No Intervalo do Jogo

22/06/2014 | Conflito; Cultura e Esporte

O jogo está nervoso, os nervos estão à flor da pele. Intervalo de jogo. No intervalo vem as propagandas, os gols dos últimos jogos, o perfil de um jogador importante, os melhores momentos e alguns comentários sobre as equipes. Não nessa Copa, pelo menos não em Israel. Por aqui, intervalo tem transmitido plantão de notícias, em tom de preocupação.

A Copa do Mundo por aqui tem sido uma maneira de se divertir em meio à situação atual de instabilidade. Os três jovens israelenses Gilad, Naftali e Eyal foram sequestrados, dezenas de palestinos presos. Nada de sinais de vida, os mísseis começam a cair, e ao final estamos em meio a mais um episódio negativo na nossa relação com os vizinhos palestinos.

Entendo que o povo israelense é movido pelo medo. Entendo também que não existe um lado certo, e que os palestinos têm seu direito à soberania. Entendo que a colonização crescente não faz mais sentido, e que o valor do ser humano é maior que o da terra, dentro e fora das religiões. Entendo que há uma solução plausível para o conflito, dois países para dois povos. Simples assim? Talvez se todos entendessem de forma similar. Não é o caso.

O medo do israelense move seu pensamento à direita. Ainda assim, consigo entender que a tomada de decisões aqui no nosso quintal é muito mais complexa que apenas a nossa relação com os palestinos. Estamos em uma região em que não há democracia, fora a israelense. Veja o que se passou no Líbano, o que está acontecendo na Síria, o silêncio imposto à oposição na Jordânia, e o que passaram nossos vizinhos do Egito. Alguma semelhança com os palestinos? Países instáveis, sem liderança, intolerantes, conhecidamente corruptos. Os israelenses não se sentem seguros de assinar nenhum documento com os palestinos na situação atual. Afinal, como garantir que eles cumpririam?

Eu não estaria disposto a arriscar minha liberdade e tranquilidade por um acordo com um povo vizinho, sem provas mais reais de que essa é sua vontade também. Afinal, o que você valoriza mais que a sua própria liberdade? Não vejo no horizonte qualquer paz que possa trazer tranquilidade para Israel, não em meio a tanta bagunça. Não conheço um líder palestino que possa (ou queira) oferecer tranquilidade por aqui.

Não quero aqui afirmar que não sei pelo que passam os palestinos. O povo palestino vive uma história sofrida, de pobreza, marginalização e ocupação. Ela deve acabar com uma solução que traga a esse povo as possibilidades de desenvolver seu país, suas escolas, seus hospitais, sua indústria, sua infraestrutura. Por outro lado, existe um lado obscuro na relação dos grupos armados e políticos dentro da realidade palestina, e infelizmente muitas vezes as armas não são fiéis aos políticos (a eliminação do Fatah em Gaza, por exemplo). O certo seria eleger um grupo político, que tenha armas à disposição para defender os interesses de seu povo, não em detrimento de outro povo. Entre palestinos e em muitos países árabes, são os grupos armados os que definem o futuro do povo e da política. Por lá, política é coisa de quem já tem exército. A junção das elites insatisfeitas e sedentas por poder, a intolerância religiosa, e a pobreza são a bomba do Oriente Médio.

O jogo vai recomeçar. O ciclo do Oriente Médio rodando paralelamente ao ciclo do futebol. Na esperança de intervalos mais tranquilos e de ver a volta de nossos meninos.

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