguém sabe o que viria depois. O Iraque está em chamas, no Afeganistão o Talibã se reorganiza, no Irã há um governo novo, no Líbano todos olham para o que vai acontecer na Síria, na Turquia o governo vem sofrendo pressões.

Para Israel, apesar das teorias da conspiração sionista, não é interessante derrubar o governo Assad. A fronteira entre os dois países, apesar da complicada questão sobre as colinas do Golan, é a mais calma desde 1974. Não houve nenhum incidente entre os dois países nas últimas quase quatro décadas.

E o Egito? Ah, o Egito…

Marcos Gorinstein, carioca, 34 anos, sociólogo, é mestrando no Departamento de Estudos Românicos e Latino Americanos na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Leia também: Intervenções estrangeiras na guerra síria, por Claudio Daylac.

Imagem de capa: http://media.npr.org/assets/img/2013/04/23/ap16455199266_wide-906a1bc750880525d0b2e83bbb35c08dc9528139.jpg

Comentários    ( 11 )

11 Responses to “A Quem Interessou o Ataque Químico na Síria?”

  • Mario Silvio

    20/09/2013 at 17:53

    “quem defende a democracia não pode defender golpes militares quando o governo não o representa. ”
    Depende, depende, depende. Ser eleito, em democracias, NÃO significa ter carta branca para fazer o que quiser.

  • Mario Silvio

    20/09/2013 at 17:55

    “quem defende a democracia não pode defender golpes militares quando o governo não o representa. ”
    Depende, depende, depende. Ser eleito, em democracias, NÃO significa ter carta branca para fazer o que quiser.
    Se fosse assim, o “nosso” Congresso certamente decretaria que seus mandatos são vitalícios.

  • Raul Gottlieb

    22/09/2013 at 01:12

    Caro Marcos,

    Os golpistas do Egito alegam que a Irmandade Muçulmana estava usando o poder a ela concedido nas eleições para instalar um regime antidemocrático.

    A pergunta pertinente neste caso é: caso eles tenham razão em suas alegações, é legítimo fazer o que eles fizeram? Será que eles deveriam assistir inermes a marcha célere do país para a ditadura?

    O que você pensa sobre isto?

    E para quem gosta de teorias conspiratórias eu recomendo um vídeo sensacional que explica tudo o que aconteceu no mundo desde meados do século passado:

    http://www.memri.org/clip/en/0/0/0/0/0/0/3984.htm

    Não deixem de ver – é imperdível!

    Chag Sameach, Raul

    • Marcos Gorinstein

      26/09/2013 at 19:06

      Oi Raul, desculpe a demora pra responder e obrigado por me chamar pro debate!!!! Vou começar respondedo sobre a teoria da conspiração. Penso que quando discutimos política internacional temos que levar em conta elementos internos e externos.
      Não acho que o sistema político e econômico atuais deixem espaço para disputas que buscam somente o equilíbrio das forças internas, podendo levar a um fortalecimento da democracia. Há, sim, uma pressão externa que, em sua grande maioria, se apoia em interesses econômicos. Assim, esses interesses externos não se preocupam com o equilíbrio interno. Na minha opinião, a França e a Itália, ao derrubarem o Kadafi, não tinham como interesse a implementação de uma democracia na Líbia. O Claudio Daylac colocou elementos bem interessantes sobre a Líbia em seu texto sobre a Síria, mas acho que o apoio e reconhecimento (além dos bombardeios) aos movimentos rebeldes líbios por parte desses países europeus e dos EUA não visavam a construção de uma Líbia democrática. Visavam interesses econômicos e, é claro, o petróleo. A Líbia, sumiu do cenário político após a derrubada de Kadafi. Será que quando os EUA financiaram Bin Laden contra a invasão soviética eles buscavam a construção de um Afeganistão democrático? É claro que a conjuntura era outra e a Guerra Fria era o parâmetro, mas a mesma pergunta pode ser feita em relação ao apoio Americano ao governo de Sadam durante a guerra com o Irã.
      Não acho que ninguém deva ficar inerte a qualquer ato político. Temos que sempre tomar partido. Temos sempre que atuar, mas temos que tomar cuidado com métodos e meios para que não acabemos nos transformando no que queremos combater! Grande abraço.

  • Marcelo Treistman

    22/09/2013 at 09:01

    Marcos,

    1 – Eu entendo que o exército em um Estado Democrático representa o braço armado da democracia. É sua obrigação defender os valores democráticos “a força”, caso reste necessário;

    Mursi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito democraticamente. Perfeito! Note, no entanto, que uma “eleição” livre é condição necessária para que um regime seja democrático, mas não é condição suficiente, como evidencia – por exemplo – o Irã (que é uma ditadura teocrática).

    Com pouco tempo de governo, Mursi não demorou a destituir a cúpula da Força Armada e a promover uma grande troca de oficiais do comando por outros simpáticos à Irmandade. Não demorou muito para tentar implementar um “poder moderador”, com juízes catedráticos nomeados pelo governo, para levar o país ao objetivo claro, deliberado, explícito, de ser conduzido segundo as regras da shaaria.

    Não existe democracia sem valores democráticos. A Irmandade muculmana, objetiva um mundo governado segundo as leis islâmicas. São valores distintos.

    Nas democracias, as religiões podem e devem se manifestar, podem e devem ser ouvidas, mas não são o poder. O papa só é autoridade também civil no Vaticano, um Estado sem povo… Em Israel a lei religiosa está abaixo do governo, convive de forma “harmônica” com uma legislação laica e uma suprema corte que obedece a LEI civil, não religiosa… Não era isso que se pretendia no Egito…

    Um regime que não permite a livre expressão e circulação de ideias, que reprime minorias étnicas ou religiosas, que invade a individualidade para impor valores de uma crença, que não se propõe a um tratamento equânime entre os sexos…. Esse regime, democracia não é!!! Desta forma, me incomoda bastante ler no artigo algo como

    “mas quem defende a democracia não pode defender golpes militares quando o governo não o representa.”

    Ora… Eu defendo a democracia e defendo golpes militares se o governo estiver descumprindo a constituição democrática. Se, por acaso, a Dilma resolver, sei lá, acabar com uma das clausulas pétreas da constituição, AINDA QUE apoiada em uma maioria, AINDA QUE tenha ganho a eleição, gostaria de ver os militares agindo para proteger a constituição que juraram proteger…

    Então, você me pergunta: – “o que o que aconteceu no Egito não foi um golpe???” Eu respondo: É claro que foi! O meu ponto é que não não foi um golpe “contra a democracia” porque “democracia” o Egito NÃO ERA e não desejava Ser…

    Se grande parte da população no Egito foi a praça derrubar uma ditadura laica de Mubarak, ela voltou a praça para derrubar o governo que pretendia fazer do país uma Teocracia Religiosa. E contou com o apoio do Exército.

    2 – Não gosto de “teorias de conspiração”. O Símbolo marcante destas “teorias” é a completa falta de evidências, não a abundância destas… Acho muito forçado, dizer/escrever que a decisão do ataque a Siria “poderia” estar sendo realizado para tirar o foco do golpe militar no Egito. Você apóia esta afirmação na seguinte “evidência: “Golpes militares em defesa da democracia sempre estiveram na agenda de apoios dos EUA. Se antes era contra governos “comunistas”, hoje é contra governos “fundamentalistas”

    Porra Marcos… AINDA QUE os EUA estejam apoiando o golpe (que, diga-se de passagem eu também apoio) existe a comprovação de que a Siria utilizou armas químicas em sua população. Existe uma linha vermelha (armas quimicas) que foi ultrapassada. Creio tratar-se de uma decisão moral. Desejo fortemente que os EUA utilzie toda a sua força militar e econômica para acabar com o Governo Assad. Eu, particularmente não acredito que esta decisão tenha como fundamento o “desvio de foco” da derrubada de Mursi.

    Você diz que derrubar o governo Assad não é de interesse do Ocidente: “ O Iraque está em chamas, no Afeganistão o Talibã se reorganiza, no Irã há um governo novo”…

    Vejo o seu pensamento da seguinte forma: para evitar que o terrorismo e o fundamentalismo se fortaleçam, o mundo deveria… bem… suportar o terrorismo…? Suportar o uso de armas químicas???

    Bem Marquito… Este não é o mundo que eu desejo para as futuras gerações.

    Um grande abraço

    Marcelão

    • Marcos Gorinstein

      26/09/2013 at 18:16

      Olá Mario, só tenho uma ponderação a fazer que é a normalização de golpes militares. É fato que eu não quero viver em um país onde a política seja comandada por grupos similares à Irmandade Mulçumana (e aqui em Israel isso é uma disputa cotidiana também!). A questão é que o golpe não foi um golpe popular nos marcos que tiraram o Mubarak do poder. Acho que movimentos populares e de massa têm todo o direito e poder para derrubar presidentes e transformar sistemas políticos. Mubarak também era ditador (claro que se compararmos Mubarak a Mursi, nos depararemos com diferenças abissais) e nem por isso foi derrubado. Teve o apoio dos por decadas. A saída de Mubarak só se deu em função da mobilização popular e de massas, não por um golpe militar.
      Então uma outra questão que podemos levantar e averiguar é: ele foi derrubado por querer “islamizar” o país ou foi por ferir interesses maiores de quem ainda controla o poder?

    • João K. Miragaya

      28/09/2013 at 17:22

      Olá Marcos!

      Gostei do seu texto, mas julgo ainda mais interessantes suas respostas aos comentários. Compartilho do seu ponto de vista, no que se refere ao Egito, principalmente: é evidente que eu não gostaria de viver num país comandado pela Irmandade Muçulmana e seus excessos, mas isto não dá aos militares o direito de passar por cima da decisão popular.

      A insatisfação do povo seria demonstrada nas eleições seguintes, como foram no Chile no plebiscito no fim do governo Pinochet. A grande questão é que os militares egípcios compartilham a visão de parte da elite conservadora latino-americana de que o povo é culturalmente incapaz de perceber determinados pontos, e, por isso, deve-se tomar decisões sem consultá-los. Isto gera na população uma sensação de repulsa ainda maior contra tais “democratas”, que sem pudor utilizam dos meios mais antidemocráticos possíveis para instaurar regimes que lhes favorecem muito mais do que ao povo em si.

      Um abraço

  • Mario Silvio

    22/09/2013 at 19:03

    “quem defende a democracia não pode defender golpes militares quando o governo não o representa.”
    Discordo, ser eleito não significa carta branca. Como é de praxe: Hitler foi eleito.

  • Raul Gottlieb

    23/09/2013 at 11:06

    Caro Mario,

    O defeito na frase do Marco é que o golpe foi perpetrado não por que o governo não representava os “golpistas” mas por que o governo estava aplicando um golpe e estado na democracia.

    Algo semelhante ao que aconteceu aqui no mensalão onde o executivo petista aplicou um golpe de estado na democracia ao comprar com dinheiro o poder legislativo.

    Desgraçadamente para nós, a discussão sobre o mensalão está centrada nos aspectos técnicos do golpe de estado e não no fato em si. Discute-se de onde veio o dinheiro e se houve corrupção. Quando o importante é identificar que houve uma tentativa (bem sucedida) de golpe de estado e neutraliza-la.

    Ou seja, nós discutimos sobre a plasticidade e a técnica do crime, mas não sobre o crime em si.

    Na aparência o Egito de Morsi e o Brasil petista são democracias. Mas a realidade é bem outra.

    O que fazer nestes casos? Adoraria ver o Marcos responder esta minha angústia.

    Chag Sameach!
    Raul

  • Raul Gottlieb

    27/09/2013 at 13:20

    Marcos,

    O movimento contra o Mursi no Egito teve amplo apoio popular. Mais de 10 milhões de pessoas foram às ruas e os militares aproveitaram a oportunidade para salvar o Egito do controle teocrático e totalitário.

    Se eles vão conseguir a partir daí a primeira experiência democrática árabe da história é algo ainda a ser visto. Eu não acredito que consigam, mas torço para tal.

    Também não houve intervenção estrangeira alguma no que aconteceu no Egito. Todo o processo, desde o início, foi causado pelas forças políticas locais.

    Claro que forças externas influenciam as decisões internas. Mas as decisões em todos os casos que você citou foram internas. Foi o Iraque que resolveu atacar o Irã, foram tribos concorrentes que resolveram tentar derrubar o Kadafi, foram os militares brasileiros que resolveram derrubar um governo que percebiam estar tendendo para o comunismo e assim por diante.

    Em todos estes casos as forças externas foram cooptadas por forças internas. São meros partícipes, não são autores.

    Não nego que tenham existido (ou que venham a existir) situações em que as forças externas desestabilizem um país. Mas não consigo enxergar que isto tenha acontecido nos últimos muitos anos.

    Então eu acho muita graça nas teorias da conspiração que se constroem sem nenhuma prova concreta, baseando-se apenas no fato de que o acontecido beneficiou a um ou mais de um agente.

    Seria o caso de dizer que a fome foi inventada pelo padeiro e que foi o gandula que obrigou o Elias a perder aquele gol, num dos memoráveis momentos do futebol do domingo passado (se os jogadores não chutassem a bola para fora do campo os gandulas perderiam a função).

    Dei uns exemplos caricatos para deixar claro que não quero discutir casos e sim o fato em si. Teorias conspiratórias (como disse o Marcelo) se baseiam em identificar os beneficiários e a partir daí atribuir a eles responsabilidades sem a menor preocupação de recolher provas.

    É um exercício muito divertido! Veja mais esta: http://www.memri.org/clip/en/0/0/0/0/0/0/3989.htm

    Mas nada além de divertido.Não podem ser levadas a sério.

    Abraço,
    Raul