Intervenções estrangeiras na guerra síria

20/09/2013 | Política

Não vou me alongar explicando a Guerra Civil Síria – não faltam artigos ou infográficos por aí. Em resumo, a minoria alauíta que governa o país através do partido Ba’ath há décadas, com seus aliados xiitas e cristãos, vêm lutando uma sangrenta disputa pelo poder contra a maioria sunita. Aproveitando-se desta instabilidade, abriu-se uma segunda frente de batalha no nordeste, onde vivem os curdos – a maior nação sem Estado do planeta – dispostos a enfrentar ambos os lados na tentativa de conquistar, ao menos, uma autonomia regional.

Enquanto o mundo ocidental assistia perplexo o conflito, tentando entende-lo no âmbito da política interna síria – até então desconhecida da maioria – e também em meio à Primavera Árabe, o número de vítimas foi crescendo na base das centenas por semana, até ultrapassarmos a assustadora marca dos cem mil mortos durante o verão. A reação ocidental ao conflito sírio seguiu o “padrão” que vinha sendo aplicado ao fenômeno regional como um todo e oscilou entre a animação idealista inicial (que tomou a todos, assim como ocorreu na Tunísia e no Egito) e a preocupação com a escalada da violência, que culminou na “linha vermelha” traçada pelo governo americano em agosto de 2012: intervenção em caso de uso de armas químicas ou biológicas.

Se comparamos à reação ocidental – não apenas americana, mas principalmente italiana e francesa – à primavera líbia, concluiremos que as regras não são as mesmas para cada regime. Bastou os primeiros refugiados líbios aproximarem-se das praias europeias que logo organizou-se uma coalizão internacional para sobrevoar o país e bombardear as bases militares e tropas do regime, facilitando o trabalho dos rebeldes que – antes mesmo de derrubarem Muammar Gaddafi – já eram reconhecidos internacionalmente como o governo líbio de jure.

Mas ninguém jamais afirmou que as regras são as mesmas para todos os casos. A política internacional é um imenso emaranhado de casuísmos. Se o ditador líbio era a perfeita personificação da palavra pária, o “presidente” sírio é muito bem relacionado. Seu regime desocupou militarmente o Líbano apenas em 2005 e continua exercendo influência política a ponto de cada novo governo libanês ainda ter que ir a Damasco beijar sua mão. Esse braço alongado lhe permite conectar os aiatolás iranianos à Hizbalá libanesa e o coloca em posição de destaque para receber uma atenção especial russa, em sua tentativa de manter-se relevante na região e no mundo pós-Guerra Fria.

A realidade interna também influencia bastante a tomada de decisões de política externa de cada país – de maneira diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento da democracia local. Milhões de sírios lotando os campos de refugiados jordanianos, libaneses, iraquianos e turcos, entretanto, não exercem nem um milésimo da pressão política que a assustadora imagem de algumas centenas de líbios desembarcando nas praias europeias é capaz de exercer.

Por fim, chegamos ao fatídico 21 de agosto e ao caso do ataque químico a civis em área controlada pelo rebeldes. Não fica claro porque Bashar al-Assad resolveu autorizá-lo. Sequer sabemos se realmente o autorizou. Uma hipótese, inclusive, afirma que ataques químicos pontuais têm sido corriqueiros nos últimos dois anos e meio, e que as tropas do regime simplesmente “erraram a mão” desta vez, perdendo o controle e tornando a situação impossível de esconder dos olhos internacionais.

Estando a “linha vermelha” oficialmente cruzada, não restava ao presidente americano nenhuma opção, senão cumprir sua palavra e ordenar o ataque. Mas as decisões de política externa americana, como as francesas e italianas, também são influenciadas pela opinião pública interna e Barack Obama foi eleito justamente para tirar as tropas americanas do lamaçal em que se encontram exatamente nos vizinhos Iraque e Afeganistão. Obama optou, então, por anunciar que buscará autorização do Congresso para atacar.

Me limito a debater o caso sírio de maneira isolada, uma vez que o colunista convidado Marcos Gorinsten já apresenta uma análise que o coloca em meio à Primavera Árabe como um todo. Mas não me faltam ângulos interessantes e me focarei na tradição de influência estrangeira na região.

O Estado sírio é artificial. À exceção do Egito, aliás, nenhum país árabe no Oriente Médio corresponde sequer minimamente ao conceito europeu de Estado-nação. Olha-se o mapa e logo identifica-se as linhas retas cortando o deserto de acordo com os interesses franceses e britânicos ao final da I Guerra Mundial. Se, aos olhos multiculturais e seculares do ocidente, um população étnica e religiosamente heterogênea pode parecer enriquecedora para o país, seria arrogante imaginar que esta condição se aplique a qualquer país.

As fronteiras criadas pelo Acordo Sykes-Picot juntaram os grupos étnicos e religiosos listados no primeiro parágrafo – sunitas, xiitas, alauítas, curdos, drusos, cristãos e (à época) até judeus – no território sírio[ref]Veja aqui um mapa de sua distribuição territorial: http://orientalissimo.blogfolha.uol.com.br/2013/08/25/o-isla-mistico-e-a-guerra-na-siria/ [/ref] que, posteriormente – e já sob influência soviética – passou a ser governado com mão-de-ferro pelo partido Ba’ath liderado por Hafez al-Assad, de quem seu filho Bashar herdou a “presidência”. Um time de ditadores apoiados pelas super-potências durante a Guerra Fria mantinha a estabilidade nos diversos países da região, uma vez que o interesse pelas reservas petrolíferas jamais daria espaço para que líderes “rebeldes” ao sistema internacional tomassem o poder.

Olhando por esse ângulo, segundo o qual as potências sempre buscam a estabilidade nos sistemas internacional e regional de relações, entende-se, por exemplo, porque 110 mil mortos não alteram os ânimos internacionais: a experiência egípcia nos ensina que o ditador com o qual já estamos familiarizados e a quem consideramos domesticado é sempre mais estável que os rebeldes desconhecidos e imprevisíveis. Com uma sociedade civil incipiente, os países árabes só dispõem de duas instituições plenamente organizadas e prontas para governar: as forças armadas e o Islã. E não há dúvidas de – podendo escolher – qual opção é a preferida das potências. Quaisquer potências.

O conflito atual apresenta mais um leva de influência externas na política síria. Por um lado, vemos as notórias ajudas financeiras e militares da Rússia e do Irã ao regime de Assad, sempre no esforço de aumentarem sua força e seu poder na região e conferirem mais relevância às suas lideranças e às suas demandas na arena internacional. Há também um grande contingente enviado pela Hizbalá libanesa a mando do Irã lutando lado-a-lado com as tropas do governo. Junto aos opositores já existem algumas facções da Al-Qaeda iraquiana – ainda que sob diversos nomes – tentando capturar a Síria para o islamismo sunita. Fontes relatam até mesmo que os Estados Unidos autorizaram a transferência de arsenal de fabricação americana em poder da Arábia Saudita para as mãos dos rebeldes.

Percebe-se facilmente que há dois jogos sendo jogados em paralelo na Síria: o sistema internacional e o sistema regional. A Rússia tem seus aliados no Oriente Médio e precisa mantê-los para sustentar sua influência na região, e o mesmo vale para os Estados Unidos. O governo Putin, já há muito tempo, visa recolocar o país como potência alternativa na arena internacional enquanto que os Estados Unidos lutam para manter sua posição de única super-potência pós-Guerra Fria diante de um mundo tendendo à multipolaridade.

Na arena regional, há a milenar disputa entre sunitas e xiitas e as divisões étnicas. No âmbito dos estados, o Irã, persa e xiita, tenta ocupar a liderança que parece ter sido deixada vaga recentemente pelo Egito, árabe e sunita. Em paralelo, as monarquias saudita e qatari – discretamente como que para não atrair a Primavera Árabe, que se foca principalmente nas ditaduras “republicanas” – também almejam ocupar esse vácuo e financiam uma ampla gama de grupos rebeldes sunitas.

Por fim, pode-se analisar a posição israelense quanto ao conflito sírio. De início, ao manter as tropas sírias e a Hizbalá ocupadas combatendo os rebeldes, a guerra civil trouxera certa tranquilidade à fronteira norte do país. Conforme o conflito se expandiu e a violência se aproximou do Golã, Israel entrou em estado de alerta, deslocou para as cidades do norte as baterias do Domo de Ferro que normalmente protegem a população do sul e passou inclusive a oferecer abrigo e cuidados médico às vítimas que se aproximavam de seu território. No momento em que as ameaças americanas de intervenção tornaram-se oficiais, Assad seguiu o covarde exemplo de seu colega Saddam Hussein e ameaçou retaliar qualquer bombardeio ocidental através de ataques a Israel.

A população israelense, alheia às razões que movem a política internacional, cuidou de suas necessidade mais básicas: correu aos postos dos correios que gratuitamente distribuem máscaras contra ataques atômicos, biológicos e químicos. Ainda que os sinais de que uma possível guerra se aproximava fossem baixíssimos, se Assad estava atacando seu próprio povo com armas de destruição em massa, nós – seus inimigos declarados e recentemente ameaçados – não teríamos porque esperar que nos dispense tratamento mais brando.

Era de se esperar que o governo israelense, em vista da possibilidade de que uma nova Síria emergisse sob influência da imprevisível Al-Qaida, além da anteriormente citada busca das potências pela manutenção do equilíbrios dos sistemas internacional e regional, estivesse secretamente torcendo pela manutenção de Assad no poder. Benjamin Netanyahu, entretanto, rapidamente lembrou-se de seu principal argumento de campanha: a ameaça iraniana. E novamente partiu em uma cruzada na tentativa de influenciar a política interna americana[ref]Sua aventura anterior, em pról da eleição do candidato republicano nas última eleições foi um retumbante fracasso.[/ref].

Num esforço para desestabilizar o eixo Irã-Assad-Hizbalá, o primeiro-ministro israelense passou a ligar pessoalmente para deputados e senadores americanos, pedindo-lhes que votassem a favor de um ataque caso o Congresso fosse realmente chamado a tomar uma decisão. Esta atitude quase infantil – apenas comparável à sua patética reação à mensagem de Rosh haShaná do presidente iraniano[ref]http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.545667[/ref] – claramente ignora o estado de nervos da população. Mais uma vez, o primeiro-ministro tenta catalisar uma reduzida ameaça externa, inflando um balão de gás que atrapalhe a visão do povo.

Muitos têm se posicionado contra a possível intervenção americana na guerra civil síria, alegando tratar-se de assunto interno que não deve sofrer influência externa. O comunicado oficial do regime de Assad, publicado após o adiamento conseguido pela Rússia em troca de um futuro desmantelamento do arsenal químico e biológico da Síria, beira o delírio ao concluir que “evitou-se uma guerra”. Pode-se argumentar também que qualquer intervenção americana pode ser inútil e por fim ajudar o lado errado. Pode-se inclusive alegar que trata-se de um conflito com dois lados errados, nenhum merecedor de qualquer apoio externo.

A realidade é que, entre lobby, ajudas financeiras e militares e até o envio de tropas propriamente ditas, a intervenção externa já começou há muito tempo.

Leia também: A Quem Interessou o Ataque Químico na Síria?, por Marcos Gorinstein.

Imagem de capa: http://blogs.lse.ac.uk/ideas/files/2013/09/bashar-al-assad.jpg

Comentários    ( 8 )

8 Responses to “Intervenções estrangeiras na guerra síria”

  • Raul Gottlieb

    22/09/2013 at 01:36

    Cláudio

    Nas análises sobre o mundo árabe eu sempre sinto falta da ponderação sobre os valores que sustentam aquelas sociedades.

    Os analistas partem do princípio que o mundo árabe cultiva valores iguais aos das democracias ocidentais, tendo como única diferença o idioma, os hábitos alimentares, o vestuário e os rituais religiosos.

    Não sou um expert em nada, muito menos nos traços culturais dos árabes, mas do meu limitado ponto de vista de leitor interessado me parece que a matança indiscriminada de inimigos políticos tem legitimidade naquelas partes do mundo. Ou se não tem, eles disfarçam isto muito bem.

    A isto se soma a aversão árabe ao compromisso. O árabe ou é perdedor desonrado ou é vencedor impiedoso. A arte da acomodação de interesses conflitantes é inexistente ou muito pouco relevante naquele cultura.

    Creio que a tua boa análise ficaria ainda melhor se considerasse estes fatores. A meu ver eles explicam muita coisa.

    Finalmente, parece-me que o interesse de Israel e de todos os países do ocidente é que o mundo árabe seja democrático e economicamente desenvolvido.

    Na impossibilidade disto acontecer (e não faltam recursos econômicos para tal) tudo o que eles querem é que o ditador de plantão os deixe minimamente em paz.

    Isto não me parece ser um crime, mas boa parte dos analistas ocidentais vê esta atitude com muita antipatia e desprezo.

    Para estes analistas a culpa de todos os males do mundo é sempre dos países mais desenvolvidos (que por uma coincidência incrível são os países democráticos e capitalistas), pois eles teriam a varinha mágica para resolver todos os problemas do mundo e se não a usam é – sem dúvida! – por abjetos motivo escusos, quase sempre ligados ao lucro imoral.

    Acho esta análise míope, beirando a insanidade. Mas ela prevalece em muitos lugares e é usada para explicar quase tudo o que acontece no OM. (*)

    Chag Sameach,
    Raul

    —-

    (*) não quero dizer com isto que ela esteja presente no teu texto, muito pelo contrário,

    • Claudio Daylac

      24/09/2013 at 06:34

      Oi, Raul.

      Veja que eu não pretendia fazer “a análise definitiva” sobre a crise síria. Tentei apenas organizar uns pensamentos que andavam “presos na garganta” nas últimas semanas. Essa questão das tais interferências externas, para ser mais específico.

      Pelos seus comentários estarem alinhados com a maioria das minhas observações, imagino que concordemos em linhas gerais. O que não foi citado, foi por escolhas de estilo e prioridades para que o texto não se alongasse muito.

      Na próxima quinta-feira (26/10), às 20hs, debaterei este tema com o pessoal do Hillel e deixo aqui o convite para você se juntar, se tiver interesse e disponibilidade. Seria um prazer.

      Um abraço e chag sameach!

  • João K. Miragaya

    24/09/2013 at 13:15

    Parabéns pelo texto! Gostei muito!

    Minha única discordância não é num ponto relevante na sua argumentação, e eu compreendo que a sua afirmação foi comparativa. Mas qual Estado nacional não é artificial?

    • Claudio Daylac

      24/09/2013 at 22:48

      Pois é. Eu não sei se usei o termo correto, mas a idéia era comparar o Estado sírio com os Estados nacionais europeus do ponto de visto de coesão etnica e religiosa.

  • Raul Gottlieb

    24/09/2013 at 16:01

    Sim, Cláudio, acho que concordamos no essencial. Eu penso que qualquer análise (sobre qualquer coisa) tem que começar pelo exame do contexto, do ambiente, dos valores, das circunstâncias, etc. e acho que as análises devem dar mais peso a estes fatores. Mas é claro que eu não discordo da tua análise.

    Na próxima quinta é Simchá Torá e eu vou à sinagoga de noite. Infelizmente não poderei ir ao Hilel. Gostaria muito mas não vai dar.

    João: qual a tua definição de natural e artificial? Desculpe ser chato, mas acho que estas definições são muito importantes. Sem elas as frases perdem o sentido.

    Moadim le simchá,
    Raul

    • João K. Miragaya

      25/09/2013 at 16:02

      Oi Raul.

      Respondendo a sua pergunta: natural, para mim, é algo que se refere à natureza (no caso do homem ou da sociedade). Artificial é todo o resto (ou seja, a cultura, partindo do princípio de que cultura é tudo o que o homem cria). O nacionalismo é uma invenção cultural, adatpada, transformada e em transição há quase 200 anos. Só o nacionalismo judaico (sionismo) se manifesta de diversas formas, há vários sionismos.

      Você não está sendo chato de forma alguma. Eu imaginei que isto já fosse claro para todos.

      Te recomendo a leitura da introdução da obra “Comunidades Imaginadas” de Bennedict Anderson. De todos os teóricos sobre o nacionalismo que eu tive o prazer de conhecer (e não foram poucos, já que escrevi meu trabalho de conclusão de curso sobre o surgimento do Sionismo) esta foi a teoria que mais me agradou.

      Um abraço e chag sameach!

  • Raul Gottlieb

    25/09/2013 at 10:31

    Cláudio e João,

    A Suíça tem quatro idiomas oficiais diferentes, a Bélgica tem duas regiões divididas pelo idioma e pela religião (Flamengos e Valões), a Itália até 160 anos atrás era uma coleção de pequenos estados independentes, cada um com o seu dialeto-idioma, idem para a Alemanha. Já na Espanha temos os Catalãos e os Bascos com fortes movimentos pela própria independência. E o que dizer da Grã Bretanha com seus quatro países (Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte)? Vocês já experimentaram chamar um escocês de inglês?

    A coesão étnica e religiosa dos estados europeus não existe! Eles são entidades políticas, na maioria costuradas pelo movimento que criou os estados nacionais dos séculos 18 e 19 e que se mantém até hoje porque o acordo político que as criou ainda se sustenta.

    Estes estados (peguemos apenas a Bélgica e o Reino Unido como exemplo) são naturais ou artificiais?

    Concluindo: todos os estados nacionais são construções políticas. Nenhum deles é uma criação da natureza. Todos são artificiais pela definição que eu suspeito seria dada pelo João se ele tivesse se dado ao trabalho de responder a minha pergunta. Pegando exemplos fora da Europa: Índia, Estados Unidos, Canadá e China são coesos? O Acre é naturalmente ou artificialmente do Brasil? Perguntem esta ao Barão do Rio Branco.

    E agora concluindo de verdade: a instabilidade dos países árabes repousa nos valores de sua cultura milenar e não na maldade ou na idiotice dos franceses e ingleses que os geraram após a queda do Império Otomano (uma outra criação política, ou seja, “artificial”) em 1918.

    Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    26/09/2013 at 22:22

    João,

    Concordo com a tua definição. Natural é tudo o que é criado pela natureza. Assim que todos os estados e organizações societárias do mundo, atual e antigo, são artificiais, pois todos foram criados por força de opção e ação política.

    Achei importante levantar este tema, pois no teu comentário ao Cláudio você disse que todos os estados “nacionais” (grifo me) são artificiais, o que está tecnicamente correto, mas que também deixa margem a uma interpretação de que existiriam estados artificiais e estados naturais.

    Contudo, pela definição que você colocou vemos que todos os estados são artificiais, posto que criados pela ação do homem (ação política, militar, outras).

    E eu temo que ao ressaltar – mesmo que de forma indireta – a artificialidade dos estados árabes (com fronteiras traçadas à régua, como foi dito) você abra espaço para um raciocínio que me parece equivocado: de que foram os traçadores destas fronteiras, ou seja, os criadores destes estados nacionais, os culpados por sua instabilidade política e pelos massacres cruentos que sua população enfrenta a cada tempo.

    “Estes estados não são naturais, eles são artificiais e por isto eles são problemáticos”, pode concluir um incauto que não percebe que todos os estados são artificiais e, portanto, a sua singularidade não está em serem artificiais.

    Ou seja, eu percebo uma pequena chance de que você esteja a sugerir (ou que um leitor imagine) que os problemas na Síria tem origem no fato de que o país foi artificialmente criado pelas potências europeias após a queda do Império Otomano (que por sua vez também foi artificialmente criado nos séculos 14-15, sobre os escombros dos estados construídos artificialmente pela guerra de conquistas árabes dos séculos 7-9, que por sua vez … segue-se uma lista de estados artificialmente criados até o tempo pré histórico).

    Pode ser que eu esteja errado e que você não tenha sugerido isto. Mas de uma coisa eu tenho certeza: este pensamento, que me parece tragicamente equivocado, tem ampla acolhida nos dias de hoje. Ontem mesmo ouvi um destes analistas entrevistados costumeiramente pela nossa TV dizer que o atentado no shopping Quênia tem a sua origem remota na invasão da Somália pelas tropas italianas na década de 1930.

    No meu modo de ver o “mérito” pelo massacre que se perpetra na Síria (e em tantas outras partes do mundo islâmico diuturnamente) é islâmico e não europeu. Os europeus não tem a menor influência nesta triste e sangrenta marcha de insanidade.

    A cultura europeia já ultrapassou há muitos séculos a mentalidade islâmica de morte ao infiel, de aversão ao compromisso, de tolerância (e às vezes de admiração) ao chefe totalitário e tantos outros traços que estão na raiz do infortúnio dos países e grupos dominados pela cultura islâmica.

    O mundo cristão europeu se desenvolveu nos últimos cinco séculos muito mais (mas muito mais mesmo) que o mundo islâmico e isto faz com que os muçulmanos se sintam profundamente inferiorizados e desonrados. Eles têm forte orgulho de um passado onde se sentiam, com alguma razão, muito superiores aos europeus e agora estes “semi-bárbaros” (pensam eles) dão um banho (e que banho!) de civilização neles. Isto é inaceitável aos seus olhos.

    E quando a questão foca nos judeus a coisa é ainda pior. Os judeus eram os capachos dos cristãos europeus (e dos árabes também) e agora até os judeus foram capazes de criar um país que dá um banho (e que banho!) de prosperidade e civilidade nos países árabes. A pílula é amarga demais para ser engolida por uma cultura baseada na honra e sem compromissos com a derrota.

    Mas este é um problema deles, que apenas eles conseguirão resolver (melhor dizendo, terão que resolver).

    A crise Síria é mais um cenário deste panorama. Atribuir qualquer responsabilidade, mesmo muito indireta ou suave, aos países do ocidente é absurdo. Os países do ocidente os incomodam por que os obrigam a olhar para a enorme extensão da miséria que eles criaram sozinhos.

    Estamos de acordo?

    Abraço,
    Raul